Soube-se pelo facebook que morreu o Grande Cenoura da Silva um príncipe das ruas do Fundão. É um cão fundamental na história contemporânea do Fundão, merecia estátua e plaquinha toponímica. Como dos cães não reza a história, republicamos a reportagem completa do Cão em jeito de singela homenagem ao Cenoura da Silva, explicando que morreu um senhor cão do Fundão.Cenoura da Silva, cão vadio do Fundão é cão-repórter e leva-nos numa viagem pelo mundo cão. Ladrar à lua e abocanhar o melhor osso – manual de sobrevivência canino
Texto: Cenoura da Silva *
Fotografias: Margarida Dias
“Numa dessas vezes encontrei um cão. Era um cão que falava, como acontece às vezes. Até se podia dizer: era uma vez um cão que falava. Queres dizer-me alguma coisa?, perguntei-lhe. E ele disse: Desde quando os cães falam? Olá, pensei, este é um cão filósofo”
Nuno Júdice, “Uma história de cão”
Sou um cão e já estou no Facebook. Tenho 96 amigos na rede social da internet, o que para um simples cão de rua é obra, e mais sendo um cão do Fundão, é obra feita.
Mas convenhamos, não sou um cão qualquer. Aliás, o leitor neste momento já o saberá – os cães não falam, e portanto dificilmente podem escrever numa linguagem inteligível para os “duas patas” – é assim que nós os “quatro patas”, tratamos os nossos melhores amigos, mesmo quando esse amigos são mais traiçoeiros que um furão. Mas a isso já lá vamos.
Eu sou um cão instruído, e como ando na rua, não respondo à voz do dono, pela simples razão que sou cão sem dono. Foi por isso que recusei dar uma entrevista à revista A23 antes das eleições autárquicas. Sou um cão independente e sabendo que os jornalistas são uma espécie de cães a um osso, – ladram muito e mordem pouco, só respondem à voz do dono e adoram que lhes façam festas – propus ser eu próprio a contar a minha história, ou seja, uma vida de cão num mundo cão.
Vida de cão
Deixem apresentar-me – chamo-me Cenoura da Silva, nasci em 1900 e troca o passo, e como pode ver na minha página no Facebook, em termos de relacionamento amoroso estou numa fase complicada, mas enfim, quem não está?
Sou cão vadio, de rua, o que significa que não tenho ofício, sou um cão desempregado de longa duração. Não guardo quintas, nem vivendas de emigras, não guio cegos, não aviso surdos, não faço companhia de sala a viúvas de coronéis, nem arranho os sofás caros e o juízo de donos presunçosos, não brinco com crianças agarradiças, não levanto lebres para comezainas de caçadores, não dou piruetas de patinagem artística em concursos de ‘agility’ e quando alço a pata não é pose nem cortesia, é mesmo para fazer uma mija num qualquer estatuário pós-moderno da cidade.
Também não farejo drogas para a bófia, apesar de saber distinguir perfeitamente um haxixe bom de um marado, porque sempre fui um cão da noite e dos copos.
Sou um rafeiro de rua, vivo de expedientes, e levo já uns anos a virar frangos, que é forma de expressão, já que é raro ferrar dente num bom tutano, até porque os talhos estão em vias de extinção. Agora a carninha vem toda dos supermercados que ficam longe e com muita rotunda-armadilha pelo caminho.
Sou cão criado a restos beneméritos e a metades de tostas mistas do “Sopas e Migas”, o meu bar de estimação no Fundão até o Joaquim do Cine o trespassar e abalar para a Aldeia de Joanes, deixando-me a mim e a uma certa malta nova do Fundão sem eira nem beira. Mas lá está, eu já estou habituado.
Já tive dono, no tempo em que os ossos vinham com farripas de carne e a Manuela Ferreira Leite era senhora de meia-idade.
Se o fariseu por mim passasse ainda lhe apanhava o pivete, que esta minha narigueta nunca me engana – um cão tem duzentos e vinte milhões de receptores olfactivos, ao passo que o ser humano não possui mais de cinco milhões – o olfacto dos cães é por isso cinco vezes mais apurado do que o dos homens; é o olfacto e a lealdade.
Lembro-me do dia em que me largaram ao deus dará ali para as quintas da Aldeia de Joanes. Ainda era cachorro e fiquei à toa, perdido no mundo. É uma sensação assustadora, habituados a ter a paparoca à hora certa, festinhas no pêlo, brincadeiras com a canalhada, dormitar na cornija da lareira, e de repente zás, estás no olho da rua da amargura, no briol e na larica, és obrigado a virar latas e tens de te virar.
Mas isso foi há tanto tempo que já nem me lembro. Só tenho saudades do quentinho da lareira, com o borralho a crepitar, que dá cá uma lanzeira, uma sensação de segurança. Os invernos no Fundão são tramados para um cão de rua, é um frio de rachar e somos enxotados de todos os sítios que tenham porta e um aquecedor a gás.
Virar latas no Fundão
Um cão de rua tem muito em comum com um vagabundo. Os primeiros tempos são os mais difíceis. É preciso fazer a recruta da rua, aprender as manhas, aperfeiçoar a arte da pedincha, marcar o território. Felizmente tive uma boa escola, com uns cães rufias já calejados. Andávamos em matilha e era uma vida boa, sem preocupações. Havia um líder, o Zarolho, um rafeiro velho e escanzelado, mas que era levado de um corno para a porrada.
Tinha ficado sem um olho numa bulha com um lobo na Gardunha (quando os havia), e comandava as tropas na ronda pelos caixotes do lixo e pelos bons corações que nos davam o restinho do almoço.
Passávamos a nossa fomeca, especialmente nós os mais novos, porque os mais velhos tinham a boca bem grande e modos à mesa é coisa que não há na “Etiqueta e Protocolo” dos cães de rua. Fui crescendo entre as matilhas de cães vadios, abandonados pelos seus donos, ou vindos das quintas, dos pastores e dos caçadores; à procura de uma vida melhor na cidade.
Sempre houve muitos cães vadios no Fundão por causa da proximidade rural, mas hoje em dia já somos poucos…
Para sobreviver na rua é preciso mais do que fintar os carros para não acabarmos com as tripas de fora no alcatrão … ou pior. É preciso também ter esperteza e um pouco de sorte. A minha sorte foi ser “adoptado” pela Escola Secundária do Fundão e ter coleira. Os putos, os funcionários e alguns “profes” da escola elegeram-me como uma espécie de mascote, isso significa que apesar de não ter tecto, tenho centenas de donos.
Petisco o dia todo, uma batata frita aqui, uma metade de sandes de fiambre ali, os restinhos do refeitório acolá, e vou-me orientando. Mas a coleira é que me livra de muitas chatices, e não estou a falar de pulgas nem carraças.
Uma coleira é um salvo-conduto para um cão vadio. A troco de uma fivela na garganta ganhamos um disfarce que faz os oficiais SS do Canil Municipal hesitarem antes de nos deitarem o laço fatal.
No meu manual de sobrevivência de rua há quatro grandes perigos: 1º O canil; 2º A estrada, e quanto maior, pior; 3ºOs restaurantes chineses – pode ser mito urbano, mas quanto mais longe, melhor; 4ºA comida envenenada – há para aí muitos “duas patas” capazes de tudo, e por isso é preciso cuidado ao aceitar uma tachada de estranhos. “Quando a esmola é grande, o pobre desconfia”.
Ah, ainda não lhe tinha dito, gramo provérbios e poesia. A minha divisa, o meu lema de vida é: “Cão lírico ladra à lua, cão filósofo aboca o melhor osso”. Ora, nem mais.
O Raul Solnado mandou escrever no seu epitáfio – “Aqui jaz Raul Solnado, muito contra sua vontade”. Se os meus ossos forem parar a um cemitério de cães gostava que escrevessem lá “Aqui jaz Cenoura da Silva, que nunca ladrou à lua, e nunca recusou abocar o melhor osso.”
A lição de Mr. Bones
Um conselho que estou farto de dar aos jovens e estouvados cachorros de rua é: sejam discretos, evitem dar nas vistas. Ladrar que nem um desalmado, sobretudo à noite é pedir laço do canil ou fêvera com 501 Forte. Correrias atrás de ratazanas com asas (pombos) ou outros cães é um convite à biqueirada ou ao degredo, e brincadeiras, especialmente do género sexual, convêm ser feitas em ruelas mais esconsas e sem duas patas como mirones.
Mas, crime capital é mesmo ferrar a dentuça num duas patas. Fujam dos bêbados violentos, das bainhas das calças engomadas de políticos sanitários e falas mansas e das carícias ferozes das crianças mimadas; metam o rabinho entre as pernas e ala, porque se são apanhados, é espírito santo dos cães na certa!
Ir bater com os ossos no Canil Municipal do Fundão é o mesmo que para um judeu ir para Dachau. É extermínio na certa. Em linguagem funesta de Dr. Mengels camarários, o que lá se faz é “adormecer” os cães inúteis, doentes, velhos, ou nefandos para a sociedade dos duas patas. Vendo como os duas patas tratam os seus velhos, doentes e inúteis, não é para admirar que assim tratem os quatro patas.
Eu cá passo bem se essa soneca derradeira. Agora fizeram um “upgrade” ao Dachau canino, ou seja, abriram mais uma ala dos condenados à espera de adopção ou de injecção. Mas o Canil do Fundão, infelizmente, limita-se a ser igual a tantos outros espalhados pelo país. Agora querem até fazer canis inter-municipais, Auschwitzes megalómanos, centrais de compostagem de cães vadios. Deve ser o que em linguagem tecnocrática da morte se chama realizar economias de escala.
Engraçado que os municípios não se entendam em quase nada, a não ser em racharem a conta das seringas dos campos de extermínio de cães.
Ah, se os cães votassem, tudo seria bem diferente. Lá se acabava o velho mito do animal mais submisso, do melhor amigo do homem. Como propôs Willy, o vagabundo criado por Paul Auster no romance “Timbuktu”, se os quatro patas começassem a falar “em três meses os cães estariam a lutar pela sua independência. Haveria reuniões de delegados, começariam as negociações e, no fim de tudo, eles resolveriam a coisa renunciando ao Nebraska, ao Dakota do Sul e a metade do Kansas. Corriam com a população humana, deixavam os cães irem para esses territórios, e a partir desse momento o país ficaria dividido em dois. Os Estados Unidos dos Cães e a República Independente dos Cães”.
Este é definitivamente o meu romance preferido, a história do inesquecível Mr. Bones, o cão rafeiro, companheiro de Willy. O mundo visto pelos olhos de um cão, já se vê onde os tipos da A23 foram copiar a ideia para aqui o velho Cenoura botar faladura.
Mas enquanto os direitos dos animais em Portugal continuarem a ser tratados como uma coisa de excêntricos, ou de activistas anti-touradas, estamos bem aviados. Há dois tópicos que definitivamente não estão na agenda dos partidos políticos – direitos dos animais e corrupção.
Cães de rua dão má imagem às cidades, é preciso fazer “limpezas étnicas”, cíclicos “progroms” para manter a canzoada afastada da obra feita, das avenidas desertas de ideias, das esplanadas conspirativas e maledicentes, para nos manter longe da gente de bainhas impecáveis e punhos encardidos, que me merecem a mais profunda rosnadela de desprezo.
A minha experiência diz-me que quanto mais “exposto” e mais perto da Praça do Município um cão anda, mais fácil é desaparecer na calada da noite, sem deixar rasto. É por isso que eu bato outros territórios, do lado de baixo da Avenida da Liberdade, a única zona da cidade onde um cão pode andar de língua à banda e saracotear em liberdade …
Tenho muitos anos disto e sei do que falo. Conheço toda a gente do Fundão – os que me fazem festas, os que me dão de comer, os que não me ligam nenhuma (como é costume fazer aos cães velhos), e aqueles, poucos, a quem rosno baixinho, porque um cão com dignidade tem de saber manter as distâncias.
Um cão de rua tem de passar despercebido, não chatear, nem chamar a atenção. Ir vivendo na pedincha silenciosa, conquistar algumas afeições e manter-se longe dos perigos. Só assim chegamos a velhos. Velhos que entendam as palavras de Guerra Junqueiro, no seu poema “Fiel” – (…)“Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce/Havia o que quer que fosse/D`um íntimo desgosto/Era um cão ordinário, um pobre cão vadio/Que não tinha coleira e não pagava imposto/Acostumado ao vento e acostumado ao frio/Percorria de noite os bairros da miséria/À busca de um jantar”. (ler poema completo em www.a23online.com).
Perdidos…
Apesar de tudo, não me posso queixar da sorte. Criei uma situação e uma rotina de sobrevivência. Vou vivendo como Deus quer, mas há irmãos que não têm a mesma sorte. A União Zoófila calcula que haja um milhão de cães abandonados em Portugal, o que coloca o nosso país no topo da lista negra na Europa dos cidadãos.
Cida-cão, é que não. Um cão vadio é em regra uma história de abandono. Antes das férias e no fim das temporadas de caça, os números de cães abandonados crescem, como explica Sandra Cardoso da SOS Animal: “O Verão é a altura mais drástica no que toca ao abandono dos animais. As pessoas vêem os animais como coisas que compram aos filhos no Natal, mas esquecem-se que, meses depois, no Verão, eles vão estar maiores e desfazem-se deles”
Para abandonar um cão e lidar com o sentimento de culpa que isso acarreta, os duas patas inventam as desculpas mais esfarrapadas: “Agora vamos ter um bebé, e não o podemos ter”, “Vou mudar de casa, e as regras do condomínio não permitem ter animais”, “Vou trabalhar para fora”; “Eu adoro-o mas ele dá-me cabo da mobília e dos sofás, que foram caros”, “Aqui ele fica melhor tratado, porque não tenho espaço lá em casa”.
Esta é a lengalenga que todos os voluntários dos (poucos) centros de acolhimento vão escutando quando lhes entregam o canito com um ar meio envergonhado e contristado. São, basicamente, uns merdosos, não muito diferentes dos canalhas dos caçadores labregos que deixam os seus cães nas matas, dos sacripantas que abandonam os cães nas praias, nas estações de serviço das auto-estradas ou numa rua bem longe, para o cão não encontrar o caminho de volta.
Para esta gente, o sarcasmo de Churchill faz todo o sentido: “Gosto de porcos. Os cães olham-nos de baixo, os gatos de cima. Os porcos olham-nos de igual para igual”
Este flagelo à consciência colectiva atenua-se legislando, fiscalizando e punindo. A SOS Animal defende que o chip electrónico é uma maneira de responsabilizar e vincular os donos de cães, mas é preciso que o crime de abandono de animais seja punido com pesadas coimas, com o cuidado de ver se isso não promove mais canicídeos. Este é o país onde se atiram cães da Ponte 25 de Abril, onde a biqueirada no lombo e o veneno no prato são práticas comuns.
Um país que maltrata os seus animais de estimação é um país de merda. Uma pessoa que maltrata um cão é uma pessoa de merda. Mas, felizmente, para cada dez merdosos há uma boa pessoa. Para cada dez cães perdidos, há um achado. Venha daí conhecer alguns.
…E achados
Apresento-lhe o Salsicha, o cão da Ti Piedade, e as duas cadelas do Sr. Falcão. São cães de campo, andam aqui à solta numas quintarolas do sopé da Serra da Gardunha.
O Salsicha veio cachorro do canil e é feliz e despreocupado; as duas cadelas do Sr.Falcão foram abandonadas, é por isso que ninguém lhes sabe o nome.
São enormes, mas já velhotas e um pouco ensimesmadas. No seu olhar ausente há uma mágoa, um desvanecimento de velho. Não há nada mais triste e miserável do que ver um velho a chorar. E estes cães velhos têm lágrimas secas no seu olhar…
Viviam com a Ti Alexandrina e o marido, o Ganhão. Mas quando eles morreram, os cães ficaram sem donos e sem ganha-pão. Não foram abandonados no sentido literal do termo, limitaram-se a ficar sós no mundo.
Cães sem dono. Agora, andam por aí a vaguear migalha durante o dia, mas há noite voltam à velha casa em ruínas, como que a aguardar o regresso do Ganhão da lida da terra, ou do caldo da Ti Alexandrina.
Numa quinta no interior, os velhos vivem em solidão e os cães são companheiros e atenuantes para essa solidão. A Ti Piedade tem 83 anos e um coração maior que os seus lameiros, mas vive sozinha com o marido já empedernido e uma irmã doente, quase acamada, que respira através de um tubo de oxigénio. Octogenários por sua conta e risco.
Com o tempo, a Ti Piedade aceitou as cadelas que passam o tempo entre a sua quinta e a do vizinho, Sr. Manuel, que goza a sua reforma a tratar da latada e a buscar ração para os cães abandonados.
Para as cadelas do Sr. Falcão, esta solidariedade de gente simples, mas de bom coração, é mais do que um meio de sobrevivência, é também uma cumplicidade só possível entre os solitários. “Um cão sabe muito bem quando alguém precisa da sua companhia”, escrevia José Saramago, a propósito do “Achado”, o cão do oleiro Cipriano Algor em “A Caverna”.
A carrinha do lar da terceira idade de Castelo Novo vem todos os dias trazer o almoço, “e sobra sempre tanta comida”, confessa a Ti Piedade, por isso, mais pela tardinha, lá troteiam caminho acima as duas velhas cadelas, “já sabem que é a hora da sopa, gostam da canja do lar”, explica a Ti Piedade, “Gosto de as ter por aqui, a comida chega para todos, e elas dão sinal”.
Dar sinal, em linguagem de cão de guarda quer dizer “ladrar a estranhos”, mas isso é apenas uma justificação da Ti Piedade para partilhar a canja e os pastéis de bacalhau do lar com aquelas velhas cadelas, que ela sabe serem suas companheiras de infortúnio e velhice.
Mas, mesmo na velhice amarga há momentos de felicidade, tão curtos como intensos. É ver o ar feliz com que a Ti Piedade dá o seu passeio de fim-de-tarde para desentorpecer as artérias, agarrada à bengalinha com uma fila de cães e gatos atrás de si, como uma expedição de velhos comparsas ainda à descoberta de um mundo sempre novo na sombra da Gardunha.
Assistir a esta excursão quotidiana numa quinta da Beira Baixa aperta-nos o coração, mesmo um coração com carapaça como o deste vosso escriba, Cenoura da Silva.
Deixemos a Ti Piedade, as cadelas do Sr. Falcão, o Salsicha e a caterva de gatos no seu passeio rumo ao pôr-do-sol das nossas vidas. Vamos visitar um lar para a terceira idade, mas este é especial, é para cães…
Lar da 3ª idade para cães
Nós os cães, somos descendentes dos lobos cinzentos, mas fomos sendo domesticados e programados ao longo dos últimos cem mil anos para ser o melhor amigo do homem. Hoje há mais de 800 raças caninas, apuradas em função das suas qualidades, comportamento e fisionomia, e claro os rafeiros como eu.
Se formos de raça aristocrática temos melhores oportunidades na vida. Há pessoas que deixam a sua herança de milhões a um cão, há hotéis e iguarias para cães, centros de estética canina, SPA`s para cães, roupa e brinquedos para cães, há até uma Petairlines, uma companhia aérea especializada no transporte de cães. Há, enfim, cão rico e cão pobre.
É como em tudo, um sistema de castas. Há criadores de raças como o cão de água português, que se diz ser o cão da Casa Branca, que tratam os cães como atletas de luxo.
Há até concursos de canicultura, onde estes pobres baronetes de quatro patas são exibidos como símbolo da vaidade e snobismo dos seus “criadores”. Foge cão que te fazem barão! Sinceramente não duvido que os competidores em concursos de canicultura estimem os seus cães, duvido é que esse amor seja desinteressado e generoso, como acontece com alguém que adopta um cão velho no Lar da 3ª Idade de cães no Abrigo de São Lázaro-Parque de Bem-Estar Animal em Castelo Branco.
Este é o primeiro Santuário para cães abandonados em Portugal, fruto de uma pareceria entre a APAAE (Associação de Protecção e Apoio ao Animal Errante) e a Câmara Municipal de Castelo Branco. Funciona já há dez anos perto da cidade e olari, é um luxo, o sonho de qualquer quatro patas sem lar. Os cães andam em liberdade em grandes áreas vedadas e o complexo dispõe de vários equipamentos como: “Gabinete médico, zona de banhos e tosquias, zonas de quarentena, creche e lar de 3ª idade (para os mais idosos e fragilizados), enfermarias, duas cozinhas, um pequeno gatil, um hotel canino e uma pet shop.” Trata-se de um projecto inédito que contrasta com os campos de concentração e abate canino que são os canis municipais. Além de acolher animais abandonados, este complexo têm ainda protocolos com o Instituto de Reinserção Social, dando trabalho e novas oportunidades aos duas patas em dificuldades.
Esta associação produziu ainda o único estudo sobre animais abandonados no concelho de Castelo Branco, com dados recolhidos entre 1999 e 2005, que calculava uma média de 200 animais abandonados por ano só naquele concelho. Maria Rosário Almeida, responsável por aquela instituição explica que muitos cães são abandonados em áreas rurais ou próximos de quintas, “numa tentativa de aí serem adoptados, mas com a crescente desertificação do espaço rural há cada vez menos hipóteses desses cães encontrarem um novo lar.”
Resta-nos pois encontrar uma Ti Piedade com canja do lar, um abrigo como este de S. Lázaro, ou fazer como eu, Cenoura da Silva, cão vadio do Fundão – abocanhar o melhor osso, ou quando não há, ladrar baixinho à lua. Uivemos irmãos!
*Com Rui Pelejão Marques










