<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>A23 Online &#187; Reportagem</title>
	<atom:link href="http://www.a23online.com/category/reportagem/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.a23online.com</link>
	<description>Reportagens, Opinião e Notícias de Portugal e do Mundo</description>
	<lastBuildDate>Wed, 01 Feb 2012 14:58:05 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.3.1</generator>
		<item>
		<title>Já ninguém escreve ao ti Manel</title>
		<link>http://www.a23online.com/2011/08/12/carteiros-do-fim-do-mundo-ja-ninguem-escreve-ao-ti-manel/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2011/08/12/carteiros-do-fim-do-mundo-ja-ninguem-escreve-ao-ti-manel/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 12 Aug 2011 12:04:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[a23]]></category>
		<category><![CDATA[cartas]]></category>
		<category><![CDATA[carteiro]]></category>
		<category><![CDATA[Correios de Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[CTT]]></category>
		<category><![CDATA[Margarida Dias]]></category>
		<category><![CDATA[passos coelho]]></category>
		<category><![CDATA[Passos Coelho quer privatizar os CTT]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Pelejão Marques]]></category>
		<category><![CDATA[Serra do Açor]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.planetadacultura.com/a23v2/?p=244</guid>
		<description><![CDATA[O Executivo liderado por Passos Coelho quer privatizar os CTT. A A23 fez-se à estrada numa viagem com carta no bolso até ao coração da Serra do Açor, onde o carteiro ainda é o mensageiro de uma esperança teimosa que combate a solidão e o isolamento]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Texto de <strong>Rui Pelejão Marques<span style="font-weight: normal;"> </span><span style="font-weight: normal;"><span style="font-weight: normal;">/ </span></span><em><span style="font-weight: normal;">Fotografia de </span><strong>Margarida Dias</strong></em></strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Na era dos SMS, do e-mail, dos chats, do telemóvel e dos satélites, o que sobra para a velha carta de escrita cuidada em papel perfumado? O romantismo lacrado num envelope perfumado é um romantismo extinto. Viagem com carta no bolso até ao coração da Serra do Açor, onde o carteiro ainda é o mensageiro de uma esperança teimosa que combate a solidão e o isolamento.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-245 alignnone" title="velha_28" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/velha_28.jpg" alt="© Rui Pelejão/A.23" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-244"></span></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-246 alignnone" title="caixaoroundo_10" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/caixaoroundo_10.jpg" alt="© Rui Pelejão/A.23" width="435" height="616" /></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>“Ninguém é mais solitário do que aquele que nunca recebeu uma carta.” <em><span style="font-weight: normal;">Elias Canetti</span></em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma caligrafia bonita, esculpida, morosa.<br />
Como Cargaleiro a cinzelar mármore, Manuel Beja debruça-se com cuidados de artesão sobre a folha de papel branco e desenha as capitulares com vagar e minúcia de estilete-BIC. Uma caligrafia ornamentada, quase barroca, que enche de orgulho o antigo ferroviário, reclinado na velha cadeira de mogno entronizada no terreiro de luz do Abril-em-flor beirão. “Toda a gente me gaba a letra”, aventa com um sorriso empinado nos óculos garrafais que tentam iludir as cataratas do octogenário escrevinhador. “Nos Escalos, antigamente, a minha mãe era das poucas que sabia ler e escrever e era assim que ganhava mais uns trocados para alimentar sete filhos. Lia e escrevia as cartas para o povo. Acho que lhe herdei o jeito”.<br />
Imagino a letrada camponesa no Largo dos Escalos como os escribas que montavam banca e tinteiro no Largo do Pelourinho de Lisboa no final do século XVI para escreverem cartas galantes a soldo; ou Florentino Ariza, personagem de “Amor em Tempos de Cólera” de Garcia Marquez, dedilhando a sua angústia em cartas de amor mercenárias forjadas para outros amantes se amanharem nos montes de Vénus; ou os ardis do amor por escrito que uma freira do séc. XIX ministrava, ensinando a simular o pingo de uma lágrima a pontuar uma carta de saudade.<br />
As cartas de amor são como retratos amarelecidos com a usura do tempo. Já não se escrevem cartas de amor como antigamente, aliás já ninguém escreve “Meu amorzinho, meu Bébé querido” como Fernando Pessoa escrevia a Ofélia.<br />
Na era do “fast-love” dos piropos via SMS, dos “chat´s” e da internet, o romantismo lacrado num envelope perfumado é um romantismo extinto: “Quem me dera no tempo em que escrevia/ Sem dar por isso/ Cartas de amor/ Ridículas / A verdade é que hoje/ As minhas memórias/ D`essas cartas de amor /É que são ridículas”.<br />
Ti Manel contorna o sobrescrito com a língua, para acicatar a goma que sela as palavras esculpidas: “É para o meu irmão que está em França. Hoje em dia, já ninguém escreve cartas por causa do telefone. É tudo mais fácil. É pena, já nem o carteiro vem à nossa porta e uma carta escrita tem outra graça.”<br />
Desde que Ti Sebastião, o antigo carteiro do “giro” de Castelo Novo se reformou, as quintas semeadas no sopé da Gardunha já não recebem com alegria o estardalhaço da motorizada zundape-alada deste Mercúrio rural, fintado a canzoada para entregar o correio, dois dedos de conversa e boa disposição: “Agora as caixas de correio estão concentradas em caminhos de acesso às quintas e já não se entrega a correspondência ao domicílio como antigamente. Muitas vezes os carteiros nem conhecem as pessoas. No meu tempo não era assim. Íamos a todas as quintas, mesmo as mais remotas. Conhecia toda a gente e ao longo dos anos fui ficando amigo de muitos deles. Vi gente nascer, crescer, casar, partir e fui vendo esse mundo rural morrer devagarinho”, conta Ti Sebastião enquanto prepara a pauta para o ensaio da Banda de São Vicente da Beira, da qual é maestro.<br />
Empunha a batuta com as mãos que durante anos cavaram o fundo da sacola de carteiro, garimpando cartas que traziam as novas &#8211; boas e amargas -, a esperança e a angústia.<br />
O mestre de música sabe que o homem que inaugurou a moderna indústria dos correios com a invenção do selo postal em 1837 era também maestro?<br />
Sir Rowland Hill, administrador do Correio inglês, venceu a casmurrice da Câmara dos Lordes e impôs uma reforma postal que consagrava um sistema de padrões tarifários que permitia aos Correios Ingleses cobrar antecipadamente pelos serviços prestados, bastando colar um comprovativo do pagamento sobre a encomenda.<br />
Nascia assim a lambidela no selo postal, gesto universalmente repetido da Gronelândia ao Burkina-Fasso, que permitiu aos serviços de correios de todo o mundo crescerem e democratizar esse sistema de comunicação tão antigo como a própria escrita e cujos registos mais ancestrais remontam a 2.400 AC no Egipto, quando os sigmanacis – velozes mensageiros &#8211; percorriam grandes distâncias a pé, de cavalo ou a camelo, carregando os papiros e correspondência com que os faraós mandatados pelo deus Sol, subjugavam o seus domínios à beira-Nilo.<br />
Os comensais que uma vez por mês se agremiam na casa do Ti Sebastião na Soalheira para uma patuscada são a reencarnação desses sigmanacis e dos peregrinos, escudeiros, almocreves, correios-mores, correios a cavalo da mala-posta e de todos os homens que ao longo da história da humanidade carregaram o poder da palavra escrita para reis, senhores feudais, corpo eclesiástico e derradeiramente … para o povo: “É uma almoçarada de carteiros, alguns já reformados, outros no activo. Sempre serve para nos mantermos em contacto, trocarmos histórias ou até ensinarmos alguns segredos da profissão aos mais novos.”<br />
A banda afina a marcha, o sisudo oboé abafa a fanfarronice do cornetim, o mesmo que serve de símbolo ao cavaleiro do logótipo dos CTT, que sopra com estribilho as novas de um mundo em permanente mudança, um mundo em que já ninguém escreve ao Ti Manel: “Até a reforma é depositada no banco. Só recebo publicidade do Jumbo e recibos da água e da luz. Hoje em dia, a única coisa que leio é o Jornal do Fundão para ver os resultados dos Escalos nos distritais e saber quem morreu por lá”.<br />
Todas as quintas-feiras, Manuel Beja desenferruja o reumático que lhe atravanca o andar, no quilómetro e meio que separa a sua quinta da caixa postal junto à ordenha colectiva.<br />
Todas as quintas-feiras, Ti Manel caminha até ao mundo exterior ao seu lameiro, que hoje lhe entra pela televisão e pelo telefone, com o coração acelerado pela secreta e irreprimível esperança de ter uma carta do seu irmão Carlos, emigrado em França.<br />
A mesma esperança renovada e amarga que levava o velho coronel de Gabriel Garcia Marquez a desesperar todas as sextas-feiras a carta da pensão do seu filho morto na revolução, a carta de um tempo que já não volta, a carta que nunca chega: “Estou à espera de uma carta urgente – disse ele – é de avião.<br />
O administrador procurou nos compartimentos classificados. Quando acabou de ler, repôs as cartas na letra correspondente, mas não disse nada. Sacudiu as palmas das mãos e dirigiu ao coronel um olhar significativo.<br />
- Devia chegar hoje de certeza – disse o coronel.<br />
O administrador encolheu os ombros.<br />
- A única coisa que chega de certeza é a morte, coronel”.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-247 alignnone" title="carteiros-2" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/carteiros-2.jpg" alt="© Margarida Dias/A.23" width="435" height="294" /></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Giro do carteiro</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma azáfama própria de quem sabe que o relógio é ladrão. No Centro de Distribuição Postal do Fundão, Joaquim Leal, chefe da distribuição não me passa grande cartão. São 8.30 horas da manhã e para aqueles homens que separam com afã o correio, o dia já corre longo. “Vai com o carteiro Pedro, que dá a volta pela Serra do Açor”, informa-me com o mesmo tom peremptório de um treinador que está habituado a escalar os seus futebolistas no terreno: “Temos vinte e quatro carteiros neste centro de distribuição, com rotas que abarcam todo o concelho do Fundão e algumas freguesias da Covilhã. É um trabalho duro e desgastante, vai ver”.<br />
Todas as manhãs, a rotina da expedição e separação do correio repete-se nos 378 centros de distribuição postal espalhados por Portugal Continental e ilhas. Ao todo são 1917 postos de correio e quase 6500 giros de distribuição postal que em 2005 levaram ao destinatário mil e trezentos milhões de objectos postais. “Apesar das cartas pessoais e postais serem cada vez menos e da emissão de facturas de algumas companhias ser agora trimestral, o facto é que o volume de correio tem vindo a crescer por causa do direct mail e da publicidade”, explica Joaquim Leal enquanto dá as últimas ordens aos carteiros que espalha pelas rotas como o jogador de damas experiente dispões as suas peças no tabuleiro. As cartas já estão separadas por ruas e números das casas, que é aliás a razão histórica da toponímia e da numeração das portas – a distribuição do correio ao domicílio &#8211; que outrora se chamava posta pequena. A criação do Correio Público em Portugal foi obra do rei D. Manuel I, que em 1520 encarregou o nobre Luís Homem de organizar essa espinhosa missão, inaugurando a primeira dinastia do Correio-Mor, cargo que ao longo dos séculos foi do mais alto gabarito entre os privilégios distribuídos pela coroa.<br />
A reluzente “diligência” vermelha dos CTT estaciona no átrio e o “cocheiro” Pedro Santos estende-me um afável passou bem: “Pronto para uma volta pelo fim do mundo?” É essa a cartografia da reportagem – uma viagem ao fim do mundo rural pelos olhos de um carteiro; uma peregrinação interior à velocidade da expedição do correio por um mundo desligado da modernidade das comunicações móveis, dos SMS, da internet de banda larga, do e-mail e do satélite espião. “O giro começa em Lavacolhos, vamos ao Ourondo, subimos a serra do Açor até Casegas. Vai depois conhecer a minha terra – Sobral de São Miguel. A terra mais bonita do mundo”, informa com orgulho estampado no sorriso.<br />
Pedro Santos tem 37 anos. É carteiro há doze: “O meu pai já era carteiro, mas teve um acidente grave que o inutilizou e eu acabei por ficar no seu lugar. Tinha acabado de fazer a tropa e fiquei logo a fazer o giro das Minas da Panasqueira. De há cinco anos a esta parte faço esta rota, que me dá vantagem de poder ir todos os dias a casa e à minha terra.” A conversa quebra-gelo vai decorrendo à medida que a sua diligência-Ford negoceia as curvas serranas do Castelejo.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-248 alignnone" title="carteiros1" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/carteiros1.jpg" alt="© Margarida Dias/A.23" width="435" height="294" /></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Liturgia diária ou geografia do esquecimento</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No vale fértil da Cova da Beira, as cerejeiras em flor vão estendendo aquele manto branco que nos envolve na pertença da terra e na promessa carnuda das cerejas temporãs. Parece um postal ilustrado, como aquele que vou bisbilhotando no maço de cartas da EDP, Caixa Geral de Depósitos e Segurança Social. Mas este postal é da Toscana e escrito em francês: “Mommi: Je suis en Italie e il fait chaud. Je fais de visites qui sont longue.” Faço visitas que são longas …<br />
Para Pedro Santos, longas são as horas que “pedala” em contra-relógio como o mais famoso carteiro da história do ciclismo, o americano Lance Armstrong. Lavacolhos, a primeira contagem de montanha desta etapa ergue-se como o nosso Alp d´Huez. Gracejo sobre a picaresca origem do nome desta terra abespinhada na encosta da serra a 13 quilómetros do Fundão, mas Pedro Santos prefere falar de coisas mais sérias: “Já cá vive pouca gente, só aos fins-de-semana é que tem alguma vida. Não há trabalho, os mais novos partiram todos e os mais velhos vão morrendo.” É a funesta aragem que varre todas estas terras da orla Noroeste do concelho do Fundão, marcadas pela desertificação e por esse véu negro que se abate sobre as antigas aldeias mineiras; as aldeias das viúvas negras …<br />
A primeira correspondência é distribuída nos “arredores” da terra. É a distribuição “montada”, já que mal saímos da carrinha, basta encostá-la à caixa do correio e depositar os livrinhos de “Liturgia Diária”, que pelos vistos têm saída por estas bandas: “Muita gente compra imagens da Nossa Senhora por cinco euros, são cinco euros que lhes fazem falta, mas como é pela Nossa Senhora …”, longe chegam os tentáculos cobiçosos do negócio da fé …<br />
Entramos na malha “urbana” e aí a perícia de condução é digna de Fittipaldi -  ruelas estreitas e becos feitos em marcha-atrás com velocidade e precisão geométrica deixam o “pendura” com a respiração suspensa. É que o relógio continua a ditar a sua tirania.<br />
Estacionamos o “bólide” resfolgante e com os maços de correspondência na mão, partimos para a distribuição “apeada”, que se faz porta-a-porta por ruelas intransitáveis. O ritmo não abranda e rapidamente se galgam as ruas vazias, se batem a portas mudas com cartas registadas: “O marido desta senhora morreu há pouco tempo, e ela foi viver com a filha para o Fundão”. Portas fechadas pela morte.<br />
O sol morno ilumina as ruas íngremes, as casas e janelas aferrolhadas parecem amortalhadas para o velório. O silêncio é apenas interrompido pelo coro desafinado dos cães que parecem anunciar a vinda do carteiro.<br />
Por falar de cães, é verdade que são o pior amigo do carteiro? “Agora já me conhecem todos. Hoje só ladram desta maneira por causa de si, que é um estranho.” Informação pouco reconfortante, sobretudo quando confrontada com um cão de Hades, que espreita ameaçadoramente de um quintal, reluzindo o incisivo pouco cordial. “Uma vez apanhei um susto com um cão preto enorme nas Minas da Panasqueira. Já tinha pedido ao dono para o prender, mas naquele dia ele apareceu-me de surpresa num sítio onde não tinha escapatória. Ele desatou a correr para mim a ladrar que nem um desalmado. Então, em vez de fugir, lembrei-me de correr para ele aos gritos a abanar o maço de cartas. Ele corria para mim e eu para ele; ele ladrava e eu berrava. O medo devia dar-me um ar assustador, porque ele acabou por se arrepender e pirou-se a ganir com o rabinho entre as pernas. Se eu tivesse tentado fugir, ele filava-me na certa”, gargalhou Pedro.<br />
Uma das prerrogativas dos carteiros é recusarem-se a entregar correspondência em quintas ou casas em que os animais não estejam acorrentados, mas uma vez por outra, algum carteiro leva para casa umas bainhas novas nas calças, alinhavadas à dentuça: “Os piores são os cães mais pequenos, que quando não estamos à espera, zás! Quando distribuía correio de motorizada era pior, tínhamos de andar a fintá-los”.<br />
Mas a “bête-noir” da velha guarda dos carteiros eram mesmo os gansos, que os romanos utilizavam como animais de guarda e que pelos vistos nunca perderam o instinto pretoriano; costumavam atacar em grupo e à valente bicada para pânico do carteiro-intruso.<br />
Larguemos estas deambulações zoológicas e vamos ao cafezinho: “Este senhor espera sempre por mim de manhã, ali na esquina para irmos beber um café”. Numa aldeia às moscas, um carteiro é sempre uma boa companhia, e ainda por cima uma companhia rotineira, diária, pontual. O café central é rico, balcão moderno, grande ecrã para ver o futebol. Vê-se que é produto do labor da emigração. O palpite está certo: na TVI passam uma reportagem sobre o massacre da Virgínia. Os poucos clientes unem-se num silêncio de “requiem” e o assunto desagua na facilidade com que se compram armas na Terra do Tio Sam: “Até no supermercado”, diz o velho reformado cafeinómano. “Na Suiça também é assim. É fácil comprar armas de guerra, desde que se tenha uma licença. Somos obrigados a apresentar a arma todos os anos às autoridades, para evitar o tráfico”, informa o emigrante que trocou as Glock de Genebra pelas Super-Bock portuguesas que tilintam sobre o balcão moderno e lustroso na sua terra.<br />
Metralhada a conversa de circunstância, partimos para a maternidade dos bombos, que estamos na terra que graças a eles ganhou fama. A porta da garagem do Sr. Natalino abre-se como a gruta dos alquimistas. Aqui trata-se da alquimia do som. As peles de cabra curtidas secam e na estante, algumas caixas e bombos aguardam a ordem de soltura para dar corpo a um das tradições locais mais emblemáticas – os bombos de Lavacolhos. É nesta oficina do Sr. Natalino que se perpetua este saber ancestral. “Os materiais usados são a pele de cabra, a madeira de castanho e de silva, o zinco e a corda. É com isto que fazemos os bombos e as caixas, de mais pequena dimensão”, explica o artesão. “O segredo está na escolha certa dos materiais e sobretudo na afinação”.<br />
E como prova de vida, lá extrai do imponente nado-bombo aquele som gutural, bruto e impregnado de uma força criadora, que ganha sentido colectivo no vigoroso matraquear de joelho ao alto, que faz do Grupo de Bombos de Lavacolhos um dos mais singulares “ex-libris” da tradição etno-musical portuguesa, devidamente assinalada por esse “garimpeiro” de sons da terra, o único corso que conquistou Portugal – Michel Giacometti.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-249 alignnone" title="ajudapovo_32-11" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/ajudapovo_32-11.jpg" alt="©Rui Pelejão/A.23" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Trocámos os bombos na garagem do Sr. Natalino pela guitarra de Carlos Paredes no rádio, os “verdes anos” que nos embalam na estrada nacional 238, a tal que se aventura nesta região calejada pelo Zêzere, pela serra e pelas minas.<br />
Pelas costas fica Lavacolhos e a sua misteriosa toponímia, que se presta a pilhérias. Preferimos a seriedade do Prof. José Pedro Machado e do Padre Abel Guerra: “É necessário recuar aos tempos da colonização romana e estudar a etimologia latina: levo (levantar), levis (suave e leve), collum (pescoço), collis (colina), que passado para o português: Lava collus – Lavacolos – Lavacollos – Lavacolhos; isto é, terra que levanta a cabeça”.<br />
Passando o Ourondo e a sua ribeira, levantámos a cabeça para a paisagem que se soergue no horizonte. Estamos já no Concelho da Covilhã e os cimos desnudados da Serra do Açor oferecem uma visão de território remoto, bravio, onde apenas prospera o xisto, como pedra de toque das construções arrancadas teimosamente à terra. São terras de cabeça erguida, apesar do isolamento, da pobreza e do abandono a que foram votadas: “O que mais me indigna é a forma como esta terra e estas gentes foram exploradas ao longo de décadas. Desde Salazar que Portugal extraiu aqui a riqueza do volfrâmio às custas do esforço e da miséria destas povoações e o que é que elas receberam em troca? Uma mão cheia de nada. Nem estradas, nem acessos condignos, nem assistência, nem equipamentos sociais, nada, apenas o esquecimento.”<br />
Pedro Santos conhece bem as soleiras destas portas esquecidas, onde as viúvas dos mineiros recebem as pensões apropriadamente ditas de sobrevivência: “São pensões baixas, muitas vezes para pessoas que não têm outra fonte de rendimentos. Sou eu que as levo e sei bem as dificuldades por que muitas passam.” A chegada do carteiro com a magra pensão, representa um momento de alívio e felicidade, bem ilustrada no rosto da velhota que desce a custo as escada de pedra da sua casa, nos arredores de Casegas. “Nestes locais mais isolados, a passagem do carteiro é uma réstea de vida e de esperança. Não é raro dizerem-me – Olhe, já há dias que não falava para ninguém -, por isso mesmo, arranjo sempre tempo para conversar e dar atenção a estas pessoas.”</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-250 alignnone" title="carteiros2" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/carteiros2.jpg" alt="© Margarida Dias/A.23" width="435" height="294" /></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O canário, o Açor e o poeta</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Começamos a ronda por Casegas, terra bonita e de prédios altos e robustos, onde ainda pontificam pequenas ilhas de xisto, impassíveis a mamarrachos do mau gosto franciú.<br />
O maço de cartas corresponde aos padrões habituais – publicidade, bancos, luz, água e naturalmente, pensões. “Cavalitos ou burritos?” indaga o senhor da mercearia. Perante a minha confessa ignorância, Pedro sorri e explica, “Cheque ou contas”.<br />
Prosseguimos; carta registada para casal de emigrantes já de meia-idade. “Só papelada, estamos a pensar vir para cá de vez. Mas os filhos ficam por lá, já têm a vida feita”, explica a senhora com acentuada influência da língua de Vítor Hugo sobre a de Camões. “Há gente a voltar à terra depois de uma vida de trabalho em Lisboa ou no estrangeiro, isso vai dando algum ânimo a estas terras sem esperança para a gente nova. Num raio de 30 quilómetros não há trabalho e os acessos são maus de mais para alguém pensar em trabalhar na Covilhã ou no Fundão e viver aqui.” Diagnóstico demográfico que se acentua com a passagem rápida pelo lar da terceira idade, onde uma fileira de velhos se aposenta numa vigília sonolenta ao sol, interrompida pelo sopro de vitalidade e alegria da visita do carteiro. Ninguém espera uma carta, mas o carteiro traz-lhes a memória fugaz de um tempo em que as pernas e a vontade eram vigorosas. Um sorriso assoma nos lábios da velha que há momentos vegetava numa meditação vaga de sepulcro. Num lar de idosos, uma visita, nem que seja a do carteiro, é um sinal de vida.<br />
Seguimos em ritmo de contra-relógio a nossa colectânea de portas, com rostos que se entreabrem de curiosidade. No quintal do Sr. Joaquim, antigo pastor e tocador de pífaro estende-se uma longa colecção de chocalhos, que ele toca com a bengala como se fosse o carrilhão de Mafra. Num tasco, fardado da camisola interior de alças, o servidor de copos-três a perder de vista desmonta cuidadosamente uma decrépita máquina de barbear com ar de já ter presenciado pelo menos uma Guerra Mundial: “Vai fazer a barba hoje?” zomba Pedro, “que remédio!” replica o tasqueiro, que mantém em espera de boca seca o cliente de mata-ratos na mandíbula impaciente. A mesma impaciência treinada com que o canário do homem sentado na cozinha-gaiola pede “vinho!”. Ora esta, um canário-bebedolas?!<br />
“Este ainda o estou a ensinar, mas antes tive um que aprendia tudo num tirinho e sempre que me via a beber, pedia vinho”. Melhor sorte a deste canários amestrado para a vinicultura do que os seus semelhantes que antigamente eram industriados para morrer nas minas, vasculhando as entranhas gasosas da terra e dando o alarme aos mineiros, quando os níveis de gases venenosos lhe calavam o minúsculo bico-cantor.<br />
Seguimos a jornada pela rua abaixo, cumprimentando os habitantes das soleiras das portas. Todos reconhecem com simpatia e jovialidade o carteiro, não o poupando a gracejos: “Então andas a ensinar o novo carteiro, vais-te reformar Pedrinho?” Já me querem fazer carteiro-aprendiz. “Não. É uma reportagem para mostrar como é o dia de um carteiro”, explica.<br />
O dia do carteiro é um coleccionar de histórias, como se fosse uma daquelas máquinas Polaroids em que gravamos a memória efémera de um instante: “Cada dia tenho uma história nova para contar. Hoje por exemplo, a história é o dia em que andei a fazer o giro com um jornalista. O lado humano deste trabalho é o mais gratificante. Vamos criando laços de amizade com a convivência com estas pessoas, e além disso vamos fazendo isso, correndo estas serras e estas aldeias. Era incapaz de estar fechado num escritório, este trabalho faz-me sentir livre.”<br />
Na sacola das histórias de carteiro, Pedro recorda quando fez de conselheiro matrimonial para um casal de septuagenários: “Andavam sempre às turras, e um dia, o velhote, farto da mulher lhe moer o juízo, meteu lá em casa uma prostituta brasileira para fazer a ´lida` da casa. A velhota ficou para morrer, e um dia lá estive a acalmá-la e a dar-lhe conselhos para manter o casamento. Ela ficou tão agradecida que me queria dar dois contos de réis, insistia, dizendo que se fosse a um advogado, também teria de pagar. O que é certo é que os velhotes lá fizeram as pazes.”<br />
Entretidos na palheta, alheamo-nos da paisagem que rodeia a estrada que liga Casegas à sua antiga freguesia, agora emancipada, de Sobral de São Miguel. Estamos no coração da Serra do Açor, o caminho do fim do mundo. O rosto de Pedro Santos ilumina-se com aquela luz muito especial que vem do coração. O coração de um beirão de regresso à sua terra. A estrada serpenteia pelas encostas vestidas de cores da Primavera que irrompem do ventre de uma terra rica em estanho, volfrâmio e pirite. “Passo por aqui todos os dias e é um espectáculo, a serra nunca está na mesma, muda de côr todos os dias. Está a ver a base amarela, é a cor das giestas, carqueijas e maias. Estas vão subindo a encosta e empurrando o vermelho e os tons rosa que lhe emprestam as urzes.” A poesia criadora da natureza e o seu efeito encantatório sobre o carteiro de Sobral de São Miguel lembram-me um outro poeta e um outro carteiro. Pablo Neruda e o seu carteiro encantado pelas metáforas, da mesma forma que Pedro Santos se deslumbra com a pintura de cores da “sua” serra, levando no bojo da sua sacola as cartas, de quem Neruda dizia: “quanta verdade tristonha e mentira risonha uma carta nos traz”.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-251 alignnone" title="escolasobral_23" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/escolasobral_23.jpg" alt="©Rui Pelejão/A.23" width="435" height="341" /></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Carta das Minas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se por osmose, se por contágio do carteiro nativo, Sobral de São Miguel insinua-se ao olhar do viajante como a terra mais bonita do mundo. Incrustada no alto de um vale orientado para o majestoso Gondufo, o terreno montanhoso pintado a carqueija e urze, destaca aquele casario que se estende nas margens do ribeiro que alimenta o vizinho Zêzere. Ao longe parece um presépio de branco e de xisto. Paramos em frente a uma casa, onde no terreiro um casal desfruta da sombra de um chapéu-de-sol. “São os meus pais”. Enquanto a mãe bate uns ovos que vão encorpar as típicas talassas da terra, João Santos resume uma vida de carteiro nas Minas da Panasqueira: “Era um trabalho tramado. Sempre aí a calcorrear montes e vales, com neve e um frio de rachar no Inverno e um calor infernal no Verão. Fiz muitos anos a rota das Minas, vi muita miséria e sofrimento, muita gente a rebentar de fome, muito mineiro com os pulmões rebentados.” A agrura cravada no corpo estropiado por um acidente de trabalho que não lhe fez guardar rancor à profissão: “Gostei muito de ser carteiro e fico muito feliz do Pedro continuar o meu trabalho”, confessa. “É o sangue”, acrescenta a mãe. Falámos nos tempos antigos em que a correspondência chegava à terra nos alforges de um burro: “Era a Ti Correia da burra, chamávamos-lhe Correia, porque era ela que trazia o correio”, explicam. Enquanto se fazem horas para o almoço, corremos as ruas sinuosas do Sobral, com direito a guia turístico de primeiríssima água. Pedro Santos conhece cada casa, da pedra, cada laje, cada cara que se desvela à sua passagem. “Viva Pedrinho”, “Traz carta para mim”, lá está a frase vizinha do lado de roupão enfiado da velha música do Sérgio Godinho “Chegou o carteiro das nove p`ras dez”.<br />
Pedro bebe água na fonte reconstruída com a “ajuda do povo”, como se lê na lápide, e não evito pensar que adequado é um carteiro beber água sob estas letras gravadas no mármore.<br />
Ao contrário do lotado lar de Casegas, a Escola Primária do Sobral tem apenas seis crianças. “Foi aqui que andei na escola, no meu tempo éramos às dezenas.” A professora leva-nos a ver a árvore da paz construída em papel pelos miúdos que em breve partirão para a escola secundária mais próxima, a umas dezenas de quilómetros, deixando a árvore da paz sem quem a enxerte. Rute, a jovem arqueóloga de 23 anos, preferiu continuar na sua terra a enxertar a sua árvore da paz – o pequeno e interessante núcleo museológico que vive das doações de gente da terra: “Para já o meu projecto de vida passa por aqui. Gosto muito da minha terra e enquanto puder vou por cá ficar.” Ela é também uma das impulsionadoras do “blogue” de Sobral de São Miguel, que na era digital, faz aquilo que durante centenas de anos esteve reservado às cartas escritas – aproxima as pessoas nos laços de afecto e saudade criados pela distância. Num dos “posts”, fotografias de emigrantes na Suiça, com mensagens para a sua terra; noutro o resumo do “derby” entre os Galitos da Serra e o Casegas; noutro ainda o programa das festas para o 25 de Abril com feijoada libertária no cardápio.<br />
Percorremos as ruas com as casas de xisto recuperadas e estimadas: “Sem a ajuda de ninguém, como acontece noutras aldeias de xisto, apenas com o esforço e carolice das pessoas”, repete orgulhoso e amargurado.<br />
José Camba puxa-nos sem direito a recusa para a sua adega, refugiando-nos num copo de bendita jeropiga das abelhas que invadem as escadas da casa contígua “Os donos estão para o Canadá e as abelhas ocuparam a casa. Mas olhem que as ferroadas das abelhas fazem bem ao reumático”.<br />
Não é o reumático o mal que aflige este antigo mineiro de 82 anos, um dos poucos da sua idade a sobreviver à silicose: “Entrei para as minas com 14 anos, no tempo da II Guerra em que trabalhavam lá perto de 5 mil homens, fora os que andavam ao quilo. Descia para os poços com umas cordas para montar os andaimes. Depois fiz de tudo. Estive lá enterrado 22 anos às vezes 12 horas por dia com uma buchazita no estômago. Vi muito companheiro morrer, depois abalei para a França.”<br />
A mulher recorda com lágrima de azedume esses tempos: “Era uma revolta que crescia na gente, ver uns com tanto e outros que se estoiravam lá por baixo por meia dúzia de tostões que mal davam para alimentar a família. Quase todos os dias morria alguém na mina, e a espera era uma angústia para as mulheres que ficavam cá fora a ver se era o seu homem.”</p>
<p style="text-align: justify;">As minas acabaram por cobrar a sua dívida assassina a José Cambra que viu um pulmão extraído, tem cancro da mama e faz um intenso tratamento de radioterapia: “Tenho de ir a Coimbra uma vez por mês, gasto 17 contos no táxi e nem o Estado nem ninguém me dá uma ajuda.” Da sua boca não soa a queixume, porque é um homem calejado por uma vida que não lhe roubou a dignidade e a força de viver que se adivinha nos olhos alegres de adolescente-velho. Mais uma jeropiga para a viagem, à sua saúde, Senhor José Camba, velho mineiro.<br />
No café do francês não são mineiros que almoçam, porque o volfrâmio já não tem uso para as armas ou a fuselagem das naves que foram conquistar o espaço. O almoço agora é para os trabalhadores que montam as pás dos parques eólicos que estão a nascer nas encostas do Açor. Depois das entranhas esmifradas é o vento desta terra que agora gera uma riqueza que dificilmente será redistribuída.<br />
A única coisa que resta para distribuir são as cartas para os lugares da Pereira e da Cerdeira, contíguos ao Sobral, e depois a recolha em sentido inverso, da correspondência que se leva, como os ponteiros do relógio que descrevem a exactidão dos dias iguais, mas sempre diferentes, como o são os dias do carteiro Pedro.<br />
Se, como dizia Simone de Beauvoir “não se pode escrever nada com indiferença”, então a indiferença é o destinatário mais certo da nossa escrita, tão perdida como as aldeias das viúvas negras da Serra do Açor.<br />
Neste mundo em que ninguém escreve ao Ti Manel, o carteiro renova a esperança, da mesma forma que a serra renova as suas cores, todos os dias, num tempo só sensível pelo alastrar da sombra.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><img class="size-full wp-image-252 alignnone" title="site1_carteiros5" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/site1_carteiros5.jpg" alt="©Margarida Dias/A.23" width="435" height="294" /></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2011/08/12/carteiros-do-fim-do-mundo-ja-ninguem-escreve-ao-ti-manel/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Covas do Monte: a aldeia das duas mil cabras e 58 habitantes</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/12/01/a-aldeia-das-duas-mil-cabras/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/12/01/a-aldeia-das-duas-mil-cabras/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 01 Dec 2010 23:10:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Actualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[País]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=7778</guid>
		<description><![CDATA[Aqui vivem 58 pessoas, 2000 cabras e 58 ovelhas. Estamos quase a chegar a Covas do Monte, esta aldeia, tem na pastorícia a sua principal fonte de rendimento. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_7779" class="wp-caption alignnone" style="width: 471px"><img class="size-full wp-image-7779" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem15.png" alt="" width="461" height="531" /><p class="wp-caption-text">Fotografia de Pedro Martins</p></div>
<p>Texto e fotografias de <strong>Pedro Martins</strong> &#8211; Aqui vivem 58 pessoas, 2000 cabras e 58 ovelhas. Estamos quase a chegar a Covas do Monte, esta aldeia, tem na pastorícia a sua principal fonte de rendimento. Todos uma vez por dia são pastores das 2000 cabras. Continuamos na senda de Covas do Monte, apenas nos anos oitenta do século passado se abriu esta estrada e o alcatrão chegou mais tarde, dali não segue para mais lado nenhum. Agora, encosta abaixo vemos já a pequena aldeia, fica encravada num vale da Serra de São Macário a uma altitude de 450 m, à sua volta fica uma imensa montanha de xisto, manchada de verde das giestas e do mato, aqui e ali salpicada por algumas manchas de pinheiro e alguns, poucos, eucaliptos.<span id="more-7778"></span></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-7780" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem16.png" alt="" width="458" height="304" /></p>
<p>Quando chego à aldeia sou invadido pela curiosidade dos habitantes, deambulando vou conhecendo a Tia Maria, o ti José pelo afecto parece que nos conhecemos há muito tempo, pergunto por curiosidade, então e as cabras? Ao que me respondem que devem estar a chegar, mas tarde entendo este facto. As cerca de 2000 cabras que sobem, diariamente, num espectáculo inusitado e surpreendente, as várias encostas, e, para as guardar, os habitantes organizaram “parceiradas” em que se revezam, à vez e de forma comunitária, na guarda do gado (pobreiro), isto na encosta acima, depois para baixo elas vêm sozinhas ao seu ritmo, algumas acabam por ficar lá nas encostas mais altas da Serra de Arada e São Macário e voltam depois a casa.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-7781" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem17.png" alt="" width="458" height="689" /></p>
<p>A aldeia é constituída na sua maioria por construções de xisto, incluindo o telhado que é feito por placas desta mesma rocha (lousa). Dispostas por ruas sinuosas, por norma, as casas têm um piso térreo onde se abrigam os animais e as alfaias agrícolas e um primeiro andar para habitação. Ao anoitecer então como estava prometido, as cabras começam a percorrer as ruas lamacentas da aldeia, cada uma se encaminha para o seu curral, o frio está a chegar e as ultimas são levadas pelos donos até a tranca encerrar o frio da rua.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-7782" title="Imagem18" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem18.png" alt="" width="453" height="683" /></p>
<p>Estou acompanhado por técnicos da Associação de Desenvolvimento &#8211; Criar Raízes, que me explicam os vários projectos que tem vindo a desenvolver na aldeia, um parque de campismo ecológico que aproveitamos para visitar, um espaço de internet já em funcionamento que tem sido bem acolhido pelos “pobreiros” que em dias de folga aproveitam para percorrer também os caminhos da informação e do conhecimento.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-7783" title="Imagem19" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem19.png" alt="" width="455" height="689" /></p>
<p>Esta Rota de levar o gado até ao cimo do monte, é também de vez em quando, realizada por turistas que vêm na curiosidade e vestem também a pele de serem eles também os pastores das 2000 cabras, a Rota do Pobreiro é realizada várias vezes ao ano e sempre com marcação. Para o final o melhor, no dia a seguir bem cedo estamos de volta a Covas do Monte, agora também temos a oportunidade de subir o monte na companhia das cabras, para as guiar duas mulheres d. Antónia e Isaltina, mais nova, habituadas a este ritmo e tarefas dão o mote de saída e á medida que vão percorrendo as estreitas e frias ruas da aldeia o grupo das cabras vai aumentando, rapidamente os pequenos grupos dão lugar a um grande grupo e ficamos a olhar a fila já interminável, nunca imaginei que 2000 cabras fossem tantas cabras, comentei eu para mim, sigo o passo acelerado das minhas guias pastoras, que com ajuda de dois cães lá vão encaminhando o gado agora no estreito trilho.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-7784" title="Imagem21" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem21.png" alt="" width="458" height="307" /></p>
<p>Olhando no prolongamento do vale são visíveis os campos férteis e verdejantes. Ali perto, o Portal do Inferno espreita&#8230;.mas não temos tempo hoje. Já no cimo do Monte, um nevoeiro denso e frio invade toda a paisagem, deixo de ver as cabras, mas elas agora mais cansadas estão mais calmas e aproveitam para retemperar forças da subida. Com esta etapa feita, aproveito agora para conhecer mais da aldeia, regresso pelo apertado trilho. No prolongamento do vale ficam situadas as “Terras do Pão”.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-7785" title="Imagem22" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem22.png" alt="" width="457" height="300" /></p>
<p>São terrenos férteis e com abundância de água que escorre da serra por alguns ribeiros que é utilizada e distribuída pelos campos através de um regadio tradicional. É também essa água que dá força para fazer andar as mós, nos seculares moinhos de água, onde se procede à moagem dos cereais para se fazer a broa. Existiam na aldeia, antigamente, três lagares de azeite, dos quais um, o comunitário, encontra-se neste momento em recuperação.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-7786" title="Imagem23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem23.png" alt="" width="454" height="685" /></p>
<p>Para terminar esta pequena viagem nada melhor que retemperar o estômago, curiosidade das curiosidades, a antiga escola de Covas do Monte, já não funciona, também porque não há crianças, mas alberga o Restaurante da Associação dos Amigos de Covas do Monte, merece uma visita atenta e demorada, podendo deliciar-se com algumas das especialidades regionais, como os rojões ou o cabrito e a vitela assada. Lá fora está frio e chuva, ficamos com tempo para recordar os melhores momentos desta aldeia, onde o tempo tem outro significado.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-7788" title="Imagem24" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/12/Imagem241.png" alt="" width="458" height="553" /></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/12/01/a-aldeia-das-duas-mil-cabras/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Sahara Ocidental: o conflito que o mundo esqueceu</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/11/14/sahara-ocidental-o-conflito-que-o-mundo-esqueceu/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/11/14/sahara-ocidental-o-conflito-que-o-mundo-esqueceu/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 14 Nov 2010 09:43:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Actualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=7638</guid>
		<description><![CDATA[Texto e fotografia de Paulo Nunes dos Santos São quatro da manha quando finalmente chego ao destino final &#8211; o deserto Hamada a sudoeste da Argélia. No aeroporto de Tindouf, uma cidade construída em redor de uma base militar, aguarda-me Malainin Lakhal, um jornalista Saharaui representante da Frente Polisario que será o meu guia, tradutor, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<div id="attachment_7640" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><em><em><img class="size-full wp-image-7640" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/11/Imagem9.png" alt="" width="460" height="333" /></em></em><p class="wp-caption-text">Fotografia de Paulo Nunes dos Santos</p></div>
<p><em> </em></p>
<p><em>Texto e fotografia de </em><strong><em>Paulo Nunes dos Santos</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">São quatro da manha quando finalmente chego ao destino final &#8211; o deserto Hamada a sudoeste da Argélia. No aeroporto de Tindouf, uma cidade construída em redor de uma base militar, aguarda-me Malainin Lakhal, um jornalista Saharaui representante da Frente Polisario que será o meu guia, tradutor, guarda-costas e excelente fonte de informação durante a minha visita a região. Após ultrapassadas todas as formalidades e burocracias comuns a uma zona de conflito, é tempo de mudar de transporte e iniciar as duas horas de viagem de jipe pelo deserto guiados apenas pela forte luz do luar. É durante esta viagem que tenho a oportunidade de iniciar o meu trabalho ao pedir a Malainin que me fale um pouco de si.<img title="More..." src="http://www.a23online.com/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="" /><span id="more-7638"></span></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="Refugee Camps_025" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/Refugee-Camps_025.jpg" alt="Refugee Camps_025" width="435" height="289" /><img title="More..." src="http://www.a23online.com/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;"><img title="Z Dajla_263" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/Z-Dajla_2631.jpg" alt="Z Dajla_263" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Á semelhança de mais de 200,000 Saharauis, Malainin viu-se forçado a abandonar a sua terra natal, deixando para trás os seus pais, irmãos, mulher e filhos. &#8220;Passaram já 17 anos desde a última vez que vi os meus filhos&#8221;, conta Malainin. &#8220;Era estudante universitário em Agadir (Marrocos) quando me envolvi em manifestações pela liberação do Sahara Ocidental. Como Saharaui é o meu dever lutar pela independência e liberdade do meu povo&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Malainin, juntamente com outros activistas, foi um dos elementos envolvidos na Intifada de 1992 no sul de Marrocos e zonas ocupadas do Sahara Ocidental. Nessa mesma altura foi capturado, espancado e torturado pela polícia secreta marroquina. &#8220;Este sou eu nos dias a seguir a minha captura&#8221;, diz Malainin ao mostrar-me uma fotografia de um rosto maltratado e praticamente desfigurado. Contínua, explicando que enquanto aguardava julgamento, teve a oportunidade de fugir. Juntamente com dois companheiros atravessou o deserto, durante uma semana a pé, desde Laayoune (cidade militarmente ocupada e controlada por Marrocos) até aos campos de refugiados na Argélia. Durante esta viagem teve de atravessar o famoso muro construído por Marrocos, que divide o Sahara Ocidental de norte a sul. &#8220;Não foi fácil, porque tivemos de atravessar as zonas fortemente minadas sem que as tropas marroquinas se aperceberem&#8221;. Nos anos que se seguem, Malainin é julgado à revelia, e condenado a nove anos de prisão. Desde o dia que deixou Laayoune nunca mais teve a oportunidade de voltar a ver a sua família e amigos que deixou para trás.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="A Rabuni_063" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/A-Rabuni_063.jpg" alt="A Rabuni_063" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="B Refugee Camps_037" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/B-Refugee-Camps_037.jpg" alt="B Refugee Camps_037" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Fascinado pela história de Malainin, a viagem até ao campo de refugiados passa num ápice. &#8220;Este é o 27 de Fevereiro&#8221;, informa-me Malainin. Á semelhança de todas as outras habitações neste campo, a construção é rudimentar. As casas são pequenas, feitas de tijolos de lama e palha, não existe água canalizada nem rede de esgotos. Quando as ocasionais chuvas torrenciais assolam esta inóspita parte do Sahara as inundações destroem-nas por completo, rotina que obriga a uma (re)construção sistemática desde a 34 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Após duas horas de descanso, despertado pelo calor abrasador típico do deserto e pelas moscas que insistem em sobrevoar a minha cara, segue-se o pequeno-almoço e o primeiro contacto com fantástica hospitalidade do povo Saharaui. Café, pão fresco e doce de pêssego são-me servidos numa mesa tipo tabuleiro onde o tradicional chá de menta está também a ser preparado. Com a ajuda de Malainin tento obter um pouco de informação sobre a família anfitriã. É então que me contam a historia de Elkeihel, o dono da casa, activista e poeta Saharaui que, á semelhança de muitos outros, passou a sua infância nos territórios ilegalmente ocupados por Marrocos e viveu de perto a opressão e tortura do regime de Rabat.</p>
<p style="text-align: justify;">Filho de uma revolucionária, Elkeihel passa a maior parte da sua vida na clandestinidade e ao fim de 12 anos consegue finalmente reunir-se com a sua mãe, avó e irmãos nos campos de refugiados. Hoje em dia Elkeihel trabalha como jornalista para a Radio Nacional criada pela Frente Polisário nos campos de refugiados, e tornou-se um símbolo vivo da resistência Saharaui.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="J Nomadic_010" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/J-Nomadic_010.jpg" alt="J Nomadic_010" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="D Nomadic_014" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/D-Nomadic_014.jpg" alt="D Nomadic_014" width="435" height="292" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">De 27 de Fevereiro parto para outro campo, Rabouni, onde os edifícios dos ministérios do governo da Republica Democrática Árabe Saharaui estão estabelecidos. Apesar de ser o campo onde está a sede do governo em exílio, Rabouni tem o mesmo aspecto que os outros campos. Algo que me chama á atenção é o facto de que independentemente do cargo, posição ou importância das pessoas nestes campos, toda a gente vive nas mesmas condições. Pude confirmar este facto, quando uns dias mais tarde sou convidado a casa de Bouhabini Yahia, o presidente do Crescente Vermelho Saharaui (Saharawi Red Crescent &#8211; SRC) para lhe fazer uma entrevista. A sua casa é e contem exactamente o mesmo que as outras casas das famílias onde pernoitei e visitei.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="H Refugee Camps_042" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/H-Refugee-Camps_042.jpg" alt="H Refugee Camps_042" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="C Land Mine_028" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/C-Land-Mine_028.jpg" alt="C Land Mine_028" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">No total existem 5 campos de refugiados: 27 de Fevereiro, Rabouni, Smara, Dajla e Laayone. Entre eles, estima-se uma população de 200 mil pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Construções rudimentares, as improvisadas vedações para as cabras, as ocasionais antenas parabólicas, os pequenos painéis solares e escassos depósitos de água, completam a paisagem árida destes campos. Negócios são quase inexistentes, e as poucas lojas que existem servem apenas para abastecer a população com os mais básicos dos produtos. Em cada campo existe também um jardim colectivo que, devido a escassez de agúa, permite apenas uma produção mínima que é distribuída por hospitais e população em geral.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="R Refugee Camps_039" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/R-Refugee-Camps_039.jpg" alt="R Refugee Camps_039" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="S Refugee Camps_048" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/S-Refugee-Camps_048.jpg" alt="S Refugee Camps_048" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Os refugiados que estão classificados em duas categorias &#8211; Vulneráveis (75 mil) e Muito Vulneráveis (125 mil), dependem unicamente da ajuda humanitária internacional que, segundo Bouhabini Yahia presidente da SRC não é suficiente para garantir as necessidades básicas de todos. &#8221; Toda os refugiados nestes campos dependem de ajuda humanitária. Todos sem qualquer excepção. Mas Infelizmente estão muito longe de receber ajuda suficiente&#8221;, afirma. No entender de Bouhabini as Nações Unidas são em muito responsáveis por esta situação, afirmando que &#8220;não levam a serio a situação em que esta gente vive&#8221;.  Acrescenta ainda que &#8220;não é aceitável que as Nações Unidas classifique estes refugiados com um estatuto de Emergência desde que os campos foram criados&#8221;. O facto de não serem classificados como refugiados não permanentes significa que a quantidade de ajuda humanitária recebida não vai ao encontro das necessidades reais da população.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe no entanto, uma forte participação da comunidade civil espanhola que em geral, e ao contrário do governo (o principal responsável pelo conflito, pelo facto de ter abandonado a ex-colonia a mercê da politica imperialista dos países vizinhos), reconhece o direito a um estado independente e sente a obrigação moral de apoiar os Saharauis. São várias as Organizações Não Governamentais (ONG) espanholas com um papel activo na ajuda aos Saharaui, com acções que vão desde a distribuição de água potável á implementação de escolas e acções de formação técnica de varias vertentes.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="E Refugee Camps_010" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/E-Refugee-Camps_010.jpg" alt="E Refugee Camps_010" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="K Refugee Camps_038" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/K-Refugee-Camps_038.jpg" alt="K Refugee Camps_038" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">De caminho ao sul, é altura de visitar o campo de Smara, o maior e mais populacionado da região. Zorgan, um outro representante da Frente Polisário, leva-me numa visita guiada ao campo, passando pelo hospital, escola, jardim e pelo único cemitério da região. Na realidade, Smara não é mais do que os outros campos por onde passei, um aglomerado de casas feitas de tijolos de barro e com telhados de zinco, estradas de areia, depósitos de água e muitas vedações para cabras.</p>
<p style="text-align: justify;">Terminada a visita, Zorgan faz questão que o acompanhe a sua casa e me junte à família durante a hora de almoço. Aceito o convite sem excitações. À chegada sou recebido com o maior dos entusiasmos pela mulher e filhos de Zorgan que me guiam até ao compartimento onde o tradicional chá de menta é imediatamente servido, seguido de uma caldeirada de camelo, batatas fritas e feijão. A seguir ao almoço, Zorgan conta-me um pouco da sua história de vida e paixão pela causa Saharaui. &#8220;O facto de ter perdido um braço quando era criança, não impediu de (aos 17 anos) me juntar a guerrilha e lutar pelo meu povo&#8221;, diz Zorgan com um orgulho evidente. Quando lhe pergunto se voltaria a fazer o mesmo, afirma com convicção que &#8220;se a guerra recomeçar estarei pronto para dar a minha vida pela independência e pela liberdade dos meus filhos e gerações futuras&#8221;. É altura de descansar por umas horas antes da longa viagem até ao próximo campo.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="N Refugee Camps_020" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/N-Refugee-Camps_020.jpg" alt="N Refugee Camps_020" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="L Refugee Camps_044" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/L-Refugee-Camps_044.jpg" alt="L Refugee Camps_044" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Após várias horas de viagem, debaixo de um calor intenso e coberto de pó e areia, chego a Dajla, o mais isolado de todos os campos. Dajla, construído praticamente nas dunas do Sahara, é disperso, com casas ainda mais frágeis do que nos outros campos. Malainin explica-me que o único poço de água existente no campo esta agora praticamente seco, e o minúsculo jardim que durante vários anos existiu junto a esta fonte de água tornou-se impossível de manter. A única água a que os habitantes de Dajla têm acesso, é distribuída por camiões cisterna uma vez por semana. O difícil acesso e longa distancia a percorrer torna impossível um abastecimento mais regular.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="X Refugee Camps_047" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/X-Refugee-Camps_047.jpg" alt="X Refugee Camps_047" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="Z Dajla_493" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/Z-Dajla_493.jpg" alt="Z Dajla_493" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Num esforço para minimizar o isolamento dos refugiados estabelecidos em Dajla, as autoridades decidiram desde a dois anos atrás usar este campo como palco para o FISAHARA &#8211; um festival internacional de cinema organizado para os refugiados Saharaui. Este festival, que esta agora na sua sexta edição, foi criado com o intuito de proporcionar aos refugiados a participação em actividades culturais e acções de formação a nível cinematográfico e escrita criativa, e implementar uma plataforma de divulgação da cultura tradicional Saharaui. Este projecto, que conta com a participação e apoio de nomes importantes no mundo das artes a nível internacional, tenciona também alertar a comunidade internacional para as condições de vida a que os Saharaui estão sujeitos.</p>
<p style="text-align: justify;">Com todo o ambiente de festa proporcionado pelo FISAHARA é fácil esquecer as dificuldades a que este povo está sujeito desde há 34 anos. Mas são acções como esta que mantêm viva a esperança e o sonho de um dia poderem voltar a sua terra natal, de verem unido o território que por direito lhes pertence.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="Refugee Camps_027" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/Refugee-Camps_027.jpg" alt="Refugee Camps_027" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">O</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/11/14/sahara-ocidental-o-conflito-que-o-mundo-esqueceu/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A luz proíbida do ecrã</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/08/08/a-luz-proibida-do-ecra/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/08/08/a-luz-proibida-do-ecra/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 08 Aug 2010 13:09:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[SEXO E CINEMA]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=7279</guid>
		<description><![CDATA[Texto-Miguel Ángel Barroso Com o primeiro beijo filmado pelo inventor do fonógrafo e da lâmpada, Thomas A. Edison, nasceu o erotismo no cinema. Porque, convenhamos, o que era o cinema naquele ano de 1895? Apenas película de celulóide que trazia magia à realidade e dava movimento a uma fotografia. Daí para os sentimentalismo havia um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-7280" title="Imagem10" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/08/Imagem10.png" alt="" width="460" height="333" /></p>
<p>Texto-Miguel Ángel Barroso Com o primeiro beijo filmado pelo inventor do fonógrafo e da lâmpada, Thomas A. Edison, nasceu o erotismo no cinema. Porque, convenhamos, o que era o cinema naquele ano de 1895? Apenas película de celulóide que trazia magia à realidade e dava movimento a uma fotografia. Daí para os sentimentalismo havia um passo muito curto e previsível. Possivelmente, o astuto comerciante que era Edison nunca pensou nas suas possibilidades eróticas. Mas o seu filme, The Kiss, com um minuto de duração, causou um tremendo escândalo ao gravar os seus dois actores, já de idade madura, a dar três beijos (dois na bochecha e um no canto da boca), colocando em pé de guerra os defensores da moral &#8211; entre os quais constava a revista The Chap Book, a qual denuncia claramente a liberdade de expressão, ao escrever este artigo: &#8220;os empresários de espectáculos estão dispostos a eclipsar tudo o que foi visto até agora, por detrás de material de mau gosto. Numa obra recente vocês recordam o beijo que trocaram uma tal May Irwin e John C. Rice. Nenhum dos intérpretes era particularmente atractivo e o espectáculo entre um e outro tornou-se insuportável. Com o tamanho natural já era algo anormal, mas não era nada comparado com o efeito produzido por este acto aumentado a proporções gigantescas e repetido três vezes consecutivas. O resultado é absolutamente repulsivo. Todo o encanto da menina Irwin se desvanece, convertendo a sua arte em algo indecente e de uma vulgaridade prodigiosa. Tais feitos exigem a intervenção das autoridades policiais&#8221;.<span id="more-7279"></span></p>
<p>No entanto, apesar das tentativas de censura, The Kiss tornou-se cada vez mais popular e permaneceu nas salas de cinema locais até que as cópias, de tanto uso, ficaram fora de serviço. O filme podia ser visto dentro da invenção de Edison, chamado Kinetoscopio &#8211; que não podia projectar as imagens para o exterior, apesar de poder ser adaptado para esse fim. Deste modo, sem intenção, também Edison descobriu o futuro magnetoscópio, enquanto o kinetoscopio permitia uma intimidade que é impossível numa sala de projecção cheia de gente.</p>
<p>O sexo no cinema estava assim inventado. Os franceses e os italianos rodavam, com audácia, películas em que se mostrava a nudez feminina na sua plenitude, acompanhada de um cocktail erótico e sexual descarado. A produtora Pathé possui um catálogo realmente rico e de qualidade, eroticamente falando: La Puce (1896 &#8211; se bem que alguns catálogos apontem a data para 1907; Bains Des Dames De La Cour (1900); Flirt En Chemin De Fer (1902); L&#8217;Amour A Tous Les Étages (1900-1903), verdadeira jóia centrada na figura de um mirone que observa pela fechadura; Par Le Trou De Serrure (Peeping Tom) (1901), outro voyeur que vê através de fechaduras, neste caso um mordomo; Baignade interdite (1903), etc.</p>
<p>O poder e as instituições proibiam estes filmes, mas o cidadão comum exigia-los cada vez mais. Inicia-se assim a espiral perversa e hipócrita que define a nossa sociedade de pensadores: &#8220;Existe, mas não vejo; nego, mas consumo.&#8221;</p>
<p>Por outro lado, os Estados Unidos torna-se rapidamente no grande produtor mundial de filmes pornográficos, hegemonia que continua a conservar na actualidade. Os produtores abordam sem pudor todo o tipo de actividades sexuais, incluindo práticas como a zoofilia, a chuva dourada, o sadomasoquismo, e também agradam a procura de cinema gay e lésbico. Dentro destes filmes, conhecidos vulgarmente como stags (cujo significado é &#8220;para homens&#8221;, &#8220;reunião de homens&#8221; &#8211; stag party &#8211; ou &#8220;despedida de solteiro&#8221;, etc.), os espectadores encontravam todo o tipo de actividades eróticas, tais como: sexo anal, dupla penetração, trios, orgias, fantasias mórbidas com jovens demasiado excitadas, reparadores de televisão, canalizadores, playboys, velhos, aristocratas pervertidos, ninfomaníacas insaciáveis, padres, monges, políticos, militares e tudo o que é imaginável por uma mente acalentada.</p>
<p>Logicamente, como já apontámos, estes filmes circulavam clandestinamente. Realizados entre 1915 e 1970, tiveram o seu esplendor nos anos 20 e 30, eram projectados em 16mm (antes em 35mm, naturalmente), em sessões de duas a três horas. O preço destas sessões oscilava entre os cinquenta e os cem dólares. As projecções tinham lugar em casas particulares, diante de um público selecto (as estrelas de Hollywood também organizavam sessões com os seus amigos), que se submergia num mundo de pecado, onde o som do projector se misturava com o respirar ofegante e os gemidos que emanavam da irresistível luxúria que envolvia tudo. Ou, pelo menos, assim deveria ser.</p>
<p>Chegaram, inclusivamente, a ser rodados filmes de desenhos animados, entre os quais se deve destacar uma jóia chamada Buried Treasure (1928-33), uma sátira cruel acerca do membro viril que, na ânsia de fornicar tudo, ganha vida própria e coloca-se em sarilhos tremendos em busca de sexos femininos onde se possa instalar. Apesar de não haver provas concretas, esta obra prima da animação, rodada num grande estúdio a horas nocturnas, é muito provável que estivesse a ser realizado, na parte artística, por Gregory La Cava, e na sua técnica de animação por Walter Lantz, o criador do popular Woody Woodpecker (o Pica-Pau). É impensável, dada a grandiosa produção do cartoon, que tenha saído das mãos de um simples amador. Pode parecer estranho que um grande realizador como La Cava, responsável por melodramas elegantes e refinados, fizesse um filme tão desavergonhado, mas analisando com atenção a sua obra vemos que grande parte dos seus argumentos giram em torno do sexo. La Cava, que não era nenhum moralista, bem podia ter-se juntado a Lantz, a quem está associada uma animação tão irreverente, e os dois tornaram real uma obra que nunca se pôde produzir abertamente num estúdio convencional.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-7281" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/08/Imagem11.png" alt="" width="480" height="336" /><br />
“A vida está feita para o prazer”, disse-o Kichi, o protagonista d&#8217;O Império dos Sentidos (Ai no corrida, 1976), à sua amada Sada. E, sem dúvida, esta é a filosofia dos realizadores mais amantes do erotismo e de gosto refinado por cinema: Tinto Brass, Roger Vadim, Russ Meyer, Walerian Borowczyk, Tex Avery, Claude Pierson, Max Pecas, Just Jaeckin, Gerard Damiano, os irmãos Mitchell, Mario Salieri, Moli, Michel Ricaud, John Leslie, Henry Paris (Radley Metzger), etc. Juntos ou separados, uns mais refinados que outros, todos eles nos ofereceram momentos inesquecíveis de erotismo puro e sexo a rodos, deixando a sua autoria no género mais difícil da arte cinematográfica, porque não há nada mais complicado que filmar sexo. Na literatura acontece o mesmo: a repetição do acto sexual pode deixar de ser algo excitante e converter-se num exercício rotineiro de corpos fornicando mecanicamente e sem ponta de imaginação.</p>
<p>Tudo isto o sabia bem Gerard Damiano quando concebeu uma das suas obras primas, Garganta Funda (Deep Throat, 1972). Como fazer o &#8220;mesmo&#8221;, mas de forma &#8220;distinta&#8221;? Inventando um mundo real, mas com toques de surrealismo. A protagonista, Linda (Linda Lovelace), está desesperada porque a sua vida sexual não funciona, nada nem ninguém a faz chegar ao orgasmo que para ela são fogos de artifício e sons de campainhas, até que um médico excêntrico (Harry Reems), descobre que o seu problema reside na sua garganta; ou, dito de outra forma, o clítoris de Linda estava alojado na sua glote. &#8220;Doutor, então como faço?&#8221;, diz a jovem chorando oceanos. Tanta ingenuidade dota o filme desse encanto que Damiano soube criar através das imagens com um ritmo excelente. Garganta Funda colocou um ponto final na proibição em torno da pornografia nos Estados Unidos, e conseguiu ser estreada (após um julgamento escandaloso que ecoou por todo o país) em salas comerciais como se se tratasse de mais um filme. Mas Garganta Funda era mais que um filme comercial. Produzida por uma máfia nova-iorquina com somente 20.000 dólares e apenas dez dias de rodagem, converteu-se no filme hardcore mais visto do mundo, o qual daria começo a uma nova era do cinema pornográfico.<img class="alignnone size-full wp-image-7282" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/08/Imagem12.png" alt="" width="584" height="389" /></p>
<p>“Tudo o que fazemos juntos, mesmo que seja o simples acto de comer, deve ser um acto de amor”, diz Sada ao seu amante Kichi, dando-lhe a provar a comida directamente do seu sexo.</p>
<p>O cinema erótico (mal denominado &#8211; não é correcta a separação entre erotismo e pornografia, pois este é um assunto mais sobre moral do que apenas uma correcta definição), entende-se como o acto sexual dissimulado e bonito, e o cinema pornográfico costuma evidenciar o acto sexual explícito e feio. Esta tem sido sempre a catalogação para não mostrar que gostamos de ver o acto sexual representado no ecrã. Erotismo pode ser sexo com todas as suas consequências (penetração real), e ser altamente erótico e estimulante para os sentidos. Tudo depende do olhar e da estética com que o realizador aborda o assunto. Por este motivo, um filme como O Império dos Sentidos, filmado por um dos cineastas modernos mais importantes do cinema, Nagisa Oshima, nasceu para revolucionar e colocar em ridículo a definição de pornografia. Oshima pintou com a sua câmara um dos enredos cinematográficos mais belos, sensuais, cruéis e eróticos que haviam sido projectados nas galerias de arte do cinema. O Império dos Sentidos utiliza o acto sexual explícito; é como quem diz, os actores fazem o amor (ou o acto genital) de verdade, sem cortes, incluindo os felácios e ejaculações, assim como outras audácias que nunca contemplaríamos de forma real no cinema mal denominado &#8220;erótico&#8221;. Inevitavelmente, O Império dos Sentidos foi etiquetado como obra de arte e estreou-se como um filme para uso em todas as salas comerciais do mundo, estando isento de ser exibido nas caves lúgubres destinadas à projecção de cinema designado como &#8220;Cinema X&#8221; por conter sexo explícito. Naturalmente, não é comparável (e não é a minha intenção fazê-lo) um filme de Oshima com o cinema pornográfico comum, rodado em quatro dias e com nulas qualidades artísticas, mas quero sim colocar o dedo no olho da hipocrisia social. De uma coisa estou certo, e isso é que se a sociedade fosse mais livre e aberta, O Império dos Sentidos não continuaria a ser um filme ostracizado devido ao seu atrevido conceito sexual.</p>
<p>A década de setenta pode considerar-se, para bem e para mal, como a mais prolífica no que respeita a sexo visto num ecrã de cinema. Produziram-se nestes anos os géneros e os seus consequentes subgéneros, numa infinidade de filmes de baixo custo e sem nenhum tipo de qualidade artística, que tanto dano fazem a obras importantes de excelentes realizadores como Pier Paolo Pasolini e a sua trilogia formada por Il Decameron (1971), I Racconti Di Canterbury (1972) e Il Fiore Del Mille e Una Notte (1974). Ou Bernardo Bertolucci e ao seu Ultimo Tango a Parigi (1972), e também afecta consagrados e declarados amantes do erotismo como o polaco afincado em França Walerian Borowczyk, cujo sentido estético responde a uma plástica refinada que dota o seu cinema de um nível cultural elevado: Goto, l&#8217;Ile D&#8217;Amour (1968), Contes Inmoraux (1974), La Bête (1975), Interno Di Un Convento (1978), Les Heroines Du Mal (1978), etc. Ou Tinto Brass, sem dúvida numa linha oposta a Borowczyk, mas dotado de uma personalidade forte e conhecimento da arte, que o leva a inventar um cinema próprio, original e divergente de qualquer moda &#8220;erótica&#8221; do momento. Tinto Brass influi positivamente na concepção de sexo no cinema, mas o seu estilo, único, aparece tão inimitável que permanece intocado pelos acontecimentos daqueles anos, nos quais qualquer filme erótico de qualidade tinha de imediato uma sequela pobre destinada a aproveitar o filão da onda de erotismo que parecia ter-se apoderado da Europa.</p>
<p>Na França nasce outro dos grandes mitos eróticos: Emmanuelle (1975), realizado por Just Jaeckin, um fotógrafo que nunca tinha enveredado pelo cinema, e protagonizado por uma secretária holandesa de beleza comovedora e excitante, chamada Sylvia Kristel. O filme pode ser mau ou falhado como cinema, mas não se pode negar a sua indubitável vocação pela sensualidade e pelo refinamento em cada acto sexual que presenciamos. É inesquecível o orgasmo de Sylvia Kristel, dentro de um avião de passageiros, em que, para não ser ouvida, aguenta os gemidos apesar de não conseguir evitar mover a cabeça de um lado para o outro com um gesto de prazer absoluto que inunda os seus olhos de felicidade. A minha humilde opinião é que Emmanuelle se coloca na luz do novo século numa posição vantajosa que faz com que não tenha envelhecido de todo. Aliás, a sua pureza e inocência tornam-se absolutamente encantadoras e cheias de ternura nos tempos que correm. Era uma época em que se criavam mitos eróticos e símbolos sexuais reais: Brigitte Bardot era-o, Stefania Sandrelli era-o, Sylvia Kristel era-o, Laura Gemser (a Emmanuelle negra) era-o, Corinne Clery (a rapariga de Historie D&#8217;O &#8211; 1975), era-o&#8230; Talvez isto seja fruto da honestidade ideológica daqueles anos, a crença nas revoluções, na paz mundial, na arte como arma para mudar o mundo. Fruto de tudo isto que digo é, sem dúvida, o hoje esquecido, ainda que reivindicado, Max Pecas, outro dos grandes renovadores do género erótico, que deu um sopro de ar fresco a temas escandalosos ou &#8220;muito sérios&#8221; considerados tabu pela sociedade burguesa. Pecas, consciente de que o cinema tem de ser bem feito, mimou todos os seus filmes sem nunca cair para a tradição. Quando teve ofertas para realizar Cinema X, disse que não porque procurava coisas diferentes no seu tratamento da sexualidade e prazer dos sentidos. Só aceitou uma vez incorporar planos hardcore em Les Mille Et Une Perversions De Félicia (1975), e só depois de ter obtido a permissão de todos os actores participantes. As suas duas melhores obras consagradas ao sexo são: Je Suis Une Nymphomane (1970) e Je Suis Frigide&#8230; Porquoi? (1972), ambas protagonizadas pela bela e expressiva Sandra Jullien, uma heroína digna de Marquês de Sade, a quem Pecas por certo evoca admiravelmente, na sua concepção do bem e do mal. Ela, rapariga inocente e de bom coração, procura ansiosamente o amor em todos os seres humanos que se cruzam no seu caminho. A doce vítima resigna-se a viver com a sua desgraça pessoal, uma enfermidade sexual que faz com que a sociedade ostracize de quem dela padece. O cineasta é elegante, refinado e moralmente consequente com as suas histórias. Pecas constrói personagens credíveis e filma um erotismo belo e sugestivo, inclusive nas suas sequências mais delicadas.</p>
<p>Nas décadas seguintes, o sexo no cinema perde o seu sentido lúdico e ingénuo para se transformar numa sexualidade mais agressiva, mais doente, mais mecânica. Parece que a sede do público pela festa do sexo já estava saciada. Agora era exigido uma maior violência no acto carnal, o stress da sociedade tecnológica apodera-se dos sentidos e é exigido somente sexo: o acto carnal ganha evidência (não como n&#8217;O Império dos Sentidos que correspondia a uma busca do absoluto através da vida e da morte), nem que seja como um refúgio aos problemas humanos, para deleite apenas da exploração do coito. O único que importa é foder e saciar-se, mas isto traz frustração, pois o sexo esvazia-se de todo o sentido espiritual. Substitui-se o amor pelo ódio. Em vez de se fazer amor faz-se sexo. De todo o modo é importante salientar que durante a década de oitenta, é a já mencionada indústria do cinema X, especialmente nos Estados Unidos, aquela que mostra um erotismo hardcore muito colorido e entusiasmante. As estrelas do porno daqueles dias vestem-se (ou despem-se) de naturalidade e transmitem a alegria de viver (Ginger Lynn, Marilyn Chambers, Tracy Lords ou Moana Pozzi na Europa). É curioso que seja precisamente o género X aquele que mais sensibilidade mostre na hora de falar de sexo, sem a afectação patológica do cinema convencional que, por outro lado, tem obras excelentes. Neste sentido, a indústria do cinema para adultos ia-se degenerando pouco a pouco, com um sexo cada vez mais despersonalizado, violento e com uma rotina rígida com a sua repetição mecânica do &#8220;tira e põe&#8221;. Nos nossos dias é óbvio que o cinema pornográfico deixou de existir como fonte de desejo e erotismo sem tabus, para se converter em talho que &#8220;fabrica&#8221; actos sexuais entediantes, vazios e completamente banais. A cirurgia plástica é uma das grandes culpadas desta despersonalização. Antes, o espectador identificava-se com os homens e mulheres que desfilavam no ecrã. Agora, apenas observa figuras de cera que saltam compulsivamente em cima de corpos nus que parecem clones de um mesmo corpo que, por sua vez, também salta desenfreadamente sobre outro corpo clonado&#8230;</p>
<p>Nos últimos anos, tanto o cinema europeu como o oriental têm dado mostras de uma excelente saúde erótica (Catherine Breillat, Wong Kar Wai, Patrice Chereu, Kim Ki-Duk, Hong Sangsoo, Olivier Assayas&#8230;) com filmes arriscados que tentam bater os tabus de uma sociedade que oferece resistência ao crescimento intelectual, apesar do rápido progresso tecnológico e industrial. A Internet parece a Torre de Babel do século XXI e o saco de todos os vícios, perversões e maldades imagináveis de um mundo esgotado e vulgarizado como nunca. A Internet, então, corresponde à realidade em que vivemos? Estou convencido que não, porque a rede é algo que é feita pelos utilizadores e isto por si só não é representativo de nada. O sexo às toneladas é só carne para ser consumida rapidamente e de qualquer maneira. O problema continua a ser a educação e a repercussão que esta tem na sexualidade. Agora os adolescentes têm mais informação que nunca e, inevitavelmente, o número de grávidas indesejadas atingiu a quota mais alta das últimas décadas. A Internet, portanto, é uma ferramenta útil que é necessário aprender a manejar para que o seu uso seja controlado por cada indivíduo livre. O sexo gera liberdade, pensamento avançado. O sexo gera vontade de viver! Quem diz o contrário mente ou então serve outros interesses determinados.</p>
<p>Miguel Ángel Barroso</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/08/08/a-luz-proibida-do-ecra/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Isis &amp; Eve: o sexo, o amor e duas cabanas</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/04/23/isis-eve-o-sexo-o-amor-e-duas-cabanas/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/04/23/isis-eve-o-sexo-o-amor-e-duas-cabanas/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 23 Apr 2010 14:52:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[a23online]]></category>
		<category><![CDATA[Adriano Batista]]></category>
		<category><![CDATA[Lesbianismo]]></category>
		<category><![CDATA[Revista A23]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[Teresa Filipe Lopes]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=6340</guid>
		<description><![CDATA[Texto Teresa Filipe Lopes - Sente-se atraída por raparigas desde criança. “No infantário, aí com 4 anos, brincava com uma amiga aos raptores. Ela vinha ter comigo no intervalo, raptava-me e levava-me para um cantinho do recreio e punha-se em cima de mim.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_6424" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><img class="size-full wp-image-6424" title="Adriano Baptista" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/killer4.jpg" alt="" width="460" height="333" /><p class="wp-caption-text">©Adriano Batista</p></div>
<p>Uma é Portuguesa e outra é Húngara. Têm namorado, namorada e ambas vivem bem com isso. Elas contam como são as suas relações e o sexo entre os sexos. Dois exemplos distantes num território comum: O amor sem traição nos dois lados do campo. Texto de <strong>Teresa Filipe Lopes</strong> | Fotografias de<a href="http://adrianoogrande.com"> Adriano Batista</a></p>
<p><span id="more-6340"></span></p>
<div id="attachment_6425" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><img class="size-full wp-image-6425" title="Adriano Batista" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/killer5.jpg" alt="" width="460" height="333" /><p class="wp-caption-text">Adriano Batista</p></div>
<p>LADY MYOSOSTIS:<br />
Gosta de falar de si como Lady Myosostis, “Queen and Goddess, Mistress of the Universe”. Vê o erotismo como uma parte sagrada da vida. Os seus desejos mais profundos são a liberdade, o amor pleno e “encontrar a árvore mais antiga do mundo”. É cantora, bailarina, swinger e fire dancer. Viveu em Portugal, na Índia, em Inglaterra e na Austrália e à medida que viajamos pelo seu mundo, tão depressa mostra uma candura de fada ou uma centelha de Dominatrix. O estilo que interpreta inspira cenários algures entre a magia, o dark goth e o cabaret burlesco.</p>
<p>Tudo começou pelo fogo, há onze anos atrás. Em 99 começou a dedicar-se ao Fire Dancing e a correr o mundo por onde fez performances de rua. Por onde passou aprendeu novos movimentos, novos instrumentos e, cedo ou tarde, aprenderia novas maneiras de viver. E foi em Inglaterra que sentiu maior liberdade para explorar as suas vocações. “Em Londres comecei a ligar-me ainda mais à música e às artes performativas e depois em 2007 fui aprender Arte de Seduzir e Dança do Varão. Estava numa altura em que o meu desejo de exprimir a minha sensualidade se tornou muito forte. E lá sentia total liberdade para isso.”<br />
Depois de anos a partilhar a sua música e a sua sensualidade apenas com os amigos, começou a alargar as suas fronteiras e a actuar ao vivo. “Foi inevitável começar a explorar todas as minhas paixões numa cidade onde o espírito é o ‘just do it’. O malabarismo, a dança, o canto e a arte erótica acabaram por se transformar numa coisa só, numa entidade única”. Hoje, Lady Myosostis faz aparições na noite Lisboeta em diversos espectáculos que produz com o Cais Sodré Cabaret.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6426" title="maria27" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/maria27.jpg" alt="" width="460" height="333" /></p>
<p>NO PRINCÍPIO ERA O SEXO<br />
Sente-se atraída por raparigas desde criança. “No infantário, aí com 4 anos, brincava com uma amiga aos raptores. Ela vinha ter comigo no intervalo, raptava-me e levava-me para um cantinho do recreio e punha-se em cima de mim. Isso excitava-me imenso.” A sua primeira experiência sexual propriamente dita foi com 17 com uma das suas melhores amigas. “Namorava há dois anos com um rapaz mas sentia-me completamente apaixonada por ela. Um dia, numa daquelas noitadas em casa dela às tantas da manhã aconteceu!” – sorri Ísis quase timidamente – “Os pais dela estavam a dormir no quarto ao lado e nós estávamos a brincar e a fazer cócegas. A dada altura atirei-a para a cama e dei-lhe um beijo. Claro, pouco depois começámos a despir-nos, a beijar-nos e tive-a só para mim.”<br />
As diferenças no amor e no sexo variam segundo a experiência de cada pessoa e a sua visão. Para Ísis estar com uma mulher é simplesmente divertido. “É mais leve em relação a um compromisso, por exemplo. As mulheres com quem estou têm sempre a consciência de que é aquele momento. Mesmo que venham outros, continuamos livres uma da outra. E o que me leva a estar com homens e mulheres é precisamente porque é diferente. Aquilo que se dá e recebe é completamente diferente.” Com um homem sente-se sexualmente mais submissa ao passo que com uma mulher se sente de igual para igual. “Com uma mulher posso assumir qualquer papel. Normalmente gosto de dominar e dar prazer primeiro. Adoro dar prazer.”<br />
Ísis vive as suas relações de uma forma discreta, mas é totalmente assumida perante os seus pais e amigos. É com eles que partilha a sua alegria e também dúvidas ou angústias quando as tem. “Os meus pais sabem que sou bi e já conhecem bem a peça. Não tenho nenhum segredo com eles.”<br />
Lady Myosostis saiu de casa cedo e os amigos tornaram-se a família que escolheu. Onde quer que vivesse estava sempre em festa e, numa nessas noites, começaram a acontecer as suas primeiras experiências a três. E outras se seguiram. “Adoro estar com mais do que uma pessoa. É super erótico. É super sensual ver tantos corpos a movimentarem-se juntos. Mas é mais fácil quando não é entre um casal, mas com uma mulher e outro homem se for o caso.” Porque, Segundo o que lhe conta a experiência, nem sempre é bom ver quem gostamos com outra pessoa.<br />
Teve as mais variadas experiências tanto com homens quanto com mulheres, mas é com eles que confessa ter tido mais prazer.<br />
No seu mundo o sexo pode quase não ter limites, mas os limites existem: “Posso dizer que gozei bastante nas festas de fetishe em Londres. Encontra-se de tudo o mais louco que se possa imaginar e a liberdade é muita. Mas a pedofilia, escatologia, bestologia, violência e afins não estao na minha lista, definitivamente.”</p>
<div id="attachment_6427" class="wp-caption alignnone" style="width: 365px"><img class="size-full wp-image-6427" title="pin6" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/pin6.jpg" alt="" width="355" height="533" /><p class="wp-caption-text">Adriano Batista</p></div>
<p>ENTRELAÇAR O AMOR E O DESEJO.<br />
Por alguma razão chamou ao seu primeiro projecto “Intertwined”. Ísis compatibilizou o amor, a música o sexo e a sacralidade numa só forma de viver. E encontrou o companheiro para isso. “Para mim a melhor forma de manter uma relação aberta é ter essas experiências longe do lar, ou do parceiro. Na minha experiencia acho que pode ser bastante doloroso ver certas coisas, tanto para um como para o outro.” Embora incentive muitas vezes o marido a ter outros parceiros, ele continua a preferi-la a ela, tal como é. “A meu ver não há nada melhor do que a verdade e conversar abertamente sobre as coisas. Se tudo estiver bem defenido desde o início, é tudo mais fácil. Claro que às vezes os ciúmes aparecem, isso é normal. Mas o melhor exprimi-los abertamente e aceitar que a insegurança pode surgir a qualquer momento. Acho que negar isso é ainda pior, porque uma pessoa pode explodir sem razão num outro momento e não vale a pena. Eu optei por manter as minhas experiências fora da relação. Tornou-se muito mais fácil lidar com isso.”</p>
<p>O tempo passava sem se dar por ele. E quase chegada ao limite do meu tempo (e do espaço no papel), fiz as duas perguntas que me ocupavam a cabeça desde o princípio. Como veria ela o futuro das suas relações? E se um dia tivesse de escolher? Ao que parece, o segredo é gozar o momento. “Eu simplesmente gosto de me divertir. Para mim o sexo é uma diversão. Foi um presente maravilhoso que a vida nos deu que nos enche de prazer e imaginação. E também gosto de fluir, seja para onde fôr. Para mim não é uma regra ter sexo com outras pessoas ou não. Mas gosto de pensar que quando morrer vou estar satisfeita com a vida que vivi, explorei, saboreei. Sem ser à custa do sofrimento dos outros, atenção, assim não tinha piada!”. Ísis mostrou-me ainda que a sua escolha não será para “um dia”: “Eu já escolhi. Como te disse as mulheres são diversão.  Juntamo-nos, brincamos e seguimos. Com ele não.” e arremata num sorriso malandro “E já que agora é dificil estar com a minha amante preferida tenho de de arranjar novas soluções”.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6428" title="russia5" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/russia5.jpg" alt="" width="802" height="533" /></p>
<p>EVA. A MULHER DO PARAÍSO<br />
É uma Exotic Angel &#8211; como lhe chamam &#8211; Eve é um dos seus nomes. Talvez se tenha inspirado na primeira mulher do Paraíso, que não resistiu ao desejo e partilhou a tentação com o seu homem.<br />
Conhecemo-nos numa sessão fotográfica no Salão Erótico de Lisboa. Esperei um pouco, sem saber bem o que havia de encontrar. Quando chegou, envergava uma mini saia e uns saltos bem altos, dignos do poste. O cheiro da sua pele era o mesmo que se sentia no ar, graças a um pó de mel para dar brilho à pele. Sorriu-me abertamente, cumprimentou-me como se já nos conhecêssemos há anos e sentou-se ao meu lado. Para lá da cortina fechada não haviam segredos. Ao contrário do que seria de esperar, Eve não é daquelas mulheres altíssimas, irreais e deslumbrantes &#8211; como no Photoshop &#8211; mas é de uma beleza que se revela numa atitude descontraída e sexy, na voz doce e nuns olhos azuis bem claros que falam sozinhos à medida a conversa se desenrola. É daquelas mulheres com quem facilmente se estabelece empatia. É jovem, divertida, está muito à vontade consigo mesma e fala naturalmente da sua experiência. Para lá da primeira imagem consegui perceber que é simples, tal como eu, ao contrário da femme fatale que imaginava encontrar. É Húngara, tem 28 anos, vive em Portugal há seis anos e mantém uma relação com o seu namorado há três. Trabalha como modelo erótico e faz shows lésbicos com outra modelo, a quem também começou a chamar de namorada de há um ano para cá.<br />
Pouco depois escolhemos conversar sentadas no chão &#8211; de alcatifa vermelha como manda o figurino &#8211; como miúdas de quinze anos. Os quinze dos seus olhos. “Quando era miúda já queria ser stripper, lembras-te daquele filme com a Demi Moore?” – ria – “Era mesmo aquilo que queria fazer. Em miúda tinha a mania de me despir e dançar ao espelho. Acho que sempre fui muito malandra”.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6429" title="perles15" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/perles15.jpg" alt="Adriano Batista" width="355" height="533" /></p>
<p>MENINO NÃO ENTRA<br />
Eve vive duas relações: com o seu companheiro e com uma mulher. Mas este triângulo tem mais lados. Ambas têm namorados, todos se conhecem e todos conhecem a história Só eles ficam de fora. “Nem andam um com o outro, nem estão connosco quando estamos juntas, nem nenhum têm nada com a mulher do outro.” De repente pareceu-me a descrição de uma novela da quatro com tudo ao contrário: ninguém se mete com ninguém e todos estão bem com isso.  Mas Eve fez questão de simplificar: “Somos amigas que são namoradas e que têm namorados.”<br />
A sua forma de pensar começou a alargar-se no mundo da dança erótica onde tudo se proporcionou mais rapidamente. Do desejo à acção bastou-começar a relacionar-se com pessoas mais abertas. “Para nós o amor está no coração, não está no sexo”.<br />
Começou a sentir-se atraída por mulheres desde que comecou a trabalhar e “a estar rodeada de mulheres encantadoras. Olha lá para elas! Como é que é possível não lhes querer tocar?”- ria Eve.<br />
A sua primeira experiência com uma mulher “foi no liceu, quando eu e uma amiga minha nos beijámos. Gostei, mas nessa altura ainda tinha muito pouca experiência.” Anos mais tarde, ao lidar e aprender mais no mundo do sexo, foi perdendo as inibições e aprendeu a estar com mulheres.<br />
“Os bissexuais são vistos como promíscuos, indefinidos ou indecisos, sobretudo na comunidade gay, mas a promiscuidade há em todo o lado. Com heteros, gays, lésbicas.” Eve diz desejar cada pessoa como é, e ser homem ou mulher é secundário. E também que vive o melhor dos dois mundos, “Conseguires gostar ou ter prazer com alguém, seja homem ou mulher é muito libertador. Se o aceitas em ti e viveres bem com isso, é óptimo.”</p>
<div id="attachment_6430" class="wp-caption alignnone" style="width: 365px"><img class="size-full wp-image-6430" title="purple3" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/purple3.jpg" alt="" width="355" height="533" /><p class="wp-caption-text">Adriano Batista</p></div>
<p>A ALEGRIA E O PRAZER, NO FEMININO E NO MASCULINO<br />
Eve encontrou no companheiro um homem para todas as experiências. “Ele é muito especial, somos mesmo muito chegados.” Os dois lidam bem com as relações e a profissão dela. Quando se conheceram Eve já fazia espectáculos eróticos e ele sempre aceitou. Ao contrário de Eve, o namorado nem procura outra relação nem interfere na dela: “Nem o meu namorado, nem o namorado dela nos impedem de termos esta relação e nenhum deles tem outra. Só têm ciúmes às vezes porque gostavam de nos ver a fazer amor ou de estar connosco, mas isso também os excita. E eu sei que o meu namorado só teria outra pessoa se fosse para me dar prazer e seria outra mulher, claro.”<br />
A sua relação com ela “É muito divertida. Com a minha namorada tenho tudo o que preciso. Somos amigas, vamos às compras, saímos à noite, trabalhamos juntas e fazemos tudo o que as miúdas gostam de fazer. E quando nos apetece, temos sexo.” Para Eve o que diferencia o amor entre mulheres e homens está na intensidade. “Com um homem, o prazer é muito mais intenso, mais profundo. Com uma mulher é mais malandro, mais sexy. Não é possível comparar. A pele é diferente, o cheiro é diferente. As mulheres são mais suaves, enquanto os homens são mais fortes. Eu prefiro homens, embora goste muito de me divertir com elas. É mais descomprometido, somos mais nós, há muita cumplicidade. Com um homem há sempre uma cortina. Talvez seja insegurança ou faça parte de um jogo de sedução. É completamente diferente. Um homem dá-me muito mais prazer, mas quando se experimentam os dois é impossível comparar.”<br />
Eve conta também que os ciúmes estão sempre lá quando duas pessoas gostam realmente uma da outra. “Consigo lidar bem com isso. Sobretudo porque comunicamos imenso e não existe sensação de infidelidade. Eu confio muito nele e certamente que ele me ia dizer se precisasse de outra companheira se eu não lhe desse tudo o que ele precisa. Eu faria o mesmo.”<br />
A abertura e a comunicação entre Eve e o seu namorado talvez sejam o segredo do sucesso e Eve concilia as duas relações, tal como qualquer mulher com um namorado concilia estar com as suas amigas. “E é óptimo ainda por cima porque fazemos shows eróticos e o que se passa é mesmo verdadeiro. Não é nenhum daqueles em que duas mulheres o fazem só porque têm de fazer.”</p>
<div id="attachment_6431" class="wp-caption alignnone" style="width: 810px"><img class="size-full wp-image-6431" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/DSC_8179_2.jpg" alt="" width="800" height="533" /><p class="wp-caption-text">foto: Lady Myosostys </p></div>
<p>E SE UM DIA TIVER DE ESCOLHER?<br />
Os seus olhos não escondem o brilho quando fala do seu namorado. E quanto aos limites do prazer confessa que tudo depende das circunstâncias e de cada momento. Os seus amigos e a sua família sabem que Eve tem uma mentalidade muito aberta. “Eles sabem como eu sou e aceitam aquilo que me faz sentir bem. Mas tanto a minha família como os meus amigos sabem que o que preciso verdadeiramente é de um homem ao meu lado.”<br />
Quanto ao futuro das suas relações, Eve não se preocupa demasiado. “Eu não procuro pensar muito no futuro das minhas relações. Vivo para o momento e não penso no que vem a seguir. Mas é óbvio que se tudo estiver a correr bem e se houver um passo a seguir, eu avanço!”<br />
Ao longo da conversa, Eve sublinhava bastante que uma conversa aberta e sincera é essencial dentro do casal. Seja hetero, bissexual, swinger, monógamo ou polígamo. “Um casal precisa de ter sempre a máxima abertura para que os dois saibam o que o outro precisa. É natural que ao longo da vida as pessoas tenham curiosidades diferentes e necessidades diferentes. Nem todos somos monógamos e nem todos somos polígamos. Há quem esteja muito bem, ou mesmo muito mal com isso. No nosso casso torna a nossa vida mais completa, mais livre, mais excitante. E eles vêem-nos como mais malandras. Eles gostam disso.”<br />
Diz viver para o momento e não sabe se deixaria de ter outras relações para já. “Adoro os dois. Ter estas relações faz com que eu me sinta bem e explore mais o meu prazer e quando não me apetece tanto estar com um, estou com outro.”<br />
Eve e o namorado têm uma espécie de acordo: cada um faz o que quer. Mas se chegar a altura de se juntarem mesmo, ela quererá dedicar-se inteiramente a ele, e ele também. Tudo mais é acessório. “Nós somos acima de tudo amigas, gosto de ter prazer com ela, e ajuda saber que também o estimula a ele. E depois tanto eu como ele nos sentimos mais à vontade para viver coisas novas.” E apesar de rasgar um sorriso quando fala da sua amiga para todas as ocasiões, nota-se bem com qual deles prefere estar. “Se um dia tivesse de escolher, escolhia-o a ele. Sem pensar duas vezes.”</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/04/23/isis-eve-o-sexo-o-amor-e-duas-cabanas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Índia: Varanasi &#8211; mais perto do nirvana</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/04/16/varanasi/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/04/16/varanasi/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 15 Apr 2010 23:10:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Boa Vida]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[India: Varanasi-mais perto do nirvana]]></category>
		<category><![CDATA[Isabel Cunha]]></category>
		<category><![CDATA[Varanasi]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=6306</guid>
		<description><![CDATA[Texto e fotografias Isabel Cunha O ar estava quente e a humidade também se encontrava presente. Não era de estranhar pois estava na Índia e no mês de Outubro. Recordando as temperaturas normais neste país até nem estava muito calor, mas para quem gosta do clima marítimo da zona oeste do nosso país pode considerar-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-6307" title="India 2009 385VaranasiPuja" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/India-2009-385VaranasiPuja1.jpg" alt="" width="460" height="307" /></p>
<p>Texto  e fotografias<strong> Isabel Cunha</strong><br />
O ar estava quente e a humidade também se encontrava presente. Não era de estranhar pois estava na Índia e no mês de Outubro. Recordando as temperaturas normais neste país até nem estava muito calor, mas para quem gosta do clima marítimo da zona oeste do nosso país pode considerar-se uma experiência pouco agradável, embora já a tivesse previsto, mas uma coisa é pensar, outra é experimentar e sentir.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6295" title="india" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem6.png" alt="" width="460" height="421" /></p>
<p>Depois de 18 horas num comboio, com partida em Deli, tinha chegado a Varanasi, a cidade mais antiga do mundo, segundo os hindus. À espera do grupo estava o Gopal, o guia local,  que ajudou o Inácio no negócio dos preços pelos auto-riquexós; a cada chegada a uma cidade era inevitável o regateio dos preços, a que se seguia a nossa distribuição por 3 ou 4 veículos juntamente com as mochilas entaladas nas nossas pernas ou sobre o colo! De novo, aquele frenesim que é andar neste meio de transporte típico no oriente, num jogo de escapadela ao toque em camionetas, carros, motorizadas, bicicletas, carroças, pessoas e animais com quem nos cruzávamos  a escassos centímetros, sempre com o som constante das buzinas; de todos estes aqueles a quem os condutores dispensavam mais atenção e cuidados eram mesmo os animais e particularmente as vacas ou não estivéssemos na Índia! No caminho da estação ao hotel  ainda tivemos que dar uma boleia a alguém o que já era também habitual; desta vez uns quantos policias saltaram para o lado dos condutores porque o nosso local de saída era mesmo ao pé de uma esquadra.  Dali ao  hotel, o Puja Guest House, tivemos que fazer o caminho a pé, por ruas estreitas e onde o sol mal entrava, sempre com as mochilas às costas, tentando por um lado não nos perdermos, por outro evitando pisar lixo ou dejectos de animais, essencialmente vacas, o que diga-se, foi uma empreitada complicada.  <span id="more-6306"></span><img class="alignnone size-full wp-image-6296" title="India" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem4.png" alt="" width="425" height="614" /></p>
<p>Juntamente com mais meia dúzia de cidades na Índia, Varanasi anteriormente designada por Benares ou Kashi, é uma das cidades sagradas do hinduísmo, recebendo a visita de milhões de hindus que aqui acorrem de todo o país, em peregrinação para se banharem no Ganges e assim se libertarem dos pecados.  Quando abri a janela do quarto vi logo o mítico Ganges mesmo uns metros abaixo do hotel, assim como alguns dos cerca de duzentos templos que existem na cidade dedicados a Shiva. Reparei que as janelas dos quartos eram gradeadas, e pensei que talvez houvesse assaltos mas depois percebi  que devia ser pelos inúmeros macacos que andavam por ali, por cima dos pátios das casas, nas árvores e nos templos. No terraço do Puja a  visão sobre Varanasi e o Ganges era ainda melhor e mais impressionante; quer a cidade quer o rio estavam envoltos numa ligeira neblina que não deixava ver com clareza total as casas e os telhados de cores meio desbotadas, a cor da água, os barcos  e a outra margem do rio.  Por breves momentos tentei sentir alguma  da espiritualidade e do misticismo que Varanasi representa para os hindus, mas foi em vão; quem sabe durante a estadia ainda conseguisse essa sensações.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6297" title="Índia" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem1.png" alt="" width="460" height="333" /></p>
<p>Depois  do pequeno almoço no terraço tomado quase na hora do jantar (devido à diferença horária) descemos as escadas até à recepção onde o guia nos esperava para nos conduzir até ao crematório principal da cidade que se situa na Manikharnika Ghat, de novo pelas ruelas estreitas e sujas de lixo. Reparei que os edifícios, os templos e os gaths (designação dada para as escadas á beira do rio) pareciam existir desde o inicio da humanidade, mas no caso particular dos gaths, foram construídos no século XVIII e venho mais tarde a saber que cada um tem um nome  e uma função especial, como por exemplo os gaths de Manikarnika e de Harishchandra que são os crematórios, ou os de Panchaganga onde se pensa que convergem  cinco rios sagrados. Os  gaths de Varna e Assi situam-se a este e oeste e estabelecem os limites da cidade sendo que estes nomes provém de dois afluentes do Ganges.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6298" title="índia" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem2.png" alt="" width="412" height="635" /></p>
<p>Quando cheguei a Manikharnika Gath nunca pensei que o impacto fosse tão chocante: estar aqui pode ser considerada  uma das experiências mais fortes e perturbadoras que se pode experimentar na vida. Aqui durante as 24 horas ininterruptamente procede-se à cremação dos corpos dos falecidos, graças ao trabalho de uma dezena de homens, os dohms, responsáveis por transportar às costas  grandes troncos de madeira dos barcos para pilhas espalhadas pelos gaths superiores e depois de novo transportá-la mais para junto  da margem, onde cada corpo será cremado durante algumas horas. Somos avisados que não é permitido fotografar o local e os corpos e eu questionei-me se naquele momento seria capaz de fotografar qualquer coisa que fosse. Já tinha lido alguns artigos sobre Varanasi e sobre os costumes fúnebres dos hindus, e sabia que nesta cidade estes rituais eram mais exacerbados mas nada do que tinha lido tinha sido suficiente para me preparar para esta realidade. Esta cidade indiana é a que tem a população mais velha do país, porque quem pode vem para Varanasi para ser cremado e para as suas cinzas serem atiradas ao Ganges, pois só assim poderá ser quebrado o ciclo das reencarnações. Reparei que ali a dois passos do guia e do grupo, pelo menos dois a três homens emagrecidos estavam pelos cantos enrolados, parecendo-me  já não faltar muito tempo para se finarem.</p>
<p>Mais à nossa frente mais uma cena quase indescritível; cerca de meia dúzia de cadáveres encontravam-se no meio do mesmo número de  pilhas de madeira que ardiam lentamente, enquanto que outros corpos enrolados em panos e depositados sobre liteiras aguardavam que chegasse a sua vez numa espécie de fila. Ainda hoje me interrogo como consegui presenciar estes rituais da cremação pelas imagens algo chocantes que vi. Algumas vacas pretas comiam flores e folhas secas e refrescavam-se na água ali mesmo em frente dos corpos que eram cremados, ao mesmo tempo que alguns homens emergidos no rio peneiravam a água, procurando jóias ou outros valores que tivessem restado da cremação dos corpos e que reverte para pagamento dos dohms, enquanto mais à frente da margem alguns turistas em pequenos barcos de madeira no rio tentavam ver melhor os rituais e também mais barcos carregados de madeira se aproximavam para descarregar   mais lenha. Enfim uma verdadeira “atracção” que me estava a deixar quase hipnotizada: o nosso guia ia explicando todos os procedimentos e o seu significado à luz da religião hindu mas eu quase não o ouvia e mal conseguia ver alguma coisa à minha volta; ali o ar era quase irrespirável pelo calor que estava no local (talvez uns 45 a 50ºC) e pelo cheiro emanado pelos corpos a serem cremados. Gopal explicou-nos que há cinco situações em os corpos não são cremados: quando são crianças (porque ainda não têm pecado), quando se trata de mulheres grávidas, quando são sacerdotes, quando são animais mortos; nestas situações é atada uma corda com uma pedra e o corpo é atirado ao rio. A quinta situação são os casos em que a pessoa morre por picada de cobra – o corpo é colocado numa maca de bambu a flutuar no Ganges pois crê-se que poderá ser ressuscitado por um sadhu (homem santo) que o encontre. Chamou-nos à atenção também que muitas vezes a temperatura não é suficiente para queimar todo o esqueleto humano, ficando muitas vezes por arder a bacia nas mulheres e o tórax nos homens, que são posteriormente atirados ao rio. Relativamente aos corpos dos falecidos  diz-nos  que são preparados em casa e transportados em liteiras de madeira pelos familiares, que entoam cânticos, pelas ruas até ao gath; as mulheres jovens são envoltas em panos de cor laranja e  as mais idosas em panos vermelhos, enquanto que para os homens se usam brancos. Habitualmente um familiar mais próximo vai buscar o fogo à chama eterna de Shiva que está num templo ali situado, e que segundo ele se mantém acesa desde a criação do Universo. Este familiar procede a um ritual da sua própria preparação em que rapa todo o cabelo  e deixando apenas um pequeno pedaço do mais comprido na região occipital, vestindo-se também de branco. As mulheres não participam nos rituais da cremação pois sendo mais emotivas poderiam chorar o que não deverá ser feito, uma vez que a cremação é encarada como uma possibilidade para libertação do ciclo das reencarnações e alcançarem o nirvana.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6310" title="India 2009 385VaranasiPuja1" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/India-2009-385VaranasiPuja11.jpg" alt="" width="900" height="600" /></p>
<p>Em boa verdade, fotografar as cenas e os rituais não fotografei, e poderia tê-lo feito, disparando-se discretamente a máquina, no entanto achei que não era correcto fazê-lo; afinal embora parecesse que estávamos a assistir a um espectáculo devido à quantidade de turistas em barcos de madeira que se aproximavam das margens ou que por ali circulavam, assim como a presença de alguns  locais que ali permaneciam sem estarem propriamente ligados a nenhum falecido que estava a ser cremado, a verdade é que aquilo não era uma diversão, mas sim uma demonstração de fé e religiosidade.  As imagens de Manikarnika vão ficar para sempre gravadas na minha memória sem serem necessárias fotografias para me relembrarem a cor enegrecida das construções, templos e gaths do local, provocada pelos milhares de cremações durante anos e anos sem interrupção, a temperatura elevada, o cheiro do ar que era quase irrespirável, a movimentação dos homens que carregam a madeira, os familiares dos mortos junto aos corpos, os homens que emersos na água procurando as jóias no meio das cinzas atiradas na margem, alguns cães enfezados que por ali rondavam em busca de “algo” que pudessem comer e as vacas a beberem água e a banharem-se. Tudo isto, assim como alguns homens e mulheres que mais à frente se banhavam e lavavam roupa na água sagrada do Ganges, constituíram um quadro tão impossível de esquecer como difícil de descrever.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6299" title="India" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem3.png" alt="" width="460" height="333" /></p>
<p>Mais à frente e já noutros gaths era visível um templo meio inclinado e apenas com a parte superior a descoberto. Foi então que me apercebi que o rio estava cheio e que alguns dos templos estavam submersos, assim como os deuses  neles contidos; quando as águas do Ganges descem drasticamente ficam de novo a descoberto e prontos para serem venerados. Deixámos os gaths e circulámos pelas ruas estreitas de regresso ao hotel. De novo o lixo no chão, as vacas, as cabras, as motorizadas e os locais nas suas actividades diárias: homens a costurar à máquina, outros a vender chai, outros a preparar paan, a cozer nan (pão) e a vender um variedade infinita de coisas impossíveis de enumerar desde flores a enfeites, roupas a comida.  Passámos depois por uma rua bastante curiosa: no meio do lixo e da sujidade, algumas casas com o chão forrado de panos imaculadamente brancos em que homens vestidos também vestidos com punjabis brancos ou antes bege (o branco indiano) estavam sentados lendo o jornal ou um livro, ou simplesmente olhando quem passava na rua. Vim a saber que Varanasi é também conhecida pela qualidade das suas sedas e que tínhamos acabado passar na rua onde estão a maior parte dos  vendedores de sedas. Outra coisa curiosa foi encontrar diversos homens a passar a ferro: aqui são os homens que se dedicam a esta tarefa assim como lavar a roupa (os dobhis); à porta de algumas casas está montado um pequeno balcão forrado de branco para que se possa passar a roupa com ferros bem grandes a lenha. A roupa por seu lado é lavada no água do Ganges e estendida nos gaths; aliás esta água é usada para tudo, desde lavar a roupa, tomar banho, cozinhar e beber.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6300" title="Imagem7" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem7.png" alt="" width="422" height="598" /></p>
<p>Se Varanasi é a cidade sagrada do hinduísmo convém mencionar que outras religiões aqui se praticam em amena convivência e assim o é há milhares de anos. De referir  por exemplo que o do Templo Dourado (ao qual os turistas não têm acesso)  se situa ao lado de uma mesquita e é neste espaço, fortemente vigiado por polícias, que diariamente hindus e muçulmanos fazem as suas orações. Um pouco mais à frente entre outros pequenos templos hindus situa-se um templo budista, o Nepali Temple. Conta-se que um imperador do Nepal veio a Varanasi consultar um sacerdote hindu porque estando casado há vários anos não tinha descendência: o sacerdote disse-lhe que regressasse ao Nepal e que distribuísse as suas riquezas aos pobres e que em seguida o seu desejo de constituir descendência se realizaria. Como tal aconteceu, o imperador decidiu construir também um templo em Varanasi que se encontra decorado com figuras esculpidas com cenas do Kamasutra. É pois curiosa esta aparente coexistência pacífica  e tolerante de uma religião que venera milhares de deuses, com outras para quem só existe um deus. Aliás em tom jocoso um autor mencionou numa obra sua que o hinduísmo seria a Disney das religiões, pelo que  pensando nas imagens de alguns dos deuses hindus, com as suas faces risonhas e coloridas diria que o hinduísmo poderá ser a United Colors das religiões.</p>
<p>Para o final do dia, que acontecia por volta das 17 horas, estava programado um passeio de barco pelo Ganges para apreciar o pôr do Sol, que se revelou um momento algo fúnebre uma vez que o sol se põe por trás dos edifícios e dos templos, o que os faz parecer ainda mais antigos, degradados, descoloridos e escuros, tal como a água do Ganges se torna mais escura e com aspecto barrento. Salvou este passeio termos assistido a uma cerimónia religiosa na Dashaswamedh Ghat de purificação e limpeza dos pecados e de homenagem aos quatro elementos do mundo que decorre diariamente denominada de puja. Foi um pequeno quase mágico e belo não fora a sujidade das escadas onde nos sentámos para assistir e ainda a presença de algumas vacas que repousavam nos gaths misturadas com crentes, sadhus e turistas que assistiam à cerimónia que decorria num palco montado para o efeito e onde uns sete sacerdotes gesticulavam, ao som de música e cânticos e sinos, uma espécie de lamparinas de metal acesas ao som da música. Creio que tal como durante a visita à Manikarnika Gath a minha maneira de ser quase asséptica   me impediu de apreciar e sentir a espiritualidade do momento, apesar das belas imagens das luzes e das chamas do ritual, bem como das inúmeras armações com velas acesas e pétalas de flores que crianças vendiam nas margens e que os turistas compravam, acendiam e deitavam á agua pedindo um desejo e que flutuavam como estrelas rio abaixo. Quem sabe se voltasse outro dia, outro e outro conseguiria modificar os meus pensamentos “estéreis” de europeia assim como os meus sentimentos desapegados do ritual.</p>
<p>Para terminar o dia nada melhor que depois da religiosidade seguirmos para o consumismo. Mesmo numa cidade sagrada da Índia o sagrado encontra-se com o profano, pelo que fomos “negociar” sedas, não sem antes combinarmos um novo passeio de barco no Ganges desta vez ao amanhecer, que ocorria por volta das 5h e 30m do dia seguinte. À noite no hotel tínhamos músicos a tocar citara e a cantar enquanto jantávamos mais uma refeição “very specie” para as nossas papilas gustativas e para os nossos estômagos sensíveis; foi a refeição mais tipicamente indiana que tive na viagem   a que  chamei “Music and Food” à semelhança do filme “Music and Lyrics”.</p>
<p>Pelas 5 da manhã do dia seguinte quando me vestia para o passeio de barco reparei que as calças e a blusa me estavam muito justas, e olhando para as mãos, braços, pernas e pés notei que estavam inchados, mas como não me sentia mal, saí para assistir ao nascer do sol e para mais um passeio de barco pelo Ganges. Aquela hora já vários barcos com turistas andavam no rio e muitos hindus também já se encontravam nos gaths para se lavarem, ou para fazerem as suas orações ou ioga,  alguns vestidos com lunghis (lençóis brancos que os homens enrolam à volta das pernas); mais à frente perto da  Harishchandra Gaht um corpo estava a ser cremado sendo visíveis os pés do cadáver. Junto à pilha de lenha e ao corpo encontravam-se alguns familiares vestidos de branco  e alguns cães enfezados.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-6303" title="Imagem8" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem8.png" alt="" width="418" height="642" /></p>
<p>Mais uma vez o céu tinha aquela neblina suave que parecia uma fina cortina que dava uma cor e um efeito especial ao sol. No barco ouvíamos os sinos a tocarem e cada vez mais hindus chegavam aos gaths. À medida que o sol subia a  cidade começava a adquirir uma imensa luminosidade devido às cores alaranjadas e douradas dos edifícios, dos topos dos templos, das várias imagens de deuses e dos gaths, como que renascendo das cinzas e rejuvenescendo da sua antiguidade do final de tarde do dia anterior, ao mesmo tempo que agora a água do Ganges parecia dourada . Os gaths estavam agora apinhados de hindus vestidos com roupas coloridas nomeadamente as mulheres e os sadhus com as suas vestes laranja e amarelo. Saímos do barco e passeámos pelos gaths onde a azáfama era grande: barqueiros acercavam-se da margem para nos oferecer passeios de barco, algumas crianças queriam vender-nos postais ou velas para lançar ao rio, alguns  homens e mulheres oravam, outros lavavam-se energicamente, enquanto que sadhus passeavam com a sua bilha metálica numa mão e um tridente na outra, dobhis lavavam roupa e estendiam-na nos gaths, enquanto mais à frente duas mulheres faziam pequenas bolas com excrementos de vaca que serviriam de combustível depois de secos.  O Sol já apertava e o calor começava a ser muito quase, tendo procurado um pouco de sombra nos enormes chapéus de palha tipo cogumelos que se encontravam por ali. Como levava a máquina fotográfica e ia captando algumas imagens, vi-me rodeada de uma família que me pediu para fotografar todos os membros (perto de vinte pessoas, adultos e crianças pequenas). Logo em seguida já tinha outra família à espera para ser fotografada. Ali perto estava uma pequena loja onde trabalhava o Tinku um rapaz de dezoito anos, cujo pai tinha falecido, e que era o responsável pela subsistência da sua família: a mãe, o irmão e ainda duas irmãs. Explicou-me que ficou a tomar conta do negócio do pai e que queria que os irmãos mais novos pudessem estudar e que a mãe não precisasse de trabalhar. Contou-me ainda que se estava a aproximar uma grande festa para os hindus, o divali,  e que estavam a chegar muitos peregrinos de toda a Índia à cidade sagrada para os festejos. Agradeci as informações que o Tinku me deu e preparava-me para dar mais um passeio pelas margens do rio quando comecei a sentir-me mal, ao contrário do que se possa pensar não com sintomas de gastroenterite o mais habitual acontecer aos turistas na Índia, mas sim com uma sensação de que o coração parecia saltar-me do peito ao mesmo tempo que batia aceleradamente e que eu suava em bica.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-6291" title="Varanasi" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem5.png" alt="" width="422" height="548" /></p>
<p>Não sei como mas apesar de todo este mau estar lá consegui subir os gaths, andar por umas quantas ruas  para regressar ao hotel e ainda galgar as escadas correspondentes a quatro andares até ao meu quarto. Deitei-me na cama e procurei descansar um pouco, apesar da ansiedade provocada por  aquela sensação desagradável de que não sabia a causa, assim como pelo medo de não poder continuar a viagem. Pela cabeça passavam-me agora as imagens da véspera e da manhã daquele dia como quem vê um filme no qual participa, tendo acabado por adormecer profundamente mesmo com o barulho da ventoinha do tecto que estava ligada, na esperança que me refrescasse a mim e ao quarto que já estava quentíssimo. Acordei três horas depois, quando me chamaram para ir de novo para a estação. Quando olhei para as mãos e para os pés, reparei que estavam  normais assim como a roupa já não me estava apertada; era como se nada me tivesse acontecido! Fiquei muito surpreendida mas sobretudo satisfeita por me sentir bem de novo  e nos meus pensamentos só me ocorreu que tivesse sido a cidade sagrada e os deuses que me ajudaram a recuperar e então agradeci mentalmente &#8211; “Namastê”. Já não me sentia doente, antes pelo contrário sentia-me com uma nova energia e ia poder continuar a minha viagem por este país místico, incompreensível e  inexplicável.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6304" title="Imagem2" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem24.png" alt="" width="412" height="635" /></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/04/16/varanasi/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A celebração da Páscoa no interior (Multimédia)</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/04/04/a-celebracao-da-pascoa-no-interior-multimedia/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/04/04/a-celebracao-da-pascoa-no-interior-multimedia/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2010 01:11:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[a23]]></category>
		<category><![CDATA[quaresma]]></category>
		<category><![CDATA[Susana Paiva]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=6110</guid>
		<description><![CDATA[Fotografia e edição de Susana Paiva - O "Enterro do Senhor", a "Via Sacra" e a "Paixão de Cristo", são realizações desta quadra que ainda subsistem. Na cidade do Fundão centenas de cristãos assinalam durante três dias a paixão e morte de Jesus, dia que a Igreja Católica instituiu de jejum, silêncio e oração. A fotógrafa Susana Paiva captou instantes marcantes da celebração da Páscoa no Fundão. "Das trevas para a luz" regista através da fotografia tradições que subsistem com o passar dos tempos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-6114" title="quaresma /susana Paiva" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem21.png" alt="" width="452" height="295" /></p>
<p>O &#8220;Enterro do Senhor&#8221;, a &#8220;Via Sacra&#8221; e a &#8220;Paixão de Cristo&#8221;, são realizações desta quadra que ainda subsistem. Na cidade do Fundão centenas de cristãos assinalam durante três dias a paixão e morte de Jesus, dia que a Igreja Católica instituiu de jejum, silêncio e oração. A fotógrafa Susana Paiva captou instantes marcantes da celebração da Páscoa no Fundão. &#8220;Das trevas para a luz&#8221; regista através da fotografia tradições que subsistem com o passar dos tempos.</p>
<p>Fotografia e edição de<strong> Susana Paiva</strong></p>
<p><object id="soundslider" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="460" height="333" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowScriptAccess" value="always" /><param name="quality" value="high" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="menu" value="false" /><param name="bgcolor" value="#333333" /><param name="src" value="http://homepage.mac.com/mariacerdeira/Quaresma_SPaiva/soundslider.swf?size=2&amp;format=xml&amp;embed_width=460&amp;embed_height=333&amp;autoload=false" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed id="soundslider" type="application/x-shockwave-flash" width="460" height="333" src="http://homepage.mac.com/mariacerdeira/Quaresma_SPaiva/soundslider.swf?size=2&amp;format=xml&amp;embed_width=460&amp;embed_height=333&amp;autoload=false" bgcolor="#333333" menu="false" allowfullscreen="true" quality="high" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/04/04/a-celebracao-da-pascoa-no-interior-multimedia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Ruas de Escritas</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/03/21/ruas-de-escritas/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/03/21/ruas-de-escritas/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 02:37:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Alexandre O’Neill]]></category>
		<category><![CDATA[Dia Mundial da Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Irene Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[José Gomes Ferreira e Natália Correia]]></category>
		<category><![CDATA[lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Paulouro]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=5920</guid>
		<description><![CDATA[Texto Ricardo Paulouro - Malraux dizia que a morte transforma a vida em destino. Tal como na hora do crepúsculo, em que as formas morrem lentamente mas continuam a existir na linha do horizonte, as vozes dos que são recordados ganham nova força e permitem-nos, por vezes, encontrar novos sentidos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5921" class="wp-caption alignnone" style="width: 447px"><img class="size-full wp-image-5921" title="Danilo Pavone" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem141.png" alt="" width="437" height="253" /><p class="wp-caption-text">Fotografia de Danilo Pavone (www.danilopavone.com )</p></div>
<p>Texto | <strong>Ricardo Paulouro</strong> Fotografias | <strong><a href="http://www.danilopavone.com">Danilo Pavone </a><br />
</strong></p>
<p>Texto &#8211; Ricardo Paulouro Malraux dizia que a morte transforma a vida em destino. Tal como na hora do crepúsculo, em que as formas morrem lentamente mas continuam a existir na linha do horizonte, as vozes dos que são recordados ganham nova força e permitem-nos, por vezes, encontrar novos sentidos. No caso dos escritores, que se cumprem na palavra e pela palavra, o seu legado é nada mais do que a própria obra, as palavras a matéria-prima. Isto significa que essas palavras que resistem ao desgaste do tempo deixam de ser apenas a expressão de um ser individual para serem absorvidas pelo colectivo. Testemunho de um ‘eu’, “a poesia é o que recapitula o mundo / chamando-o em cada chama / pela chama de cada sílaba”, como já o disse Manuel Gusmão. Testemunhar e recapitular o mundo através do olhar dos escritores permite-nos partilhar e convergir face a essa experiência individual para, em seguida, partir em novas explorações e apreensões da realidade.<span id="more-5920"></span></p>
<p>Encontramos, por isso, muitas vezes, na obra de cada escritor, um roteiro por caminhos mais ou menos erráticos da escrita e da cidade. Tomemos então como percurso a seguir a obra de quatro escritores – Alexandre O’Neill, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira e Natália Correia – e como cenário, a cidade de Lisboa.</p>
<p>Ao entrarmos nos lugares de Lisboa através das obras destes escritores, que são, de algum modo, as vozes da cidade, partilhamos necessariamente uma rotina quotidiana de ruas, mas também de afectos. Assim, pensar a relação entre o mundo literário e o espaço físico implica também problematizar a questão da representação do sujeito. Nas habitações errantes dos mundos de Irene Lisboa, O’Neill, Gomes Ferreira ou Natália Correia, percorridas por substantivos como o rio, as ruas, ou o eléctrico, a cidade é o eixo a partir do qual se constrói o tempo individual de cada sujeito. Mais do que simples cenário, porque também parte integrante do sujeito, a cidade é o espaço do imaginário, apreendido enquanto suporte de beleza, portador de significados que são interpretados e lidos.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5922" title="Danilo Pavone" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem112.png" alt="" width="457" height="226" /></p>
<p>Desde Fernão Lopes a Garcia de Resende, passando por Beckford a Fialho, a cidade de Lisboa tem sido descrita por muitos. A imagem que se foi criando da cidade foi importante para compreender determinadas representações literárias em que o imaginário se sobrepôs ao real. No entanto, Lisboa é também a cidade de muitos poetas e prosadores, cujas <em>cartografias</em> de um Eça ou de um Fernando Pessoa nos fazem hoje vê-la melhor. Usar o elevador da Glória ou descer a pé pelo Chiado em direcção à Baixa pombalina, ou simplesmente seguir o trilho do eléctrico 28, pela Rua do Limoeiro, permite-nos apreciar as cores de uma cidade, já tão glosada pelos seus poetas.</p>
<p>Procurando entender a ligação entre esses cenários e a geografia literária de cada um destes quatro escritores, colocou-se-nos uma questão: onde <em>habitam</em> hoje Irene Lisboa, Alexandre O’Neill, Natália Correia ou José Gomes Ferreira? Decidimos, por isso, submergir na malha urbanística da cidade de Lisboa. Desde os primeiros bairros erguidos no sopé do Castelo mourisco, passando pelo bairrismo dos becos e travessas de Alfama e da Mouraria, onde as ruas funcionam como membros de um corpo colectivo, deparámo-nos, pelo caminho, com nomes de ruas tão esplendorosas como: Largo da Paz ou Travessa da Madressilva.</p>
<p>Tomámos, como primeira paragem, a rua Alexandre O’Neill, localizada entre a Rua Pinto Ferreira e a Rua Artur Lamas, na freguesia de Alcântara. O’Neill, cuja poesia tinha sido invadida pelo quotidiano, sem nunca abdicar do olhar irónico sobre o mundo, habita numa rua onde as casas estão demasiado coladas a si próprias, onde o ruído permanente é o barulho dos carros a passar. “Já aqui vivo há quarenta anos mas não sei quem é esse senhor”, confidencia-nos uma senhora debruçada sobre o parapeito de um rés-do-chão. “Nunca nos explicam nada, sabia?”. Não, ignorávamos por completo que alguém pudesse sair de casa todos os dias e na esquina estivesse o O’Neill, à espera. À espera de ser reconhecido. Uma das casas está em ruínas, a corroer memórias. “Deviam deitar isto abaixo. Qualquer dia acerta em alguém. Isso sim é importante.” Seguimos caminho compreendendo ainda melhor os versos do poeta: “Estou onde não devia estar. / Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre / [a fronteira da nostalgia / e a solução um penacho de fumo / o meu coração fumegando na linha do horizonte” («A Pluma Caprichosa»).<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5923" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem121.png" alt="" width="460" height="206" /></p>
<p>Próximo destino: Rua Irene Lisboa. Para Irene Lisboa o quotidiano é considerado como material de reflexão. A crónica urbana e o visualismo idênticos aos de Cesário fazem da Lisboa da escritora uma cidade enquanto elemento actuante, como se de uma personagem se tratasse, sempre ancorada na memória. Tivémos, no entanto, que experimentar a sensação da deambulação porque a rua Irene Lisboa não queria ser encontrada. Na freguesia de Benfica, entre a Rua Eduardo Schwalbach e a Rua Dr. Cunha Seixas, sentimos como Irene: “A minha rua não é feia, tinha-me dito a Adelina um dia, quando eu mal a conhecia. E não era, dava uma bonita volta em cima, de onde se avistava Monsanto de esguelha.” (in <em>Esta cidade!</em>). Ladeada por pequenas casas solarengas, na Rua Irene Lisboa um dia é igual a outro dia. De quando em vez, mesuras nos jardins e portadas abrindo em flor, arejam as casas térreas, de trancas à intimidade. Mas uma rua sempre é uma rua, mesmo que pequena e silenciosa, porque afinal “uma rua vira para o mundo duas esquinas importantes pelo menos”! (Irene Lisboa, <em>Esta Cidade!</em>). «Nunca li nada da Irene Lisboa. Com o passar dos anos todos os dias sei menos uma coisa!», brinca o senhor Duarte, encostado à cerca de sua casa. «Aprender o quê? Já não há mais nada para aprender.» Usámos a técnica de sempre: citar nomes de escritores famosos que as pessoas assumem como íntimos. «A Irene Lisboa devia ser uma grande escritora para ter o nome numa rua!».<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5924" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem13.png" alt="" width="439" height="156" /></p>
<p>Para a Rua José Gomes Ferreira preferimos ir a pé, seguindo o exemplo do próprio: “Sempre andei muito. Sempre fui um vagabundo de ruas sem sentido. Para quê? Não para pedir esmola – evidentemente. Às vezes apenas para revisitar velhas montras. Outras para fazer versos – que é uma espécie de pedir esmola a deuses pouco caritativos” (<em>Calçada do Sol</em>). Entre a Rua Silva Carvalho e a Avenida Eng. Duarte Pacheco, na freguesia de Santa Isabel, vive agora Gomes Ferreira. Assiste ao corre- corre diário, ao tráfego intenso, ao consumismo desenfreado em direcção às Amoreiras. Quer as viaturas, quer as pessoas andam à velocidade convencionada pelo código. Será esta uma das «ruas sem sentido»?</p>
<p>Natália Correia foi a que melhor nos recebeu em casa. Ali, em pleno coração da Graça, também espaço de raízes e memórias para a escritora, entre a Rua dos Sapadores e a Rua da Graça, Natália Correia pode encontrar o silêncio, nesse lugar ameno que agora habita: “Não digas nada: os fados não comove / A vã palavra. Calados escutemos / O silêncio em que o sábio deus envolve / Os seus lugares amenos” (in <em>O Armistício</em>). Ali, onde a tradição nunca cedeu aos ventos da mudança, Natália pode celebrar em pleno a vida, essa redistribuição entre o homem, a voz, o silêncio e os deuses.</p>
<p>A relação do lugar com o homem permite-nos não só apurar o olhar em relação a determinado lugar, mas também apercebermo-nos que a melhor forma de conhecer a cidade não é através de nenhum roteiro específico mas deixarmo-nos ir à deriva, experimentarmos a desorientação que nos permite apreciar pormenores, nem por isso, menos importantes, como a toponímia. António Gedeão, Carlos de Oliveira, Pedro Homem de Melo, Jorge de Sena, Fernando Pessoa e tantos outros sobrevivem ao tempo nas esquinas de edifícios que contam a história da cidade antiga. Nas cidades escritas tudo é expressão do sujeito e do seu lugar no mundo. Busca-se então esse <em>passaporte</em>, como diria Natália Correia, que faculte a identidade presa ao passado e aos espaços da memória. A toponímia, investida de um sentido de homenagem, é também um ‘palavrar’, na acepção de Bernardo Soares, um ‘in memoriam’ em que as palavras surgem como entidades vivas. No entanto, o homem não morre apenas enquanto ser natural mas também enquanto elemento pertencente a uma dada comunidade, pois o sentido mais profundo da existência é determinado por este tecido de relações e interdependências. Logo, o eu não pode existir sem o outro, que se diferencia dele e se lhe opõe como limite.</p>
<p>Terminado o roteiro, ocorrem-nos palavras de Maria Judite de Carvalho: “Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança.” (in <em>Tanta Gente, Mariana</em>). Na roda viva da cidade, as placas nas esquinas das ruas continuam intocadas, as obras memorizadas. Na rua de Natália Correia, um senhor que passava assistia emocionado à consagração da poeta numa das ruas do seu bairro. Teve saudades. Só não sabia de quê.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/03/21/ruas-de-escritas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Filipinas: Montanha Fumegante, a maior lixeira a céu aberto do mundo</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/03/19/filipinas-montanha-fumegante-a-maior-lixeira-a-ceu-aberto-do-mundo/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/03/19/filipinas-montanha-fumegante-a-maior-lixeira-a-ceu-aberto-do-mundo/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 14:17:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[asia]]></category>
		<category><![CDATA[bairro de lata]]></category>
		<category><![CDATA[filipinas]]></category>
		<category><![CDATA[Manila]]></category>
		<category><![CDATA[pacifico]]></category>
		<category><![CDATA[paulo nunes dos santos]]></category>
		<category><![CDATA[pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[smokey mountain]]></category>
		<category><![CDATA[tondo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=5902</guid>
		<description><![CDATA[Situada em Tondo, nas imediações do porto de Manila, encontra-se a Montanha Fumegante (Smokey Mountain no seu nome original), um dos mais pobres e degradados bairros-de-lata do mundo, uma vergonha para o governo das Filipinas e um símbolo maior de pobreza global.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-5903" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_009.jpg" alt="" width="450" height="299" /></p>
<p><em>Fotografia e texto de <strong>Paulo Nunes dos Santos</strong></em></p>
<p>Situada em Tondo, nas imediações do porto de Manila, encontra-se a Montanha Fumegante (Smokey Mountain no seu nome original), um dos mais pobres e degradados bairros-de-lata do mundo, uma vergonha para o governo das Filipinas e um símbolo maior de pobreza global.<span id="more-5902"></span></p>
<p>Com cerca de 40 anos de idade, a Montanha Fumegante é um colossal monte de lixo e casa para mais de 30 mil pessoas que vivem nos detritos ali despejados. A população local literalmente vive desses detritos, rebuscam entre o lixo, queimam-no, separam-no em sacos de plástico, reciclam-no, vendem-no, e muitas das vezes ate se alimentam dele. Uns vendem comida em barracas improvisadas junto ao porto de cidade, outros são carregadores nas embarcações, outros são condutores de bicicleta-taxi, mas a maioria faz do lixo o principal meio de sustento.</p>
<p>A população é de tal ordem dependente da montanha, que se torna quase impossível distinguir à primeira vista o que é e o que não é lixo. As inúmeras habitações construídas à base de detritos confundem-se com o aglomerado de despojos, e a montanha é agora um bairro-de-lata onde cerca de 30 mil pessoas reside, trabalha e sobrevive.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5904" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_001.jpg" alt="" width="450" height="279" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5905" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_004.jpg" alt="" width="450" height="278" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5906" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_003.jpg" alt="" width="450" height="296" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5907" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_0051.jpg" alt="" width="441" height="301" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5908" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_008.jpg" alt="" width="438" height="301" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5909" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_006.jpg" alt="" width="450" height="265" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5910" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_007.jpg" alt="" width="450" height="292" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5911" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_002.jpg" alt="" width="450" height="286" /></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/03/19/filipinas-montanha-fumegante-a-maior-lixeira-a-ceu-aberto-do-mundo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>As estranhas e fantásticas histórias de Jolon</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/01/30/as-estranhas-e-fantasticas-historias-de-jolon-2/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/01/30/as-estranhas-e-fantasticas-historias-de-jolon-2/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 30 Jan 2010 15:06:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Jolon]]></category>
		<category><![CDATA[Jornal do Fundão]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Margarida Dias]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Paulouro]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Pelejão]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=4949</guid>
		<description><![CDATA[Reportagem - Ora venha de lá essa história! Jolon, correspondente do “Jornal do Fundão” em Penamacor há mais de 30 anos tem uma retrosaria aberta com um balcão de histórias de vida que recolhe. É um biógrafo do povo, um jornalista que nos leva ao coração sentimental das histórias. Vamos à boleia 
Texto-Ricardo Paulouro, Rui Pelejão &#124; Fotografias de Margarida Dias ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-4950" title="Imagem11" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/Imagem11.png" alt="" width="460" height="320" /></p>
<p><strong>Ora venha de lá essa história! Jolon, correspondente do “Jornal do Fundão” em Penamacor há mais de 30 anos tem uma retrosaria aberta com um balcão de histórias de vida que recolhe. É um biógrafo do povo, um jornalista que nos leva ao coração sentimental das histórias. Vamos à boleia. </strong>Texto <strong>Ricardo Paulouro</strong> e <strong>Rui Pelejão Marques</strong> Fotografias <strong>Margarida Dias</strong></p>
<p><span style="color: #333333;"><strong>“Eu dormia no palheiro perto das cabras e de dois burros que meus pais tinham. Uma noite, ao entrar, reparei que os burros tinham o pêlo todo eriçado e cheio de gotas de água. Deitei-me e de repente noto que me tiram a manta de cima. Tento acender a lanterna, mas gastei metade da caixa de fósforos e não consegui acendê-la. Entretanto sinto como que pessoas a passarem perto de mim e risos. Pareceu-me reconhecer o rir de uma moça de quem eu andava atrás. Então disse-lhes: ó filhas do diabo se quereis brincar vinde aqui para a cama que eu já vos ensino a brincar. Mas elas continuavam a rir e a correr. Tentei agarrá-las com a mão esquerda – dizem que só assim se conseguem apanhar as bruxas – mas não apanhei nenhuma. Agarrei o meu gibão e enrolei-me nele. Olha que dava três voltas ao corpo! Deitei-me. Quando dei conta senti-me no ar e sem o gibão. Tapei-me com a enchalma, tornaram a tirar-ma. Mas sem medo continuei a convidá-las para se meterem na cama comigo. Até que sinto um corpo mais pesado a escorregar na palha e um gargalhar de homem que me meteu medo. A partir de então já não ouvi nada mais. Diziam que sempre que as bruxas saem são acompanhadas pelo demónio, terá sido ele que se riu daquela maneira”.<span id="more-4949"></span><br />
</strong></span></p>
<p>Ele há histórias do diabo. Ele há histórias do catrino. Esta é uma das “Estranhas e fantásticas histórias de Ti Zé Trapiço”, publicada no Jornal do Fundão em 27 de Julho de 2001. Então com 92 anos, Ti Zé Trapiço, velhote das longínquas Aranhas, contava a picaresca aventura com as insinuantes bruxas a José Lopes Nunes, correspondente do JF no concelho de Penamacor. Fica gravada a memória nas páginas de um jornal, museu do efémero, mesmo agora que Zé Trapiço já abalou para a terra da verdade. Fica gravada, graças a José Lopes Nunes, ou simplesmente Jolon que é como assina este “mineiro” de histórias da raia perdida.</p>
<p>No meio de tanto palavreado e banzé retórico que se publica aí pelas estrebarias a seis colunas, há uma leitura obrigatória em Portugal. Obrigatória para quem ainda acredita, como nós, que o coração sentimental do jornalismo são as pessoas.</p>
<p>Há quase trinta anos que Jolon nos conta histórias de pessoas. Num tempo de jornalismo autista, enfeudado à missinha da assembleia municipal (simulacro de democracia local), ao comodismo do ar-condicionado, da preguiça da internet e das sinecuras que a profissão oferece (paga-se mal em dinheiro, mas generosamente em vaidade); num tempo de jornalismo funcionário e mouco, ler as refrescantes histórias de Jolon serve para nos tirar a cera da indiferença dos ouvidos e escutar a voz humana, modulada em palavras que são eco da condição humana, aqui na expressão de um mundo rural que vai morrendo aos poucos, mas com uma dignidade e uma alegria só possível a quem ao longo da vida se habituou a viver com nada ou pouco mais que isso. Mais do que saber contar histórias, Jolon sabe ouvi-las. Tem orelha treinada e faro de perdigueiro. Ao balcão da sua retrosaria em Penamacor ou calcorreando as aldeias remotas, os lugarejos mais inóspitos daquela região raiana, Jolon sabe como ninguém puxar pela língua às pessoas. “Venha de lá essa história, Ti Joaquim Bicicleta”. E a língua das pessoas lá se solta, abrindo o coração que se ilumina nos olhos com as memórias de outros tempos. Depois, com a minúcia de um cinzelador aponta-as no seu bloquinho para as trazer semanalmente às páginas do nosso “Jornal do Fundão”.</p>
<p>São mais do que crónicas do efémero ou retratos do quotidiano. São registos únicos de um modo de vida que desaparece lentamente, são retratos eloquentes da vida no campo, esculpidos nas rugas das caras dos velhos. Na sua expressão sincera e espontânea que nem a fotografia esboroada a tinta de jornal finge ou intimida, antes esclarece. Mas chega de floreados e mariquices. Um jornalista deve saber ouvir, saber calar-se e ouvir. Vamos à viagem, vamos às histórias, dás-nos boleia Jolon?</p>
<p><strong>Nasce torto e jamais se endireita</strong></p>
<p>E este país que nasceu torto, jamais se endireita, não é Ti António Ramos, “indreita”?</p>
<p>“Aos 87 anos, António Ramos ainda endireita muita gente”</p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Contando já com 87 anos, António Ramos diz ter nascido já com o dom de endireita, assim como o pai, porém foi com este que se foi aperfeiçoando. Para evidenciar os ensinamentos do pai, contou que o ‘Ti Alexandre, pastor de seu pai, natural de Segura, também aprendeu. Um dia, o Ti Alexandre foi preso. Diante do juiz pediu que lhe levassem um galo. Satisfeita a vontade, num instante partiu as pernas à ave, atirou com elas ao chão e desafiou que qualquer médico lhe pusesse o galo a andar. Posteriormente ele mesmo o fez perante a admiração de todos. O réu foi mandado em paz. O Ti Ramos esclarece que o homem não partiu as pernas ao galo ‘ele só as desmanchou, depois foi só pôr os ossos no lugar e o galo voltou a andar’. (…)  A primeira vez que o levaram, recorda, foi para endireitar um pé ao Dr. Rolão Preto ‘ Ele era um político. Uma vez estava em casa dele e chegaram uns indivíduos para o prender. Ele vestiu-se com uma samarra de pele de cabra, pegou num cacete e num guarda-chuva e disse bem alto – vou botar o gado fora. Passou por entre os guardas, que não o reconheceram e foi-se embora.”</span></strong></p>
<p>A arte de endireitar quebrantos ortopédicos é comum e especial na Beira Baixa como documenta o caso de Tó Craveiro, o homem dos sete ofícios: “Foi emigrante na Alemanha, trabalhou na Câmara Municipal de Castelo Branco , nas horas vagas matava e vendia cabritos. Para além disso ainda era endireita, este é o retrato de Tó Craveiro”. Bem aos ossos faz-lhe a cerveja: “Grande apreciador de cervejas, quando vivia em Castelo Branco, uma empresa de cervejas oferecia-lhe uma grade desta bebida pelo Natal, como recompensa por ser tão bom consumidor”.</p>
<p>Se Tó Craveiro era conhecido como o varredor dos cabritos em Castelo Branco, também Fernando Pombo ganhou fama como matador de porcos. Uma fábula à La Fontaine o pombo mata-porcos.</p>
<p><strong>Na Aldeia do Bispo encontramos,</strong></p>
<p>“Fernando Pombo excelente matador de porcos”</p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Junto de uma velha pipa de madeira as galinhas esgravatavam na esperança de encontrarem alguma minhoca. Estrategicamente colocada a bancada de madeira aguardava a chegada da vítima: O porco.Minutos depois, os homens após alguma luta, conseguem prender as patas e colocá-las em cima da banca. Fernando Pombo previne os ajudantes para segurarem bem o animal de modo a que não venham a ser feridos quando ele esfaquear no momento de aflição. Lava a barbela do animal e ao contrário do que estamos habituados a ver, utiliza uma pequena navalha com uma lâmina de cerca de 10 centímetros. Mais surpreendidos ficamos ainda porque em poucos minutos o porco estava morto. Pode afirmar-se que teve uma morte rápida e de sofrimento mínimo para o animal. Este é porventura o motivo porque o matador é considerado um dos melhores da terra. A experiência de largos anos é outra justificação para cerca de uma centena de solicitações por ano, para a matança de porcos, em Aldeia do Bispo. A arte de matar porcos, cabritos ou cabras aprendeu-a com o pai que era talhante. Tinha 15 anos de idade. O porco maior que matou pesava 200 kg.”</span></strong></p>
<p>Matar para ganhar a vida. O sustento, o trabalho árduo, os ofícios que se extinguem num mundo rural. Tudo isto faz parte do roteiro de Jolon. O trabalho dos homens e das mulheres da Beira Baixa é um filão que o jornalista garimpa como mineiro de metais preciosos. Seja no balcão da sua retrosaria ou quando se acamarada com os velhos dormitando ao sol no terreiro das Aranhas, Jolon sabe que basta um fósforo para acordar as memórias. E como estamos na raia, as histórias de contrabando vêm à baila com uma mini na mão e um lampejo de malandrice e saudade.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-4951" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/Imagem12.png" alt="" width="460" height="320" /></p>
<p><strong>“Zé Tostão: ganhão, pastor e contrabandista”</strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Era o tempo da Guerra Civil de Espanha. Eles não tinham lá nada, nós tínhamos de tudo. Eu levava farinhas de milho, trigo, centeio, bacalhau, açúcar, café. Cheguei a fazer o alqueire de centeio a 100 escudos e a vendê-lo a 200 e 250 escudos. Era então, muito, mas muito dinheiro. (&#8230;) A conversa é como as cerejas, diz o povo. De facto a conversar com José Borrego Domingos não se dá pela passagem do tempo e as histórias surgem espontaneamente. Em relação aos tempos antigos e ais actuais, que tem a dizer?: ‘Agora é que está o diabo&#8230;’ coça a cabeça.”</span></strong></p>
<p>Pois, é do diabo. Agora não há fronteiras, nem Guerra Civil em Espanha, a fome que há anda escondida e envergonhada, calada, mas o diabo anda por aí a gargalhar como no palheiro de Ti Zé Trapiço. Mas vamos ouvir mais histórias de contrabandistas, que são das boas:</p>
<p><strong>“Chegamos a ser quase 50 contrabandistas a cavalo”</strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“António Luís (o Paca) de 79 anos, foi companheiro de muitas dessas aventuras. Fomos encontrá-lo em casa bastante debilitado, pois havia passado a noite hospitalizado em Castelo Branco. Apesar disso, o ânimo foi-se elevando a pouco e pouco com o desenrolar da conversa. A tal ponto que acabou sentado no banco de pedra defronte da sua residência, onde habitualmente passa as tardes com o seu amigo Carreto, recordando com nostalgia, os desafios que correram em conjunto durante vários anos das suas vidas. O Pacas iniciou-se na sua vida de contrabando aos 14 anos, e recorda: ‘Chegámos a ir 50 a contrabandistas em cavalos carregados com cargas de 80 a 100 quilos de café cubano. Escolhíamos as noites de chuva, pois normalmente os guardas não saiam de casa. Íamos numa longa fila, distanciados uns dos outros por alguns metros. Se os guardas apareciam e tentavam apanhar algum, este gritava e os outros fugiam.’ Aos tiros de intimidação juntavam-se os gritos do cavaleiro, o que fazia com que os contrabandistas se livrassem da carga, cortando as cordas que a prendia ai cavalo. Em caso de perigo extremo, tentavam salvar o cavalo e a eles próprios. Se não fosse possível, o cavalo era sacrificado e ficava para trás.”</span></strong></p>
<p>Para trás ficam esses tempos de aventuras, para trás ficam também ofícios, artes e profissões que se foram extinguindo à medida que as terras envelhecem e ficam desertas, entregues aos fantasmas e às memorias, que essas vivem e perduram. Uma terra que já não precisa de barbeiro é um terra onde já nada prospera, como em Quintãs:</p>
<p><strong>“O último barbeiro das Quintãs”</strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Uma pequena e antiga oficina de barbearia que é uma verdadeira preciosidade. Um museu mesmo. Quem ali entra regressa invariavelmente ao século passado. Desde a cadeira, passando pelos objectos usados na profissão, do espelho, até ao velho candeeiro de vidro a petróleo, tudo faz recordar os tempos em que as máquinas de cortar o cabelo e barbear eléctricas ainda não sonhavam ser inventadas.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">O banco corrido em madeira (tipo dos usados nas antigas tabernas) onde os clientes se sentavam aguardando a sua vez, matando o tempo contando histórias de lobos, lobisomens, bruxas e bruxarias, enfim, pondo as notícias em dia. (&#8230;) Neto e filho de barbeiros, João Martins Leal, viúvo, 81 anos de idade, todos os dias vai à sua oficina. Os clientes é que não.”</span></strong></p>
<p>Ao longo das semanas, Jolon vai dando conta nas páginas do Jornal do Fundão das profissões em vias de extinção espalhadas pelas terreolas, vamos pelos títulos que só por si são histórias de humanidade. Benquerença &#8211;  “Dos estafetas dos CTT de há 40 anos um ainda é vivo”, Aldeia de Joanes &#8211; “Artesão, cineasta e poeta popular”, Penamacor “Foi ganhão e cocheiro sem nunca ter tido férias”, Meimão “A última tremoceira continua a vender”; Tortosendo “Já houve seis alfaiates mas agora só trabalha um”, Benquerença “talhantes e taberneiros: duas profissões em vias de extinção”. E por falar em tabernas, quando o povo já não molha o bico, só falta a última pazada de terra.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-4952" title="Jornal do fundão" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/Imagem14.png" alt="" width="735" height="454" /></p>
<p><strong>Tratemos dos vivos</strong></p>
<p>Jolon conta a história de Maria Pires: “Mulher de armas mete respeito no negocio: Corpulenta e desassombrada, Maria Pires sempre pôs os clientes da taberna em respeito ‘eles tinham medo de mim’”.</p>
<p>Nas fotocópias dos seus artigos o correspondente do Jornal do Fundão faz anotações. Junto à fotografia de Maria Pires com o seu marido, “ambos já falecidos”. Epitáfio de um tempo que se acaba.</p>
<p><strong>“Até a enterrar mortos trabalho de mulher é descriminado”</strong></p>
<p><span style="color: #333333;"><strong>“Inédito não será, mas a situaç\ao comporta carga bastante de insólito para merecer algumas linhas de jornal. É em Aranhas, freguesia do concelho de Penamacor, onde, como acontece por essas aldeias da Beira Interior, os braços dos homens escasseiam. Conta-se breve a história que o nosso correpondente em Penamacor fez chegar à redacção. Maria de Lurdes Dias, viúva, 52 anos, alem de varrer as ruas de Aranhas enterra os mortos da localidade. A tarefa é o expediente que lhe calhou em sortepara ganhar a vidinha. Os leitores de Aranhas dirão – olha a admiração! Atao ela não é filha do ti José Inês e sobrinha do Ti João Inês, ambos coveiros da freguesia em tempos idos. – Será? Mas o caso é que Maria de Lurdes, que tanto faz a limpeza das ruas como a abertura das covas e correlativo tratamento do cemitério, não tem problemas em barbear e vestir defuntos, uma questão de profissionalismo. Medo? Só dos vivos, que os mortos não fazem mal a ninguém. O problema é outro: mãe de 9 filhos (apenas 2 em casa), não está satisfeita com o vencimento que lhe atribuíram. Por cada funeral recebe 4.000 escudos e a Junta de Freguesia paga-lhe uma mensalidade de 23 contos. É caso para dizer: até a enterrar mortos o trabalho da mulher é descriminado”.</strong></span></p>
<p>Mas cuidemos dos vivos, cuidemos dos nossos velhos e demos-lhes ouvidos, são retratos e memórias que todos podemos coleccionar e guardar como ensinamentos de humanidade e lições de vida como na história:</p>
<p><strong>“Os últimos residentes da Bazágueda:</strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Rodeado de serras, pinheiros, estevas, giestas urzes, medronheiros, , já as famílias viveram naquela zona. Mas foi aos 20 anos de idade que Domingos Campos decidiu fazer do local a sua residência. A atracção que aqueles sítios exercem sobre uma pessoa são motivo suficiente e justificativo para que apesar de contar 80 anos de idade, ele e a sua mulher, D. Maria José Cunha, de 67, continuem a residir na Bazágueda”.</span></strong></p>
<p>Por cima da foto, Jolon anota. “O homem já faleceu, ela continua lá”. Uma anotação com uma força terrível, solitária, mas carregada de uma certa esperança, enquanto a D. Maria José Cunha continuar lá, Jolon trará a vida das pessoas normais para as páginas do “Jornal do Fundão”, e fará da vida, notícia, nem que seja uma história de amor, como o casal de anciões da Benquerença: “Casados há 66 anos, cada vez se querem mais bem”.</p>
<p>Bem haja pela boleia, Jolon.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/01/30/as-estranhas-e-fantasticas-historias-de-jolon-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

