<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>A23 Online &#187; Reportagem</title>
	<atom:link href="http://www.a23online.com/category/reportagem/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.a23online.com</link>
	<description>Reportagens, Opinião e Notícias de Portugal e do Mundo</description>
	<lastBuildDate>Mon, 06 Sep 2010 20:01:47 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.0.1</generator>
		<item>
		<title>A luz proíbida do ecrã</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/08/08/a-luz-proibida-do-ecra/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/08/08/a-luz-proibida-do-ecra/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 08 Aug 2010 13:09:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[SEXO E CINEMA]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=7279</guid>
		<description><![CDATA[Texto-Miguel Ángel Barroso Com o primeiro beijo filmado pelo inventor do fonógrafo e da lâmpada, Thomas A. Edison, nasceu o erotismo no cinema. Porque, convenhamos, o que era o cinema naquele ano de 1895? Apenas película de celulóide que trazia magia à realidade e dava movimento a uma fotografia. Daí para os sentimentalismo havia um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-7280" title="Imagem10" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/08/Imagem10.png" alt="" width="460" height="333" /></p>
<p>Texto-Miguel Ángel Barroso Com o primeiro beijo filmado pelo inventor do fonógrafo e da lâmpada, Thomas A. Edison, nasceu o erotismo no cinema. Porque, convenhamos, o que era o cinema naquele ano de 1895? Apenas película de celulóide que trazia magia à realidade e dava movimento a uma fotografia. Daí para os sentimentalismo havia um passo muito curto e previsível. Possivelmente, o astuto comerciante que era Edison nunca pensou nas suas possibilidades eróticas. Mas o seu filme, The Kiss, com um minuto de duração, causou um tremendo escândalo ao gravar os seus dois actores, já de idade madura, a dar três beijos (dois na bochecha e um no canto da boca), colocando em pé de guerra os defensores da moral &#8211; entre os quais constava a revista The Chap Book, a qual denuncia claramente a liberdade de expressão, ao escrever este artigo: &#8220;os empresários de espectáculos estão dispostos a eclipsar tudo o que foi visto até agora, por detrás de material de mau gosto. Numa obra recente vocês recordam o beijo que trocaram uma tal May Irwin e John C. Rice. Nenhum dos intérpretes era particularmente atractivo e o espectáculo entre um e outro tornou-se insuportável. Com o tamanho natural já era algo anormal, mas não era nada comparado com o efeito produzido por este acto aumentado a proporções gigantescas e repetido três vezes consecutivas. O resultado é absolutamente repulsivo. Todo o encanto da menina Irwin se desvanece, convertendo a sua arte em algo indecente e de uma vulgaridade prodigiosa. Tais feitos exigem a intervenção das autoridades policiais&#8221;.<span id="more-7279"></span></p>
<p>No entanto, apesar das tentativas de censura, The Kiss tornou-se cada vez mais popular e permaneceu nas salas de cinema locais até que as cópias, de tanto uso, ficaram fora de serviço. O filme podia ser visto dentro da invenção de Edison, chamado Kinetoscopio &#8211; que não podia projectar as imagens para o exterior, apesar de poder ser adaptado para esse fim. Deste modo, sem intenção, também Edison descobriu o futuro magnetoscópio, enquanto o kinetoscopio permitia uma intimidade que é impossível numa sala de projecção cheia de gente.</p>
<p>O sexo no cinema estava assim inventado. Os franceses e os italianos rodavam, com audácia, películas em que se mostrava a nudez feminina na sua plenitude, acompanhada de um cocktail erótico e sexual descarado. A produtora Pathé possui um catálogo realmente rico e de qualidade, eroticamente falando: La Puce (1896 &#8211; se bem que alguns catálogos apontem a data para 1907; Bains Des Dames De La Cour (1900); Flirt En Chemin De Fer (1902); L&#8217;Amour A Tous Les Étages (1900-1903), verdadeira jóia centrada na figura de um mirone que observa pela fechadura; Par Le Trou De Serrure (Peeping Tom) (1901), outro voyeur que vê através de fechaduras, neste caso um mordomo; Baignade interdite (1903), etc.</p>
<p>O poder e as instituições proibiam estes filmes, mas o cidadão comum exigia-los cada vez mais. Inicia-se assim a espiral perversa e hipócrita que define a nossa sociedade de pensadores: &#8220;Existe, mas não vejo; nego, mas consumo.&#8221;</p>
<p>Por outro lado, os Estados Unidos torna-se rapidamente no grande produtor mundial de filmes pornográficos, hegemonia que continua a conservar na actualidade. Os produtores abordam sem pudor todo o tipo de actividades sexuais, incluindo práticas como a zoofilia, a chuva dourada, o sadomasoquismo, e também agradam a procura de cinema gay e lésbico. Dentro destes filmes, conhecidos vulgarmente como stags (cujo significado é &#8220;para homens&#8221;, &#8220;reunião de homens&#8221; &#8211; stag party &#8211; ou &#8220;despedida de solteiro&#8221;, etc.), os espectadores encontravam todo o tipo de actividades eróticas, tais como: sexo anal, dupla penetração, trios, orgias, fantasias mórbidas com jovens demasiado excitadas, reparadores de televisão, canalizadores, playboys, velhos, aristocratas pervertidos, ninfomaníacas insaciáveis, padres, monges, políticos, militares e tudo o que é imaginável por uma mente acalentada.</p>
<p>Logicamente, como já apontámos, estes filmes circulavam clandestinamente. Realizados entre 1915 e 1970, tiveram o seu esplendor nos anos 20 e 30, eram projectados em 16mm (antes em 35mm, naturalmente), em sessões de duas a três horas. O preço destas sessões oscilava entre os cinquenta e os cem dólares. As projecções tinham lugar em casas particulares, diante de um público selecto (as estrelas de Hollywood também organizavam sessões com os seus amigos), que se submergia num mundo de pecado, onde o som do projector se misturava com o respirar ofegante e os gemidos que emanavam da irresistível luxúria que envolvia tudo. Ou, pelo menos, assim deveria ser.</p>
<p>Chegaram, inclusivamente, a ser rodados filmes de desenhos animados, entre os quais se deve destacar uma jóia chamada Buried Treasure (1928-33), uma sátira cruel acerca do membro viril que, na ânsia de fornicar tudo, ganha vida própria e coloca-se em sarilhos tremendos em busca de sexos femininos onde se possa instalar. Apesar de não haver provas concretas, esta obra prima da animação, rodada num grande estúdio a horas nocturnas, é muito provável que estivesse a ser realizado, na parte artística, por Gregory La Cava, e na sua técnica de animação por Walter Lantz, o criador do popular Woody Woodpecker (o Pica-Pau). É impensável, dada a grandiosa produção do cartoon, que tenha saído das mãos de um simples amador. Pode parecer estranho que um grande realizador como La Cava, responsável por melodramas elegantes e refinados, fizesse um filme tão desavergonhado, mas analisando com atenção a sua obra vemos que grande parte dos seus argumentos giram em torno do sexo. La Cava, que não era nenhum moralista, bem podia ter-se juntado a Lantz, a quem está associada uma animação tão irreverente, e os dois tornaram real uma obra que nunca se pôde produzir abertamente num estúdio convencional.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-7281" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/08/Imagem11.png" alt="" width="480" height="336" /><br />
“A vida está feita para o prazer”, disse-o Kichi, o protagonista d&#8217;O Império dos Sentidos (Ai no corrida, 1976), à sua amada Sada. E, sem dúvida, esta é a filosofia dos realizadores mais amantes do erotismo e de gosto refinado por cinema: Tinto Brass, Roger Vadim, Russ Meyer, Walerian Borowczyk, Tex Avery, Claude Pierson, Max Pecas, Just Jaeckin, Gerard Damiano, os irmãos Mitchell, Mario Salieri, Moli, Michel Ricaud, John Leslie, Henry Paris (Radley Metzger), etc. Juntos ou separados, uns mais refinados que outros, todos eles nos ofereceram momentos inesquecíveis de erotismo puro e sexo a rodos, deixando a sua autoria no género mais difícil da arte cinematográfica, porque não há nada mais complicado que filmar sexo. Na literatura acontece o mesmo: a repetição do acto sexual pode deixar de ser algo excitante e converter-se num exercício rotineiro de corpos fornicando mecanicamente e sem ponta de imaginação.</p>
<p>Tudo isto o sabia bem Gerard Damiano quando concebeu uma das suas obras primas, Garganta Funda (Deep Throat, 1972). Como fazer o &#8220;mesmo&#8221;, mas de forma &#8220;distinta&#8221;? Inventando um mundo real, mas com toques de surrealismo. A protagonista, Linda (Linda Lovelace), está desesperada porque a sua vida sexual não funciona, nada nem ninguém a faz chegar ao orgasmo que para ela são fogos de artifício e sons de campainhas, até que um médico excêntrico (Harry Reems), descobre que o seu problema reside na sua garganta; ou, dito de outra forma, o clítoris de Linda estava alojado na sua glote. &#8220;Doutor, então como faço?&#8221;, diz a jovem chorando oceanos. Tanta ingenuidade dota o filme desse encanto que Damiano soube criar através das imagens com um ritmo excelente. Garganta Funda colocou um ponto final na proibição em torno da pornografia nos Estados Unidos, e conseguiu ser estreada (após um julgamento escandaloso que ecoou por todo o país) em salas comerciais como se se tratasse de mais um filme. Mas Garganta Funda era mais que um filme comercial. Produzida por uma máfia nova-iorquina com somente 20.000 dólares e apenas dez dias de rodagem, converteu-se no filme hardcore mais visto do mundo, o qual daria começo a uma nova era do cinema pornográfico.<img class="alignnone size-full wp-image-7282" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/08/Imagem12.png" alt="" width="584" height="389" /></p>
<p>“Tudo o que fazemos juntos, mesmo que seja o simples acto de comer, deve ser um acto de amor”, diz Sada ao seu amante Kichi, dando-lhe a provar a comida directamente do seu sexo.</p>
<p>O cinema erótico (mal denominado &#8211; não é correcta a separação entre erotismo e pornografia, pois este é um assunto mais sobre moral do que apenas uma correcta definição), entende-se como o acto sexual dissimulado e bonito, e o cinema pornográfico costuma evidenciar o acto sexual explícito e feio. Esta tem sido sempre a catalogação para não mostrar que gostamos de ver o acto sexual representado no ecrã. Erotismo pode ser sexo com todas as suas consequências (penetração real), e ser altamente erótico e estimulante para os sentidos. Tudo depende do olhar e da estética com que o realizador aborda o assunto. Por este motivo, um filme como O Império dos Sentidos, filmado por um dos cineastas modernos mais importantes do cinema, Nagisa Oshima, nasceu para revolucionar e colocar em ridículo a definição de pornografia. Oshima pintou com a sua câmara um dos enredos cinematográficos mais belos, sensuais, cruéis e eróticos que haviam sido projectados nas galerias de arte do cinema. O Império dos Sentidos utiliza o acto sexual explícito; é como quem diz, os actores fazem o amor (ou o acto genital) de verdade, sem cortes, incluindo os felácios e ejaculações, assim como outras audácias que nunca contemplaríamos de forma real no cinema mal denominado &#8220;erótico&#8221;. Inevitavelmente, O Império dos Sentidos foi etiquetado como obra de arte e estreou-se como um filme para uso em todas as salas comerciais do mundo, estando isento de ser exibido nas caves lúgubres destinadas à projecção de cinema designado como &#8220;Cinema X&#8221; por conter sexo explícito. Naturalmente, não é comparável (e não é a minha intenção fazê-lo) um filme de Oshima com o cinema pornográfico comum, rodado em quatro dias e com nulas qualidades artísticas, mas quero sim colocar o dedo no olho da hipocrisia social. De uma coisa estou certo, e isso é que se a sociedade fosse mais livre e aberta, O Império dos Sentidos não continuaria a ser um filme ostracizado devido ao seu atrevido conceito sexual.</p>
<p>A década de setenta pode considerar-se, para bem e para mal, como a mais prolífica no que respeita a sexo visto num ecrã de cinema. Produziram-se nestes anos os géneros e os seus consequentes subgéneros, numa infinidade de filmes de baixo custo e sem nenhum tipo de qualidade artística, que tanto dano fazem a obras importantes de excelentes realizadores como Pier Paolo Pasolini e a sua trilogia formada por Il Decameron (1971), I Racconti Di Canterbury (1972) e Il Fiore Del Mille e Una Notte (1974). Ou Bernardo Bertolucci e ao seu Ultimo Tango a Parigi (1972), e também afecta consagrados e declarados amantes do erotismo como o polaco afincado em França Walerian Borowczyk, cujo sentido estético responde a uma plástica refinada que dota o seu cinema de um nível cultural elevado: Goto, l&#8217;Ile D&#8217;Amour (1968), Contes Inmoraux (1974), La Bête (1975), Interno Di Un Convento (1978), Les Heroines Du Mal (1978), etc. Ou Tinto Brass, sem dúvida numa linha oposta a Borowczyk, mas dotado de uma personalidade forte e conhecimento da arte, que o leva a inventar um cinema próprio, original e divergente de qualquer moda &#8220;erótica&#8221; do momento. Tinto Brass influi positivamente na concepção de sexo no cinema, mas o seu estilo, único, aparece tão inimitável que permanece intocado pelos acontecimentos daqueles anos, nos quais qualquer filme erótico de qualidade tinha de imediato uma sequela pobre destinada a aproveitar o filão da onda de erotismo que parecia ter-se apoderado da Europa.</p>
<p>Na França nasce outro dos grandes mitos eróticos: Emmanuelle (1975), realizado por Just Jaeckin, um fotógrafo que nunca tinha enveredado pelo cinema, e protagonizado por uma secretária holandesa de beleza comovedora e excitante, chamada Sylvia Kristel. O filme pode ser mau ou falhado como cinema, mas não se pode negar a sua indubitável vocação pela sensualidade e pelo refinamento em cada acto sexual que presenciamos. É inesquecível o orgasmo de Sylvia Kristel, dentro de um avião de passageiros, em que, para não ser ouvida, aguenta os gemidos apesar de não conseguir evitar mover a cabeça de um lado para o outro com um gesto de prazer absoluto que inunda os seus olhos de felicidade. A minha humilde opinião é que Emmanuelle se coloca na luz do novo século numa posição vantajosa que faz com que não tenha envelhecido de todo. Aliás, a sua pureza e inocência tornam-se absolutamente encantadoras e cheias de ternura nos tempos que correm. Era uma época em que se criavam mitos eróticos e símbolos sexuais reais: Brigitte Bardot era-o, Stefania Sandrelli era-o, Sylvia Kristel era-o, Laura Gemser (a Emmanuelle negra) era-o, Corinne Clery (a rapariga de Historie D&#8217;O &#8211; 1975), era-o&#8230; Talvez isto seja fruto da honestidade ideológica daqueles anos, a crença nas revoluções, na paz mundial, na arte como arma para mudar o mundo. Fruto de tudo isto que digo é, sem dúvida, o hoje esquecido, ainda que reivindicado, Max Pecas, outro dos grandes renovadores do género erótico, que deu um sopro de ar fresco a temas escandalosos ou &#8220;muito sérios&#8221; considerados tabu pela sociedade burguesa. Pecas, consciente de que o cinema tem de ser bem feito, mimou todos os seus filmes sem nunca cair para a tradição. Quando teve ofertas para realizar Cinema X, disse que não porque procurava coisas diferentes no seu tratamento da sexualidade e prazer dos sentidos. Só aceitou uma vez incorporar planos hardcore em Les Mille Et Une Perversions De Félicia (1975), e só depois de ter obtido a permissão de todos os actores participantes. As suas duas melhores obras consagradas ao sexo são: Je Suis Une Nymphomane (1970) e Je Suis Frigide&#8230; Porquoi? (1972), ambas protagonizadas pela bela e expressiva Sandra Jullien, uma heroína digna de Marquês de Sade, a quem Pecas por certo evoca admiravelmente, na sua concepção do bem e do mal. Ela, rapariga inocente e de bom coração, procura ansiosamente o amor em todos os seres humanos que se cruzam no seu caminho. A doce vítima resigna-se a viver com a sua desgraça pessoal, uma enfermidade sexual que faz com que a sociedade ostracize de quem dela padece. O cineasta é elegante, refinado e moralmente consequente com as suas histórias. Pecas constrói personagens credíveis e filma um erotismo belo e sugestivo, inclusive nas suas sequências mais delicadas.</p>
<p>Nas décadas seguintes, o sexo no cinema perde o seu sentido lúdico e ingénuo para se transformar numa sexualidade mais agressiva, mais doente, mais mecânica. Parece que a sede do público pela festa do sexo já estava saciada. Agora era exigido uma maior violência no acto carnal, o stress da sociedade tecnológica apodera-se dos sentidos e é exigido somente sexo: o acto carnal ganha evidência (não como n&#8217;O Império dos Sentidos que correspondia a uma busca do absoluto através da vida e da morte), nem que seja como um refúgio aos problemas humanos, para deleite apenas da exploração do coito. O único que importa é foder e saciar-se, mas isto traz frustração, pois o sexo esvazia-se de todo o sentido espiritual. Substitui-se o amor pelo ódio. Em vez de se fazer amor faz-se sexo. De todo o modo é importante salientar que durante a década de oitenta, é a já mencionada indústria do cinema X, especialmente nos Estados Unidos, aquela que mostra um erotismo hardcore muito colorido e entusiasmante. As estrelas do porno daqueles dias vestem-se (ou despem-se) de naturalidade e transmitem a alegria de viver (Ginger Lynn, Marilyn Chambers, Tracy Lords ou Moana Pozzi na Europa). É curioso que seja precisamente o género X aquele que mais sensibilidade mostre na hora de falar de sexo, sem a afectação patológica do cinema convencional que, por outro lado, tem obras excelentes. Neste sentido, a indústria do cinema para adultos ia-se degenerando pouco a pouco, com um sexo cada vez mais despersonalizado, violento e com uma rotina rígida com a sua repetição mecânica do &#8220;tira e põe&#8221;. Nos nossos dias é óbvio que o cinema pornográfico deixou de existir como fonte de desejo e erotismo sem tabus, para se converter em talho que &#8220;fabrica&#8221; actos sexuais entediantes, vazios e completamente banais. A cirurgia plástica é uma das grandes culpadas desta despersonalização. Antes, o espectador identificava-se com os homens e mulheres que desfilavam no ecrã. Agora, apenas observa figuras de cera que saltam compulsivamente em cima de corpos nus que parecem clones de um mesmo corpo que, por sua vez, também salta desenfreadamente sobre outro corpo clonado&#8230;</p>
<p>Nos últimos anos, tanto o cinema europeu como o oriental têm dado mostras de uma excelente saúde erótica (Catherine Breillat, Wong Kar Wai, Patrice Chereu, Kim Ki-Duk, Hong Sangsoo, Olivier Assayas&#8230;) com filmes arriscados que tentam bater os tabus de uma sociedade que oferece resistência ao crescimento intelectual, apesar do rápido progresso tecnológico e industrial. A Internet parece a Torre de Babel do século XXI e o saco de todos os vícios, perversões e maldades imagináveis de um mundo esgotado e vulgarizado como nunca. A Internet, então, corresponde à realidade em que vivemos? Estou convencido que não, porque a rede é algo que é feita pelos utilizadores e isto por si só não é representativo de nada. O sexo às toneladas é só carne para ser consumida rapidamente e de qualquer maneira. O problema continua a ser a educação e a repercussão que esta tem na sexualidade. Agora os adolescentes têm mais informação que nunca e, inevitavelmente, o número de grávidas indesejadas atingiu a quota mais alta das últimas décadas. A Internet, portanto, é uma ferramenta útil que é necessário aprender a manejar para que o seu uso seja controlado por cada indivíduo livre. O sexo gera liberdade, pensamento avançado. O sexo gera vontade de viver! Quem diz o contrário mente ou então serve outros interesses determinados.</p>
<p>Miguel Ángel Barroso</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/08/08/a-luz-proibida-do-ecra/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Isis &amp; Eve: o sexo, o amor e duas cabanas</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/04/23/isis-eve-o-sexo-o-amor-e-duas-cabanas/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/04/23/isis-eve-o-sexo-o-amor-e-duas-cabanas/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 23 Apr 2010 14:52:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[a23online]]></category>
		<category><![CDATA[Adriano Batista]]></category>
		<category><![CDATA[Lesbianismo]]></category>
		<category><![CDATA[Revista A23]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[Teresa Filipe Lopes]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=6340</guid>
		<description><![CDATA[Texto Teresa Filipe Lopes - Sente-se atraída por raparigas desde criança. “No infantário, aí com 4 anos, brincava com uma amiga aos raptores. Ela vinha ter comigo no intervalo, raptava-me e levava-me para um cantinho do recreio e punha-se em cima de mim.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_6424" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><img class="size-full wp-image-6424" title="Adriano Baptista" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/killer4.jpg" alt="" width="460" height="333" /><p class="wp-caption-text">©Adriano Batista</p></div>
<p>Uma é Portuguesa e outra é Húngara. Têm namorado, namorada e ambas vivem bem com isso. Elas contam como são as suas relações e o sexo entre os sexos. Dois exemplos distantes num território comum: O amor sem traição nos dois lados do campo. Texto de <strong>Teresa Filipe Lopes</strong> | Fotografias de<a href="http://adrianoogrande.com"> Adriano Batista</a></p>
<p><span id="more-6340"></span></p>
<div id="attachment_6425" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><img class="size-full wp-image-6425" title="Adriano Batista" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/killer5.jpg" alt="" width="460" height="333" /><p class="wp-caption-text">Adriano Batista</p></div>
<p>LADY MYOSOSTIS:<br />
Gosta de falar de si como Lady Myosostis, “Queen and Goddess, Mistress of the Universe”. Vê o erotismo como uma parte sagrada da vida. Os seus desejos mais profundos são a liberdade, o amor pleno e “encontrar a árvore mais antiga do mundo”. É cantora, bailarina, swinger e fire dancer. Viveu em Portugal, na Índia, em Inglaterra e na Austrália e à medida que viajamos pelo seu mundo, tão depressa mostra uma candura de fada ou uma centelha de Dominatrix. O estilo que interpreta inspira cenários algures entre a magia, o dark goth e o cabaret burlesco.</p>
<p>Tudo começou pelo fogo, há onze anos atrás. Em 99 começou a dedicar-se ao Fire Dancing e a correr o mundo por onde fez performances de rua. Por onde passou aprendeu novos movimentos, novos instrumentos e, cedo ou tarde, aprenderia novas maneiras de viver. E foi em Inglaterra que sentiu maior liberdade para explorar as suas vocações. “Em Londres comecei a ligar-me ainda mais à música e às artes performativas e depois em 2007 fui aprender Arte de Seduzir e Dança do Varão. Estava numa altura em que o meu desejo de exprimir a minha sensualidade se tornou muito forte. E lá sentia total liberdade para isso.”<br />
Depois de anos a partilhar a sua música e a sua sensualidade apenas com os amigos, começou a alargar as suas fronteiras e a actuar ao vivo. “Foi inevitável começar a explorar todas as minhas paixões numa cidade onde o espírito é o ‘just do it’. O malabarismo, a dança, o canto e a arte erótica acabaram por se transformar numa coisa só, numa entidade única”. Hoje, Lady Myosostis faz aparições na noite Lisboeta em diversos espectáculos que produz com o Cais Sodré Cabaret.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6426" title="maria27" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/maria27.jpg" alt="" width="460" height="333" /></p>
<p>NO PRINCÍPIO ERA O SEXO<br />
Sente-se atraída por raparigas desde criança. “No infantário, aí com 4 anos, brincava com uma amiga aos raptores. Ela vinha ter comigo no intervalo, raptava-me e levava-me para um cantinho do recreio e punha-se em cima de mim. Isso excitava-me imenso.” A sua primeira experiência sexual propriamente dita foi com 17 com uma das suas melhores amigas. “Namorava há dois anos com um rapaz mas sentia-me completamente apaixonada por ela. Um dia, numa daquelas noitadas em casa dela às tantas da manhã aconteceu!” – sorri Ísis quase timidamente – “Os pais dela estavam a dormir no quarto ao lado e nós estávamos a brincar e a fazer cócegas. A dada altura atirei-a para a cama e dei-lhe um beijo. Claro, pouco depois começámos a despir-nos, a beijar-nos e tive-a só para mim.”<br />
As diferenças no amor e no sexo variam segundo a experiência de cada pessoa e a sua visão. Para Ísis estar com uma mulher é simplesmente divertido. “É mais leve em relação a um compromisso, por exemplo. As mulheres com quem estou têm sempre a consciência de que é aquele momento. Mesmo que venham outros, continuamos livres uma da outra. E o que me leva a estar com homens e mulheres é precisamente porque é diferente. Aquilo que se dá e recebe é completamente diferente.” Com um homem sente-se sexualmente mais submissa ao passo que com uma mulher se sente de igual para igual. “Com uma mulher posso assumir qualquer papel. Normalmente gosto de dominar e dar prazer primeiro. Adoro dar prazer.”<br />
Ísis vive as suas relações de uma forma discreta, mas é totalmente assumida perante os seus pais e amigos. É com eles que partilha a sua alegria e também dúvidas ou angústias quando as tem. “Os meus pais sabem que sou bi e já conhecem bem a peça. Não tenho nenhum segredo com eles.”<br />
Lady Myosostis saiu de casa cedo e os amigos tornaram-se a família que escolheu. Onde quer que vivesse estava sempre em festa e, numa nessas noites, começaram a acontecer as suas primeiras experiências a três. E outras se seguiram. “Adoro estar com mais do que uma pessoa. É super erótico. É super sensual ver tantos corpos a movimentarem-se juntos. Mas é mais fácil quando não é entre um casal, mas com uma mulher e outro homem se for o caso.” Porque, Segundo o que lhe conta a experiência, nem sempre é bom ver quem gostamos com outra pessoa.<br />
Teve as mais variadas experiências tanto com homens quanto com mulheres, mas é com eles que confessa ter tido mais prazer.<br />
No seu mundo o sexo pode quase não ter limites, mas os limites existem: “Posso dizer que gozei bastante nas festas de fetishe em Londres. Encontra-se de tudo o mais louco que se possa imaginar e a liberdade é muita. Mas a pedofilia, escatologia, bestologia, violência e afins não estao na minha lista, definitivamente.”</p>
<div id="attachment_6427" class="wp-caption alignnone" style="width: 365px"><img class="size-full wp-image-6427" title="pin6" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/pin6.jpg" alt="" width="355" height="533" /><p class="wp-caption-text">Adriano Batista</p></div>
<p>ENTRELAÇAR O AMOR E O DESEJO.<br />
Por alguma razão chamou ao seu primeiro projecto “Intertwined”. Ísis compatibilizou o amor, a música o sexo e a sacralidade numa só forma de viver. E encontrou o companheiro para isso. “Para mim a melhor forma de manter uma relação aberta é ter essas experiências longe do lar, ou do parceiro. Na minha experiencia acho que pode ser bastante doloroso ver certas coisas, tanto para um como para o outro.” Embora incentive muitas vezes o marido a ter outros parceiros, ele continua a preferi-la a ela, tal como é. “A meu ver não há nada melhor do que a verdade e conversar abertamente sobre as coisas. Se tudo estiver bem defenido desde o início, é tudo mais fácil. Claro que às vezes os ciúmes aparecem, isso é normal. Mas o melhor exprimi-los abertamente e aceitar que a insegurança pode surgir a qualquer momento. Acho que negar isso é ainda pior, porque uma pessoa pode explodir sem razão num outro momento e não vale a pena. Eu optei por manter as minhas experiências fora da relação. Tornou-se muito mais fácil lidar com isso.”</p>
<p>O tempo passava sem se dar por ele. E quase chegada ao limite do meu tempo (e do espaço no papel), fiz as duas perguntas que me ocupavam a cabeça desde o princípio. Como veria ela o futuro das suas relações? E se um dia tivesse de escolher? Ao que parece, o segredo é gozar o momento. “Eu simplesmente gosto de me divertir. Para mim o sexo é uma diversão. Foi um presente maravilhoso que a vida nos deu que nos enche de prazer e imaginação. E também gosto de fluir, seja para onde fôr. Para mim não é uma regra ter sexo com outras pessoas ou não. Mas gosto de pensar que quando morrer vou estar satisfeita com a vida que vivi, explorei, saboreei. Sem ser à custa do sofrimento dos outros, atenção, assim não tinha piada!”. Ísis mostrou-me ainda que a sua escolha não será para “um dia”: “Eu já escolhi. Como te disse as mulheres são diversão.  Juntamo-nos, brincamos e seguimos. Com ele não.” e arremata num sorriso malandro “E já que agora é dificil estar com a minha amante preferida tenho de de arranjar novas soluções”.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6428" title="russia5" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/russia5.jpg" alt="" width="802" height="533" /></p>
<p>EVA. A MULHER DO PARAÍSO<br />
É uma Exotic Angel &#8211; como lhe chamam &#8211; Eve é um dos seus nomes. Talvez se tenha inspirado na primeira mulher do Paraíso, que não resistiu ao desejo e partilhou a tentação com o seu homem.<br />
Conhecemo-nos numa sessão fotográfica no Salão Erótico de Lisboa. Esperei um pouco, sem saber bem o que havia de encontrar. Quando chegou, envergava uma mini saia e uns saltos bem altos, dignos do poste. O cheiro da sua pele era o mesmo que se sentia no ar, graças a um pó de mel para dar brilho à pele. Sorriu-me abertamente, cumprimentou-me como se já nos conhecêssemos há anos e sentou-se ao meu lado. Para lá da cortina fechada não haviam segredos. Ao contrário do que seria de esperar, Eve não é daquelas mulheres altíssimas, irreais e deslumbrantes &#8211; como no Photoshop &#8211; mas é de uma beleza que se revela numa atitude descontraída e sexy, na voz doce e nuns olhos azuis bem claros que falam sozinhos à medida a conversa se desenrola. É daquelas mulheres com quem facilmente se estabelece empatia. É jovem, divertida, está muito à vontade consigo mesma e fala naturalmente da sua experiência. Para lá da primeira imagem consegui perceber que é simples, tal como eu, ao contrário da femme fatale que imaginava encontrar. É Húngara, tem 28 anos, vive em Portugal há seis anos e mantém uma relação com o seu namorado há três. Trabalha como modelo erótico e faz shows lésbicos com outra modelo, a quem também começou a chamar de namorada de há um ano para cá.<br />
Pouco depois escolhemos conversar sentadas no chão &#8211; de alcatifa vermelha como manda o figurino &#8211; como miúdas de quinze anos. Os quinze dos seus olhos. “Quando era miúda já queria ser stripper, lembras-te daquele filme com a Demi Moore?” – ria – “Era mesmo aquilo que queria fazer. Em miúda tinha a mania de me despir e dançar ao espelho. Acho que sempre fui muito malandra”.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6429" title="perles15" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/perles15.jpg" alt="Adriano Batista" width="355" height="533" /></p>
<p>MENINO NÃO ENTRA<br />
Eve vive duas relações: com o seu companheiro e com uma mulher. Mas este triângulo tem mais lados. Ambas têm namorados, todos se conhecem e todos conhecem a história Só eles ficam de fora. “Nem andam um com o outro, nem estão connosco quando estamos juntas, nem nenhum têm nada com a mulher do outro.” De repente pareceu-me a descrição de uma novela da quatro com tudo ao contrário: ninguém se mete com ninguém e todos estão bem com isso.  Mas Eve fez questão de simplificar: “Somos amigas que são namoradas e que têm namorados.”<br />
A sua forma de pensar começou a alargar-se no mundo da dança erótica onde tudo se proporcionou mais rapidamente. Do desejo à acção bastou-começar a relacionar-se com pessoas mais abertas. “Para nós o amor está no coração, não está no sexo”.<br />
Começou a sentir-se atraída por mulheres desde que comecou a trabalhar e “a estar rodeada de mulheres encantadoras. Olha lá para elas! Como é que é possível não lhes querer tocar?”- ria Eve.<br />
A sua primeira experiência com uma mulher “foi no liceu, quando eu e uma amiga minha nos beijámos. Gostei, mas nessa altura ainda tinha muito pouca experiência.” Anos mais tarde, ao lidar e aprender mais no mundo do sexo, foi perdendo as inibições e aprendeu a estar com mulheres.<br />
“Os bissexuais são vistos como promíscuos, indefinidos ou indecisos, sobretudo na comunidade gay, mas a promiscuidade há em todo o lado. Com heteros, gays, lésbicas.” Eve diz desejar cada pessoa como é, e ser homem ou mulher é secundário. E também que vive o melhor dos dois mundos, “Conseguires gostar ou ter prazer com alguém, seja homem ou mulher é muito libertador. Se o aceitas em ti e viveres bem com isso, é óptimo.”</p>
<div id="attachment_6430" class="wp-caption alignnone" style="width: 365px"><img class="size-full wp-image-6430" title="purple3" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/purple3.jpg" alt="" width="355" height="533" /><p class="wp-caption-text">Adriano Batista</p></div>
<p>A ALEGRIA E O PRAZER, NO FEMININO E NO MASCULINO<br />
Eve encontrou no companheiro um homem para todas as experiências. “Ele é muito especial, somos mesmo muito chegados.” Os dois lidam bem com as relações e a profissão dela. Quando se conheceram Eve já fazia espectáculos eróticos e ele sempre aceitou. Ao contrário de Eve, o namorado nem procura outra relação nem interfere na dela: “Nem o meu namorado, nem o namorado dela nos impedem de termos esta relação e nenhum deles tem outra. Só têm ciúmes às vezes porque gostavam de nos ver a fazer amor ou de estar connosco, mas isso também os excita. E eu sei que o meu namorado só teria outra pessoa se fosse para me dar prazer e seria outra mulher, claro.”<br />
A sua relação com ela “É muito divertida. Com a minha namorada tenho tudo o que preciso. Somos amigas, vamos às compras, saímos à noite, trabalhamos juntas e fazemos tudo o que as miúdas gostam de fazer. E quando nos apetece, temos sexo.” Para Eve o que diferencia o amor entre mulheres e homens está na intensidade. “Com um homem, o prazer é muito mais intenso, mais profundo. Com uma mulher é mais malandro, mais sexy. Não é possível comparar. A pele é diferente, o cheiro é diferente. As mulheres são mais suaves, enquanto os homens são mais fortes. Eu prefiro homens, embora goste muito de me divertir com elas. É mais descomprometido, somos mais nós, há muita cumplicidade. Com um homem há sempre uma cortina. Talvez seja insegurança ou faça parte de um jogo de sedução. É completamente diferente. Um homem dá-me muito mais prazer, mas quando se experimentam os dois é impossível comparar.”<br />
Eve conta também que os ciúmes estão sempre lá quando duas pessoas gostam realmente uma da outra. “Consigo lidar bem com isso. Sobretudo porque comunicamos imenso e não existe sensação de infidelidade. Eu confio muito nele e certamente que ele me ia dizer se precisasse de outra companheira se eu não lhe desse tudo o que ele precisa. Eu faria o mesmo.”<br />
A abertura e a comunicação entre Eve e o seu namorado talvez sejam o segredo do sucesso e Eve concilia as duas relações, tal como qualquer mulher com um namorado concilia estar com as suas amigas. “E é óptimo ainda por cima porque fazemos shows eróticos e o que se passa é mesmo verdadeiro. Não é nenhum daqueles em que duas mulheres o fazem só porque têm de fazer.”</p>
<div id="attachment_6431" class="wp-caption alignnone" style="width: 810px"><img class="size-full wp-image-6431" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/DSC_8179_2.jpg" alt="" width="800" height="533" /><p class="wp-caption-text">foto: Lady Myosostys </p></div>
<p>E SE UM DIA TIVER DE ESCOLHER?<br />
Os seus olhos não escondem o brilho quando fala do seu namorado. E quanto aos limites do prazer confessa que tudo depende das circunstâncias e de cada momento. Os seus amigos e a sua família sabem que Eve tem uma mentalidade muito aberta. “Eles sabem como eu sou e aceitam aquilo que me faz sentir bem. Mas tanto a minha família como os meus amigos sabem que o que preciso verdadeiramente é de um homem ao meu lado.”<br />
Quanto ao futuro das suas relações, Eve não se preocupa demasiado. “Eu não procuro pensar muito no futuro das minhas relações. Vivo para o momento e não penso no que vem a seguir. Mas é óbvio que se tudo estiver a correr bem e se houver um passo a seguir, eu avanço!”<br />
Ao longo da conversa, Eve sublinhava bastante que uma conversa aberta e sincera é essencial dentro do casal. Seja hetero, bissexual, swinger, monógamo ou polígamo. “Um casal precisa de ter sempre a máxima abertura para que os dois saibam o que o outro precisa. É natural que ao longo da vida as pessoas tenham curiosidades diferentes e necessidades diferentes. Nem todos somos monógamos e nem todos somos polígamos. Há quem esteja muito bem, ou mesmo muito mal com isso. No nosso casso torna a nossa vida mais completa, mais livre, mais excitante. E eles vêem-nos como mais malandras. Eles gostam disso.”<br />
Diz viver para o momento e não sabe se deixaria de ter outras relações para já. “Adoro os dois. Ter estas relações faz com que eu me sinta bem e explore mais o meu prazer e quando não me apetece tanto estar com um, estou com outro.”<br />
Eve e o namorado têm uma espécie de acordo: cada um faz o que quer. Mas se chegar a altura de se juntarem mesmo, ela quererá dedicar-se inteiramente a ele, e ele também. Tudo mais é acessório. “Nós somos acima de tudo amigas, gosto de ter prazer com ela, e ajuda saber que também o estimula a ele. E depois tanto eu como ele nos sentimos mais à vontade para viver coisas novas.” E apesar de rasgar um sorriso quando fala da sua amiga para todas as ocasiões, nota-se bem com qual deles prefere estar. “Se um dia tivesse de escolher, escolhia-o a ele. Sem pensar duas vezes.”</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/04/23/isis-eve-o-sexo-o-amor-e-duas-cabanas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Índia: Varanasi &#8211; mais perto do nirvana</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/04/16/varanasi/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/04/16/varanasi/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 15 Apr 2010 23:10:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Boa Vida]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[India: Varanasi-mais perto do nirvana]]></category>
		<category><![CDATA[Isabel Cunha]]></category>
		<category><![CDATA[Varanasi]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=6306</guid>
		<description><![CDATA[Texto e fotografias Isabel Cunha O ar estava quente e a humidade também se encontrava presente. Não era de estranhar pois estava na Índia e no mês de Outubro. Recordando as temperaturas normais neste país até nem estava muito calor, mas para quem gosta do clima marítimo da zona oeste do nosso país pode considerar-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-6307" title="India 2009 385VaranasiPuja" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/India-2009-385VaranasiPuja1.jpg" alt="" width="460" height="307" /></p>
<p>Texto  e fotografias<strong> Isabel Cunha</strong><br />
O ar estava quente e a humidade também se encontrava presente. Não era de estranhar pois estava na Índia e no mês de Outubro. Recordando as temperaturas normais neste país até nem estava muito calor, mas para quem gosta do clima marítimo da zona oeste do nosso país pode considerar-se uma experiência pouco agradável, embora já a tivesse previsto, mas uma coisa é pensar, outra é experimentar e sentir.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6295" title="india" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem6.png" alt="" width="460" height="421" /></p>
<p>Depois de 18 horas num comboio, com partida em Deli, tinha chegado a Varanasi, a cidade mais antiga do mundo, segundo os hindus. À espera do grupo estava o Gopal, o guia local,  que ajudou o Inácio no negócio dos preços pelos auto-riquexós; a cada chegada a uma cidade era inevitável o regateio dos preços, a que se seguia a nossa distribuição por 3 ou 4 veículos juntamente com as mochilas entaladas nas nossas pernas ou sobre o colo! De novo, aquele frenesim que é andar neste meio de transporte típico no oriente, num jogo de escapadela ao toque em camionetas, carros, motorizadas, bicicletas, carroças, pessoas e animais com quem nos cruzávamos  a escassos centímetros, sempre com o som constante das buzinas; de todos estes aqueles a quem os condutores dispensavam mais atenção e cuidados eram mesmo os animais e particularmente as vacas ou não estivéssemos na Índia! No caminho da estação ao hotel  ainda tivemos que dar uma boleia a alguém o que já era também habitual; desta vez uns quantos policias saltaram para o lado dos condutores porque o nosso local de saída era mesmo ao pé de uma esquadra.  Dali ao  hotel, o Puja Guest House, tivemos que fazer o caminho a pé, por ruas estreitas e onde o sol mal entrava, sempre com as mochilas às costas, tentando por um lado não nos perdermos, por outro evitando pisar lixo ou dejectos de animais, essencialmente vacas, o que diga-se, foi uma empreitada complicada.  <span id="more-6306"></span><img class="alignnone size-full wp-image-6296" title="India" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem4.png" alt="" width="425" height="614" /></p>
<p>Juntamente com mais meia dúzia de cidades na Índia, Varanasi anteriormente designada por Benares ou Kashi, é uma das cidades sagradas do hinduísmo, recebendo a visita de milhões de hindus que aqui acorrem de todo o país, em peregrinação para se banharem no Ganges e assim se libertarem dos pecados.  Quando abri a janela do quarto vi logo o mítico Ganges mesmo uns metros abaixo do hotel, assim como alguns dos cerca de duzentos templos que existem na cidade dedicados a Shiva. Reparei que as janelas dos quartos eram gradeadas, e pensei que talvez houvesse assaltos mas depois percebi  que devia ser pelos inúmeros macacos que andavam por ali, por cima dos pátios das casas, nas árvores e nos templos. No terraço do Puja a  visão sobre Varanasi e o Ganges era ainda melhor e mais impressionante; quer a cidade quer o rio estavam envoltos numa ligeira neblina que não deixava ver com clareza total as casas e os telhados de cores meio desbotadas, a cor da água, os barcos  e a outra margem do rio.  Por breves momentos tentei sentir alguma  da espiritualidade e do misticismo que Varanasi representa para os hindus, mas foi em vão; quem sabe durante a estadia ainda conseguisse essa sensações.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6297" title="Índia" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem1.png" alt="" width="460" height="333" /></p>
<p>Depois  do pequeno almoço no terraço tomado quase na hora do jantar (devido à diferença horária) descemos as escadas até à recepção onde o guia nos esperava para nos conduzir até ao crematório principal da cidade que se situa na Manikharnika Ghat, de novo pelas ruelas estreitas e sujas de lixo. Reparei que os edifícios, os templos e os gaths (designação dada para as escadas á beira do rio) pareciam existir desde o inicio da humanidade, mas no caso particular dos gaths, foram construídos no século XVIII e venho mais tarde a saber que cada um tem um nome  e uma função especial, como por exemplo os gaths de Manikarnika e de Harishchandra que são os crematórios, ou os de Panchaganga onde se pensa que convergem  cinco rios sagrados. Os  gaths de Varna e Assi situam-se a este e oeste e estabelecem os limites da cidade sendo que estes nomes provém de dois afluentes do Ganges.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6298" title="índia" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem2.png" alt="" width="412" height="635" /></p>
<p>Quando cheguei a Manikharnika Gath nunca pensei que o impacto fosse tão chocante: estar aqui pode ser considerada  uma das experiências mais fortes e perturbadoras que se pode experimentar na vida. Aqui durante as 24 horas ininterruptamente procede-se à cremação dos corpos dos falecidos, graças ao trabalho de uma dezena de homens, os dohms, responsáveis por transportar às costas  grandes troncos de madeira dos barcos para pilhas espalhadas pelos gaths superiores e depois de novo transportá-la mais para junto  da margem, onde cada corpo será cremado durante algumas horas. Somos avisados que não é permitido fotografar o local e os corpos e eu questionei-me se naquele momento seria capaz de fotografar qualquer coisa que fosse. Já tinha lido alguns artigos sobre Varanasi e sobre os costumes fúnebres dos hindus, e sabia que nesta cidade estes rituais eram mais exacerbados mas nada do que tinha lido tinha sido suficiente para me preparar para esta realidade. Esta cidade indiana é a que tem a população mais velha do país, porque quem pode vem para Varanasi para ser cremado e para as suas cinzas serem atiradas ao Ganges, pois só assim poderá ser quebrado o ciclo das reencarnações. Reparei que ali a dois passos do guia e do grupo, pelo menos dois a três homens emagrecidos estavam pelos cantos enrolados, parecendo-me  já não faltar muito tempo para se finarem.</p>
<p>Mais à nossa frente mais uma cena quase indescritível; cerca de meia dúzia de cadáveres encontravam-se no meio do mesmo número de  pilhas de madeira que ardiam lentamente, enquanto que outros corpos enrolados em panos e depositados sobre liteiras aguardavam que chegasse a sua vez numa espécie de fila. Ainda hoje me interrogo como consegui presenciar estes rituais da cremação pelas imagens algo chocantes que vi. Algumas vacas pretas comiam flores e folhas secas e refrescavam-se na água ali mesmo em frente dos corpos que eram cremados, ao mesmo tempo que alguns homens emergidos no rio peneiravam a água, procurando jóias ou outros valores que tivessem restado da cremação dos corpos e que reverte para pagamento dos dohms, enquanto mais à frente da margem alguns turistas em pequenos barcos de madeira no rio tentavam ver melhor os rituais e também mais barcos carregados de madeira se aproximavam para descarregar   mais lenha. Enfim uma verdadeira “atracção” que me estava a deixar quase hipnotizada: o nosso guia ia explicando todos os procedimentos e o seu significado à luz da religião hindu mas eu quase não o ouvia e mal conseguia ver alguma coisa à minha volta; ali o ar era quase irrespirável pelo calor que estava no local (talvez uns 45 a 50ºC) e pelo cheiro emanado pelos corpos a serem cremados. Gopal explicou-nos que há cinco situações em os corpos não são cremados: quando são crianças (porque ainda não têm pecado), quando se trata de mulheres grávidas, quando são sacerdotes, quando são animais mortos; nestas situações é atada uma corda com uma pedra e o corpo é atirado ao rio. A quinta situação são os casos em que a pessoa morre por picada de cobra – o corpo é colocado numa maca de bambu a flutuar no Ganges pois crê-se que poderá ser ressuscitado por um sadhu (homem santo) que o encontre. Chamou-nos à atenção também que muitas vezes a temperatura não é suficiente para queimar todo o esqueleto humano, ficando muitas vezes por arder a bacia nas mulheres e o tórax nos homens, que são posteriormente atirados ao rio. Relativamente aos corpos dos falecidos  diz-nos  que são preparados em casa e transportados em liteiras de madeira pelos familiares, que entoam cânticos, pelas ruas até ao gath; as mulheres jovens são envoltas em panos de cor laranja e  as mais idosas em panos vermelhos, enquanto que para os homens se usam brancos. Habitualmente um familiar mais próximo vai buscar o fogo à chama eterna de Shiva que está num templo ali situado, e que segundo ele se mantém acesa desde a criação do Universo. Este familiar procede a um ritual da sua própria preparação em que rapa todo o cabelo  e deixando apenas um pequeno pedaço do mais comprido na região occipital, vestindo-se também de branco. As mulheres não participam nos rituais da cremação pois sendo mais emotivas poderiam chorar o que não deverá ser feito, uma vez que a cremação é encarada como uma possibilidade para libertação do ciclo das reencarnações e alcançarem o nirvana.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6310" title="India 2009 385VaranasiPuja1" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/India-2009-385VaranasiPuja11.jpg" alt="" width="900" height="600" /></p>
<p>Em boa verdade, fotografar as cenas e os rituais não fotografei, e poderia tê-lo feito, disparando-se discretamente a máquina, no entanto achei que não era correcto fazê-lo; afinal embora parecesse que estávamos a assistir a um espectáculo devido à quantidade de turistas em barcos de madeira que se aproximavam das margens ou que por ali circulavam, assim como a presença de alguns  locais que ali permaneciam sem estarem propriamente ligados a nenhum falecido que estava a ser cremado, a verdade é que aquilo não era uma diversão, mas sim uma demonstração de fé e religiosidade.  As imagens de Manikarnika vão ficar para sempre gravadas na minha memória sem serem necessárias fotografias para me relembrarem a cor enegrecida das construções, templos e gaths do local, provocada pelos milhares de cremações durante anos e anos sem interrupção, a temperatura elevada, o cheiro do ar que era quase irrespirável, a movimentação dos homens que carregam a madeira, os familiares dos mortos junto aos corpos, os homens que emersos na água procurando as jóias no meio das cinzas atiradas na margem, alguns cães enfezados que por ali rondavam em busca de “algo” que pudessem comer e as vacas a beberem água e a banharem-se. Tudo isto, assim como alguns homens e mulheres que mais à frente se banhavam e lavavam roupa na água sagrada do Ganges, constituíram um quadro tão impossível de esquecer como difícil de descrever.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6299" title="India" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem3.png" alt="" width="460" height="333" /></p>
<p>Mais à frente e já noutros gaths era visível um templo meio inclinado e apenas com a parte superior a descoberto. Foi então que me apercebi que o rio estava cheio e que alguns dos templos estavam submersos, assim como os deuses  neles contidos; quando as águas do Ganges descem drasticamente ficam de novo a descoberto e prontos para serem venerados. Deixámos os gaths e circulámos pelas ruas estreitas de regresso ao hotel. De novo o lixo no chão, as vacas, as cabras, as motorizadas e os locais nas suas actividades diárias: homens a costurar à máquina, outros a vender chai, outros a preparar paan, a cozer nan (pão) e a vender um variedade infinita de coisas impossíveis de enumerar desde flores a enfeites, roupas a comida.  Passámos depois por uma rua bastante curiosa: no meio do lixo e da sujidade, algumas casas com o chão forrado de panos imaculadamente brancos em que homens vestidos também vestidos com punjabis brancos ou antes bege (o branco indiano) estavam sentados lendo o jornal ou um livro, ou simplesmente olhando quem passava na rua. Vim a saber que Varanasi é também conhecida pela qualidade das suas sedas e que tínhamos acabado passar na rua onde estão a maior parte dos  vendedores de sedas. Outra coisa curiosa foi encontrar diversos homens a passar a ferro: aqui são os homens que se dedicam a esta tarefa assim como lavar a roupa (os dobhis); à porta de algumas casas está montado um pequeno balcão forrado de branco para que se possa passar a roupa com ferros bem grandes a lenha. A roupa por seu lado é lavada no água do Ganges e estendida nos gaths; aliás esta água é usada para tudo, desde lavar a roupa, tomar banho, cozinhar e beber.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6300" title="Imagem7" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem7.png" alt="" width="422" height="598" /></p>
<p>Se Varanasi é a cidade sagrada do hinduísmo convém mencionar que outras religiões aqui se praticam em amena convivência e assim o é há milhares de anos. De referir  por exemplo que o do Templo Dourado (ao qual os turistas não têm acesso)  se situa ao lado de uma mesquita e é neste espaço, fortemente vigiado por polícias, que diariamente hindus e muçulmanos fazem as suas orações. Um pouco mais à frente entre outros pequenos templos hindus situa-se um templo budista, o Nepali Temple. Conta-se que um imperador do Nepal veio a Varanasi consultar um sacerdote hindu porque estando casado há vários anos não tinha descendência: o sacerdote disse-lhe que regressasse ao Nepal e que distribuísse as suas riquezas aos pobres e que em seguida o seu desejo de constituir descendência se realizaria. Como tal aconteceu, o imperador decidiu construir também um templo em Varanasi que se encontra decorado com figuras esculpidas com cenas do Kamasutra. É pois curiosa esta aparente coexistência pacífica  e tolerante de uma religião que venera milhares de deuses, com outras para quem só existe um deus. Aliás em tom jocoso um autor mencionou numa obra sua que o hinduísmo seria a Disney das religiões, pelo que  pensando nas imagens de alguns dos deuses hindus, com as suas faces risonhas e coloridas diria que o hinduísmo poderá ser a United Colors das religiões.</p>
<p>Para o final do dia, que acontecia por volta das 17 horas, estava programado um passeio de barco pelo Ganges para apreciar o pôr do Sol, que se revelou um momento algo fúnebre uma vez que o sol se põe por trás dos edifícios e dos templos, o que os faz parecer ainda mais antigos, degradados, descoloridos e escuros, tal como a água do Ganges se torna mais escura e com aspecto barrento. Salvou este passeio termos assistido a uma cerimónia religiosa na Dashaswamedh Ghat de purificação e limpeza dos pecados e de homenagem aos quatro elementos do mundo que decorre diariamente denominada de puja. Foi um pequeno quase mágico e belo não fora a sujidade das escadas onde nos sentámos para assistir e ainda a presença de algumas vacas que repousavam nos gaths misturadas com crentes, sadhus e turistas que assistiam à cerimónia que decorria num palco montado para o efeito e onde uns sete sacerdotes gesticulavam, ao som de música e cânticos e sinos, uma espécie de lamparinas de metal acesas ao som da música. Creio que tal como durante a visita à Manikarnika Gath a minha maneira de ser quase asséptica   me impediu de apreciar e sentir a espiritualidade do momento, apesar das belas imagens das luzes e das chamas do ritual, bem como das inúmeras armações com velas acesas e pétalas de flores que crianças vendiam nas margens e que os turistas compravam, acendiam e deitavam á agua pedindo um desejo e que flutuavam como estrelas rio abaixo. Quem sabe se voltasse outro dia, outro e outro conseguiria modificar os meus pensamentos “estéreis” de europeia assim como os meus sentimentos desapegados do ritual.</p>
<p>Para terminar o dia nada melhor que depois da religiosidade seguirmos para o consumismo. Mesmo numa cidade sagrada da Índia o sagrado encontra-se com o profano, pelo que fomos “negociar” sedas, não sem antes combinarmos um novo passeio de barco no Ganges desta vez ao amanhecer, que ocorria por volta das 5h e 30m do dia seguinte. À noite no hotel tínhamos músicos a tocar citara e a cantar enquanto jantávamos mais uma refeição “very specie” para as nossas papilas gustativas e para os nossos estômagos sensíveis; foi a refeição mais tipicamente indiana que tive na viagem   a que  chamei “Music and Food” à semelhança do filme “Music and Lyrics”.</p>
<p>Pelas 5 da manhã do dia seguinte quando me vestia para o passeio de barco reparei que as calças e a blusa me estavam muito justas, e olhando para as mãos, braços, pernas e pés notei que estavam inchados, mas como não me sentia mal, saí para assistir ao nascer do sol e para mais um passeio de barco pelo Ganges. Aquela hora já vários barcos com turistas andavam no rio e muitos hindus também já se encontravam nos gaths para se lavarem, ou para fazerem as suas orações ou ioga,  alguns vestidos com lunghis (lençóis brancos que os homens enrolam à volta das pernas); mais à frente perto da  Harishchandra Gaht um corpo estava a ser cremado sendo visíveis os pés do cadáver. Junto à pilha de lenha e ao corpo encontravam-se alguns familiares vestidos de branco  e alguns cães enfezados.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-6303" title="Imagem8" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem8.png" alt="" width="418" height="642" /></p>
<p>Mais uma vez o céu tinha aquela neblina suave que parecia uma fina cortina que dava uma cor e um efeito especial ao sol. No barco ouvíamos os sinos a tocarem e cada vez mais hindus chegavam aos gaths. À medida que o sol subia a  cidade começava a adquirir uma imensa luminosidade devido às cores alaranjadas e douradas dos edifícios, dos topos dos templos, das várias imagens de deuses e dos gaths, como que renascendo das cinzas e rejuvenescendo da sua antiguidade do final de tarde do dia anterior, ao mesmo tempo que agora a água do Ganges parecia dourada . Os gaths estavam agora apinhados de hindus vestidos com roupas coloridas nomeadamente as mulheres e os sadhus com as suas vestes laranja e amarelo. Saímos do barco e passeámos pelos gaths onde a azáfama era grande: barqueiros acercavam-se da margem para nos oferecer passeios de barco, algumas crianças queriam vender-nos postais ou velas para lançar ao rio, alguns  homens e mulheres oravam, outros lavavam-se energicamente, enquanto que sadhus passeavam com a sua bilha metálica numa mão e um tridente na outra, dobhis lavavam roupa e estendiam-na nos gaths, enquanto mais à frente duas mulheres faziam pequenas bolas com excrementos de vaca que serviriam de combustível depois de secos.  O Sol já apertava e o calor começava a ser muito quase, tendo procurado um pouco de sombra nos enormes chapéus de palha tipo cogumelos que se encontravam por ali. Como levava a máquina fotográfica e ia captando algumas imagens, vi-me rodeada de uma família que me pediu para fotografar todos os membros (perto de vinte pessoas, adultos e crianças pequenas). Logo em seguida já tinha outra família à espera para ser fotografada. Ali perto estava uma pequena loja onde trabalhava o Tinku um rapaz de dezoito anos, cujo pai tinha falecido, e que era o responsável pela subsistência da sua família: a mãe, o irmão e ainda duas irmãs. Explicou-me que ficou a tomar conta do negócio do pai e que queria que os irmãos mais novos pudessem estudar e que a mãe não precisasse de trabalhar. Contou-me ainda que se estava a aproximar uma grande festa para os hindus, o divali,  e que estavam a chegar muitos peregrinos de toda a Índia à cidade sagrada para os festejos. Agradeci as informações que o Tinku me deu e preparava-me para dar mais um passeio pelas margens do rio quando comecei a sentir-me mal, ao contrário do que se possa pensar não com sintomas de gastroenterite o mais habitual acontecer aos turistas na Índia, mas sim com uma sensação de que o coração parecia saltar-me do peito ao mesmo tempo que batia aceleradamente e que eu suava em bica.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-6291" title="Varanasi" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem5.png" alt="" width="422" height="548" /></p>
<p>Não sei como mas apesar de todo este mau estar lá consegui subir os gaths, andar por umas quantas ruas  para regressar ao hotel e ainda galgar as escadas correspondentes a quatro andares até ao meu quarto. Deitei-me na cama e procurei descansar um pouco, apesar da ansiedade provocada por  aquela sensação desagradável de que não sabia a causa, assim como pelo medo de não poder continuar a viagem. Pela cabeça passavam-me agora as imagens da véspera e da manhã daquele dia como quem vê um filme no qual participa, tendo acabado por adormecer profundamente mesmo com o barulho da ventoinha do tecto que estava ligada, na esperança que me refrescasse a mim e ao quarto que já estava quentíssimo. Acordei três horas depois, quando me chamaram para ir de novo para a estação. Quando olhei para as mãos e para os pés, reparei que estavam  normais assim como a roupa já não me estava apertada; era como se nada me tivesse acontecido! Fiquei muito surpreendida mas sobretudo satisfeita por me sentir bem de novo  e nos meus pensamentos só me ocorreu que tivesse sido a cidade sagrada e os deuses que me ajudaram a recuperar e então agradeci mentalmente &#8211; “Namastê”. Já não me sentia doente, antes pelo contrário sentia-me com uma nova energia e ia poder continuar a minha viagem por este país místico, incompreensível e  inexplicável.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6304" title="Imagem2" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem24.png" alt="" width="412" height="635" /></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/04/16/varanasi/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A celebração da Páscoa no interior (Multimédia)</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/04/04/a-celebracao-da-pascoa-no-interior-multimedia/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/04/04/a-celebracao-da-pascoa-no-interior-multimedia/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2010 01:11:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[a23]]></category>
		<category><![CDATA[quaresma]]></category>
		<category><![CDATA[Susana Paiva]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=6110</guid>
		<description><![CDATA[Fotografia e edição de Susana Paiva - O "Enterro do Senhor", a "Via Sacra" e a "Paixão de Cristo", são realizações desta quadra que ainda subsistem. Na cidade do Fundão centenas de cristãos assinalam durante três dias a paixão e morte de Jesus, dia que a Igreja Católica instituiu de jejum, silêncio e oração. A fotógrafa Susana Paiva captou instantes marcantes da celebração da Páscoa no Fundão. "Das trevas para a luz" regista através da fotografia tradições que subsistem com o passar dos tempos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-6114" title="quaresma /susana Paiva" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem21.png" alt="" width="452" height="295" /></p>
<p>O &#8220;Enterro do Senhor&#8221;, a &#8220;Via Sacra&#8221; e a &#8220;Paixão de Cristo&#8221;, são realizações desta quadra que ainda subsistem. Na cidade do Fundão centenas de cristãos assinalam durante três dias a paixão e morte de Jesus, dia que a Igreja Católica instituiu de jejum, silêncio e oração. A fotógrafa Susana Paiva captou instantes marcantes da celebração da Páscoa no Fundão. &#8220;Das trevas para a luz&#8221; regista através da fotografia tradições que subsistem com o passar dos tempos.</p>
<p>Fotografia e edição de<strong> Susana Paiva</strong></p>
<p><object id="soundslider" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="460" height="333" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowScriptAccess" value="always" /><param name="quality" value="high" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="menu" value="false" /><param name="bgcolor" value="#333333" /><param name="src" value="http://homepage.mac.com/mariacerdeira/Quaresma_SPaiva/soundslider.swf?size=2&amp;format=xml&amp;embed_width=460&amp;embed_height=333&amp;autoload=false" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed id="soundslider" type="application/x-shockwave-flash" width="460" height="333" src="http://homepage.mac.com/mariacerdeira/Quaresma_SPaiva/soundslider.swf?size=2&amp;format=xml&amp;embed_width=460&amp;embed_height=333&amp;autoload=false" bgcolor="#333333" menu="false" allowfullscreen="true" quality="high" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/04/04/a-celebracao-da-pascoa-no-interior-multimedia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Ruas de Escritas</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/03/21/ruas-de-escritas/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/03/21/ruas-de-escritas/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 02:37:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Alexandre O’Neill]]></category>
		<category><![CDATA[Dia Mundial da Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Irene Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[José Gomes Ferreira e Natália Correia]]></category>
		<category><![CDATA[lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Paulouro]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=5920</guid>
		<description><![CDATA[Texto Ricardo Paulouro - Malraux dizia que a morte transforma a vida em destino. Tal como na hora do crepúsculo, em que as formas morrem lentamente mas continuam a existir na linha do horizonte, as vozes dos que são recordados ganham nova força e permitem-nos, por vezes, encontrar novos sentidos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5921" class="wp-caption alignnone" style="width: 447px"><img class="size-full wp-image-5921" title="Danilo Pavone" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem141.png" alt="" width="437" height="253" /><p class="wp-caption-text">Fotografia de Danilo Pavone (www.danilopavone.com )</p></div>
<p>Texto | <strong>Ricardo Paulouro</strong> Fotografias | <strong><a href="http://www.danilopavone.com">Danilo Pavone </a><br />
</strong></p>
<p>Texto &#8211; Ricardo Paulouro Malraux dizia que a morte transforma a vida em destino. Tal como na hora do crepúsculo, em que as formas morrem lentamente mas continuam a existir na linha do horizonte, as vozes dos que são recordados ganham nova força e permitem-nos, por vezes, encontrar novos sentidos. No caso dos escritores, que se cumprem na palavra e pela palavra, o seu legado é nada mais do que a própria obra, as palavras a matéria-prima. Isto significa que essas palavras que resistem ao desgaste do tempo deixam de ser apenas a expressão de um ser individual para serem absorvidas pelo colectivo. Testemunho de um ‘eu’, “a poesia é o que recapitula o mundo / chamando-o em cada chama / pela chama de cada sílaba”, como já o disse Manuel Gusmão. Testemunhar e recapitular o mundo através do olhar dos escritores permite-nos partilhar e convergir face a essa experiência individual para, em seguida, partir em novas explorações e apreensões da realidade.<span id="more-5920"></span></p>
<p>Encontramos, por isso, muitas vezes, na obra de cada escritor, um roteiro por caminhos mais ou menos erráticos da escrita e da cidade. Tomemos então como percurso a seguir a obra de quatro escritores – Alexandre O’Neill, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira e Natália Correia – e como cenário, a cidade de Lisboa.</p>
<p>Ao entrarmos nos lugares de Lisboa através das obras destes escritores, que são, de algum modo, as vozes da cidade, partilhamos necessariamente uma rotina quotidiana de ruas, mas também de afectos. Assim, pensar a relação entre o mundo literário e o espaço físico implica também problematizar a questão da representação do sujeito. Nas habitações errantes dos mundos de Irene Lisboa, O’Neill, Gomes Ferreira ou Natália Correia, percorridas por substantivos como o rio, as ruas, ou o eléctrico, a cidade é o eixo a partir do qual se constrói o tempo individual de cada sujeito. Mais do que simples cenário, porque também parte integrante do sujeito, a cidade é o espaço do imaginário, apreendido enquanto suporte de beleza, portador de significados que são interpretados e lidos.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5922" title="Danilo Pavone" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem112.png" alt="" width="457" height="226" /></p>
<p>Desde Fernão Lopes a Garcia de Resende, passando por Beckford a Fialho, a cidade de Lisboa tem sido descrita por muitos. A imagem que se foi criando da cidade foi importante para compreender determinadas representações literárias em que o imaginário se sobrepôs ao real. No entanto, Lisboa é também a cidade de muitos poetas e prosadores, cujas <em>cartografias</em> de um Eça ou de um Fernando Pessoa nos fazem hoje vê-la melhor. Usar o elevador da Glória ou descer a pé pelo Chiado em direcção à Baixa pombalina, ou simplesmente seguir o trilho do eléctrico 28, pela Rua do Limoeiro, permite-nos apreciar as cores de uma cidade, já tão glosada pelos seus poetas.</p>
<p>Procurando entender a ligação entre esses cenários e a geografia literária de cada um destes quatro escritores, colocou-se-nos uma questão: onde <em>habitam</em> hoje Irene Lisboa, Alexandre O’Neill, Natália Correia ou José Gomes Ferreira? Decidimos, por isso, submergir na malha urbanística da cidade de Lisboa. Desde os primeiros bairros erguidos no sopé do Castelo mourisco, passando pelo bairrismo dos becos e travessas de Alfama e da Mouraria, onde as ruas funcionam como membros de um corpo colectivo, deparámo-nos, pelo caminho, com nomes de ruas tão esplendorosas como: Largo da Paz ou Travessa da Madressilva.</p>
<p>Tomámos, como primeira paragem, a rua Alexandre O’Neill, localizada entre a Rua Pinto Ferreira e a Rua Artur Lamas, na freguesia de Alcântara. O’Neill, cuja poesia tinha sido invadida pelo quotidiano, sem nunca abdicar do olhar irónico sobre o mundo, habita numa rua onde as casas estão demasiado coladas a si próprias, onde o ruído permanente é o barulho dos carros a passar. “Já aqui vivo há quarenta anos mas não sei quem é esse senhor”, confidencia-nos uma senhora debruçada sobre o parapeito de um rés-do-chão. “Nunca nos explicam nada, sabia?”. Não, ignorávamos por completo que alguém pudesse sair de casa todos os dias e na esquina estivesse o O’Neill, à espera. À espera de ser reconhecido. Uma das casas está em ruínas, a corroer memórias. “Deviam deitar isto abaixo. Qualquer dia acerta em alguém. Isso sim é importante.” Seguimos caminho compreendendo ainda melhor os versos do poeta: “Estou onde não devia estar. / Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre / [a fronteira da nostalgia / e a solução um penacho de fumo / o meu coração fumegando na linha do horizonte” («A Pluma Caprichosa»).<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5923" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem121.png" alt="" width="460" height="206" /></p>
<p>Próximo destino: Rua Irene Lisboa. Para Irene Lisboa o quotidiano é considerado como material de reflexão. A crónica urbana e o visualismo idênticos aos de Cesário fazem da Lisboa da escritora uma cidade enquanto elemento actuante, como se de uma personagem se tratasse, sempre ancorada na memória. Tivémos, no entanto, que experimentar a sensação da deambulação porque a rua Irene Lisboa não queria ser encontrada. Na freguesia de Benfica, entre a Rua Eduardo Schwalbach e a Rua Dr. Cunha Seixas, sentimos como Irene: “A minha rua não é feia, tinha-me dito a Adelina um dia, quando eu mal a conhecia. E não era, dava uma bonita volta em cima, de onde se avistava Monsanto de esguelha.” (in <em>Esta cidade!</em>). Ladeada por pequenas casas solarengas, na Rua Irene Lisboa um dia é igual a outro dia. De quando em vez, mesuras nos jardins e portadas abrindo em flor, arejam as casas térreas, de trancas à intimidade. Mas uma rua sempre é uma rua, mesmo que pequena e silenciosa, porque afinal “uma rua vira para o mundo duas esquinas importantes pelo menos”! (Irene Lisboa, <em>Esta Cidade!</em>). «Nunca li nada da Irene Lisboa. Com o passar dos anos todos os dias sei menos uma coisa!», brinca o senhor Duarte, encostado à cerca de sua casa. «Aprender o quê? Já não há mais nada para aprender.» Usámos a técnica de sempre: citar nomes de escritores famosos que as pessoas assumem como íntimos. «A Irene Lisboa devia ser uma grande escritora para ter o nome numa rua!».<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5924" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem13.png" alt="" width="439" height="156" /></p>
<p>Para a Rua José Gomes Ferreira preferimos ir a pé, seguindo o exemplo do próprio: “Sempre andei muito. Sempre fui um vagabundo de ruas sem sentido. Para quê? Não para pedir esmola – evidentemente. Às vezes apenas para revisitar velhas montras. Outras para fazer versos – que é uma espécie de pedir esmola a deuses pouco caritativos” (<em>Calçada do Sol</em>). Entre a Rua Silva Carvalho e a Avenida Eng. Duarte Pacheco, na freguesia de Santa Isabel, vive agora Gomes Ferreira. Assiste ao corre- corre diário, ao tráfego intenso, ao consumismo desenfreado em direcção às Amoreiras. Quer as viaturas, quer as pessoas andam à velocidade convencionada pelo código. Será esta uma das «ruas sem sentido»?</p>
<p>Natália Correia foi a que melhor nos recebeu em casa. Ali, em pleno coração da Graça, também espaço de raízes e memórias para a escritora, entre a Rua dos Sapadores e a Rua da Graça, Natália Correia pode encontrar o silêncio, nesse lugar ameno que agora habita: “Não digas nada: os fados não comove / A vã palavra. Calados escutemos / O silêncio em que o sábio deus envolve / Os seus lugares amenos” (in <em>O Armistício</em>). Ali, onde a tradição nunca cedeu aos ventos da mudança, Natália pode celebrar em pleno a vida, essa redistribuição entre o homem, a voz, o silêncio e os deuses.</p>
<p>A relação do lugar com o homem permite-nos não só apurar o olhar em relação a determinado lugar, mas também apercebermo-nos que a melhor forma de conhecer a cidade não é através de nenhum roteiro específico mas deixarmo-nos ir à deriva, experimentarmos a desorientação que nos permite apreciar pormenores, nem por isso, menos importantes, como a toponímia. António Gedeão, Carlos de Oliveira, Pedro Homem de Melo, Jorge de Sena, Fernando Pessoa e tantos outros sobrevivem ao tempo nas esquinas de edifícios que contam a história da cidade antiga. Nas cidades escritas tudo é expressão do sujeito e do seu lugar no mundo. Busca-se então esse <em>passaporte</em>, como diria Natália Correia, que faculte a identidade presa ao passado e aos espaços da memória. A toponímia, investida de um sentido de homenagem, é também um ‘palavrar’, na acepção de Bernardo Soares, um ‘in memoriam’ em que as palavras surgem como entidades vivas. No entanto, o homem não morre apenas enquanto ser natural mas também enquanto elemento pertencente a uma dada comunidade, pois o sentido mais profundo da existência é determinado por este tecido de relações e interdependências. Logo, o eu não pode existir sem o outro, que se diferencia dele e se lhe opõe como limite.</p>
<p>Terminado o roteiro, ocorrem-nos palavras de Maria Judite de Carvalho: “Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança.” (in <em>Tanta Gente, Mariana</em>). Na roda viva da cidade, as placas nas esquinas das ruas continuam intocadas, as obras memorizadas. Na rua de Natália Correia, um senhor que passava assistia emocionado à consagração da poeta numa das ruas do seu bairro. Teve saudades. Só não sabia de quê.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/03/21/ruas-de-escritas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Filipinas: Montanha Fumegante, a maior lixeira a céu aberto do mundo</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/03/19/filipinas-montanha-fumegante-a-maior-lixeira-a-ceu-aberto-do-mundo/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/03/19/filipinas-montanha-fumegante-a-maior-lixeira-a-ceu-aberto-do-mundo/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 14:17:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[asia]]></category>
		<category><![CDATA[bairro de lata]]></category>
		<category><![CDATA[filipinas]]></category>
		<category><![CDATA[Manila]]></category>
		<category><![CDATA[pacifico]]></category>
		<category><![CDATA[paulo nunes dos santos]]></category>
		<category><![CDATA[pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[smokey mountain]]></category>
		<category><![CDATA[tondo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=5902</guid>
		<description><![CDATA[Situada em Tondo, nas imediações do porto de Manila, encontra-se a Montanha Fumegante (Smokey Mountain no seu nome original), um dos mais pobres e degradados bairros-de-lata do mundo, uma vergonha para o governo das Filipinas e um símbolo maior de pobreza global.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-5903" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_009.jpg" alt="" width="450" height="299" /></p>
<p><em>Fotografia e texto de <strong>Paulo Nunes dos Santos</strong></em></p>
<p>Situada em Tondo, nas imediações do porto de Manila, encontra-se a Montanha Fumegante (Smokey Mountain no seu nome original), um dos mais pobres e degradados bairros-de-lata do mundo, uma vergonha para o governo das Filipinas e um símbolo maior de pobreza global.<span id="more-5902"></span></p>
<p>Com cerca de 40 anos de idade, a Montanha Fumegante é um colossal monte de lixo e casa para mais de 30 mil pessoas que vivem nos detritos ali despejados. A população local literalmente vive desses detritos, rebuscam entre o lixo, queimam-no, separam-no em sacos de plástico, reciclam-no, vendem-no, e muitas das vezes ate se alimentam dele. Uns vendem comida em barracas improvisadas junto ao porto de cidade, outros são carregadores nas embarcações, outros são condutores de bicicleta-taxi, mas a maioria faz do lixo o principal meio de sustento.</p>
<p>A população é de tal ordem dependente da montanha, que se torna quase impossível distinguir à primeira vista o que é e o que não é lixo. As inúmeras habitações construídas à base de detritos confundem-se com o aglomerado de despojos, e a montanha é agora um bairro-de-lata onde cerca de 30 mil pessoas reside, trabalha e sobrevive.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5904" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_001.jpg" alt="" width="450" height="279" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5905" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_004.jpg" alt="" width="450" height="278" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5906" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_003.jpg" alt="" width="450" height="296" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5907" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_0051.jpg" alt="" width="441" height="301" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5908" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_008.jpg" alt="" width="438" height="301" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5909" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_006.jpg" alt="" width="450" height="265" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5910" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_007.jpg" alt="" width="450" height="292" /></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5911" title="Tondo neighborhood in manila, The Philippines." src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Tondo_Manila_002.jpg" alt="" width="450" height="286" /></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/03/19/filipinas-montanha-fumegante-a-maior-lixeira-a-ceu-aberto-do-mundo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>As estranhas e fantásticas histórias de Jolon</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/01/30/as-estranhas-e-fantasticas-historias-de-jolon-2/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2010/01/30/as-estranhas-e-fantasticas-historias-de-jolon-2/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 30 Jan 2010 15:06:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Jolon]]></category>
		<category><![CDATA[Jornal do Fundão]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Margarida Dias]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Paulouro]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Pelejão]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=4949</guid>
		<description><![CDATA[Reportagem - Ora venha de lá essa história! Jolon, correspondente do “Jornal do Fundão” em Penamacor há mais de 30 anos tem uma retrosaria aberta com um balcão de histórias de vida que recolhe. É um biógrafo do povo, um jornalista que nos leva ao coração sentimental das histórias. Vamos à boleia 
Texto-Ricardo Paulouro, Rui Pelejão &#124; Fotografias de Margarida Dias ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-4950" title="Imagem11" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/Imagem11.png" alt="" width="460" height="320" /></p>
<p><strong>Ora venha de lá essa história! Jolon, correspondente do “Jornal do Fundão” em Penamacor há mais de 30 anos tem uma retrosaria aberta com um balcão de histórias de vida que recolhe. É um biógrafo do povo, um jornalista que nos leva ao coração sentimental das histórias. Vamos à boleia. </strong>Texto <strong>Ricardo Paulouro</strong> e <strong>Rui Pelejão Marques</strong> Fotografias <strong>Margarida Dias</strong></p>
<p><span style="color: #333333;"><strong>“Eu dormia no palheiro perto das cabras e de dois burros que meus pais tinham. Uma noite, ao entrar, reparei que os burros tinham o pêlo todo eriçado e cheio de gotas de água. Deitei-me e de repente noto que me tiram a manta de cima. Tento acender a lanterna, mas gastei metade da caixa de fósforos e não consegui acendê-la. Entretanto sinto como que pessoas a passarem perto de mim e risos. Pareceu-me reconhecer o rir de uma moça de quem eu andava atrás. Então disse-lhes: ó filhas do diabo se quereis brincar vinde aqui para a cama que eu já vos ensino a brincar. Mas elas continuavam a rir e a correr. Tentei agarrá-las com a mão esquerda – dizem que só assim se conseguem apanhar as bruxas – mas não apanhei nenhuma. Agarrei o meu gibão e enrolei-me nele. Olha que dava três voltas ao corpo! Deitei-me. Quando dei conta senti-me no ar e sem o gibão. Tapei-me com a enchalma, tornaram a tirar-ma. Mas sem medo continuei a convidá-las para se meterem na cama comigo. Até que sinto um corpo mais pesado a escorregar na palha e um gargalhar de homem que me meteu medo. A partir de então já não ouvi nada mais. Diziam que sempre que as bruxas saem são acompanhadas pelo demónio, terá sido ele que se riu daquela maneira”.<span id="more-4949"></span><br />
</strong></span></p>
<p>Ele há histórias do diabo. Ele há histórias do catrino. Esta é uma das “Estranhas e fantásticas histórias de Ti Zé Trapiço”, publicada no Jornal do Fundão em 27 de Julho de 2001. Então com 92 anos, Ti Zé Trapiço, velhote das longínquas Aranhas, contava a picaresca aventura com as insinuantes bruxas a José Lopes Nunes, correspondente do JF no concelho de Penamacor. Fica gravada a memória nas páginas de um jornal, museu do efémero, mesmo agora que Zé Trapiço já abalou para a terra da verdade. Fica gravada, graças a José Lopes Nunes, ou simplesmente Jolon que é como assina este “mineiro” de histórias da raia perdida.</p>
<p>No meio de tanto palavreado e banzé retórico que se publica aí pelas estrebarias a seis colunas, há uma leitura obrigatória em Portugal. Obrigatória para quem ainda acredita, como nós, que o coração sentimental do jornalismo são as pessoas.</p>
<p>Há quase trinta anos que Jolon nos conta histórias de pessoas. Num tempo de jornalismo autista, enfeudado à missinha da assembleia municipal (simulacro de democracia local), ao comodismo do ar-condicionado, da preguiça da internet e das sinecuras que a profissão oferece (paga-se mal em dinheiro, mas generosamente em vaidade); num tempo de jornalismo funcionário e mouco, ler as refrescantes histórias de Jolon serve para nos tirar a cera da indiferença dos ouvidos e escutar a voz humana, modulada em palavras que são eco da condição humana, aqui na expressão de um mundo rural que vai morrendo aos poucos, mas com uma dignidade e uma alegria só possível a quem ao longo da vida se habituou a viver com nada ou pouco mais que isso. Mais do que saber contar histórias, Jolon sabe ouvi-las. Tem orelha treinada e faro de perdigueiro. Ao balcão da sua retrosaria em Penamacor ou calcorreando as aldeias remotas, os lugarejos mais inóspitos daquela região raiana, Jolon sabe como ninguém puxar pela língua às pessoas. “Venha de lá essa história, Ti Joaquim Bicicleta”. E a língua das pessoas lá se solta, abrindo o coração que se ilumina nos olhos com as memórias de outros tempos. Depois, com a minúcia de um cinzelador aponta-as no seu bloquinho para as trazer semanalmente às páginas do nosso “Jornal do Fundão”.</p>
<p>São mais do que crónicas do efémero ou retratos do quotidiano. São registos únicos de um modo de vida que desaparece lentamente, são retratos eloquentes da vida no campo, esculpidos nas rugas das caras dos velhos. Na sua expressão sincera e espontânea que nem a fotografia esboroada a tinta de jornal finge ou intimida, antes esclarece. Mas chega de floreados e mariquices. Um jornalista deve saber ouvir, saber calar-se e ouvir. Vamos à viagem, vamos às histórias, dás-nos boleia Jolon?</p>
<p><strong>Nasce torto e jamais se endireita</strong></p>
<p>E este país que nasceu torto, jamais se endireita, não é Ti António Ramos, “indreita”?</p>
<p>“Aos 87 anos, António Ramos ainda endireita muita gente”</p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Contando já com 87 anos, António Ramos diz ter nascido já com o dom de endireita, assim como o pai, porém foi com este que se foi aperfeiçoando. Para evidenciar os ensinamentos do pai, contou que o ‘Ti Alexandre, pastor de seu pai, natural de Segura, também aprendeu. Um dia, o Ti Alexandre foi preso. Diante do juiz pediu que lhe levassem um galo. Satisfeita a vontade, num instante partiu as pernas à ave, atirou com elas ao chão e desafiou que qualquer médico lhe pusesse o galo a andar. Posteriormente ele mesmo o fez perante a admiração de todos. O réu foi mandado em paz. O Ti Ramos esclarece que o homem não partiu as pernas ao galo ‘ele só as desmanchou, depois foi só pôr os ossos no lugar e o galo voltou a andar’. (…)  A primeira vez que o levaram, recorda, foi para endireitar um pé ao Dr. Rolão Preto ‘ Ele era um político. Uma vez estava em casa dele e chegaram uns indivíduos para o prender. Ele vestiu-se com uma samarra de pele de cabra, pegou num cacete e num guarda-chuva e disse bem alto – vou botar o gado fora. Passou por entre os guardas, que não o reconheceram e foi-se embora.”</span></strong></p>
<p>A arte de endireitar quebrantos ortopédicos é comum e especial na Beira Baixa como documenta o caso de Tó Craveiro, o homem dos sete ofícios: “Foi emigrante na Alemanha, trabalhou na Câmara Municipal de Castelo Branco , nas horas vagas matava e vendia cabritos. Para além disso ainda era endireita, este é o retrato de Tó Craveiro”. Bem aos ossos faz-lhe a cerveja: “Grande apreciador de cervejas, quando vivia em Castelo Branco, uma empresa de cervejas oferecia-lhe uma grade desta bebida pelo Natal, como recompensa por ser tão bom consumidor”.</p>
<p>Se Tó Craveiro era conhecido como o varredor dos cabritos em Castelo Branco, também Fernando Pombo ganhou fama como matador de porcos. Uma fábula à La Fontaine o pombo mata-porcos.</p>
<p><strong>Na Aldeia do Bispo encontramos,</strong></p>
<p>“Fernando Pombo excelente matador de porcos”</p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Junto de uma velha pipa de madeira as galinhas esgravatavam na esperança de encontrarem alguma minhoca. Estrategicamente colocada a bancada de madeira aguardava a chegada da vítima: O porco.Minutos depois, os homens após alguma luta, conseguem prender as patas e colocá-las em cima da banca. Fernando Pombo previne os ajudantes para segurarem bem o animal de modo a que não venham a ser feridos quando ele esfaquear no momento de aflição. Lava a barbela do animal e ao contrário do que estamos habituados a ver, utiliza uma pequena navalha com uma lâmina de cerca de 10 centímetros. Mais surpreendidos ficamos ainda porque em poucos minutos o porco estava morto. Pode afirmar-se que teve uma morte rápida e de sofrimento mínimo para o animal. Este é porventura o motivo porque o matador é considerado um dos melhores da terra. A experiência de largos anos é outra justificação para cerca de uma centena de solicitações por ano, para a matança de porcos, em Aldeia do Bispo. A arte de matar porcos, cabritos ou cabras aprendeu-a com o pai que era talhante. Tinha 15 anos de idade. O porco maior que matou pesava 200 kg.”</span></strong></p>
<p>Matar para ganhar a vida. O sustento, o trabalho árduo, os ofícios que se extinguem num mundo rural. Tudo isto faz parte do roteiro de Jolon. O trabalho dos homens e das mulheres da Beira Baixa é um filão que o jornalista garimpa como mineiro de metais preciosos. Seja no balcão da sua retrosaria ou quando se acamarada com os velhos dormitando ao sol no terreiro das Aranhas, Jolon sabe que basta um fósforo para acordar as memórias. E como estamos na raia, as histórias de contrabando vêm à baila com uma mini na mão e um lampejo de malandrice e saudade.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-4951" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/Imagem12.png" alt="" width="460" height="320" /></p>
<p><strong>“Zé Tostão: ganhão, pastor e contrabandista”</strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Era o tempo da Guerra Civil de Espanha. Eles não tinham lá nada, nós tínhamos de tudo. Eu levava farinhas de milho, trigo, centeio, bacalhau, açúcar, café. Cheguei a fazer o alqueire de centeio a 100 escudos e a vendê-lo a 200 e 250 escudos. Era então, muito, mas muito dinheiro. (&#8230;) A conversa é como as cerejas, diz o povo. De facto a conversar com José Borrego Domingos não se dá pela passagem do tempo e as histórias surgem espontaneamente. Em relação aos tempos antigos e ais actuais, que tem a dizer?: ‘Agora é que está o diabo&#8230;’ coça a cabeça.”</span></strong></p>
<p>Pois, é do diabo. Agora não há fronteiras, nem Guerra Civil em Espanha, a fome que há anda escondida e envergonhada, calada, mas o diabo anda por aí a gargalhar como no palheiro de Ti Zé Trapiço. Mas vamos ouvir mais histórias de contrabandistas, que são das boas:</p>
<p><strong>“Chegamos a ser quase 50 contrabandistas a cavalo”</strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“António Luís (o Paca) de 79 anos, foi companheiro de muitas dessas aventuras. Fomos encontrá-lo em casa bastante debilitado, pois havia passado a noite hospitalizado em Castelo Branco. Apesar disso, o ânimo foi-se elevando a pouco e pouco com o desenrolar da conversa. A tal ponto que acabou sentado no banco de pedra defronte da sua residência, onde habitualmente passa as tardes com o seu amigo Carreto, recordando com nostalgia, os desafios que correram em conjunto durante vários anos das suas vidas. O Pacas iniciou-se na sua vida de contrabando aos 14 anos, e recorda: ‘Chegámos a ir 50 a contrabandistas em cavalos carregados com cargas de 80 a 100 quilos de café cubano. Escolhíamos as noites de chuva, pois normalmente os guardas não saiam de casa. Íamos numa longa fila, distanciados uns dos outros por alguns metros. Se os guardas apareciam e tentavam apanhar algum, este gritava e os outros fugiam.’ Aos tiros de intimidação juntavam-se os gritos do cavaleiro, o que fazia com que os contrabandistas se livrassem da carga, cortando as cordas que a prendia ai cavalo. Em caso de perigo extremo, tentavam salvar o cavalo e a eles próprios. Se não fosse possível, o cavalo era sacrificado e ficava para trás.”</span></strong></p>
<p>Para trás ficam esses tempos de aventuras, para trás ficam também ofícios, artes e profissões que se foram extinguindo à medida que as terras envelhecem e ficam desertas, entregues aos fantasmas e às memorias, que essas vivem e perduram. Uma terra que já não precisa de barbeiro é um terra onde já nada prospera, como em Quintãs:</p>
<p><strong>“O último barbeiro das Quintãs”</strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Uma pequena e antiga oficina de barbearia que é uma verdadeira preciosidade. Um museu mesmo. Quem ali entra regressa invariavelmente ao século passado. Desde a cadeira, passando pelos objectos usados na profissão, do espelho, até ao velho candeeiro de vidro a petróleo, tudo faz recordar os tempos em que as máquinas de cortar o cabelo e barbear eléctricas ainda não sonhavam ser inventadas.</span></strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">O banco corrido em madeira (tipo dos usados nas antigas tabernas) onde os clientes se sentavam aguardando a sua vez, matando o tempo contando histórias de lobos, lobisomens, bruxas e bruxarias, enfim, pondo as notícias em dia. (&#8230;) Neto e filho de barbeiros, João Martins Leal, viúvo, 81 anos de idade, todos os dias vai à sua oficina. Os clientes é que não.”</span></strong></p>
<p>Ao longo das semanas, Jolon vai dando conta nas páginas do Jornal do Fundão das profissões em vias de extinção espalhadas pelas terreolas, vamos pelos títulos que só por si são histórias de humanidade. Benquerença &#8211;  “Dos estafetas dos CTT de há 40 anos um ainda é vivo”, Aldeia de Joanes &#8211; “Artesão, cineasta e poeta popular”, Penamacor “Foi ganhão e cocheiro sem nunca ter tido férias”, Meimão “A última tremoceira continua a vender”; Tortosendo “Já houve seis alfaiates mas agora só trabalha um”, Benquerença “talhantes e taberneiros: duas profissões em vias de extinção”. E por falar em tabernas, quando o povo já não molha o bico, só falta a última pazada de terra.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-4952" title="Jornal do fundão" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/Imagem14.png" alt="" width="735" height="454" /></p>
<p><strong>Tratemos dos vivos</strong></p>
<p>Jolon conta a história de Maria Pires: “Mulher de armas mete respeito no negocio: Corpulenta e desassombrada, Maria Pires sempre pôs os clientes da taberna em respeito ‘eles tinham medo de mim’”.</p>
<p>Nas fotocópias dos seus artigos o correspondente do Jornal do Fundão faz anotações. Junto à fotografia de Maria Pires com o seu marido, “ambos já falecidos”. Epitáfio de um tempo que se acaba.</p>
<p><strong>“Até a enterrar mortos trabalho de mulher é descriminado”</strong></p>
<p><span style="color: #333333;"><strong>“Inédito não será, mas a situaç\ao comporta carga bastante de insólito para merecer algumas linhas de jornal. É em Aranhas, freguesia do concelho de Penamacor, onde, como acontece por essas aldeias da Beira Interior, os braços dos homens escasseiam. Conta-se breve a história que o nosso correpondente em Penamacor fez chegar à redacção. Maria de Lurdes Dias, viúva, 52 anos, alem de varrer as ruas de Aranhas enterra os mortos da localidade. A tarefa é o expediente que lhe calhou em sortepara ganhar a vidinha. Os leitores de Aranhas dirão – olha a admiração! Atao ela não é filha do ti José Inês e sobrinha do Ti João Inês, ambos coveiros da freguesia em tempos idos. – Será? Mas o caso é que Maria de Lurdes, que tanto faz a limpeza das ruas como a abertura das covas e correlativo tratamento do cemitério, não tem problemas em barbear e vestir defuntos, uma questão de profissionalismo. Medo? Só dos vivos, que os mortos não fazem mal a ninguém. O problema é outro: mãe de 9 filhos (apenas 2 em casa), não está satisfeita com o vencimento que lhe atribuíram. Por cada funeral recebe 4.000 escudos e a Junta de Freguesia paga-lhe uma mensalidade de 23 contos. É caso para dizer: até a enterrar mortos o trabalho da mulher é descriminado”.</strong></span></p>
<p>Mas cuidemos dos vivos, cuidemos dos nossos velhos e demos-lhes ouvidos, são retratos e memórias que todos podemos coleccionar e guardar como ensinamentos de humanidade e lições de vida como na história:</p>
<p><strong>“Os últimos residentes da Bazágueda:</strong></p>
<p><strong><span style="color: #333333;">“Rodeado de serras, pinheiros, estevas, giestas urzes, medronheiros, , já as famílias viveram naquela zona. Mas foi aos 20 anos de idade que Domingos Campos decidiu fazer do local a sua residência. A atracção que aqueles sítios exercem sobre uma pessoa são motivo suficiente e justificativo para que apesar de contar 80 anos de idade, ele e a sua mulher, D. Maria José Cunha, de 67, continuem a residir na Bazágueda”.</span></strong></p>
<p>Por cima da foto, Jolon anota. “O homem já faleceu, ela continua lá”. Uma anotação com uma força terrível, solitária, mas carregada de uma certa esperança, enquanto a D. Maria José Cunha continuar lá, Jolon trará a vida das pessoas normais para as páginas do “Jornal do Fundão”, e fará da vida, notícia, nem que seja uma história de amor, como o casal de anciões da Benquerença: “Casados há 66 anos, cada vez se querem mais bem”.</p>
<p>Bem haja pela boleia, Jolon.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2010/01/30/as-estranhas-e-fantasticas-historias-de-jolon-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Os que chegam&#8230; e que ficam</title>
		<link>http://www.a23online.com/2009/12/19/os-que-chegam-e-que-ficam-2/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2009/12/19/os-que-chegam-e-que-ficam-2/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 19 Dec 2009 10:39:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Imigrição distrito de Castelo Branco]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Paulouro]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=3908</guid>
		<description><![CDATA[Russos, brasileiros ou romenos, escolhem o distrito de Castelo Branco para iniciarem uma nova vida.  Chegam em busca de novas oportunidades de vida e de um salário que lhes pague as contas ao fim do mês. Alguns têm formação académica superior e abandonam a sua terra natal na contingência de encontrar melhores condições de vida. No dia que se comemora o Dia Internacional do Imigrante a A23 encontrou três casos de sucesso no interior de Portugal]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-3910" title="Imagem10" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/12/Imagem101.png" alt="Imagem10" width="460" height="460" /></p>
<p>Russos, brasileiros ou romenos, escolhem o distrito de Castelo Branco para iniciarem uma nova vida.  Chegam em busca de novas oportunidades de vida e de um salário que lhes pague as contas ao fim do mês.<img title="More..." src="http://www.planetadacultura.com/a23online/portal/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="" /> Alguns têm formação académica superior e abandonam a sua terra natal na contingência de encontrar melhores condições de vida. No dia que se comemora o Dia Internacional do Imigrante a A23 encontrou três casos de sucesso no interior de Portugal<span id="more-3908"></span></p>
<p>Na Ucrânia, por exemplo, um operário especializado ganha pouco mais de duzentos euros por mês, enquanto que uma professora do ensino oficial ganha cerca de sessenta euros mensais. Portugal passa assim a ser palco de uma diversidade cultural que pode também ser um elo de ligação entre povos.<br />
São, porém, cada vez mais os trabalhadores estrangeiros que não têm contrato de trabalho, seguro de saúde ou segurança social. A maioria encontra apenas trabalhos temporários, na construção civil ou na produção fabril, totalmente desprovida de apoios para a saúde ou a velhice. A língua continua, para muitos, a ser o principal entrave. Muitos não chegam a aprender o português e, por isso, não têm qualquer acesso à informação sobre o processo de legalização e adaptação.<br />
A imigração, no distrito de Castelo Branco, tem também aumentado progressivamente. E são muitos os que chegam dos quatro cantos do mundo e escolhem a Beira para viver. Estima-se que, em 2006, residissem no distrito, legalmente, 223 brasileiros, 85 cabo-verdianos, 85 espanhóis e 51 angolanos. Estas são algumas das nacionalidades com números significativos que terão duplicado, em alguns casos, nos últimos dois anos.<br />
Se, para muitos, o sonho esmoreceu na chegada a Portugal, a Beira conta com alguns casos de sucesso entre a população imigrante.</p>
<p>Texto de <strong>Ricardo Paulouro</strong></p>
<p><strong>Entre a Música e a Matemática: um casal de sucesso no Fundão</strong></p>
<p>Tâmara Antontseva e Stanislav Antontsev escolheram a cidade do Fundão para viverem. Ambos donos de um percurso brilhante, ela pianista, ele matemático, dão razões de sobra à cidade para estar orgulhosa por ter dois cidadãos tão ilustres. Foi a abertura de horizontes da Santa Casa da Misericórdia, sobretudo pela mão do seu antigo Provedor, Dr. Manuel Correia, que levou Stanislav e Tâmara a se instalarem no Fundão.<br />
Tâmara, natural de Donetsk , Ucrânia, iniciou os estudos musicais aos sete anos e, em 1968, completou a sua formação, no Conservatório Estatal Superior M.I.Glinka como Pianista Solista, Pianista Acompanhadora e Solista de Grupo de Câmara, além da qualificação de Professora de Piano. Pianista acompanhadora do Teatro Académico Estatal de Ópera e Ballet de Novosibirsk, não hesita em referir o grau de exigência que lhe era exigido: “O ensino de música na Rússia era muito exigente. Requeria muita atenção e concentração”.<br />
Aos 38 anos, já casada e com dois filhos, doutorou-se no Instituto Estatal de Música e Pedagogia da Família Gnessin em Moscovo, tendo após isto sido nomeada Directora do Departamento de Ópera e Arte Sinfónica do Conservatório Superior Estatal de Novosibirsk.<br />
Como professora são já muitos os alunos laureados em concursos nacionais e<br />
internacionais para além de entre eles alguns possuírem o título de “Artista Emérito”. Mas a falta de pagamento de salários fê-la emigrar: “Após quase um ano sem receber salário, decidi partir para ajudar a minha família na Rússia”.<br />
Reside em Portugal desde 1997, sendo professora da Academia de Música e Dança do Fundão, onde lecciona a disciplina de Piano e Musica de Câmara. O principal obstáculo, que se tornou num desafio, foi o ter de ensinar crianças, quando até então, na Rússia, havia ensinado apenas adultos.<br />
Com a sua ajuda muitos jovens alunos fundanenses já viram o seu trabalho reconhecido nacional e internacionalmente. Pedimos a Tâmara Antontseva para fazer um balanço dos últimos nove anos em Portugal: “O que mais me agrada são os resultados na Academia do Fundão, os prémios que os alunos têm obtido em concursos dentro e fora do país”.<br />
Sobre o segredo do sucesso, Tâmara não tem dúvidas em afirmar: “Em qualquer área, para se ser bom, é necessário trabalhar, trabalhar, trabalhar.”<br />
Stanislav Antontsev, natural de Volgograd, Rússia, é outra presença genial no distrito de Castelo Branco, actualmente Professor Catedrático do Departamento de Matemática da Universidade da Beira Interior. Licenciado e Mestre em Matemática de Cálculo pela Universidade Estatal de Kazan, doutorou-se em Física-Matemática na Universidade Estatal de Novossibirsk.. São muitos os graus académicos e a lista de publicações de que dispõe no seu currículo. Foi aliás premiado com o Diploma de Honra da Academia de Ciências da URSS e condecorado pelo Estado, em 1986, com a Ordem da Amizade dos Povos, do Soviete Supremo da URSS. Espanha Áustria, Alemanha, EUA, França, Itália ou Suiça foram alguns dos países por onde passou como docente mas foi Portugal, mais precisamente a cidade do Fundão, que escolheu para viver: “Comprámos casa no Fundão porque a Tâmara gostava mais de viver aqui do que na Covilhã. Além do mais, foi importante para o trabalho da Tâmara optarmos por uma cidade do interior. Para estudar música é necessário tempo”. A isto Tâmara acrescenta: “Em Lisboa o tempo corre. Uma hora por semana, em música, não é nada. Aqui no Fundão posso trabalhar mais tempo com os alunos e os resultados estão à vista”.</p>
<p><strong>No Tabuleiro da Vida</strong><br />
Aurélio Rugovschi, licenciado em Engenharia Agrícola, chegou a Portugal em 2002. Os baixos salários na Roménia fizeram-no emigrar por indicação de um amigo. No seu país, trabalhava num centro de investigação, em Portugal trabalhou na construção civil e agora é capataz de uma exploração agrícola.<br />
Reconhece que a língua é talvez a principal dificuldade, a barreira que afasta os que chegam dos que já cá estão. A sua integração foi por isso um processo <img class="alignright size-full wp-image-3912" title="Ricardo Paulpouro" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/12/Imagem92.png" alt="Ricardo Paulpouro" width="181" height="351" />complicado: “Quando trabalhei na construção civil não conseguia perceber o que me dizia o patrão e isso fez com que fosse despedido”. De Portugal, apenas conhecia o futebol e já na Roménia era um admirador do Futebol Clube do Porto. Quatro anos depois, tudo é agora mais fácil. Um ano após ter chegado a Portugal, a mulher, psicóloga, que deixou na Roménia, pediu o divórcio. Actualmente vive já com uma mulher portuguesa mas o seu sonho é trazer a filha que também por lá ficou. Gosta da Beira Baixa para viver mas às vezes dá por si a pensar que a licenciatura que tirou está sub-aproveitada. Pensa muitas vezes em tentar a sorte nas grandes cidades, Lisboa e Porto, mas sabe que &#8220;os patrões não depositam muita confiança nos estrangeiros&#8221;. O processo de legalização de Aurélio foi, aliás, muito complicado: &#8220;Quis muito ficar cá. A legalização é muito importante. Tive há tempos um acidente grave no trabalho e apercebi-me que a legalização era importante até para a minha própria segurança&#8221;<br />
Um dia, passou em frente ao Núcleo Sportinguista do Fundão e os tabuleiros de xadrez chamaram a sua atenção. Já na Roménia jogava muito com os colegas de Faculdade, numa prática contínua. Começou a jogar e já ganhou, em terras lusas, o 3º lugar num Torneio de Xadrez na Covilhã, assim como no Torneio 25 de Abril.<br />
Quando lhe perguntamos quais são as principais diferenças entre a Roménia e Portugal, não hesita na resposta: &#8220;Nós somos mais severos e mais frios. Em Portugal acho que as pessoas são mais alegres, mais amigas&#8221;. Apesar de tudo os melhores amigos ficaram lá.<br />
<strong><br />
Norey e Mário Teodósio, 14 anos ao serviço da saúde e da estética no Fundão</strong><br />
Chegaram ao Fundão em 1992, vindos de São Paulo, Brasil. A perspectiva cada vez mais real de uma vida conturbada na terra natal fê-los emigrar. Mário Teodósio trabalhava já então com o pai como dentista. Quando Color de Melo ganhou as eleições decidiram que tinha chegado a hora de abandonar o Brasil. No entanto, até ao processo de legalização estar completo, Norey e Mário passaram por um período de adaptação difícil. A permanente indefinição sobre se ficariam ou não em Portugal marcou os primeiros anos da sua estadia. Mas as boas notícias não tardaram em chegar. A equivalência do seu curso de dentista que lhe foi dada pela Ordem, em Portugal, modificou a vida deste casal. Com a simpatia e o profissionalismo, Mário começou a arranjar clientes em várias aldeias da Beira Baixa. A sua fama de bom dentista levou-o a abrir dois consultórios, um no Fundão e outro em Castelo Branco, e a dar consultas em Belmonte, Tortosendo, Paúl, Silvares e Teixoso. Quanto a Norey, tornou-se empresária e abriu um centro de estética na Covilhã. Hoje têm uma raíz que os une profundamente a Portugal. O filho Lucas, natural do Fundão, é disso a prova. Vieram para ficar.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2009/12/19/os-que-chegam-e-que-ficam-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O ecologista que guarda o Tejo</title>
		<link>http://www.a23online.com/2009/12/09/o-ecologista-que-guarda-o-tejo/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2009/12/09/o-ecologista-que-guarda-o-tejo/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 09 Dec 2009 07:31:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Centro de Estudos da Natureza dos Alares]]></category>
		<category><![CDATA[Idanha-a-nova]]></category>
		<category><![CDATA[O ecologista que guarda o Tejo]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Natural do Tejo Internacional]]></category>
		<category><![CDATA[Paula Nogueira]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Monteiro]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Martins]]></category>
		<category><![CDATA[Rosmaninhal]]></category>
		<category><![CDATA[Sofia Silveira]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=3122</guid>
		<description><![CDATA[Na semana da cimeira da ONU sobre alterações climáticas, em Copenhaga, fomos ao Centro de Estudos da Natureza dos Alares, no Rosmaninhal. Paulo Monteiro dirigente e fundador da Quercus, faz parte do grupo de activistas daquela associação cujo trabalho contribuiu decisivamente para a criação, faz agora nove anos, do Parque Natural do Tejo Internacional. Hoje continua lutando para que se potencie o turismo de natureza]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-3123" title="Paulo Monteiro" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Paulo-Monteiro.jpg" alt="Paulo Monteiro" width="460" height="308" /></p>
<p>Texto de <strong>Paula Nogueira</strong></p>
<p>De mochila às costas, uns equipados a rigor, outros nem tanto. Um ou outro com cajado. A maioria com máquinas fotográficas. São nove e meia da manhã e o dia não podia estar mais de feição para o passeio. Estamos no Centro de Estudos da Natureza dos Alares. A aldeia do Rosmaninhal, ficou uns quilómetros para trás.<span id="more-3122"></span><br />
Mas o que leva um grupo de quase trinta pessoas, das mais diversas idades, a madrugarem num domingo? Pedro Martins, técnico de turismo da Câmara de Idanha, entidade promotora do passeio, dá a resposta: “É com ele que vamos aprender a conhecer a flora do Tejo Internacional”.<br />
Ele é Paulo Monteiro, engenheiro florestal, aluno e depois professor da Escola Superior Agrária de Castelo Branco, de onde saiu “à procura da felicidade”.<br />
Pelos vistos encontrou-a no Rosmaninhal, para onde se mudou há 14 anos. Dirigente e fundador da Quercus, faz parte do grupo de activistas daquela associação cujo trabalho contribuiu decisivamente para a criação, faz agora 10 anos, do Parque Natural do Tejo Internacional.<br />
Para ele este território, que ajudou, às vezes quase ferozmente, a proteger, não tem segredos. E os que tem devem estar todos, ou quase todos, contados no “Guia de Percursos-Tejo Internacional, obra de que é autor, e que continua a ser o único trabalho documental sobre esta área protegida.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-3124" title="Paulo Monteiro" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Picture-51.png" alt="Paulo Monteiro" width="460" height="308" /></p>
<p>Sem o Guia no bolso, mas guiados por este verdadeiro guardião do Tejo Internacional, começamos por conhecer a história recente daquela paisagem, onde hoje dominam as azinheiras, o rosmaninho e as estevas. Antes, na década de 30, era a seara que dominava. A campanha do trigo, incrementada pelo Estado Novo, durou até à década de 60, altura em que a emigração e o consequente abandono dos campos permitiu uma lenta regeneração natural. A natureza, neste caso, aves como os pombos e os gaios foram espalhando as sementes das azinheiras. Em algumas zonas do Parque dá-se, entretanto, nos anos 80, a plantação de eucaliptos, que ainda hoje ocupa cerca de 30 por cento da área total.<br />
Paulo Monteiro impõe ao passeio uma marcha lenta. Mostra-nos o zimbro, que “serve para curar feridas”, o medronheiro, ou um menos conhecido aderno-bastardo, cujos bagos “servem de alimento para as aves”. Explica-nos, diante de um carvalho que aqui, “estas árvores têm folha persistente, enquanto no Norte têm folha caduca”.<br />
Não se esquece da mais familiar esteva, acrescentando que destas flores se extrai uma substância que serve para fixar perfume, mas apresenta-nos outras plantas menos familiares como a cebola albarrã, a aroeira ou o sanganho-mouro.<br />
Já na descida para o Observatório dos Alares, espectacular varanda sobre o Tejo, e depois de termos aguçado a curiosidade de uma boa meia dúzia de grifos, Paulo Monteiro dá-nos a conhecer uma das raridades do parque, o narciso rupícula.<br />
O passeio interrompe-se. Não para ouvirmos o nosso guia falar de mais uma planta. Chegamos ao Observatório dos Alares. O Tejo, lá ao fundo, reclama toda a atenção do olhar. E nós olhamos. Maravilhados.<br />
Paulo Monteiro recorda-nos, à margem deste passeio, os tempos que antecederam a criação do Parque, um período de intensa actividade dos activistas da Quercus que no Centro de Estudos de Natureza dos Alares (onde começou o nosso passeio) desenvolveram, projectos de educação ambiental desenvolvido com centenas de jovens, de sensibilização das populações para a criação de área protegida, a monotorização de espécies, a manutenção do montado de azinho e onde acolhiam visitantes e se desenvolviam campos de férias e de trabalho. O casario, que antes servia de posto da Guarda Fiscal, está hoje abandonado e as marcas da degradação são já visíveis. Propriedade do Instituto de Conservação da Natureza, este centro esteve cedido à Quercus que, confrontada com a falta de apoios estatais para continuar a sua actividade teve de encerrar as portas.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-3125" title="Paulo Monteiro" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Picture-63.png" alt="Paulo Monteiro" width="460" height="308" /> Passados nove anos, 16 de Agosto de 2000,  sobre a criação do parque, Paulo Monteiro afirma que “o que se avançou fica áquem das expectativas”. E lamenta que o Plano de Ordenamento, instrumento de planeamento fundamental para regular as actividades dentro da área e permitir que a população beneficie de apoios específicos, que potenciem a produção e comercialização de produtos, bem como o turismo de natureza, esteja há quatro anos para ser elaborado.<br />
Sofia Silveira,  ex-directora do parque Natural do Tejo Internacional reconhece que “houve promessas que não foram cumpridas”, e que o Plano de Ordenamento está atrasado: “É um processo que se arrasta desde 1997, mas começamos a trabalhar nele a sério em 2004”.<br />
A alteração dos limites, que alarga o Parque até Salvaterra do Extremo, passa a incluir a Herdade do Monte Barata da Quercus, e amplia a área, a Sul, até à albufeira de Monte Fidalgo, contribuíram para a demora do processo que está agora na sua fase final, prevendo-se para breve que a sua versão final seja posta à discussão pública.<br />
A provação do Plano de Ordenamento vai também permitiu o enquadramento legal do Plano de Acção Turística, instrumento que para além de regular as actividades de turismo de natureza vai também permitir aos investidores privados a obtenção de ajudas específicas para a implementação de projectos.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-3126" title="Paulo Monteiro" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Picture-81.png" alt="Paulo Monteiro" width="460" height="308" /><br />
O Plano de Ordenamento permitiu o reforço das ajudas à actividade agrícola e abre portas à certificação e comercialização de produtos com a marca do Parque.<br />
Sofia Silveira acredita que hoje a população residente na área já está consciente de que o Parque não vem limitar as suas actividades. E apesar das restrições financeiras houve a preocupação, em conjunto com as Câmaras de Idanha e Castelo Branco de melhorar as acessibilidades.<br />
 O  projecto de educação ambiental, o que vai permitir um conjunto de actividades de divulgação a promoção do parque, em espacial junto da população mais jovem.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2009/12/09/o-ecologista-que-guarda-o-tejo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Sahara Ocidental: o conflito que o mundo esqueceu</title>
		<link>http://www.a23online.com/2009/12/03/sahara-ocidental-o-conflito-que-o-mundo-esqueceu-2/</link>
		<comments>http://www.a23online.com/2009/12/03/sahara-ocidental-o-conflito-que-o-mundo-esqueceu-2/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 03 Dec 2009 19:20:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[a23]]></category>
		<category><![CDATA[africa]]></category>
		<category><![CDATA[Aminatou Haidar]]></category>
		<category><![CDATA[argelia]]></category>
		<category><![CDATA[deserto]]></category>
		<category><![CDATA[fisahara]]></category>
		<category><![CDATA[marrocos]]></category>
		<category><![CDATA[paulo nunes dos santos]]></category>
		<category><![CDATA[refugiados]]></category>
		<category><![CDATA[sahara ocidental]]></category>
		<category><![CDATA[tindouf]]></category>
		<category><![CDATA[western sahara]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a23online.com/?p=3350</guid>
		<description><![CDATA[A resistente saharaui Aminetu Haidar encontra-se em greve de fome, desde 15 de Novembro, no aeroporto de Lanzarote.  José Saramago afirmou pessoalmente a sua solidariedade. António Guterres classificou de "verdadeiramente dramática" a situação dos refugiados saharianos e considerou que se encontram “bastante esquecidos” pela comunidade internacional. A A23 esteve no Sahara Ocidental a documentar um dos conflitos mais antigos do mundo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em><img class="alignnone size-full wp-image-3352" title="Polisario Guerrilla Warfare_011" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/12/Polisario-Guerrilla-Warfare_011.jpg" alt="Polisario Guerrilla Warfare_011" width="460" height="306" /><br />
</em></p>
<p><em>Texto e fotografia de </em><strong><em>Paulo Nunes dos Santos</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">São quatro da manha quando finalmente chego ao destino final &#8211; o deserto Hamada a sudoeste da Argélia. No aeroporto de Tindouf, uma cidade construída em redor de uma base militar, aguarda-me Malainin Lakhal, um jornalista Saharaui representante da Frente Polisario que será o meu guia, tradutor, guarda-costas e excelente fonte de informação durante a minha visita a região. Após ultrapassadas todas as formalidades e burocracias comuns a uma zona de conflito, é tempo de mudar de transporte e iniciar as duas horas de viagem de jipe pelo deserto guiados apenas pela forte luz do luar. É durante esta viagem que tenho a oportunidade de iniciar o meu trabalho ao pedir a Malainin que me fale um pouco de si.<img title="More..." src="http://www.a23online.com/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="" /><span id="more-3350"></span></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="Refugee Camps_025" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/Refugee-Camps_025.jpg" alt="Refugee Camps_025" width="435" height="289" /><img title="More..." src="http://www.a23online.com/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;"><img title="Z Dajla_263" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/Z-Dajla_2631.jpg" alt="Z Dajla_263" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Á semelhança de mais de 200,000 Saharauis, Malainin viu-se forçado a abandonar a sua terra natal, deixando para trás os seus pais, irmãos, mulher e filhos. &#8220;Passaram já 17 anos desde a última vez que vi os meus filhos&#8221;, conta Malainin. &#8220;Era estudante universitário em Agadir (Marrocos) quando me envolvi em manifestações pela liberação do Sahara Ocidental. Como Saharaui é o meu dever lutar pela independência e liberdade do meu povo&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Malainin, juntamente com outros activistas, foi um dos elementos envolvidos na Intifada de 1992 no sul de Marrocos e zonas ocupadas do Sahara Ocidental. Nessa mesma altura foi capturado, espancado e torturado pela polícia secreta marroquina. &#8220;Este sou eu nos dias a seguir a minha captura&#8221;, diz Malainin ao mostrar-me uma fotografia de um rosto maltratado e praticamente desfigurado. Contínua, explicando que enquanto aguardava julgamento, teve a oportunidade de fugir. Juntamente com dois companheiros atravessou o deserto, durante uma semana a pé, desde Laayoune (cidade militarmente ocupada e controlada por Marrocos) até aos campos de refugiados na Argélia. Durante esta viagem teve de atravessar o famoso muro construído por Marrocos, que divide o Sahara Ocidental de norte a sul. &#8220;Não foi fácil, porque tivemos de atravessar as zonas fortemente minadas sem que as tropas marroquinas se aperceberem&#8221;. Nos anos que se seguem, Malainin é julgado à revelia, e condenado a nove anos de prisão. Desde o dia que deixou Laayoune nunca mais teve a oportunidade de voltar a ver a sua família e amigos que deixou para trás.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="A Rabuni_063" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/A-Rabuni_063.jpg" alt="A Rabuni_063" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="B Refugee Camps_037" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/B-Refugee-Camps_037.jpg" alt="B Refugee Camps_037" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Fascinado pela história de Malainin, a viagem até ao campo de refugiados passa num ápice. &#8220;Este é o 27 de Fevereiro&#8221;, informa-me Malainin. Á semelhança de todas as outras habitações neste campo, a construção é rudimentar. As casas são pequenas, feitas de tijolos de lama e palha, não existe água canalizada nem rede de esgotos. Quando as ocasionais chuvas torrenciais assolam esta inóspita parte do Sahara as inundações destroem-nas por completo, rotina que obriga a uma (re)construção sistemática desde a 34 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Após duas horas de descanso, despertado pelo calor abrasador típico do deserto e pelas moscas que insistem em sobrevoar a minha cara, segue-se o pequeno-almoço e o primeiro contacto com fantástica hospitalidade do povo Saharaui. Café, pão fresco e doce de pêssego são-me servidos numa mesa tipo tabuleiro onde o tradicional chá de menta está também a ser preparado. Com a ajuda de Malainin tento obter um pouco de informação sobre a família anfitriã. É então que me contam a historia de Elkeihel, o dono da casa, activista e poeta Saharaui que, á semelhança de muitos outros, passou a sua infância nos territórios ilegalmente ocupados por Marrocos e viveu de perto a opressão e tortura do regime de Rabat.</p>
<p style="text-align: justify;">Filho de uma revolucionária, Elkeihel passa a maior parte da sua vida na clandestinidade e ao fim de 12 anos consegue finalmente reunir-se com a sua mãe, avó e irmãos nos campos de refugiados. Hoje em dia Elkeihel trabalha como jornalista para a Radio Nacional criada pela Frente Polisário nos campos de refugiados, e tornou-se um símbolo vivo da resistência Saharaui.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="J Nomadic_010" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/J-Nomadic_010.jpg" alt="J Nomadic_010" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="D Nomadic_014" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/D-Nomadic_014.jpg" alt="D Nomadic_014" width="435" height="292" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">De 27 de Fevereiro parto para outro campo, Rabouni, onde os edifícios dos ministérios do governo da Republica Democrática Árabe Saharaui estão estabelecidos. Apesar de ser o campo onde está a sede do governo em exílio, Rabouni tem o mesmo aspecto que os outros campos. Algo que me chama á atenção é o facto de que independentemente do cargo, posição ou importância das pessoas nestes campos, toda a gente vive nas mesmas condições. Pude confirmar este facto, quando uns dias mais tarde sou convidado a casa de Bouhabini Yahia, o presidente do Crescente Vermelho Saharaui (Saharawi Red Crescent &#8211; SRC) para lhe fazer uma entrevista. A sua casa é e contem exactamente o mesmo que as outras casas das famílias onde pernoitei e visitei.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="H Refugee Camps_042" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/H-Refugee-Camps_042.jpg" alt="H Refugee Camps_042" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="C Land Mine_028" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/C-Land-Mine_028.jpg" alt="C Land Mine_028" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">No total existem 5 campos de refugiados: 27 de Fevereiro, Rabouni, Smara, Dajla e Laayone. Entre eles, estima-se uma população de 200 mil pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Construções rudimentares, as improvisadas vedações para as cabras, as ocasionais antenas parabólicas, os pequenos painéis solares e escassos depósitos de água, completam a paisagem árida destes campos. Negócios são quase inexistentes, e as poucas lojas que existem servem apenas para abastecer a população com os mais básicos dos produtos. Em cada campo existe também um jardim colectivo que, devido a escassez de agúa, permite apenas uma produção mínima que é distribuída por hospitais e população em geral.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="R Refugee Camps_039" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/R-Refugee-Camps_039.jpg" alt="R Refugee Camps_039" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="S Refugee Camps_048" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/S-Refugee-Camps_048.jpg" alt="S Refugee Camps_048" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Os refugiados que estão classificados em duas categorias &#8211; Vulneráveis (75 mil) e Muito Vulneráveis (125 mil), dependem unicamente da ajuda humanitária internacional que, segundo Bouhabini Yahia presidente da SRC não é suficiente para garantir as necessidades básicas de todos. &#8221; Toda os refugiados nestes campos dependem de ajuda humanitária. Todos sem qualquer excepção. Mas Infelizmente estão muito longe de receber ajuda suficiente&#8221;, afirma. No entender de Bouhabini as Nações Unidas são em muito responsáveis por esta situação, afirmando que &#8220;não levam a serio a situação em que esta gente vive&#8221;.  Acrescenta ainda que &#8220;não é aceitável que as Nações Unidas classifique estes refugiados com um estatuto de Emergência desde que os campos foram criados&#8221;. O facto de não serem classificados como refugiados não permanentes significa que a quantidade de ajuda humanitária recebida não vai ao encontro das necessidades reais da população.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe no entanto, uma forte participação da comunidade civil espanhola que em geral, e ao contrário do governo (o principal responsável pelo conflito, pelo facto de ter abandonado a ex-colonia a mercê da politica imperialista dos países vizinhos), reconhece o direito a um estado independente e sente a obrigação moral de apoiar os Saharauis. São várias as Organizações Não Governamentais (ONG) espanholas com um papel activo na ajuda aos Saharaui, com acções que vão desde a distribuição de água potável á implementação de escolas e acções de formação técnica de varias vertentes.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="E Refugee Camps_010" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/E-Refugee-Camps_010.jpg" alt="E Refugee Camps_010" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="K Refugee Camps_038" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/K-Refugee-Camps_038.jpg" alt="K Refugee Camps_038" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">De caminho ao sul, é altura de visitar o campo de Smara, o maior e mais populacionado da região. Zorgan, um outro representante da Frente Polisário, leva-me numa visita guiada ao campo, passando pelo hospital, escola, jardim e pelo único cemitério da região. Na realidade, Smara não é mais do que os outros campos por onde passei, um aglomerado de casas feitas de tijolos de barro e com telhados de zinco, estradas de areia, depósitos de água e muitas vedações para cabras.</p>
<p style="text-align: justify;">Terminada a visita, Zorgan faz questão que o acompanhe a sua casa e me junte à família durante a hora de almoço. Aceito o convite sem excitações. À chegada sou recebido com o maior dos entusiasmos pela mulher e filhos de Zorgan que me guiam até ao compartimento onde o tradicional chá de menta é imediatamente servido, seguido de uma caldeirada de camelo, batatas fritas e feijão. A seguir ao almoço, Zorgan conta-me um pouco da sua história de vida e paixão pela causa Saharaui. &#8220;O facto de ter perdido um braço quando era criança, não impediu de (aos 17 anos) me juntar a guerrilha e lutar pelo meu povo&#8221;, diz Zorgan com um orgulho evidente. Quando lhe pergunto se voltaria a fazer o mesmo, afirma com convicção que &#8220;se a guerra recomeçar estarei pronto para dar a minha vida pela independência e pela liberdade dos meus filhos e gerações futuras&#8221;. É altura de descansar por umas horas antes da longa viagem até ao próximo campo.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="N Refugee Camps_020" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/N-Refugee-Camps_020.jpg" alt="N Refugee Camps_020" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="L Refugee Camps_044" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/L-Refugee-Camps_044.jpg" alt="L Refugee Camps_044" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Após várias horas de viagem, debaixo de um calor intenso e coberto de pó e areia, chego a Dajla, o mais isolado de todos os campos. Dajla, construído praticamente nas dunas do Sahara, é disperso, com casas ainda mais frágeis do que nos outros campos. Malainin explica-me que o único poço de água existente no campo esta agora praticamente seco, e o minúsculo jardim que durante vários anos existiu junto a esta fonte de água tornou-se impossível de manter. A única água a que os habitantes de Dajla têm acesso, é distribuída por camiões cisterna uma vez por semana. O difícil acesso e longa distancia a percorrer torna impossível um abastecimento mais regular.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="X Refugee Camps_047" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/X-Refugee-Camps_047.jpg" alt="X Refugee Camps_047" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="Z Dajla_493" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/Z-Dajla_493.jpg" alt="Z Dajla_493" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Num esforço para minimizar o isolamento dos refugiados estabelecidos em Dajla, as autoridades decidiram desde a dois anos atrás usar este campo como palco para o FISAHARA &#8211; um festival internacional de cinema organizado para os refugiados Saharaui. Este festival, que esta agora na sua sexta edição, foi criado com o intuito de proporcionar aos refugiados a participação em actividades culturais e acções de formação a nível cinematográfico e escrita criativa, e implementar uma plataforma de divulgação da cultura tradicional Saharaui. Este projecto, que conta com a participação e apoio de nomes importantes no mundo das artes a nível internacional, tenciona também alertar a comunidade internacional para as condições de vida a que os Saharaui estão sujeitos.</p>
<p style="text-align: justify;">Com todo o ambiente de festa proporcionado pelo FISAHARA é fácil esquecer as dificuldades a que este povo está sujeito desde a 34 anos. Mas são acções como esta que mantêm viva a esperança e o sonho de um dia poderem voltar a sua terra natal, de verem unido o território que por direito lhes pertence.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><img title="Refugee Camps_027" src="http://www.planetadacultura.com/a23v2/wp-content/uploads/2009/08/Refugee-Camps_027.jpg" alt="Refugee Camps_027" width="435" height="289" /></p>
<p style="text-align: justify;">O</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.a23online.com/2009/12/03/sahara-ocidental-o-conflito-que-o-mundo-esqueceu-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
