Texto de Rui Pelejão Marques/ Fotografia de Margarida Dias
Na era dos SMS, do e-mail, dos chats, do telemóvel e dos satélites, o que sobra para a velha carta de escrita cuidada em papel perfumado? O romantismo lacrado num envelope perfumado é um romantismo extinto. Viagem com carta no bolso até ao coração da Serra do Açor, onde o carteiro ainda é o mensageiro de uma esperança teimosa que combate a solidão e o isolamento.
Texto e fotografias de Pedro Martins – Aqui vivem 58 pessoas, 2000 cabras e 58 ovelhas. Estamos quase a chegar a Covas do Monte, esta aldeia, tem na pastorícia a sua principal fonte de rendimento. Todos uma vez por dia são pastores das 2000 cabras. Continuamos na senda de Covas do Monte, apenas nos anos oitenta do século passado se abriu esta estrada e o alcatrão chegou mais tarde, dali não segue para mais lado nenhum. Agora, encosta abaixo vemos já a pequena aldeia, fica encravada num vale da Serra de São Macário a uma altitude de 450 m, à sua volta fica uma imensa montanha de xisto, manchada de verde das giestas e do mato, aqui e ali salpicada por algumas manchas de pinheiro e alguns, poucos, eucaliptos. (more…)
São quatro da manha quando finalmente chego ao destino final – o deserto Hamada a sudoeste da Argélia. No aeroporto de Tindouf, uma cidade construída em redor de uma base militar, aguarda-me Malainin Lakhal, um jornalista Saharaui representante da Frente Polisario que será o meu guia, tradutor, guarda-costas e excelente fonte de informação durante a minha visita a região. Após ultrapassadas todas as formalidades e burocracias comuns a uma zona de conflito, é tempo de mudar de transporte e iniciar as duas horas de viagem de jipe pelo deserto guiados apenas pela forte luz do luar. É durante esta viagem que tenho a oportunidade de iniciar o meu trabalho ao pedir a Malainin que me fale um pouco de si.(more…)
Texto-Miguel Ángel Barroso Com o primeiro beijo filmado pelo inventor do fonógrafo e da lâmpada, Thomas A. Edison, nasceu o erotismo no cinema. Porque, convenhamos, o que era o cinema naquele ano de 1895? Apenas película de celulóide que trazia magia à realidade e dava movimento a uma fotografia. Daí para os sentimentalismo havia um passo muito curto e previsível. Possivelmente, o astuto comerciante que era Edison nunca pensou nas suas possibilidades eróticas. Mas o seu filme, The Kiss, com um minuto de duração, causou um tremendo escândalo ao gravar os seus dois actores, já de idade madura, a dar três beijos (dois na bochecha e um no canto da boca), colocando em pé de guerra os defensores da moral – entre os quais constava a revista The Chap Book, a qual denuncia claramente a liberdade de expressão, ao escrever este artigo: “os empresários de espectáculos estão dispostos a eclipsar tudo o que foi visto até agora, por detrás de material de mau gosto. Numa obra recente vocês recordam o beijo que trocaram uma tal May Irwin e John C. Rice. Nenhum dos intérpretes era particularmente atractivo e o espectáculo entre um e outro tornou-se insuportável. Com o tamanho natural já era algo anormal, mas não era nada comparado com o efeito produzido por este acto aumentado a proporções gigantescas e repetido três vezes consecutivas. O resultado é absolutamente repulsivo. Todo o encanto da menina Irwin se desvanece, convertendo a sua arte em algo indecente e de uma vulgaridade prodigiosa. Tais feitos exigem a intervenção das autoridades policiais”. (more…)
Uma é Portuguesa e outra é Húngara. Têm namorado, namorada e ambas vivem bem com isso. Elas contam como são as suas relações e o sexo entre os sexos. Dois exemplos distantes num território comum: O amor sem traição nos dois lados do campo. Texto de Teresa Filipe Lopes | Fotografias de Adriano Batista
Texto e fotografias Isabel Cunha
O ar estava quente e a humidade também se encontrava presente. Não era de estranhar pois estava na Índia e no mês de Outubro. Recordando as temperaturas normais neste país até nem estava muito calor, mas para quem gosta do clima marítimo da zona oeste do nosso país pode considerar-se uma experiência pouco agradável, embora já a tivesse previsto, mas uma coisa é pensar, outra é experimentar e sentir.
Depois de 18 horas num comboio, com partida em Deli, tinha chegado a Varanasi, a cidade mais antiga do mundo, segundo os hindus. À espera do grupo estava o Gopal, o guia local, que ajudou o Inácio no negócio dos preços pelos auto-riquexós; a cada chegada a uma cidade era inevitável o regateio dos preços, a que se seguia a nossa distribuição por 3 ou 4 veículos juntamente com as mochilas entaladas nas nossas pernas ou sobre o colo! De novo, aquele frenesim que é andar neste meio de transporte típico no oriente, num jogo de escapadela ao toque em camionetas, carros, motorizadas, bicicletas, carroças, pessoas e animais com quem nos cruzávamos a escassos centímetros, sempre com o som constante das buzinas; de todos estes aqueles a quem os condutores dispensavam mais atenção e cuidados eram mesmo os animais e particularmente as vacas ou não estivéssemos na Índia! No caminho da estação ao hotel ainda tivemos que dar uma boleia a alguém o que já era também habitual; desta vez uns quantos policias saltaram para o lado dos condutores porque o nosso local de saída era mesmo ao pé de uma esquadra. Dali ao hotel, o Puja Guest House, tivemos que fazer o caminho a pé, por ruas estreitas e onde o sol mal entrava, sempre com as mochilas às costas, tentando por um lado não nos perdermos, por outro evitando pisar lixo ou dejectos de animais, essencialmente vacas, o que diga-se, foi uma empreitada complicada. (more…)
O “Enterro do Senhor”, a “Via Sacra” e a “Paixão de Cristo”, são realizações desta quadra que ainda subsistem. Na cidade do Fundão centenas de cristãos assinalam durante três dias a paixão e morte de Jesus, dia que a Igreja Católica instituiu de jejum, silêncio e oração. A fotógrafa Susana Paiva captou instantes marcantes da celebração da Páscoa no Fundão. “Das trevas para a luz” regista através da fotografia tradições que subsistem com o passar dos tempos.
Texto – Ricardo Paulouro Malraux dizia que a morte transforma a vida em destino. Tal como na hora do crepúsculo, em que as formas morrem lentamente mas continuam a existir na linha do horizonte, as vozes dos que são recordados ganham nova força e permitem-nos, por vezes, encontrar novos sentidos. No caso dos escritores, que se cumprem na palavra e pela palavra, o seu legado é nada mais do que a própria obra, as palavras a matéria-prima. Isto significa que essas palavras que resistem ao desgaste do tempo deixam de ser apenas a expressão de um ser individual para serem absorvidas pelo colectivo. Testemunho de um ‘eu’, “a poesia é o que recapitula o mundo / chamando-o em cada chama / pela chama de cada sílaba”, como já o disse Manuel Gusmão. Testemunhar e recapitular o mundo através do olhar dos escritores permite-nos partilhar e convergir face a essa experiência individual para, em seguida, partir em novas explorações e apreensões da realidade. (more…)
Situada em Tondo, nas imediações do porto de Manila, encontra-se a Montanha Fumegante (Smokey Mountain no seu nome original), um dos mais pobres e degradados bairros-de-lata do mundo, uma vergonha para o governo das Filipinas e um símbolo maior de pobreza global. (more…)
Ora venha de lá essa história! Jolon, correspondente do “Jornal do Fundão” em Penamacor há mais de 30 anos tem uma retrosaria aberta com um balcão de histórias de vida que recolhe. É um biógrafo do povo, um jornalista que nos leva ao coração sentimental das histórias. Vamos à boleia. Texto Ricardo Paulouro e Rui Pelejão Marques Fotografias Margarida Dias
“Eu dormia no palheiro perto das cabras e de dois burros que meus pais tinham. Uma noite, ao entrar, reparei que os burros tinham o pêlo todo eriçado e cheio de gotas de água. Deitei-me e de repente noto que me tiram a manta de cima. Tento acender a lanterna, mas gastei metade da caixa de fósforos e não consegui acendê-la. Entretanto sinto como que pessoas a passarem perto de mim e risos. Pareceu-me reconhecer o rir de uma moça de quem eu andava atrás. Então disse-lhes: ó filhas do diabo se quereis brincar vinde aqui para a cama que eu já vos ensino a brincar. Mas elas continuavam a rir e a correr. Tentei agarrá-las com a mão esquerda – dizem que só assim se conseguem apanhar as bruxas – mas não apanhei nenhuma. Agarrei o meu gibão e enrolei-me nele. Olha que dava três voltas ao corpo! Deitei-me. Quando dei conta senti-me no ar e sem o gibão. Tapei-me com a enchalma, tornaram a tirar-ma. Mas sem medo continuei a convidá-las para se meterem na cama comigo. Até que sinto um corpo mais pesado a escorregar na palha e um gargalhar de homem que me meteu medo. A partir de então já não ouvi nada mais. Diziam que sempre que as bruxas saem são acompanhadas pelo demónio, terá sido ele que se riu daquela maneira”. (more…)