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	<title>A23 Online &#187; Rui Pelejão</title>
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	<description>Reportagens, Opinião e Notícias de Portugal e do Mundo</description>
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		<title>Tem problemas na literatura, chame o canalizador</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Oct 2011 20:58:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já leu a Enciclopédia Britânica, as páginas amarelas, o programa de desgoverno do PSD? Não faz mal. Se tem insónias, um marido que ressona ou é um morfinómano desesperado, pode sempre ler um post-it de um tamanho de um rolo de papel higiénico e ficar a saber exactamente o mesmo sobre o começo das obras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já leu a Enciclopédia Britânica, as páginas amarelas, o programa de desgoverno do PSD? Não faz mal. Se tem insónias, um marido que ressona ou é um morfinómano desesperado, pode sempre ler um post-it de um tamanho de um rolo de papel higiénico e ficar a saber exactamente o mesmo sobre o começo das obras literárias.<br />
No princípio era o verbo. Talvez. Mas como chumbei no propedêutico de exegese bíblica, não sei como começa a Bíblia. Graças às Selecções dos Readers Digest sei que a Bíblia deve provavelmente começar pelo Génesis, e como não sou propriamente estúpido, apesar de ser bastante convincente nesse papel, sei que os Génesis da Bíblia não têm o Phil Collins a tocar bateria ou o Peter Gabriel como vocalista do coro dos querubins-rockers. </p>
<p>Sei que a Bíblia é uma boa história e por isso deve naturalmente ter um bom começo.<br />
É uma questão de lógica narrativa; ninguém perde uma história que começa por um homem a mordiscar uma maçã do pecado. Aliás até podia ser um mamão, uma papaia, ou de preferência, os mamilos dardejantes de uma Eva, que já dava para fazer crescer água na boca.</p>
<p>Aliás, sei que ao sétimo dia Deus criou o domingo, que é um dia bom para comer caracóis, ver um Benfica-Sporting na TV ou pensar nos problemas da literatura, caso não se tenha uma assinatura da Sport TV ou orégãos para pulverizar os caracóis renitentes.</p>
<p>E o problema da literatura que vos trago é precisamente o problema do começo da obra.<br />
Trata-se daquele momento solene e quase tão místico como quando um profeta hindu corta as unhas dos pés no Ganges, em que o autor se debate com o infinito vazio da folha branca para escrevinhar a sua imortalidade; e uma vida benfazeja em direitos de autor e sessões de autógrafos em feiras do livro, com professoras de aramaico e decotes frondosos a insinuar encontros torridamente literários em qualquer pensão manhosa da Baixa ou em Spas requintados e libidinoso, no caso do autor ser consagrado, sofrer de artroses e preferir jacuzzis a fellatios.</p>
<p>Obviamente que um escritor traquejado no prefácio da 10º edição já sabe perfeitamente por onde começar a obra. Agora imaginem o terror do autor anónimo, que tem a narrativa estruturada em post-its espalhados pelo guarda-fatos, frigorífico e pelos recantos desocupados do seu cerebelo criativo, mas que não sabe bem por onde começar … a obrar.</p>
<p>O primeiro parágrafo é determinante para um autor desconhecido e irrelevante para um autor consagrado, mas mesmo esse já teve de dedicar uma semana inteira numa cabana à beira de um lago (ou num T2 em Moscavide) dois sacos de café, meia dúzia de garrafas de Bushmills e a discografia completa de Thelonius Monk, para escrever o primeiro parágrafo do seu primeiro livro.<br />
Há aliás quem defenda que o problema central da literatura é o primeiro parágrafo e tudo o resto é uma questão de tarimba a virar frangos – com ou sem piri-piri?</p>
<p>Não nos aventuramos nessas questiúnculas de tabernáculo, mas podemos entender com facilidade a pertinácia do primeiro parágrafo no começo da escrita.<br />
Trata-se da velha artimanha da sedução – um soslaio sugestivo, um decote prometedor, uma nudez de perna, enfim, um catrapiscar de olhos ao leitor que vagueia como cão sem dono por uma livraria pedante; bisbilhotando, bibliotecando livros, afagando-lhe as lombas, o grafismo de capa, a badana com venerações críticas e até a dedicatória ao gato Benevides: &#8211; “pela sua imensa dignidade”.</p>
<p>Quem não levaria para casa um livro com uma dedicatória ao gato Benevides?<br />
Eu cá era incapaz, e ainda bem que por causa disso tenho os contos do Gin Tónico encostados às garrafas de grogue de Cabo Verde que contrabandeei da última vez que fui a banhos no Mindelo.<br />
Para um vagabundo de livraria, o primeiro parágrafo de um livro tem o mesmo apelo que os piropos de comércio da carne que as putas senegalesas emitem aos turistas de Amesterdão que se encaminham para a montras do broche clínico e ariano do Red District.</p>
<p>Por falar em broches, é preciso recordar que o primeiro parágrafo é provavelmente a única coisa que as máquinas de sonda-literária das editoras vão ler quando o autor lhes envia o manuscrito policopiado em letra-padrão-Garamond e a espaços marcados.</p>
<p>Isto já para não falar dos proeminentes jurados do prémio literário Dr. Jacinto Capelo Rego, da Câmara Municipal de Poiares, que dificilmente passarão do título, sobretudo se este for indigesto para as favas à bordalesa ingeridas na almoçarada com o vereador, e como se sabe, geradoras de flatulência intelectual que qualifica qualquer literato médio dessa nossa Pacóvia.</p>
<p>Portanto, e respondendo à questão da menina quartanista de literatura pós-balcânica da terceira fila deste congresso literário patrocinado pelas Salsichas Nobre &#8211; Uma obra define-se pelo seu começo, assim como se conhece o artesanato pelo seu artesão.</p>
<p>Para posteriores averiguações recomendo o meu laureado ensaio: “E depois do prefácio? Talvez um amouse de bouche &#8211; um exaustivo estudo comparativo do início das obras literárias, de Homero e Dan Brown”.</p>
<p>Imagine então o meu amigo autor que tem o seu romance totalmente estruturado a betão, vigas e andaimes, e só lhe falta a campainha.<br />
Por onde começar?<br />
Tudo depende do seu objectivo, ambições e sobretudo da maternidade onde nasceu.<br />
Imagine então que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e que a sua ambição literária é ser tema de capa do “Jornal de Letras”. Nesse caso, e independentemente do que tiver para dizer/escrever a seguir, deve começar por uma coisa no género &#8211; “Era uma vez o fim de tarde. Era um Setembro entre os Setembros da minha vida. Estava sentado na varanda, na cadeira de baloiço, a ler um livro de páginas amarelecidas pela última luz”. </p>
<p>Pode-lhe parecer o refrão de uma música do Vítor Espadinha, mas na verdade é uma “ouverture” de pontaria afinada para o poeta recalcitrante e o melancólico desesperado que cochicha sob a pele tisnada de qualquer português, mesmo que seja taxista à noite no Cais do Sodré ou estudante de Psicologia Social no Instituto Piaget.</p>
<p>Não vai vender que nem tremoços na tasca, mas vai pelo menos conquistar a pungente alminha romântica que se enxertou em cada português a partir do momento em que percebeu que era um grande cornudo da vida, o que, como se percebe tem imenso potencial literário, dada probabilidade demográfica de se encontrar um exemplar em idênticas circunstâncias.</p>
<p>Qualquer leitor gosta de se identificar com o sofrimento literário, mesmo que este seja tão sofrível como José Luís Peixoto e o seu incandescente parágrafo de abertura de “Uma casa na escuridão”, o que num tempo de néon e luzes de tungasténeo só nos autoriza a pensar que alguém não pagou a conta da luz.</p>
<p>Como nos faltou a luz nos corredores desta casinha-portuguesa-choramingas, saltamos num ápice para a luz do alpendre do último parágrafo onde com umas velinhas titubeantes lemos: “Ela disse amo-te. Ela, o seu rosto puro, diante de mim, as chamas, o fogo, disse amo-te. Como palavras impossíveis e como as únicas palavras. Eu sorri tanto, fui feliz e, nesse momento, morri.”</p>
<p>Foi ele e eu, que morri de tédio. Revisitei a minha história funcionária e abençoei o dia em que terminei o Serviço Militar Obrigatório e confrontado com o dilema de me tornar escritor-certamente-pungente ou alcólico-determinantemente-valente, fiz a melhor opção. </p>
<p>Mas, quem queira paparico de “Jornal de Letras” e aclamação de velharias cerebralmente desdentadas do Grémio Literário esta receita serve perfeitamente como Mousse Alsa literária, e ao que consta dá para viver, que não é coisa de papo-seco no ofício da escrita.</p>
<p>Mas se as suas ambições literária almejarem a bonança das estantes FNAC do Jumbo e as adaptações da Twenty Century Fox (ou da TVI), então recomendamos um serial-killer style: </p>
<p>“Museu do Louvre, Paris, 22:46h – Jacques Sauniére, o conceituado conservador, atravessou a cambalear o arco abobadado da Grande Galeria. Estendeu as mão para o quadro mais próximo, um Caravaggio. Agarrando a moldura de madeira dourada, puxou-a para si até arrancá-la da parede, e então, caiu de costas, enrodilhado debaixo da grande tela.” </p>
<p>Digam lá que não morrem de curiosidade de saber o que se vai passar a seguir. De acordo com os mais destacados professores de Literatura Rapidinha de Columbia, este é um clássico começo da escola “Sem funfuns nem gaitinhas”. É como mandar um SMS à miúda que se conheceu na outra noite a convidá-la para ir para a cama antes de jantar e do Martini com azeitoninha para a trinca.</p>
<p>Reparem, incautos, nos entosoativos narrativos utilizado por esse grande Onan da escrita de supermercado – Dan Brown.<br />
Começa por nos levar para o Museu do Louvre com cronómetro marcado, o que é bem melhor do que qualquer Casa na Escuridão a hora incerta. Depois, o artimanhoso, sugere que o personagem com nome de queijo provençal cambaleie sob o arco abobadado, o que nos levaria imediatamente a pensar numa pilhéria – o conceituado conservador tinha apanhado uma grande abobadada de anis.</p>
<p>Mas não, tromp l`oeil simples. O sacaninha do autor americano, mete logo um Caravaggio ao barulho, não sabemos se porque estava ali mais à mão de semear, se para nos impor respeitinho.<br />
Imaginem que o conservador tinha caído para os lados de um Mantegna, qual seria o efeito literário? Provavelmente nenhum, porque o único Mantegna que um frequentador de supermercados conhece é um actor americano chamado Joe ou a Mantegna dos Açores. </p>
<p>Mas Caravaggio não, é um nome sonante, com parecenças fónicas com uma expressão de calão profusamente utilizada no trânsito em Lisboa. Caravaggio é um autor de quem toda a gente já ouviu falar, por causa do nome que fica a zumbir no ouvidos como o black&#038;decker do vizinho de cima em matina de sábado bricoláctico.</p>
<p>Para prender o leitor inexperiente no Renascimento, nada melhor para lhe beliscar o testículo da curiosidade ufana. Assim no parágrafo inicial mais eficaz da literatura-detergente contemporânea, os elementos essenciais da alquimia, as palavrinhas abracadabra são – Louvre/ abobadado/Caravaggio e enrodilhado (debaixo da grande tela). </p>
<p>Independentemente da história que tiver para contar, se utilizar estas palavrinhas-mágicas, provavelmente estará para o ano a comer caranguejos em Miami com o Tom Hanks a combinar os diálogos da adaptação cinematográfica da sua obra.</p>
<p>Não somos exactamente tolos e obviamente um parágrafo inicial não basta. Depois precisa de levar a sua história a um acelerador de partículas e provocar no seu leitor um efeito de vertigem/devorativa, que o obrigue a tomar uns comprimidos para o enjoo, para aguentar o enredo “tsunami” que o mantém acordado até ao camião do lixo voltar a passar na sua rua no dia seguinte, quando esfrega as suas olheiras e dá o suspiro final em “Avassalado por uma súbita reverência. Langdon caiu de joelhos. Pareceu-lhe, por um instante, ouvir uma voz de mulher … a sabedoria das idades … murmurar-lhe das profundezas da terra”.</p>
<p>Se o leitor-maratonista não estivesse tão cansado, podia facilmente pensar que José Luís Peixoto deu uma mãozinha ao Dan Brown no parágrafo final do Código da Vinci. Mas não, se o estimado leitor não pode com uma gata com o rabo depois de desbaratar 536 páginas para descobrir que Jesus Cristo podia ter tido direito ao abono de família, imagine então a fadiga do autor.</p>
<p>Isto são receitas para a temporalidade da escrita, que provavelmente acaba em saldos num alfarrabista de rua ou em ofertas em atacado da benemérita editora para os reclusos do Estabelecimento Prisional de Caxias. </p>
<p>Se o seu objectivo é alcançar a imortalidade literária, mesmo que isso signifique uma dieta baseada em croquetes rançosos e férias na camioneta para a Costa da Caparica, então deve marcar hora com os Clássicos, e nesse caso, tente qualquer coisa como:</p>
<p>“Num lugar da Mancha, de cujo nome não me quero recordar, vivia, não há muito tempo, um desses fidalgos que usam lança em hastilheira, adarga antiga, cavalo magro e galgo corredor”.<br />
Se não quiser ficar maluco de tanto ler romances de cavalaria, pode sempre optar por um “Muitos anos depois , diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo”, e depois é só deixar cervejas suficientes no frigorífico para “Cem anos de solidão”.</p>
<p>Afinal o problema da literatura é apenas um dos muitos problemas domésticos – resolvem-se, esperando que passem ou ligando para o canalizador.</p>
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		<title>5 de junho um dia de angústia nacional</title>
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		<pubDate>Sun, 29 May 2011 18:16:50 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Independentemente do executor designado pelo povo português para levar a cabo o programa eleitoral do FMI, o que mais angustia é saber que depois do dia 5 de Junho nada de fundamental vai mudar no nosso país. Porque a crise é bem mais do que financeira – é de valores, de coragem, de ética e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Independentemente do executor designado pelo povo português para levar a cabo o programa eleitoral do FMI, o que mais angustia é saber que depois do dia 5 de Junho nada de fundamental vai mudar no nosso país. Porque a crise é bem mais do que financeira – é de valores, de coragem, de ética e de representação<span id="more-8114"></span></p>
<p><a class="highslide" onclick="return vz.expand(this)" href="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2011/05/eleições_21M0221.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-8115" title="eleições_21M0221" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2011/05/eleições_21M0221.jpg" alt="" width="460" height="308" /></a>Rui Pelejão Marques<br />
Teria sido diferente? É esta a mais inquietante questão que se coloca a uma parte importante dos eleitores portugueses. Teria sido diferente se em vez do PS e de Sócrates, tivesse sido o PSD de Marques Mendes, Luis Filipe Meneses, Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho a conduzir os destinos do país nos últimos anos?<br />
Teriam antecipado a crise, reduzido o défice? Teriam conseguido promover o crescimento da economia, baixar os impostos? Teriam feito florescer as PME`s, combatido o desemprego, o fecho de fábricas a precariedade dos jovens? Teriam deixado de salvar o banco da elite cavaquista (BPN) ou dos ricos (BPP). Teria havido uma justiça célere e implacável que perseguisse a corrupção e as negociatas? Teriam desmantelado um Estado clientelar? Teriam sido imunes ao favoritismo, ao compadrio, ao caciquismo eleitoral? Teriam sido invulneráveis aos lobbies económicos, à depradação dos recursos do país? Teriam deixado de construir o TGV e planear o aeroporto? Teriam encerrado as Estradas de Portugal, a RTP, as empresas de transportes públicos, as fundações, as empresas municipais e os institutos? Teriam fechado finalmente a torneira a Alberto João Jardim? Teriam deixado de injectar dinheiro na economia para a tentar salvar? Teriam melhorado a saúde e o ensino? Teriam pedido a ajuda externa mais cedo? Teriam feito algo de fundamentalmente diferente do que fez José Sócrates e o PS?</p>
<p>Muitos, imbuídos num certo espírito de fé temperado de rancor, acreditam que sim. Que com o PSD teria sido diferente, que com o PSD será diferente.<br />
Em matéria de fé deixemos cada um em conciliábulo com sua consciência. Eu cá suspeito de que nada de fundamentalmente diferente se teria passado em Portugal nos últimos dez anos com os intérpretes habituais do establishment partidário e os seus líderes de temporárias ambições. Porque o problema que julgamos poder remover no dia 5 de Junho não se chama José Sócrates. O problema é mais vasto, mais perene e infelizmente não se remove com a facilidade com que se remove uma nódoa. O verdadeiro problema chama-se Portugal, e por extensão chama-se política portuguesa, de que o sistema partidário e as suas respectivas cortes de servos e carreiristas são apenas o espelho mais fiel.<br />
Por mais emoções clubistas e de facção que uma eleição possa gerar num povo desconfiado, zangado e desiludido, a verdade é que o mais angustiante destas eleições é saber que não vamos encontrar no boletim de voto nenhum partido, nenhum líder e nenhum projecto em que acreditemos verdadeiramente. Nenhuma ideia mobilizadora, nenhuma voz clara, forte e verdadeira, nenhum caminho colectivo, nenhuma esperança. No boletim de voto de dia 5 de Junho vamos encontrar medo, vingança, rancor, fé, mentira, desculpas, delírios e intrujices. E depois, teremos mais do mesmo.<br />
É isso que arrepia, que frustra que angustia. É saber que o poder do nosso voto é impotente para mudar aquilo que importava verdadeiramente mudar, e que não é apenas o tristemente episódico José Sócrates, é todo um sistema partidário fundado no carreirismo, no interesse próprio, nas ambições e na política como um jogo de poder, e não como uma nobre aspiração da sociedade e do bem comum.<br />
Enquanto estes ou novos partidos políticos não promoverem uma verdadeira revolução de “costumes”, de ética, de cidadania, enquanto o povo português admitir de ombros encolhidos que a sua escolha é a do mal menor, enquanto isso acontecer, este país continuará, alegremente, a mesma merda de sempre.<br />
Por isso, mais do que quem vai ser o testamentário que irá aplicar as medidas do FMI a partir de 5 de Junho, o que vale mesmo a pena saber é se o povo português está disposto a mudar o seu país e a forçar uma profunda limpeza ética nos partidos e nos homens e mulheres que os representam. Porque a mais profunda crise que Portugal atravessa não é apenas financeira e económica. É sobretudo uma crise moral, uma crise de identidade nacional e uma crise de representação.<br />
Só algum insano ou um crédulo pode acreditar que Sócrates, Passos Coelho, Paulo Portas, Francisco Louçã ou Jerónimo de Sousa são líderes com fibra humana e política para promoverem o combate a essa crise, porque todos eles, sem excepção, são meros produtos consagrados das lógicas partidárias que os promoveram às respectivas lideranças. Eles são parte do problema e não da solução. Não há democracia sem os partidos, mas Portugal não será uma democracia próspera, honesta e credível enquanto os partidos e os dirigentes forem estes.</p>
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		<title>A hipocrisia dos cotas que se comovem com a música dos Deolinda</title>
		<link>http://www.a23online.com/2011/02/07/a-hipocrisia-dos-cotas-que-se-comovem-com-a-musica-dos-deolinda/</link>
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		<pubDate>Mon, 07 Feb 2011 23:20:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<category><![CDATA[A hipocrisia dos cotas que se comovem com a música dos Deolinda]]></category>
		<category><![CDATA[José Manuel Fernandes]]></category>

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		<description><![CDATA[Gente lixada pela vida há em todas as gerações. Mas, verdadeiramente lixado é a hipocrisia, a desonestidade e a trafulhice intelectual. E disso, todas as gerações estão bem servidas. Texto Rui Pelejão Marques Por este dias não há colunista, comentador, analista, calista, ou industrial da panificação que não cite copiosamente a música dos Deolinda, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Gente lixada pela vida há em todas as gerações. Mas, verdadeiramente lixado é a hipocrisia, a desonestidade e a trafulhice intelectual. E disso, todas as gerações estão bem servidas.</strong></p>
<p>Texto Rui Pelejão Marques<br />
Por este dias não há colunista, comentador, analista, calista, ou industrial da panificação que não cite copiosamente a música dos Deolinda, que faz o retrato amargo da geração Nem Nem, dos 500 euros ou, se quisermos, a geração lixada.<br />
Em geral, todos estes cronistas pop-de-sociedade são da geração açambarcadora, a que alegadamente espoliou as oportunidades dos jovens e os remeteu ao beco sem esperança, mas todos moralizam e escrevem como se não tivessem o bedelho no calduço.<br />
Estes novos e improváveis ouvintes do Deolinda comovem-se até ao carpido de crocodilo com esta singela letra “Sou da geração sem remuneração/e não me incomoda esta condição./ Que parva que eu sou/Porque isto está mal e vai continuar,/já é uma sorte eu poder estagiar./Que parva que eu sou!/E fico a pensar,/que mundo tão parvo/onde para ser escravo é preciso estudar”. Ora, se esta é a música de intervenção desta geração, acho que se calhar esta geração tem o que merece (felizmente não é).<br />
Esta é a música que tempera o sentimento de culpa das gerações bem instaladas na gamela dos direitos adquiridos. Os mesmos que, quando eram novos, escutaram e conspiraram por um mundo melhor ao som do José Mário Branco e do Zeca Afonso, e que passaram o resto da vida a trair as canções da sua juventude.<br />
A pueril letra dos Deolinda é o pouco que eles conhecem da geração sobre quem escrevem com aquela sabichice insuportável da senilidade precoce. Eles não sabem nada, mas mesmo nada sobre a geração que agora lamentam nos seus editoriais lamechas. Quando muito conhecem os filhos e os amigos dos filhos, e como falamos de uma casta relativamente privilegiada e bem relacionada, o mais provável é os seus filhos até se estarem a safar, graças a um empurrãozinho, uma palavrinha ao amigo, um favorzinho inocente.<br />
Se há uma geração lixada, a maior parte destes articulistas chorosos contribuiu para a lixar. Perguntem lá ao José Manuel Fernandes, se quando era director do “Público” alguma vez se preocupou com a distribuição equitativa da massa salarial? Se alguma vez se opôs a estágios não remunerados, ou a inacreditáveis fossos salariais na redacção? E, quando falo do José Manuel Fernandes, falo de todos os outros directores, directores-adjuntos, editores ou políticos de lágrima fácil que por este dias andam a lamentar o destino trágico da geração lixada. Alguma vez algum deles abdicou dos seus direitos adquiridos? Dos seus salários principescos (quando comparados com a base da pirâmide salarial)? E mais. Quantas vezes vêm anúncios e processos de recrutamento para meios de comunicação social?<br />
É que os “lugares” que vai havendo, vão sendo traficados, negociados entre amigos, “afilhados” ou mesmo filhos. Se fizerem a árvore genealógica do jornalismo português vão perceber o que nepotismo e a consanguinidade não são fenómenos só imputáveis ao PS e ao caciquismo das empresas públicas e das autarquias. A maior parte do que se escreve nos jornais sobre ética, mérito e justiça no mercado de trabalho é apenas simples e crua hipocrisia.<br />
É natural que este tipo de hipocrisia (ainda que cega, acredito) se identifique com a letra dos Deolinda, porque nunca na vida vão entender que esta letra também está a falar deles. Por isso espero que a geração lixada saiba escolher os seus arautos e fazer o seu caminho e a sua luta sem se deixar enganar pelas lágrimas de crocodilo.<br />
A voz da geração lixada não é a dos Josés Manuéis Fernandes, dos inacreditáveis Cavacos (o coveiro a falar aos mortos) e nem sequer dos Deolindas do mundo. É a sua própria. O melhor e mais cru retrato que li da geração lixada é o livro “Operador de Call Center” de um jovem autor chamado Hugo Pereira uma viagem bukowskiana ao quotidiano de um operador de call center que mantém a ácida lucidez do sonho com a realização de curtas metragens.<br />
Ironicamente, o mais poderoso retrato que eu vi desta geração enjaulada não encontrou editora capaz e minimamente atenta. Teve de imprimir o livro em Espanha e vendeu algumas dezenas a amigos e familiares. É o trágico destino do génio. Talvez se fosse jornalista ou médium tivesse melhor sorte…<br />
É que reduzir esta geração à dialéctica meterialista que nos move ou à cultura programada, oficial e comercial é desconhecer o imenso mundo de criatividade e energia que pulsa na geração lixada. É simplesmente não os conhecer.<br />
Eu que pertenço à geração rasca do Vicente Jorge Silva, e que cá nos vamos desenrascando com um quinhão dos “direitos adquiridos” também não dou para o peditório do coitadismo da geração lixada.<br />
Compreendo que a crise económica, o desemprego, os recibos verdes, a falta de proteção social e a eternização na casa dos pais são a dura realidade. Mas essa realidade não admite o conformismo ou a histeria, por exemplo, dessa eminência parava de serviço ao liberalismo betucho  chamado Henrique Raposo e os seus queixumes dondocas de bem instalado na coluna normalmente bem remunerada do “Expresso”.<br />
Esse rapaz está longe de ser um bom arauto para vocês, caros camaradas da geração lixada. É mais um intrujão. Porque se entramos na lógica do confronto de gerações, de espoliados e espoliadores, estamos bem mal. Esses jovens liberais de pacotilha acreditam que o problema está nos “direitos adquiridos” pelos trabalhadores, que se alapam aos postos de trabalho que deviam estar destinados por direito divino aos jovens que saem da faculdade. Portanto, a solução seria desalojar os “velhos” dos seus trabalhos e ragalias, para os poder passar a uma geração mais preparada e bem formada, e disponível para ser remunerada de forma mais competitiva… para as empresas.<br />
Ora, a formação universitária pode conferir legítimas expectativas, mas não dá um direito divino ao emprego, pelo menos aos bons empregos, sobretudo quando não os há, ou há poucos. Alguém se parece esquecer que o mercado de trabalho português não é propriamente o alemão, e que os empregos que a geração lixada pretende ter acesso por decreto não são propriamente de cantoneiro, padeiro ou portageiro.<br />
O que a histeria dos Raposões do mundo defende é uma permanente competição pelos “bons empregos”, como se fosse líquido que um qualquer recém-licenciado fizesse melhor o meu trabalho. Uma fotógrafa amiga um dia disse-me que um cliente ficou espantado com a rapidez com que ela fez uma sessão. – Só demorou uma hora?, perguntou ele – Não, demorei vinte anos e uma hora – respondeu ela.<br />
Se entrarmos numa lógica de confronto geracional no mercado de trabalho vamos todos sair a perder a curto prazo e as empresas também (a médio prazo). Desproteger o trabalho não é um bom negócio para ninguém, porque daqui a algum tempo não estaríamos a discutir os problemas dos recém-licenciados, mas sim a falência e miséria dos velhos licenciados. Se encararmos este grave problema social com preconceitos de classe, casta, ideológicos ou mesmo de geração, estaremos a atear o rastilho de um barril de pólvora.<br />
Temos todos de encontrar a melhor forma de sermos uma sociedade solidária e mobilizada para o bem comum, uma sociedade de valores, de mérito, de cooperação (melhor que competição), e se para isso for preciso abdicar de alguns “direitos adquiridos”, que aliás pago ao Estado (e não é pouco) seja. Eu estou disposto a fazê-lo.<br />
Mas só cedo esses “direitos adquiridos” (um ordenado, seguro de saúde e direito de indemnização caso seja despedido), a troco da inovação, da iniciativa e da solidariedade social. Não os dou de barato a um jovem recém-licenciado que acomoda a peidola ao sofá dos pais, ao carro em segunda mão, aos copos no Bairro Alto, às tertúlias da lamentação, ao conformismo e à espera eterna de um emprego compatível com a sua condição. Querem uma vida melhor? Lutar por ela também ajuda.<br />
Pelo menos, ajuda mais do que aplaudir os artigos de José Manuel Fernandes ou as músicas da Deolinda.<br />
É que uma parte da geração lixada também é uma geração acomodada que vai azedando. E azedar é acabar com o sonho, o deles, e o nosso, num país mais justo e mais feliz.</p>
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		<title>Afinal os liberais também apreciam a mama do Estado</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Feb 2011 10:26:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A polémica em torno dos contratos de associação do Ministério da Educação com estabelecimentos de ensino privado e cooperativo é bastante reveladora dessa estranha forma de pensamento conveniente que se chama liberalismo à portuguesa. Chama-se liberalismo à mama do Estado.
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			<content:encoded><![CDATA[<p>A polémica em torno dos contratos de associação do Ministério da Educação com estabelecimentos de ensino privado e cooperativo é bastante reveladora dessa estranha forma de pensamento conveniente que se chama liberalismo à portuguesa. Chama-se liberalismo à mama do Estado.</p>
<p>Texto: Rui Pelejão Marques<br />
 O liberalismo à portuguesa, perfilhado pelo PSD (em certos dias),  pelo CDS e por muitos comentadores insuflados no seu cabotinismo cool como João Pereira Coutinho é essencialmente o liberalismo dos negócios, ou melhor, das negociatas.<br />
Não é um liberalismo que defende a iniciativa privada, a livre empresa e a redução do papel do Estado a um mero regulador e titular dos órgãos de soberania. É um liberalismo que pretende que a saúde e o ensino sejam privatizados, porque entendem que a gestão privada é mais eficaz que a gestão pública.<br />
Até aqui, tudo bem. Onde a porca do liberalismo torce o seu rabo interesseiro é que, ao que parece, o ensino privado ou a saúde privada só são viáveis se o Estado, ou seja, nós contribuintes, entremos com o dinheiro!<br />
Este liberalismo muito peculiar chama-se liberalismo subsidio-dependente. O mesmo que abomina os subsídios à cultura, os apoios à recuperação de toxicodepentes, que desconfia do rendimento mínimo. Este é o mesmo liberalismo bem pensante que se indigna quando são beliscados os interesses corporativos e empresarias que sobrevivem à gamela do Estado.<br />
O caso das escolas privadas que dependem do financiamento público mostra o tipo de liberalismo que temos em Portugal. É um liberalismo de interesses, de defesa de privilégios e dos ricos, é pois um liberalismo dos trafulhas.<br />
Parece-me do mais elementar bom senso dizer que tendo o Estado promovido e investido recursos de uma amplitude invulgar no parque escolar, não faz sentido que esteja a duplicar o financiamento em escolas privadas, quando na mesma região existirem alternativas públicas. Defendem os liberalóides que os pais devem ter o direito de escolher a melhor escola para os seus filhos, mesmo que essa escola seja privada. Este argumento aparentemente pueril não resiste a uma pergunta simples – E se todos os pais decidirem colocar os seus filhos na melhor escola? Cabem lá todos? Como se escolhem?<br />
Discute-se também o custo per capita de um aluno num estabelecimento privado ou numa escola pública de forma a equiparar esse custo, justificando assim o apoio que o Estado dá aos privados. Há no entanto uma pequena grande diferença que não sobrevive aos méritos da alegada boa gestão privada – é que na rede pública o último objectivo é o bem público, nas escolas privadas o objectivo é o lucro, legítimo, desde que não seja financiada pelo esforço dos contribuintes.<br />
É que, ao que parece, os colégios privados só são sustentáveis com o dinheiro dos contribuintes, e isso é uma situação inadmissível e de uma injustiça gritante que merece ser corrigida.<br />
Por isso, apesar da gritaria de gestores, professores, paizinhos e alunos dos colégios privados, os apoios que o Estado dá para as aulinhas de golfe, piscinas aquecidas e equitação deve pura e simplesmente acabar. Quem quiser ter acesso a essas maravilhas da qualidade de ensino deve pagar por elas, porque os meninos das escolas públicas, cujos pais pagam os mesmos impostos que os outros, esses não têm. Dirão que assim se nivela por baixo. Seja, se assim se criar igualdade, essa palavra arrepiante para os liberais bem instalados na vida e que vivem com a biqueira do sapato a esfregar-se nas carpetes do poder. Por causa deste palratório ficamos pelo menos a saber que tipo de liberais temos por cá, são os da pior espécie.</p>
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		<title>Não é homofobia, é filha da putice mesmo</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Jan 2011 00:25:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há coisas infinitamente mais importantes para um país do que a economia, as eleições presidenciais ou o preço do pão. A coisa mais importante para um país, são as pessoas. Gostarmos das pessoas do nosso país é uma boa forma de gostarmos mais do nosso país, de acreditar que o podemos mudar e que o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há coisas infinitamente mais importantes para um país do que a economia, as eleições presidenciais ou o preço do pão.<br />
A coisa mais importante para um país, são as pessoas. Gostarmos das pessoas do nosso país é uma boa forma de gostarmos mais do nosso país, de acreditar que o podemos mudar e que o podemos mudar juntos.<br />
Não basta torcermos todos pela mesma selecção de futebol para estarmos unidos, não basta proclamar o nosso patriotismo ufano contra o acordo ortográfico, não basta acreditar que ser português é um estado de alma, um fado, uma condição perene da nossa identidade e da coesão social.<br />
Não escolhemos a nossa família, da mesma forma que não escolhemos os nossos vizinhos, os nossos compatriotas e os nossos governantes (por mais que tenhamos a ilusão democrática de o fazer). A única coisa que escolhemos é os nossos amigos, e esta semana percebi que o meu País, são os meus amigos e todas as boas pessoas do mundo.<br />
Mas o que isso das boas pessoas do mundo? Simplificando, como convém para falar de uma humanidade complexa – Boas pessoas são as que têm boa coração, que se comprazem a preocupar-se com os outros e as que percebem que a vida e a condição humana são tão frágeis e efémeras que merecem ser cuidadas, apreciadas, cultivadas.<br />
A leviandade nojenta com que se produziram comentários, análises, teorias da conspiração ou diatribes sobre o brutal homicídio do cronista Carlos Castro, que graças às caixas de comentário da internet e ao facebook passaram a fronteira da cervejaria de bairro é uma prova de que vivemos num país onde não é só a economia que está doente. São as pessoas.<br />
Já nem sequer falo do humor negro, inofensivo e que não qualifica seriamente quem o produz e quem o reproduz. Falo do ódio, do inadmissível ódio à figura de Carlos Castro e à sua homossexualidade. Há para aí um ressentimento perigoso, e não se trata apenas de homofobia primária, é uma violenta pulsão de intolerância que hoje é sobre rabetas, amanhã sobre pretos e ucranianos e no outro dia sobre gajos que lêem poesia.<br />
E esta pulsão que conduziu a besta humana ao longo dos séculos, a pulsão dos violadores, dos corruptos, dos torturadores, dos inquisidores, dos linchadores, dos esclavagistas. É a besta humana que demorou milhares de anos a domar e a civilizar, mas que espreita a primeira oportunidade para sair da jaula. E, num tempo de incertezas, angústias e frustrações, a jaula não está tão segura como julgamos.<br />
Em apenas dois dias, o país transformou-se, sem decoro, numa batalha de trincheiras entre o cinismo de cervejaria e os carpidos de salão de chá.<br />
Isto, porque em Portugal todos temos uma opinião sobre tudo. Esta é outra doença, porque não são os factos ou a reflexão que formam a nossa opinião, é o preconceito.<br />
Quem sempre abominou a figura de Carlos Castro aproveitou para enquadrar o homicídio no seu preconceito – “Era um rabeta velho e nojento, um coscuvilheiro. Não desejo a morte a ninguém, mas cada um faz a cama em que se deita”. Com esta seita dominante alinham os partidários da “vítima”, o pobre rapaz que foi seduzido e enganado pelo velho tarado, e que cometeu o brutal homicídio num momento de loucura “porque deve ter sido provocado”.<br />
Ou seja, ainda antes da polícia e os meios judiciais americanos terem dado cabais esclarecimentos sobre o caso, o julgamento e a sentença estão feitos, porque a opinião baseada no preconceito é mais forte do que a verdade e a justiça.<br />
Há inclusive correntes de solidariedade que pedem a extradição do manequim, como se fosse ele a vítima e não o homicida. Só é pena não podermos extraditar a estupidez para os EUA, mas disso também já estão eles bem servidos.<br />
Do outro lado das trincheiras, os beatos do Carlos Castro, os elogios fúnebres, a canonização idiota, como se o defunto cronista de sociedade fosse algum Saramago do jet-set. Não era.<br />
Era apenas um coscuvilheiro encartado. Sem graça nem estilo, apenas uma triste figura que vivia nas fímbrias e na côdea de uma pseudo alta-sociedade que o temia, abominava, mas que precisava dele para se promover, para maldizer os inimigos, para se chafurdar nas vãs glórias mundanas e no grande circo de vaidades que são as revistas do coração. Muitos daqueles que agora o canonizam foram os que dele se serviram para promover a sua fama, essa droga fútil e efémera. É bom não esquecer que as “coscuvilhices” e a “má-língua” que eram o género de jornalismo que Carlos Castro praticava (sim é jornalismo, podemos não gostar, mas é) fazem parte do jogo que os “famosos” aceitam jogar a partir do momento que abrem a porta de sua casa para umas fotuchas na “Flash” ou quando falam da zanga com o namorado.<br />
Carlos Castro era apenas um coscuvilheiro autorizado pela indústria dos famosos e por todos que dela dependem. E, se essa indústria vive e floresce é porquê? É por causa de quem a alimenta, e quem a alimenta somos todos (mesmo que alguns, involuntariamente).<br />
 Somos nós o público. O mesmo público que encarou o assassínio e mutilação de um homem de meia idade como uma história negra de um mundo cor de rosa, em que a vítima não foi um ser humano e apenas a “personagem”. Quando olhamos para o mundo que nos rodeia e em vez de pessoas vemos apenas personagens, então alguma coisa está podre.<br />
Se este caso não fosse de “personagens”, mas de anónimas pessoas reais em qualquer pensão obscura da Baixa, talvez a besta humana tivesse de esperar outra oportunidade para mostrar as hediondas fauces.<br />
Mais do que homofobia recalcada (e os recalcamentos por vezes querem dizer exactamente o contrário), o que o caso do assassínio do cronista de sociedade Carlos Castro revelou, foi que há em Portugal muitos filhos da puta desumanos, e esses não são meus compatriotas, são meus inimigos. </p>
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		<title>Estado Providência</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Oct 2010 22:33:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Pelejão]]></category>
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		<description><![CDATA[Os professores de Economia Política da Universidade Católica andam num lufa a ler as entrelinhas da “Economist”, a refazer os seus manuais e a tirar o paletó do Keynes da naftalina. As tarefas do revisionismo histórico são mais pesadas do que a pura especulação teórica. Enfermeiras do capitalismo acamado, coitadas. Por este andar, João Carlos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os professores de Economia Política da Universidade Católica andam  num lufa a ler as entrelinhas da “Economist”, a refazer os seus manuais e  a tirar o paletó do Keynes da naftalina. As tarefas do revisionismo  histórico são mais pesadas do que a pura especulação teórica.  Enfermeiras do capitalismo acamado, coitadas. Por este andar, João Carlos Espada, o Popper português, está  qualquer dia a dar de comer aos patos do lago do Campo Grande ou a  reescrever a história económica da Albânia &#8211; o que seria mau para os  albaneses, mas tranquilizador para a saúde digestiva dos patos.</p>
<div>A crise intestinal do capitalismo está a ser combatida com uns  “clijsters” que não lembram nem ao Dr. House nem ao Enver Hoxha e que  deveriam fazer qualquer liberal que se preze pegar em armas ou em  estalinhos de Carnaval.</div>
<div>Uma coisa é certa, esta crise mostrou que a mão invisível não vai à  manicure. Tem as unhas porcalhotas de tanto as meter no bolso dos  outros.Ora, como eu sempre desconfiei, não há verdadeiros capitalistas  ou liberais.</div>
<div>Os liberais encartados são de cátedra ou de oportunidade, e andam  agora a assobiar para o ar, a fazerem-se de esquecidos. Uma arte  nacional, o esquecimento premeditado.</div>
<div>Há apenas ricos e gananciosos a defenderem um modelo que permita  multiplicar a sua riqueza sem grandes chatices, e os outros, que um dia  gostariam de poder ser capitalistas e liberais, desde que não tivessem  uma prestação da casa para pagar ou uma multa do IRS para saldar.</div>
<div>Como sabem que nunca chegarão a ricos, bebem martinis e maldizem o  Governo e os ricos, e toca de emborcar mais uma que amanhã há avião para  uma semanada de férias no Brasil, com pulseirinha de tudo incluído. Os  ricos que paguem a crise.</div>
<div>Ainda não chegamos ao olho de furacão da crise, mas os sintomas de  demência “ideológica” são evidentes. Os arautos do liberalismo económico  parecem baratas tontas; basta ver a tese peregrina defendida pelo  director do “Público”, de que esta crise financeira resulta do excesso  de regulação do Estado decorrente do intervencionismo económico do Plano  Marshall.</div>
<div>E já agora porque não discutir o dirigismo económico das tribos  Neandardal ou o centralismo financeiro do Imperador Pepino, o grande?</div>
<div>Sabendo que a farmacologia para doenças mentais está tão avançada,  não se entende porque é que o Estado não comparticipa fármacos para  estes notórios casos patológicos que esperneiam nos jornais e nos  blogues como maluquinhos num manicómio.</div>
<div>Por favor mediquem-nos ou então internem-nos. Podia até criar-se  uma ala psiquiátrica para estes casos no Júlio de Matos, chamada, por  exemplo – Ala Pacheco Pereira, ou o corredor da mão invisível.</div>
<div>Se acham que estou a exagerar, consultem o caderno de Economia do  Expresso.. Em plena “nacionalização” da banca  americana, um professor assistente da Católica (de onde mais) defendia  com denodo uma medida de “moralização” do Rendimento Mínimo Garantido,  ou seja, que os beneficiários tivessem de fazer “prova” da sua pobreza.</div>
<div>A apostólica luminária não explicava lá muito bem como é que alguém  faz prova da sua pobreza; talvez sinais de raquitismo, desnutrição,  mordidelas de ratos ou a prova de que não têm nenhum leitor de DVD`s em  casa. Felizmente esta tese digna de Prémio Nobel da Buraca caiu no  esquecimento e ao contrário do que os liberais defenderam, o Estado  Providência não está falido, e o Rendimento Mínimo Garantido não só  abrange as necessidades básicas da simpática comunidade cigana mas passa  também a cobrir fortunas de empresários capitalistas (e logo, liberais)  que andavam ao-ti-ao-ti com o buraco financeiro do Banco Privado  Português.</div>
<div>É bom saber que o Estado providencia e garante as casas na Quinta  da Marinha, os iates e os Bentleys destes “pequenos” aforristas, que  para terem uma continha na Dona Branca dos Ricos (o sr. Rendeiro)  precisavam no mínimo de um depósito de 50 mil euros.</div>
<div>Percebe-se que para o Dr. José Miguel Júdice quem tenha 50 mil  euros para pôr a render no banco seja um pequeno aforrista. É que o Dr.  Júdice não é de cá, é de Coimbra.</div>
<div>Mas agora a sério, fico reconfortado em saber que as fortunas deste  país estão a salvo do furacão, já que o Estado omnipotente e  omnipresente nos protege.</div>
<div>Se os accionistas do Banco Privado Português e os administradores  dos bancos portugueses têm o seu dinheirinho a salvo por causa dos  riscos sistémicos de contágio do sistema financeiro, eu e os mineiros de  Aljustrel também podemos dormir descansados.</div>
<div>Afinal se eu ficar teso os riscos sistémicos para meia dúzia de  bares, restaurantes e FNAC`s são muito elevados, tal como para as  tabernas e mercearias de Aljustel, caso os mineiros fossem lançados no  desemprego.</div>
<div>Uma coisa boa do Estado Providência é que trata as pessoas todas  bem: banqueiros, ciganos, bebedolas e mineiros, tudo por igual tem o seu  rendimento mínimo garantido, caso contrário haveria grandes riscos  sistémicos para a Central de Cervejas ou para o importador do Moet e  Chandon.</div>
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		<title>Para ganhar à Espanha</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jun 2010 09:24:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hoje o mais importante para Portugal é ganhar à Espanha. Aliás, já é assim há mais ou menos 900 anos, desde que D. Afonso Henriques driblou os castelhanos, subornou o papa, e com muita manha e coragem conseguiu organizar um princípio de país que desde então tem vivido, alegre e fatalmente, sob o signo da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje o mais importante para Portugal é ganhar à Espanha. Aliás, já é assim há mais ou menos 900 anos, desde que D. Afonso Henriques driblou os castelhanos, subornou o papa, e com muita manha e coragem conseguiu organizar um princípio de país que desde então tem vivido, alegre e fatalmente, sob o signo da desorganização. Para ganhar à Espanha devemos mesmo ouvir as vozes dos nossos egrégios avós, e adoptar a táctica do quadrado que tão bons resultados deu no derby de Aljubarrota. Depois é esperar que Cristiano Ronaldo dê uma de padeira de Aljubarrota e mande uma pazada na cabeça de Casillas. Para ganhar à Espanha é preciso evocar os espíritos dos doze de Portugal, os magriços, que foram a Inglaterra desancar uns cavaleiros brutamontes que tinham desonrado uma donzela. Bateram-se numa liça medieval e inspiraram a selecção de 66, com Eusébio na pele de Álvaro Gonçalves Coutinho, bem na pele um pouco mais escura. Por falar nisso, temo que nesta equipa portuguesa falte um pouco de cor, por isso é imprescindível que Miguel ou pelo menos Pepe joguem, caso contrário seremos uma equipa demasiado albina. É imperioso ganhar à Espanha nem que seja para justificar o TGV para Madrid, e assim já podermos ir a La Chueca contar umas piadas sobre o mundial e beber umas cañas, mas para ganhar à Espanha é preciso mais do que um professor de ginástica sobrevalorizado e onze rapazolas com a mania que são artistas. Naquela equipa só há um artista, chama-se Cristiano Ronaldo, e é bom que os outros metam isso na cabeça, mais o capacete de mineiro na cabeça e o fato de macaco no tronco. É verdade que na selecção de Portugal, Cristiano Ronaldo passa mais tempo a assoprar do que a jogar, mas para ganharmos à Espanha temos de acreditar que ainda temos crédito com a nossa senhora do Caravaggio e que Ronaldo vai fazer de Casillas o Homer Simpson do anúncio da Nike. A Espanha é naturalmente a favorita, tem melhores jogadores, melhores ideias de jogo (copiadas do grande Barcelona) e um meio campo de tique-taque que deixa zonzo qualquer intrépido trinco, por isso, a derrota é o mais provável, mas pela primeira vez, o pragmatismo é a única hipótese de alimentar o romantismo nacional, e o pragmatismo diz que a única forma de bater a Espanha é povoar o meio campo, como D. Dinis fez com o interior de Portugal. Cá por mim, que sou apenas um dos 10 milhões de seleccionadores nacionais, metia Pepe e Pedro Mendes – com um deles, exclusivamente dedicado a desligar o gerado Xavi, secando assim Torres e Vila; depois metia Raul Meireles e Tiago para tentarem fazer os espanhóis correr atrás da bola e ainda Miguel Veloso para dar pau e tentar uns remates de meia distância. Lá na frente metia Cristiano Ronaldo, estilo Lone Ranger, à espera de uma bola perdida ou de um milagre e dava carta branca a Fábio Coentrão e Miguel para subirem pelas alas, explorando as fraquezas de Sergio Ramos e Capdevilla. Deixava-me portanto de ilusões e apostava tudo num catenaccio à portuguesa. Se a táctica desse para o torto metia o Hugo Almeida, o Simão e o Deco na segunda parte, e pronto, acendia uma velinha à Nossa Senhora do Caravaggio. Se nada disto resultar, pelo menos temos uma consolação, as vuvuzelas vão para a reciclagem e Portugal fica com superavit em plástico, que pode sempre trocar por crédito internacional ou por uma auto-estrada nova, a pagar claro.</p>
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		<title>A birra do morto e os sapatos do defunto</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Mar 2010 19:46:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No país dos pés-descalços um primeiro-ministro faz a birra do morto à Vicente Sanches, enquanto no PSD se organizam as partilhas dos sapatos do defunto. Texto de Rui Pelejão Marques Um país bordel, palco de ópera bufa, a passar fomeca e de mão estendida para a esmolinha, senhor doutor. Um país desgovernado por um morto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No país dos pés-descalços um primeiro-ministro faz a birra do morto à Vicente Sanches, enquanto no PSD se organizam as partilhas dos sapatos do defunto.</p>
<p>Texto de <strong>Rui Pelejão Marques</strong><br />
Um país bordel, palco de ópera bufa, a passar fomeca e de mão estendida para a esmolinha, senhor doutor.<br />
Um país desgovernado por um morto político a fazer birra. No velório, com as alminhas pungentes e as carpideiras a soldo, o primeiro-ministro cadáver dá coices iracundos.<br />
Está indignado o homem, com as afrontas, com a perseguição, com o jornalismo de buraco de fechadura, com as tricas e as campanhas orquestradas.<br />
Recusa o óbito e convoca as almas penadas do PS para mais uma batalha para se manter vivo.<br />
O negacionismo, tese mirabolante que põe a salvo Sócrates e respectiva corja das malhas laças da justiça e do julgamento da opinião pública, é um verdadeiro atentado à inteligência de um povo preguiçoso e cobardolas, incapaz de remover nódoas políticas com benzena.<br />
Perante as evidências, negar sempre. Esta é a artimanha desesperada do adúltero apanhado em flagrante delito no leito conjugal e que clama a sua inocência até às últimas consequências.</p>
<p>Mas há que não diminuir a eficácia da tropa de choque do PS, capaz de suster a primeira carga de cavalaria, de fileiras cerradas, esperando que o tempo e a indiferença endémica da nação acabem por branquear o que para o senso comum é evidente.<br />
A barafunda e cortejo de tristes figuras em que se tornou a Comissão de Ética, e que será convenientemente replicada na Comissão de Inquérito, serve os interesses do PS, lançando uma cortina de fumo sobre o caso PT, de que Sócrates sairá apenas chamuscado.<br />
É evidente que Sócrates e seus acólitos têm uma obsessão perigosa com o controlo político: do Estado, das empresas, da comunicação social e em última instância, com o controlo da opinião pública.<br />
E isto não é uma mera opinião ou suposição, é uma constatação baseada em factos, e sobretudo num padrão. Um padrão forjado na politiquice de paróquia e na mentalidade provinciana que foi o leitmotiv da carreira de Sócrates e da sua clique.<br />
Eles são caciques que exorbitaram para uma gamela de maiores proporções do que o pratinho de lentilhas a que a concelhia lhes dá acesso.<br />
Tal como um presidente da câmara do interior, sabem que é preciso ter à soleira do gabinete as empresas e a iniciativa privada, distribuir prebendas e bulas e domesticar com rédea curta a comunicação social, pagando generosamente a sede da nova rádio ou sendo um anunciante incontornável para a sustentabilidade do jornal.<br />
Nalguns casos, até fica mais barato comprar um jornal regional, para púlpito das suas ambições e vaidades. Basta correr o país para ver este padrão replicado em cada autarquia.<br />
No caso de Sócrates, só a escala é infinitamente maior, os meios colossais e as ambições desmesuradas.<br />
Apesar do que dizem as sondagens do contentamento socialista, o consulado de Sócrates tem certidão de óbito passada, porque apesar da sua endémica indiferença, os portugueses estão fartos da personagem.<br />
Só esperam cordatamente que apareça outro figurante do mesmo calibre para correr com Sócrates.<br />
Em Portugal, o Governo cairá de podre nas mãos do líder que estiver mais à mão, assim que Cavaco esteja comodamente instalado no seu segundo mandato e a oposição seja obrigada a chegar-se à frente.<br />
É pena, porque se não se tivesse deslumbrado com o exercício do poder, com a sua narrativa fantasista e com a sua própria vaidade, Sócrates poderia ter sido um bom primeiro-ministro, reformista, corajoso e com uma agenda moderna.<br />
Para mal dos nossos pecados, foi vítima das suas próprias ilusões de grandeza e de alguns pouco recomendáveis compagnons de route.<br />
Este morto político que governa Portugal e que faz mais birras que um garoto de cinco anos, será vítima de uma doença crónica &#8211; as escandaleiras que o debilitaram até ao estertor final.<br />
Sairá de cena pela porta baixa, porque lhe faltou a grandeza de um líder nacional e lhe sobraram os vícios e manias de um político de paróquia.<br />
Pequeno e mesquinho.<br />
Organizam-se agora os candidatos a calçar os sapatos do defunto. Como diz o ditado e o filme de João César Monteiro, “Quem espera por sapatos de defunto, morre calçado”.<br />
É esse o tema central da reunião do tupperware que o PSD organiza este fim-de-semana em Arruda dos Vinhos. Trata-se de saber qual das três patéticas alminhas tem direito de ficar à espera dos sapatos do defunto.<br />
Mas o PSD é hoje um partido muito parecido com aquelas velhas famílias queques que se pegam ao estalo quando toca às partilhas das pratas da Avô Esmeralda.<br />
Uma família desavinda que naturalmente só se unirá quando tiver os sapatos do defunto calçados, porque os sapatos do defunto dão controlo, poder e muitas prebendas e lugarzinhos nas PT`s do país para distribuir entre os primos, mesmo que afastados.<br />
Independentemente do resultado do Concílio de Arruda dos Vinhos, uma coisa é certa; Portugal está condenado à birra de um morto por mais um ano e meio, e depois a mais uns tantos de um homem que governará com os sapatos de defunto.<br />
Assim, continuaremos descalços, nem todos, mas a esmagadora maioria.</p>
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		<title>Presidenciais: Venha o diabo e escolha</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jan 2010 20:57:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Pelejão]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>

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		<description><![CDATA[Manuel Alegre não é o melhor candidato que a esquerda pode produzir para derrota Cavaco? Goste-se ou não, é o único. Rui Pelejão Marques Um circo de variedade e de tontarias, é assim que se vai organizando a vida política portuguesa, mais dada às actividades recreativas, golpadas e conspirações de restaurante finório do que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Manuel Alegre não é o melhor candidato que a esquerda pode produzir para derrota Cavaco? Goste-se ou não, é o único.<br />
</strong><br />
<strong>Rui Pelejão Marques</strong><br />
Um circo de variedade e de tontarias, é assim que se vai organizando a vida política portuguesa, mais dada às actividades recreativas, golpadas e conspirações de restaurante finório do que a socorrer a vida de um país á beira da apoplexia.<br />
Ainda mal rescaldados de um ano de eleições em barda, parece que começou agora o corridinho para as eleições presidenciais.<br />
Como vivemos numa paróquia, o arranque oficial da campanha foi dado no boletim da paróquia, quando Manuel Alegre se descaiu ao “Expresso”, afirmando que era candidato ao Presidente da Repúblca.<br />
Parem as rotativas, o “scoop” do ano, Manuel Alegre candidato a Presidente da República, quem diria. Agora só falta Cristo descer à terra e Marcelo ser candidato a líder daquela confraria da Lapa, ou dizer que Santana Lopes continua por aí, como o zombie político mais vivaço da história da democracia portuguesa.<br />
A um ano das eleições, Manuel Alegre chegou-se à frente, ou seja, atravessou-se; antes que a esquerda romântica e a outra, pragmática começasse a burilar figurões presidenciáveis nas páginas dos pasquins solícitos.<br />
Logo foi acusado de estar a lançar uma candidatura prematura e sem apoios, mas se recordarmos, fez exactamente como Jorge Sampaio, que se candidatou a presidente sem perguntar nada a ninguém, marcando desde logo o seu território com um bom sentido de oportunismo político.<br />
No caso de Manuel Alegre, este anúncio não passa de uma mera formalidade técnica, porque depois dos resultados obtidos nas eleições onde foi derrotado por Cavaco Silva, Manuel Alegre pressentiu que a sua voz tinha um milhão de legionários, prontos a segui-lo na sua cruzada contra o Partido Social Democrata do PS (o de Sócrates) e contra a direita dos patrões e da globalização, ou contra o sistema partidário em geral, ou seja, Alegre é o campeão dos desencantados, descontentes e idealistas. Isso e um pouco da sua vaidade (justificada, aliás) são o carimbo da sua candidatura.<br />
Mais interessante que a crónica de uma candidatura anunciada, foi ver a onda de reacções que esta gerou, com o caudalosos comentários, análises e escalpelizações.<br />
Particularmente curioso é ver o embaraço do PS com este reclame prematuro (como se não estivessem à espera) e também algum desconforto das hostes cavaquistas que trataram de começar a colar Manuel Alegre ao Bloco de Esquerda e á esquerda mais ou menos pipoca e radical.<br />
No PS, espante-se, há quem duvide da capacidade de Manuel Alegre derrotar Cavaco, ou sequer de ser um bom candidato presidencial para o PS. Quero crer que este raciocínio, produzido por exemplo por Sérgio Sousa Pinto ou Vitalino Canas, (ventríloquos de José Sócrates) não é produto de pura destrambelhice socialista.<br />
É antes o azedume entranhado, ressabiamento por Manuel Alegre se ter atrevido a pensar pela sua cabeça e ser uma voz dissonante do orfeão afinado da direcção do partido. Para muitos “aparatchicks” socialistas, Alegre é um traidor que não soube comungar das homilias e da vontade do chefe, e se Roma não paga a traidores, o PS muito menos.<br />
Os políticos socialistas começam a parecer desligados da realidade e a viver no seu próprio mundo de fábula e de política de gabinetes. E isso é perigoso porque são eles que estão sentados em frente às gamelas do poder.<br />
Em primeiro lugar acreditam que Cavaco está irremediavelmente ferido na sua credibilidade com o caso das escutas, e por isso, qualquer luminária que avance com o beneplácito de Sócrates, será aclamada num triunfal desfile para o Palácio de Belém.<br />
Acontece que a memória dos portugueses é curta e a esponja é forte. Se decidir avançar para a sua recandidatura, Cavaco será um candidato praticamente imbatível, não porque tenha exercido um magistério de grandeza ou substância, mas pela simples razão de que os portugueses querem uma trela forte em Sócrates e nos seus mastins.<br />
Foi aliás esse sentimento anti-Sócrates (agora mais arreigado) que deu a vitória a Cavaco nas últimas presidenciais, ao unir o centro-direita contra uma esquerda dividida pelos seus imensos egos.<br />
Se o PS quiser repetir a gracinha, só há uma conclusão a tirar. O PS de Sócrates prefere o professor de Boliqueime, apesar de tudo mais previsível e institucional, do que o libertário e impulsivo de Alegre, que será sempre um canhão à solta em Belém.<br />
Se o PS acredita que um candidato seu, com o rótulo de marioneta de Sócrates pode aspirar a mais do que 15 por cento dos votos, está obviamente a delirar, ou então a produzir um candidato fantasma, para incinerar as hipóteses de Manuel Alegre chegar a Belém.<br />
Nomes como Jaime Gama, António Vitorino ou mesmo António Costa ou Jorge Sampaio são autênticas anedotas num confronto com Cavaco.<br />
A verdade é esta, nenhum candidato inventado por Sócrates terá a mínima hipótese de bater Cavaco, e na esquerda não há uma única figura presidenciável (já agora, na direita também não).<br />
Manuel Alegre, apesar de ser uma figura histórica do PS (e não do Bloco de Esquerda) é o único candidato com estatuto de independência suficiente para agregar os votos da esquerda sociológica, e até poder colher votos no centrão que ainda tenha memória das desastradas patarequices de Cavaco.<br />
Por mais que custe ao PS de Sócrates, Alegre pode até não conseguir bater Cavaco, mas se não for ele, mais ninguém é. Sócrates sabe isto, mesmo pensando, venha o diabo e escolha.<br />
Curiosamente, Cavaco e Alegre partilham um capital imenso, que é o descontentamento generalizado com a política partidária. Eles encarnam uma espécie de mitologia de personalidades independentes, acima da política, que é obviamente uma construção boa para captar votos, mas que não passa disso mesmo, uma construção.<br />
Cavaco e Alegre são políticos como os outros, que souberam explorar esse distanciamento altivo, e uma espécie de nojo da política. Fizeram-no de uma forma calculista e pragmática, como qualquer político de concelhia. Assim sendo, o dilema de Sócrates é o mesmo que o nosso, venha o diabo e escolha o novo presidente da paróquia.</p>
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		<title>Para meter na capa, mete uma lésbica gira</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Jan 2010 20:17:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Pelejão]]></category>
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		<category><![CDATA[Casamento Gay]]></category>
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		<description><![CDATA[Convido os leitores da A23 a fazerem uma espécie de revista de imprensa das últimas semanas e verem as manchetes e as fotografias que ilustraram o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Pago um bilhete para a gay parade em Berlim a quem descobrir na imprensa de referência cá da choça uma fotografia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Convido os leitores da A23 a fazerem uma espécie de revista de imprensa das últimas semanas e verem as manchetes e as fotografias que ilustraram o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo.</p>
<p>Pago um bilhete para a gay parade em Berlim a quem descobrir na imprensa de referência cá da choça uma fotografia com dois homens a darem um beijo nas bochechas um do outro.</p>
<p>Eu cá não vi nenhuma. Todas as fotos eram de lésbicas beijoqueiras a bebericarem flutes de champanhe, e quanto mais giras melhor (a capa da Visão compete com aquela série americana da letra L).</p>
<p>Nada de camafeus, ou de barbudos motoqueiros de São Francisco. Só gajas. Ora, quando a mesma imprensa mais ou menos prá-frentex escreve editoriais entusiastas sobre o grande salto civilizacional e o vanguardismo desta lei, e depois não tem tomates de colocar uma foto de dois rapazes a trocarem um linguado, só há uma conclusão a tirar. Hipocrisia.</p>
<p>Só para não perderem vendas com umas fotos que metem nojinho a pelo menos 90 mil ratinhos de sacristia, os editores destes jornais mostraram que nas traseiras do modernismo civilizacional e do paraíso libertário do país das causas fracturantes há e continuará a existir um saguão de preconceito, moralzinha pasteurizada e discriminação. Isso é uma coisa que nenhuma lei conseguirá mudar. Faço uma excepção e dou os meus parabéns à A23 por ter ilustrado o tema com dois mancebos, amancebados num beijo. Ora casem e sejam felizes para sempre, é tudo o que vos desejo, a hetero e homosseuxuais que amem a liberdade, a única questão verdadeiramente essencial nesta discussão paroquial.<strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
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