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	<title>A23 Online &#187; Margarida Gil dos Reis</title>
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	<description>Reportagens, Opinião e Notícias de Portugal e do Mundo</description>
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		<title>Futebol (é) literatura?</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Nov 2009 07:46:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Margarida Gil dos Reis]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Drummond de Andrade]]></category>
		<category><![CDATA[Futebol (é) literatura?]]></category>
		<category><![CDATA[Nelson Rodrigues]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Cada vez que presencio e vivo o empolgamento de cada jogo da Selecção Portuguesa não deixo de me lembrar como o escritor brasileiro Graciliano Ramos está longe de ver a sua profecia cumprida. “Para chegar ao soberbo resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol”, dizia Graciliano Ramos, em 1921, numa fórmula que quase parecia uma mezinha caseira de preparação para o Verão.<br />
Por mais estranho que hoje nos pareça, Graciliano estava convicto de que o brasileiro não tinha vocação para o futebol. Garrincha, Viola, Ronaldo, Pelé, Ronaldinho, Roberto Dinamite, entre tantos outros, devem tapar os ouvidos ao texto que se segue: “Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não. No caso afirmativo, seja muito bem vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve. (&#8230;) A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência! Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro &#8211; e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa. Cultivem a rasteira, amigos! E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno. Muito útil, sim senhor. Dediquem-se à rasteira, rapazes”, analisava com graça Graciliano Ramos.<br />
O que é certo é que o futebol entrou na vida de muitos escritores.  Lembro-me, por exemplo, de “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, um livro que revelava os corredores obscuros da censura. A história, passada em 1970, conta a história de amor de Zezinho e Nely. Zezinho sonha ascender socialmente pelo futebol e tem, por isso, algumas descrições brilhantes: “Eu tinha que comer a bola no domingo, do Madureira para a seleção, bola com Zezinho, é goool! A multidão gritava dentro de minha cabeça&#8221;. E nada melhor do que reagir assim à derrota: “Vamos virar esse placar, pessoal, eu disse para os companheiros, botando a bola debaixo do braço e correndo para o meio do campo, pra dar a saída, igual o Didi na final da copa de sessenta e dois”.<br />
Em 1998, era lançada um antologia de contos sobre futebol, intitulada “Onze em campo e um banco de primeira”, onde vários escritores, como João Ubaldo Ribeiro ou Rubens Fonseca, centravam a sua arte num só tema: o futebol.<br />
Mas serão talvez Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues quem abriu verdadeiramente a porta da literatura ao futebol. Drummond de Andrade, entre crónicas e poemas, escreveu versos como estes: “Futebol se joga no estádio? / Futebol se joga na praia, / futebol se joga na rua, / futebol se joga na alma.” O jogo elevado a um estádio superior, o da alma, é um tema retomado por Nelson Rodrigues, autor de frases memoráveis como esta: “Qualquer técnico tem a torva e atra vaidade de uma prima-dona gagá, cheia de pelancas e varizes; quem ganha e perde as partidas é a alma; a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável”.<br />
Quando a bola é lançada, o jogador que a recebe tem jogadores adversários. A partir daí começam as complicações. Mas eu prefiro chamar-lhe o &#8216;inesperado&#8217;. Na verdade, em campo, tudo pode acontecer, como na literatura, onde se joga com cada palavra, com os sentidos ou as construções gramaticais. Quando algo inexplicável acontecia num jogo, Nelson Rodrigues dizia tratar-se da intervenção de uma entidade chamada Sobrenatural de Almeida. Se uma bola aparentemente sem defesa era travada pelo guarda-redes, então era obra e arte do Sobrenatural de Almeida. Se um passe de bola torto mudava subitamente de direcção e entrava na baliza, entre o goleador era o Sobrenatural de Almeida. Mas, na literatura, o Sobrenatural de Almeida também está presente. Uns chamam-lhe inspiração, outros criatividade. Outros, simplesmente arte.</p>
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		<title>Viagens com o coração</title>
		<link>http://www.a23online.com/2009/08/13/viagens-escritas-com-o-coracao/</link>
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		<pubDate>Thu, 13 Aug 2009 08:57:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Margarida Gil dos Reis]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>

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		<description><![CDATA[Viagens Sentimentais, de Tiago Salazar, é um livro de viagens escritas com o coração ou, como o próprio as define no subtítulo do livro, “travessias com o coração lá dentro”.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Teve a sua primeira edição em 2007, pela Oficina do Livro, mas só agora o descobri. Viagens Sentimentais, de Tiago Salazar, é um livro de viagens escritas com o coração ou, como o próprio as define no subtítulo do livro, “travessias com o coração lá dentro”.</p>
<p>Pablo Neruda, Javier Moro e Laurence Stern, a quem, aliás, se deve o título deste livro, são os autores das três epígrafes que servem de inspiração às cerca de 300 páginas repletas de histórias e aventuras contadas com um humor refinado. E não é difícil, ao longo do livro, encontrarmos referências e citações a um sem número de criadores. Em Viagens Sentimentais, encontra-se de tudo um pouco: viagens de longo curso, como à Ásia (Pequim, Mongólia, China, Nepal, Goa, Sri Lanka…), a África (Cabo Verde, Moçambique ou Quénia, entre outras), à América (Brasil, EUA, Honduras e Caraíbas) ou à Europa (Espanha, Alemanha, Escócia, Grécia, Holanda, Itália).<br />
O livro nasceu de dois anos de trabalho para a revista de viagens Blue Travel, da qual posteriormente se desligou, mas Tiago Salazar consegue passar uma sensibilidade muito para além do trabalho de jornalista – a do viajante, o coleccionador de momentos que nos desperta a vontade de o acompanhar e de ler apressadamente cada página escrita. Aqui, há de tudo um pouco, desde o corropio das ruas, os costumes das terras, a adaptação do viajante, os locais mais escondidos de cada cidade, os cheiros a alecrim na Holanda, o frappé (refresco de café) gelado da Grécia ou os campos verdíssimos da Escócia. Ou a simples sensação de nadar na água morna das Honduras por entre raias, golfinhos e tartarugas.<br />
Depois de ler, compulsivamente, em poucas horas o livro de Tiago Salazar, encontrei nele duas viagens: a viagem física e a viagem intelectual; a viagem pelo simples prazer da descoberta; a ténue fronteira entre o real e a ficção que faz com que, na capa do livro, encontremos quatro retratos de pessoas, entre os quais, qual personagem do seu próprio livro, o próprio Tiago Salazar.<br />
Mais do que um livro para ler em férias, este é um livro para nos acompanhar, pela forma como desperta a nossa alma de viajantes. Acredite-se ou não, este foi o primeiro livro de Tiago Salazar que se assume como repórter de viagens e colaborador, até à data, de vários orgãos de comunicação social.</p>
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