A inocência do voyeur
Um dos fetiches de que mais se fala na sociedade contemporânea é o voyeurismo. Tenta-se ver tudo, de todas as maneiras, olhar para o outro, analisá-lo, tentar percebê-lo para chegarmos à conclusão de quem somos afinal. Talvez possamos chamar a este olhar o duplo olhar, aquele que vê para além do que nos é superficialmente dado a ver. O portfolio de Ricardo Figueira apresenta-se-nos, justamente, como uma espécie de diário fotográfico, útil instrumento para o voyeur, fragmentos de instantes que nos perturbam e provocam. Estas são, por isso, fotografias que nos introduzem no conhecimento do que está oculto. Tal como Helmut Newton, que na sua época foi considerado um dos maiores voyeurs, Ricardo Figueira retoma essa tradição e apresenta-nos um portfolio com um estilo próprio, repleto de sedução. Se o voyeur é inocente ou não, cabe agora ao espectador decidir. Texto de Ricardo Paulouro
Fotografias de Ricardo Figueira | Edição de Susana Paiva
Cada amanhecer é o começo de um novo dia. Alípio Padilha, José Crúzio, Manuel Ferreira Chaves, Pedro Amaral, Susana Paiva e Victor Coelho trazem-nos 36 imagens, com as particularidades próprias de cada cidade, de cada lugar. São 36 imagens de cidades que despertam, captadas entre as 5 e as 9 horas da manhã. Lisboa, Fundão, Viseu, Portugal, Quintana Roo, Yucatán Peninsula, México, Essaouira (antigo Mogador), Marrocos. Um exercício de convívio com o silêncio do amanhecer, quando todos ainda teimam em ficar de olhos fechados. A arte não ficou indiferente a esta hora particular do dia, fronteira entre o sonho e o despertar. Tal é o caso da fotografia que não é alheia à singularidade deste momento e da vida da cidade que desperta. Momentos fugitivos, com mais ou menos nevoeiro, instantes absolutos onde se capta o eclodir do dia com uma luz irrepetível. Ao olhar para cada uma destas fotografias, verdadeiras explorações dos mistérios da luz, como não nos lembrarmos de Josef Sudek, o checoslovaco encadernador que andava pela ruas de Praga, curvado pelo peso da máquina fotográfica (Kodak 1894) e de um antigo tripé, movendo-se lentamente entre a luz e a escuridão. Se a fotografia tem alguma coisa de quimérico, Sudek representava bem esta busca do fotógrafo, intensa e dramática, por uma luz diferente. De boina e capa preta, ombro esquerdo mais inclinado a compensar a perda do outro braço perdido durante a Primeira Guerra Mundial, Sudek escolhia muitas vezes a névoa cinzenta da madrugada para fotografar. Nestas cidades que despertam, o mais difícil é aprender a olhar para as coisas que ninguém ainda notou e que, contudo, estão à vista de todos. O silêncio da hora ajuda à concentração: fixar uma posição na magnífica variedade que a cidade nos dá, ajustar a lente, disparar. Tal como Sudek, que para ‘ver’ Praga teve de a abandonar brevemente, o amanhecer desperta um certo distanciamento em relação à cidade por onde passamos diariamente. Nesse instante, no silêncio que inunda a cidade que se renova, como Aurora, somos conduzidos por uma mão invisível que nos leva ao encontro da cidade que, perante os nossos olhos, se inventa. Texto| Ricardo Paulouro
Fotografias de Alípio Padilha, José Crúzio, Manuel Ferreira Chaves, Pedro Amaral, Susana Paiva e Victor Coelho | Edição de Susana Paiva
A fotografia, enquanto arte que tenta fixar a realidade, é uma das melhores formas de representação da contemporaneidade. O diálogo entre a arte e o corpo e, consequentemente, a localização do corpo no tempo e no espaço têm sido uma constante no trabalho de Natalia Jaskula . Uma permanente revisitação da sensualidade e delicadeza do corpo, criando sempre um elo de cumplicidade entre o fotógrafo e o modelo. Propondo-nos uma leitura cénica e fragmentada, Natalia Jaskula confronta-nos com o rigor mortis da fotografia, essa arte que pode ser como a palavra porque, se nos sensibiliza, também nos incomoda e persegue. Arte que nos conduz à reflexão, o que, na nossa contemporaneidade, é também uma forma de resistir. Texto | Ricardo Paulouro
Fotografias de Natalia Jaskula | Edição de Susana Paiva
Homem de costas
“Nature” é uma série de fotografias de Miguel Godinho (1984-), o mais recente vencedor do Prémio Novos Talentos Fnac, que inaugura no dia 22 de Janeiro uma exposição de fotografia, “Mimesis”, na Fnac do Colombo. Talvez uma das primeiras impressões que e”Nature” nos desperta é o remeter-nos para o universo de Magritte. O desconcerto das telas de Magritte partia do uso de elementos que contrastavam ou se excluíam, sempre representados por um realismo conciso. Como esquecer o célebre homem de costas que se contempla num espelho? Não é o seu rosto que se reflecte, mas a nuca. A combinação de detalhes absurdos rompe a visão do mundo aparentemente realista e transforma-a em ilusão. Em “Nature”, todas as personagens, se assim lhes podemos chamar, estão de costas e contemplam essa paisagem natural da qual se destacam. Mas também todas elas deixam margem para essa ilusão que pode existir na forma como nos relacionamos com o mundo. Homem versus natureza, uma relação explorada, aliás, na obra de Miguel Godinho, que nos mostra como o homem tem necessidade de interagir e delimitar o seu espaço a partir do espaço da natureza. A expor desde 2006, terminou o curso de fotografia no Ar.Co em 2008. Miguel Godinho tem estado presente em várias galerias, como na Kgaleria, em Lisboa, onde apresentou a exposição individual “Nature”, e em exposições colectivas nos Recreios da Amadora, no Centro de Arte & Comunicação Visual, em Lisboa, e na Galeria Casa do Pelourinho, em Óbidos. Texto |Ricardo Paulouro
Fotografias de Miguel Godinho | Edição de Susana Paiva
Viagens pelo Oriente
Desde a fotografia como documento, como testemunho, à fotografia como simples pincel, o artista manuseia-a como um instrumento de arte, mas também como ferramenta imprescindível do trabalho de campo do arqueólogo. De entre os muitos Orientes possíveis, Brenda Turnnidge coloriu o Oriente à sua maneira, dando origem a um trabalho inovador, contemporâneo e interventivo na própria fotografia, invadida por camadas de cor. Aqui, é representada uma paisagem cultural sob a forma de cores vivas e luminosas, como se de pinturas se tratassem. Explora-se, assim, o impacto da cor na fotografia e, consequentemente, na paisagem, conduzindo a fotografia a um considerável nível de abstracção. Neste trabalho onde se capta o exotismo do Oriente, problematiza-se a relação entre representação e fotografia e a ténue fronteira que existe entre a fotografia e outras artes. Texto |Ricardo Paulouro
Fotografias de Brenda Turnnidge | Edição de Susana Paiva
Escrever com a luz é uma das metas mais procuradas por quase todos os fotógrafos, mas são poucos os que a conseguem usar como suporte para a escrita da sua experiência. Numa só fotografia, une-se a energia do fotógrafo com outra energia abstracta e universal. Assim se expressa a fotografia de Jorge Valente que, neste portfolio, nos tenta explicar a essência do ofício do fotógrafo. Caçador de instantes, mas também da luz, Jorge Valente converte o enigma da luz em arte. Qual forma de escrita, a luz é utilizada como o meio mais apropriado, mais harmonioso e mais natural de expressão. Fazendo jus ao conceito de invenção da imagem, protagonizado por Niépce, Jorge Valente encontra na luz a forma única e diferenciada de escrever a realidade, na certeza de que a luz é também observar, compreender, analisar a sua leitura do mundo através da imagem. Texto | Ricardo Paulouro
Fotografias de Jorge Valente | Edição de Susana Paiva
Vários escritores se debruçaram sobre esta temática ou sobre a figura imponente do touro. Herberto Helder tem talvez uma das melhores descrições sobre este animal que, de cada vez que avança para o homem, tem à sua frente o destino ou a morte. “Um touro preto está inclinado para a fonte e repositório dos seus poderes, enquanto se abre, minúsculo, por cima dele, o orifício por onde todos esses poderes, desconjuntados, se escapariam. É assim também um homem: somente se apresenta mais claro o terreno das suas forças, e menos vasta a massa do corpo”. Esta comparação entre o touro e o homem mostra-nos a necessidade de o segundo mostrar a sua força ao primeiro. Como se a festa dos homens, esses que trabalham os campos e cuidam dos animais, atraísse o touro, grande e forte.
É certo que esta será a arte do espectáculo mais polémica do mundo. O trabalho fotográfico de Paula Almeida mostra-nos uma arte secular que exige ser vivida com intensidade. Na arena o toureiro baila com o touro, desafia-o e à morte também.
Em Portugal, uma coisa é certa: não se mata o touro na praça. Talvez porque o touro tenha também algo de divino, de secular, como a tradição. O apelo das raízes é sempre mais forte, terras de alma que engendraram a sua própria forma de culto. Texto de Ricardo Paulouro
Fotografias de Paula Almeida | Edição de Susana Paiva
O The Portfolio Project desta semana é dedicado a um tema quase etnográfico: encontrar, na cidade de Lisboa, os elos perdidos na nossa história comercial de usos, costumes e tradições. As Mãos do comércio lisboeta remetem-nos para memórias de outros tempos. Para além da função documental, a fotografia está também revestida de um valor emotivo que a torna um dos mais preciosos arquivos de vivências e memórias. Assim é a fotografia de João Cláudio Fernandes. Nestas imagens reconhecemos o velho comércio de Lisboa, sapateiros, alfarrabistas, entre outras profissões. Ofícios cada vez mais raros. É com a luz que João Cláudio Fernandes alimenta essa necessidade de fixar as coisas, melhor, de as arquivar em modo quase diarístico. João Cláudio Fernandes capta os instantes da vida de Lisboa, como se rodasse um filme. Texto| Ricardo Paulouro
Fotografia de João Cláudio Fernandes | Edição de Susana Paiva
“Antigos ofícios na Lisboa do século XXI”Texto | João Cláudio Fernandes(more…)
Manuel Ferreira Chaves publica esta semana na A23 um trabalho sobre a cidade que nunca dorme. No coração de Nova Iorque, surge um prazer contemplativo para os nossos olhos. Uma cidade que nos é dada a ver pelos olhos debruçados sobre um mundo onde o ruído se cruza com o silêncio. Inexplicavelmente, vemos Nova Iorque imbuída de uma espessa camada de silêncio. Uma sensação de captação do tempo que o fotógrafo lhes conseguiu imprimir. Nesses momentos, sem ontem ou amanhã, parece-nos ouvir, lá longe, o burburinho da cidade. E na espuma suja dos dias, a cidade ganha vida e o tempo corre. Texto|Ricardo Paulouro
Fotografia de Manuel Ferreira Chaves | Edição Susana Paiva
“Longing to stray”Texto | Manuel Ferreira Chaves (more…)
A fotógrafa Susana Paiva mostra-nos um trabalho único sobre os mineiros. Se identificássemos um tema neste trabalho de Susana Paiva, diríamos, sem dúvida, que esse tema é a alma humana, pois as fotografias parecem dotadas de uma linguagem única que nos falam da vida daqueles que construíram milhares de quilómetros debaixo de terra e desafiaram os limites da natureza, como nas Minas da Panasqueira. Texto Ricardo Paulouro
IMAGEM DO DIA
Pjanic comemora o golo que elimina o Real de Madrid.O futebol não tem preço e o galáctico Madrid de Florentino Peres que custou 250 milhões de euros cai pelo sexto ano consecutivo nos oitavos -de-final.