Patriotismo: s. m., amor à pátria; qualidade de patriota.
Com o assumir das funções de treinador principal na Selecção Nacional, em 2003, Luiz Felipe Scolari trouxe para Portugal o culto largamente enraizado no seu país de origem (o Brasil) pela Bandeira e pela Pátria. Numa campanha que aspirava principalmente à união de todos os portugueses por uma Selecção que era afinal a nossa, o técnico estrangeiro conseguiu dar início a um conjunto de operações de marketing pormenorizadamente estudadas, e largamente divulgadas em campanhas publicitárias, que tiveram o seu ponto mais alto na chamada que fez aos portugueses durante o Campeonato Europeu de 2004. Motivando-os a materializarem o seu apreço pelo País com a utilização da imagem portuguesa em basicamente todos os bens que possuíam, conseguiu uma pronta resposta da maioria dos cidadãos, e o símbolo nacional cobriu janelas e carros, espaços e pessoas. Fruto disto, ou talvez não, a verdade é que a Selecção Nacional conseguiu alcançar a final da competição, e no rescaldo daquilo que havia acontecido, não faltaram os que atribuíram o sucesso à união de um País que parecia ter despertado para assumir o seu Patriotismo através do Futebol. Quatro anos mais tarde, e dois campeonatos depois, os resultados desportivos do conjunto que formavam a nossa equipa pareciam indiciar um novo êxito. E apesar de se apoiar numa equipa relativamente nova, que tinha terminado uma campanha com alguns “tropeções”, nada parecia desmotivar o povo português em relação aos resultados que podíamos contrair. Mais uma vez queríamos todos aproveitar a festa até ao ultimo dia, e reclamávamos como “nosso” o direito de o fazermos. Esta série de imagens nasce nesse sentido, e acompanha aquilo que se viveu em Portugal nos dias que demarcaram os jogos da Selecção Nacional. Mostram o afinco pela Bandeira, e a devoção pelo País. A esperança de um povo apoiado na ideia que a manifestação física do seu apreço pela equipa, podia transformar a Estima num 12º jogador dentro de campo, e a união de uma população que, independentemente de cada estilo de crença, acreditava numa força que existia fora dos estádios. Aquilo que para muitos era um sinal de Patriotismo, porém, converteu-se num negócio para outros tantos. E na altura em que Portugal atravessava uma grave crise financeira, o povo revelou que o Futebol era também um lugar de entretenimento que os ajudava a encarar o dia-a-dia com um sorriso na face. Confundindo Futebol com Religião, comprando a Pátria em lojas de comércio chinês, e vendendo a Bandeira em capas de cd’s, os portugueses resumiram uma campanha patriótica de quatro anos a uma simples solução para saciar o seu contentamento, e acabaram por deixar deslizar vários meses, que viveram em êxtase, sem nunca chegarem a entender o tempo e as oportunidades que podiam eventualmente passar. Portugal vestiu com orgulho a sua bandeira, mas não se apercebeu que ao mesmo tempo estagnou para assistir a um jogo de futebol. Texto e Fotografias José Carlos Marques Edição Susana Paiva
“O toque repetido duma campainha convida-nos a entrar. Uma montra expõe à nossa curiosidade uma panóplia de enormes rostos pintados, fotografias de beijos, de abraços, de cavalgadas. Entramos nas trevas duma gruta artificial, onde uma poalha luminosa se projecta e dança sobre um ecrã, absorvendo o nosso olhar: essa poalha ganha corpo e vida; arrasta-nos para uma aventura errante”. Palavras como estas de Edgar Morin apresentam-nos o cinema como um fenómeno que exige ser captado em toda a sua plenitude. A sua dívida à fotografia, a uma visão ‘objectiva’ é, aliás, evidente. Realidade ou ilusão, em “A tela de uma história que não se acende”, Ana Pereira capta a melancolia das salas de cinema do Porto, votadas ao abandono, algumas em mau estado de conservação. Ali, conseguimos pressentir os vestígios de salas cheias de gente, catedrais da Sétima Arte. As fotografias são uma sequência de pormenores desses espaços, desde o cinema Passos Manuel, até ao Sá da Bandeira, passando pelo cinema Batalha, entre outros, imprescindíveis do ponto de vista cultural para a introdução do cinema no país. Quase sob os nossos olhos, o mundo parece humanizar-se e os cinemas parecem voltar a encher-se de gente e de imagens. Texto Ricardo Paulouro
Fotografias de Ana Pereira | Edição Susana Paiva
Uma pergunta é insistentemente colocada: “Que cherches-tu?” (O que procuras?). Este trabalho fotográfico de Cath. An. é construído tendo como base uma interrogação que, por breves instantes, nos suspende no tempo à procura de uma resposta. A(s) resposta(s) são dadas na fotografia paralela a esta e podem ser tão perturbadoras como surpreendentes. Sobre este projecto, diz Cath. An.: “‘O que procuras?’ Há muitos anos atrás, encontrei estas palavras escritas num bocado de papel. Fiquei a olhar para elas por um momento e senti que não tinha uma resposta. Afinal, o que é que eu procurava verdadeiramente? Nenhuma resposta. Uma pausa suspensa. Um pesado silêncio”. A fotografia cruza-se aqui com a palavra e abre uma multiplicidade de campos semânticos, de possíveis respostas, as que estão escritas, as que podem vir a estar escritas e aquelas que por agora desconhecemos e vivem dentro de nós.
Cath. An. tem-se dedicado à fotografia cruzando-a, sempre que possível, com palavras ou frases. Transmitir emoções ou fragmentos de uma história mais ou menos poética são alguns dos objectivos que reconhece no seu trabalho. E quando nem sempre as palavras podem traduzir as emoções, nada melhor do que uma imagem para as transmitir. Arquitecta de profissão, descobre na fotografia outros horizontes possíveis. Actualmente, vive e trabalha entre Nantes, Paris e Toulouse. Texto | Ricardo Paulouro
Fotografias de Cath.An| Edição de Susana Paiva
“Fallen Angels” é uma sequência de imagens do fotógrafo italiano Daniele Mattioli que nos remete para um universo futurista. “Anjos” vestidos de robôs, princesas, cavaleiros com pesadas armaduras que acompanham a evolução dos tempos e nos remetem para a animação japonesa. Através do disfarce, com o recurso a perucas, vestidos ou outro tipo de adereços, Mattioli metamorfoseia o real a partir da ideia de velocidade e modernidade do século XXI. Este pode ser um mundo virtual, mas pode também significar o avanço da globalização e a forma como alterou e influenciou as novas gerações nos últimos anos. Anjos (ou demónios?), “Fallen Angels” faz-nos viajar entre a dimensão do sonho e da realidade e abre-nos portas para um novo mundo, uma nova linguagem ‘cibernética’ que antecipa o futuro.
Nascido na Úmbria, em Itália, após uma carreira como jogador de vólei, Daniele Mattioli foi assistente num projecto para aquela é considerada a mais antiga empresa fotográfica do mundo, em Florença, a Fratelli Alinari. Em 1992, começou a trabalhar como investigador da Agência Anzenberger, em Viena. Sydney, Austrália, Nova Zelândia foram alguns dos destinos de viagem, mas foi o universo da China que mais o atraiu e o levou a mudar-se para Xangai em 2004. Desde então, tem estado representado em várias colecções e envolvido em vários projectos editoriais (New York Times, Newsweek, Vanity Fair Alemanha, Marie Claire, Revista El Mundo, The Times, entre muitos outros). Texto Ricardo Paulouro
Fotografias de Daniele Mattioli | Edição de Susana Paiva
Um mergulho fotográfico
Miguel Costa apresenta-nos um trabalho onde o fotógrafo foi à procura das expressões que fazemos e, normalmente, ninguém consegue ver. Miguel Costa susteve pacientemente a respiração para dar vida ao projecto «Underwater», um conjunto de quatorze imagens, onde vemos expressões de todo o tipo. Desde algum pânico à mais completa alegria pela simbiose do homem com o ambiente. A dramaticidade da água é tingida a azul. R.P.
Fotografias de Miguel Costa |Edição de Susana Paiva
A inocência do voyeur
Um dos fetiches de que mais se fala na sociedade contemporânea é o voyeurismo. Tenta-se ver tudo, de todas as maneiras, olhar para o outro, analisá-lo, tentar percebê-lo para chegarmos à conclusão de quem somos afinal. Talvez possamos chamar a este olhar o duplo olhar, aquele que vê para além do que nos é superficialmente dado a ver. O portfolio de Ricardo Figueira apresenta-se-nos, justamente, como uma espécie de diário fotográfico, útil instrumento para o voyeur, fragmentos de instantes que nos perturbam e provocam. Estas são, por isso, fotografias que nos introduzem no conhecimento do que está oculto. Tal como Helmut Newton, que na sua época foi considerado um dos maiores voyeurs, Ricardo Figueira retoma essa tradição e apresenta-nos um portfolio com um estilo próprio, repleto de sedução. Se o voyeur é inocente ou não, cabe agora ao espectador decidir. Texto de Ricardo Paulouro
Fotografias de Ricardo Figueira | Edição de Susana Paiva
Cada amanhecer é o começo de um novo dia. Alípio Padilha, José Crúzio, Manuel Ferreira Chaves, Pedro Amaral, Susana Paiva e Victor Coelho trazem-nos 36 imagens, com as particularidades próprias de cada cidade, de cada lugar. São 36 imagens de cidades que despertam, captadas entre as 5 e as 9 horas da manhã. Lisboa, Fundão, Viseu, Portugal, Quintana Roo, Yucatán Peninsula, México, Essaouira (antigo Mogador), Marrocos. Um exercício de convívio com o silêncio do amanhecer, quando todos ainda teimam em ficar de olhos fechados. A arte não ficou indiferente a esta hora particular do dia, fronteira entre o sonho e o despertar. Tal é o caso da fotografia que não é alheia à singularidade deste momento e da vida da cidade que desperta. Momentos fugitivos, com mais ou menos nevoeiro, instantes absolutos onde se capta o eclodir do dia com uma luz irrepetível. Ao olhar para cada uma destas fotografias, verdadeiras explorações dos mistérios da luz, como não nos lembrarmos de Josef Sudek, o checoslovaco encadernador que andava pela ruas de Praga, curvado pelo peso da máquina fotográfica (Kodak 1894) e de um antigo tripé, movendo-se lentamente entre a luz e a escuridão. Se a fotografia tem alguma coisa de quimérico, Sudek representava bem esta busca do fotógrafo, intensa e dramática, por uma luz diferente. De boina e capa preta, ombro esquerdo mais inclinado a compensar a perda do outro braço perdido durante a Primeira Guerra Mundial, Sudek escolhia muitas vezes a névoa cinzenta da madrugada para fotografar. Nestas cidades que despertam, o mais difícil é aprender a olhar para as coisas que ninguém ainda notou e que, contudo, estão à vista de todos. O silêncio da hora ajuda à concentração: fixar uma posição na magnífica variedade que a cidade nos dá, ajustar a lente, disparar. Tal como Sudek, que para ‘ver’ Praga teve de a abandonar brevemente, o amanhecer desperta um certo distanciamento em relação à cidade por onde passamos diariamente. Nesse instante, no silêncio que inunda a cidade que se renova, como Aurora, somos conduzidos por uma mão invisível que nos leva ao encontro da cidade que, perante os nossos olhos, se inventa. Texto| Ricardo Paulouro
Fotografias de Alípio Padilha, José Crúzio, Manuel Ferreira Chaves, Pedro Amaral, Susana Paiva e Victor Coelho | Edição de Susana Paiva
A fotografia, enquanto arte que tenta fixar a realidade, é uma das melhores formas de representação da contemporaneidade. O diálogo entre a arte e o corpo e, consequentemente, a localização do corpo no tempo e no espaço têm sido uma constante no trabalho de Natalia Jaskula . Uma permanente revisitação da sensualidade e delicadeza do corpo, criando sempre um elo de cumplicidade entre o fotógrafo e o modelo. Propondo-nos uma leitura cénica e fragmentada, Natalia Jaskula confronta-nos com o rigor mortis da fotografia, essa arte que pode ser como a palavra porque, se nos sensibiliza, também nos incomoda e persegue. Arte que nos conduz à reflexão, o que, na nossa contemporaneidade, é também uma forma de resistir. Texto | Ricardo Paulouro
Fotografias de Natalia Jaskula | Edição de Susana Paiva
Homem de costas
“Nature” é uma série de fotografias de Miguel Godinho (1984-), o mais recente vencedor do Prémio Novos Talentos Fnac, que inaugura no dia 22 de Janeiro uma exposição de fotografia, “Mimesis”, na Fnac do Colombo. Talvez uma das primeiras impressões que e”Nature” nos desperta é o remeter-nos para o universo de Magritte. O desconcerto das telas de Magritte partia do uso de elementos que contrastavam ou se excluíam, sempre representados por um realismo conciso. Como esquecer o célebre homem de costas que se contempla num espelho? Não é o seu rosto que se reflecte, mas a nuca. A combinação de detalhes absurdos rompe a visão do mundo aparentemente realista e transforma-a em ilusão. Em “Nature”, todas as personagens, se assim lhes podemos chamar, estão de costas e contemplam essa paisagem natural da qual se destacam. Mas também todas elas deixam margem para essa ilusão que pode existir na forma como nos relacionamos com o mundo. Homem versus natureza, uma relação explorada, aliás, na obra de Miguel Godinho, que nos mostra como o homem tem necessidade de interagir e delimitar o seu espaço a partir do espaço da natureza. A expor desde 2006, terminou o curso de fotografia no Ar.Co em 2008. Miguel Godinho tem estado presente em várias galerias, como na Kgaleria, em Lisboa, onde apresentou a exposição individual “Nature”, e em exposições colectivas nos Recreios da Amadora, no Centro de Arte & Comunicação Visual, em Lisboa, e na Galeria Casa do Pelourinho, em Óbidos. Texto |Ricardo Paulouro
Fotografias de Miguel Godinho | Edição de Susana Paiva
Viagens pelo Oriente
Desde a fotografia como documento, como testemunho, à fotografia como simples pincel, o artista manuseia-a como um instrumento de arte, mas também como ferramenta imprescindível do trabalho de campo do arqueólogo. De entre os muitos Orientes possíveis, Brenda Turnnidge coloriu o Oriente à sua maneira, dando origem a um trabalho inovador, contemporâneo e interventivo na própria fotografia, invadida por camadas de cor. Aqui, é representada uma paisagem cultural sob a forma de cores vivas e luminosas, como se de pinturas se tratassem. Explora-se, assim, o impacto da cor na fotografia e, consequentemente, na paisagem, conduzindo a fotografia a um considerável nível de abstracção. Neste trabalho onde se capta o exotismo do Oriente, problematiza-se a relação entre representação e fotografia e a ténue fronteira que existe entre a fotografia e outras artes. Texto |Ricardo Paulouro
Fotografias de Brenda Turnnidge | Edição de Susana Paiva