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	<title>A23 Online &#187; Entrevista</title>
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	<description>Reportagens, Opinião e Notícias de Portugal e do Mundo</description>
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		<title>Pe. Mário de oliveira: &#8220;O Papa vem a Fátima porque está mal de finanças&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 10 May 2010 22:56:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Actualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Padre Mário de Oliveira]]></category>
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		<description><![CDATA[Por Tiago Salazar &#8211; Por falar em padres, a A23 estreia-se à conversa com um incorrupto homem de Deus. O Padre Mário de Oliveira, presbítero-menino, pecador, jornalista e escritor, autor de obras incontornáveis como “Fátima Nunca Mais”, “Quando a Fé Move Montanhas” ou o mais recente (e silenciado) “Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação”, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-6682" title="padre mário de oliveir 004" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/05/padre-mário-de-oliveir-0041.jpg" alt="" width="460" height="345" /></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p><strong>Por Tiago Salazar &#8211; Por falar em padres, a A23 estreia-se à conversa com um incorrupto homem de Deus. O Padre Mário de Oliveira, presbítero-menino, pecador, jornalista e escritor, autor de obras incontornáveis como “Fátima Nunca Mais”, “Quando a Fé Move Montanhas” ou o mais recente (e silenciado) “Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação”, livro que diz na cara o que o exortado “Caim” de José Saramago apenas sugere, isto é, a grande farsa do Sagrado. Do Papa, o “mais medonho rosto do Poder Eclesiástico”, ao Bispo do Porto e Prémio Pessoa, do negócio de Fátima e do Vaticano aos modernos Amaros inspiradores do Eça , todas as vergonhas católicas vieram à liça do Padre Mário da Lixa. <span id="more-6680"></span></strong></p>
<p>Texto<strong> Tiago Salazar |</strong> fotografias<strong> de Ricardo Paulouro/A23</strong></p>
<p><strong> </strong><strong>Eu, pecador me confesso</strong><br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Este &#8220;<em>habeas corpus&#8221;</em></strong><strong> ao casamento homossexual reabre campo de discussão para outros temas espinhosos na sociedade e na Igreja Católica, caso dos padres procriadores ou do fim do celibato entre padres que praticam o ministério?</strong></p>
<p><em>Deveria (re)abrir, mas, hoje, infelizmente, nada nas altas esferas da nossa Igreja católica nos diz que irá ser assim. E de certeza que não será assim. Para nossa vergonha católica. E para nosso mais completo descrédito. A Cúria Romana, com os seus cardeais sem entranhas de humanidade, todos eunucos à força (mai-la sua hierarquia episcopal e paroquial à frente de todas as dioceses e paróquias territoriais espalhadas pelo Mundo, toda, infantilmente, obediente e reverente às ordens emanadas de Roma; toda feita só de homens, e homens eunucos à força e prisioneiros de privilégios de que não querem abdicar; sem um pingo de espinha dorsal e cheia de medo do Núncio apostólico do Vaticano, a residir na capital de cada país da Cristandade, com a missão de controlar /registar ao pormenor tudo o que os bispos e os párocos possam dizer e fazer de dissonante da linha traçada pelo Papa), em lugar de saudar e acompanhar esta abertura da Sociedade civil, fecha-se demencialmente ainda mais no seu reduto moralista sem Moral. Como um náufrago no alto mar que, desesperado, se agarra a um qualquer resto da embarcação destroçada. Quando ela, como Igreja de Jesus que diz ser, deveria viver sempre na crista da onda e à cabeça do pelotão da História, a abrir caminhos ainda por andar pela Humanidade. Que para isto é que a Igreja existe: para ser a parcela mais ousada e mais libertária da Humanidade. Só que tanto a Cúria Romana, como a hierarquia que infantilmente se lhe submete, são Poder Eclesiástico puro e duro, não são Igreja, a de Jesus, o Crucificado pelo Poder Sacerdotal e pelo Império. Como tal, actuam ambas, em uníssono na História, precisamente nos antípodas de Jesus</em></p>
<p><strong>A esterilidade dos eclesiásticos é a excepção ou a regra?<em> </em></strong></p>
<p><em>É a regra. Salta à vista de toda a gente. Falo, obviamente, de esterilidade no sentido mais lato, não apenas no sentido sexual-genital. De resto, a pior esterilidade dos eclesiásticos nem é a sexual-genital. É, sim, aquele seu esquizofrénico jeito clerical de ser-viver todos os dias. O templo e o altar que eles profissionalmente frequentam e onde são reis e senhores absolutos, nunca foram espaços e ambientes de fecundidade humana. São, até, o que há de mais estéril. Já era assim com os sacerdotes dos velhos cultos do Paganismo religioso. Até podiam ser casados e ter filhas, filhos, mas eram os mais estéreis dos seres humanos. Ocupavam-se exclusivamente das imagens das deusas e dos deuses, faziam todos aqueles ritos e rezas sem sentido e, com isso, não só alienavam as populações, como ainda lhes alimentavam os ancestrais medos com que elas andavam possessas e que as tornavam violentas umas para com as outras. Como hoje ainda sucede. E para pior. Não só com os cultos religiosos nos templos e nos altares, mas também e sobretudo com os cultos seculares /laicos, em honra do Senhor Deus Dinheiro, sem dúvida, o mais omnipotente, o mais omnipresente e o mais omnisciente dos deuses-ídolos deste nosso Século XXI.</em></p>
<p><strong>Conhece padres que emprenharam já de votos assumidos e que não abdicaram da batina?<em> </em></strong></p>
<p><em>Não sou detective particular, nem polícia de costumes. Como presbítero da Igreja do Porto, toda a minha vida está centrada na missão de Evangelizar os pobres e os povos. Sou, ao mesmo tempo, jornalista de profissão (hoje, já na reforma, se bem que ainda mais activo do que nunca), mas nunca enveredei pelo jornalismo de investigação de costumes, muito menos dos meus irmãos padres /presbíteros. Sempre deixei isso aos clérigos juízes dos Tribunais eclesiásticos e aos moralistas laicos que, por vezes, em matéria de costumes, nomeadamente, no campo do exercício da sexualidade humana e clerical, conseguem ser ainda piores do que os juízes eclesiásticos. Eu sei que os meus camaradas jornalistas que enveredam por aí, pretendem saber se os padres são coerentes com o que prega a instituição que eles integram. Só que, em meu entender, os jornalistas deveriam ser os primeiros a denunciar como imoral o moralismo pregado pela instituição católica, em vez de correrem a acusar (não estou a referir-me aos casos de pedofilia, que sempre devem ser denunciados, seja quem for o abusador dos menores) os possíveis “prevaricadores” desse moralismo imoral. Porque o que é imoral nunca é para ser acatado e praticado, mas para ser denunciado e, até, infringido. Condenemos, sem rebuços, o Moralismo imoral. Não condenemos os “prevaricadores” que, com as suas práticas “prevaricadoras” (também não estou a pensar em casos de violações que devem ser denunciados), estão a deitar por terra o Moralismo imoral institucionalizado!</em></p>
<p><strong>É histórico que os padres católicos sempre procriaram, sobretudo no Brasil, onde deram nomes ilustres à política, às letras, à diplomacia e por aí fora. Além de Papas pais, ou do nosso Aquilino Ribeiro, um acaso feliz de um romance de vigário. Esta tradição povoadora do clero e dos seus homens doutos não devia ser enobrecida ao invés de satirizada?</strong></p>
<p><em>Em coerência com o que acabei de dizer, deveria responder sim, a esta sua pergunta. Entendo, inclusive, que a comunicação social e a literatura, assim como o cinema e as conversas de café deveriam enobrecer tais homens, em lugar de os satirizarem, como quase sempre fizeram /fazem. Satirizar esses homens é dar mais força ao Sistema eclesiástico moralista intrinsecamente perverso. É ser também perverso. Por mim, prefiro outra postura: nem enobrecer, nem satirizar, muito menos, humilhar. Prefiro a postura evangélica e jesuânica daqueles poucos presbíteros e bispos que, dentro da Igreja, denunciam, abertamente, uma e outra vez, como eu próprio faço, o Moralismo imoral da instituição eclesiástica, em todas as suas áreas, que não apenas na área da Lei do celibato obrigatório dos padres, mesmo que, por via disso, venham a ser canonicamente penalizados e, porventura, arbitrariamente afastados de funções. Porque, no tocante ao Moralismo imoral da Igreja católica, o mais grave nem chega a ser a Lei do celibato dos padres. Basta ver as aberrações que esse Moralismo imoral ensina e impõe, ainda hoje, aos casais católicos, aos adolescentes, aos homossexuais /lésbicas. É de bradar aos céus, melhor, à Terra. Tais doutrinas, neste campo da sexualidade praticada, são tão aberrantes, que eu nem sei como ainda há casais, adolescentes, homossexuais /lésbicas que continuam a dizer-se católicos, a frequentar as missas de domingo, a baptizar as filhas, os filhos, a “obrigá-los” a frequentar a catequese paroquial e a casarem-se canonicamente ou pela Igreja, como se diz. Só o podem fazer por força da inércia, da tradição, mas até isso é objectivamente imoral. Porque tudo o que se faz, sem convicção pessoal, apenas por rotina /inércia /tradição, ou apenas para agradar aos pais, é imoral, é pecado, um daqueles pecados que, embora não pareça, nos desumanizam e infantilizam.</em></p>
<p><strong>Assumir esta deriva oficial de filhos de padres, vigários, presbíteros, párocos, priores ou afins seria uma forma de, por exemplo, arregimentar mais seminaristas e rejuvenescer a Igreja?</strong></p>
<p><em>Não creio. Ninguém é padre /presbítero da Igreja por sucessão genealógica, como numa monarquia, em que o filho do rei, rei será. E, se rei não for, pelo menos, príncipe /princesa será. Se entrássemos por aí, a Igreja seria uma empresa mais, no universo das empresas. Uma espécie de transnacional da Religião. Por sinal, é isso que a Igreja católica, hoje, parece ser, uma transnacional do Religioso, da Idolatria religiosa. Porque os presbíteros, quase todos, desistiram de o ser e, em seu lugar, passaram a assumir-se como “sacerdotes”. Foi o Concílio de Trento (século XVI), de triste e má memória, que operou esta transubstanciação. Perversa, diga-se, com toda a força de que formos capazes. Foi também neste Concílio que a Lei do Celibato obrigatório deixou de ter mais escapatórias. Até então, muitos padres que as populações tinham por “amancebados”, na realidade, eram casados. Só que ninguém sabia, para lá dos próprios. Casavam-se clandestinamente. E foi para acabar com esta derradeira possibilidade, que o Concílio de Trento definiu como doutrina de Fé (uma aberração de todo o tamanho!), que o sacramento do matrimónio só seria válido, quando fosse realizado na presença do pároco da noiva ou do noivo. Até então, o sacramento acontecia, sempre que um homem, padre que fosse, e uma mulher se declarassem marido e mulher, nem que fosse apenas perante as estrelas numa noite de luar. Em meu entender, só haverá mais padres /presbíteros na Igreja, quando este modelo institucional de Igreja que hoje conhecemos desaparecer. O Poder Eclesiástico que está a fazer-se passar por Igreja, gera súbditos, é totalmente estéril no que respeita a gerar seres humanos-com-causas, pelas quais valha a pena dar a própria vida. Benditos, pois, os jovens que, enquanto permanecer este modelo clerical de Igreja, recusam dar-lhe corpo com os seus corpos, seja como ajudantes de altar /acólitos, seja como padres /sacerdotes. Presbítero da Igreja, só mesmo por vocação. Nunca por procriação! Nem sequer como profissão.</em></p>
<p><strong>Há já uma associação de padres casados, a Associação Fraternitas Movimento. Fazia sentido abrir uma sucursal de padres pater famílias?</strong></p>
<p><em>Conheço a </em>Fraternitas<em> Movimento, mas não tenho quaisquer ilusões a seu respeito. É uma associação com muito de beatice eclesiástica e clerical. Integra padres casados e respectivas esposas. Mas os seus associados continuam a ser padres que não perderam os tiques clericais, beatos. São uns tristes. Vivem com saudades do altar, que tiveram de deixar, por terem casado. A maior parte deles só se sentiu menos-mal consigo mesmo, depois que conseguiu a “dispensa” de Roma e pôde casar-se canonicamente. O processo de “dispensa” foi /é uma atroz humilhação de quem a ele recorre. E o casamento canónico que se realiza depois é outra humilhação igual ou pior. Melhor, muito melhor, será realizar o casamento civil, ou a simples união de facto, com os nubentes como protagonistas, bem longe de todo aquele Moralismo rançoso que se respira no interior dos templos paroquiais e em redor dos altares. Padres casados, sim, mas sem terem de andar, o resto da vida, a rastejar diante dos bispos e a mendigar os seus favores. E muito de tudo isto é o que se faz na Associação </em>Fraternitas<em> Movimento. Melhor fossem padres casados ateus ou agnósticos, do que assim tão lacaios dos bispos residenciais, senhores dons fulanos de tal. Uma vergonha que se aceita como eclesial, quando o que é eclesial é a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Instituir uma sucursal de padres pater famílias? Nem pensar. Seria somar mais Humilhação áquela que já existe. Só mesmo para sadomasoquistas que, pelos vistos, é do que mais há nos ambientes eclesiásticos e clericais!</em></p>
<p><strong>O futuro da religião católica passa por esta abertura de espírito?</strong></p>
<p><em>Por mim, não falo de “futuro da religião católica”. Falo de futuro da <strong>Igreja</strong></em><em> católica. Não! Não são a mesma coisa. Ao contrário do que se pensa e escreve, Igreja e religião não são sinónimos. São antónimos. É da natureza da Igreja ser anti-religiosa, ou, pelo menos, a-religiosa. A Igreja não é uma religião. Por isso é que tem presbíteros /bispos, não tem sacerdotes. Tem casas familiares, não tem templos. Tem mesas compartilhadas, não tem altares. Tudo o que por aí se vê e faz é herança e prossecução do Paganismo religioso do Império romano que acabou por ser integrado na Igreja e, com isso, a descaracterizou e a paganizou. Até hoje! O futuro da Igreja passa por um Novo Nascer. Ou a Igreja Nasce do mesmo Espírito /Sopro Maiêutico de Jesus, assassinado pelos da Religião e do Império, ou não tem futuro. E, se, tal como ela hoje está, conseguir manter-se na História, será apenas como um Museu, porventura, muito respeitável, mas Museu. Sem vida. Como que a dizer aos vindouros que o caminho do Humano não passa por ali. É preciso Nascer de Novo, do Sopro gerador de Liberdade e de Maioridade Humana. É por aqui o caminho, se a Igreja quiser ter futuro. Mas o mais importante, nem é a Igreja ter futuro. É a Humanidade ter futuro. E o Planeta Terra. Será que vamos ter? Fosse a Igreja o que deveria ser, e haveria muito mais garantias da Humanidade e o Planeta Terra terem futuro. Assim, podemos desaguar todas, todos, um dia destes, no Abismo, na Implosão! Entendam estas minhas palavras como um alerta de sentinela, que é, de resto, um dos principais aspectos da missão dos presbíteros /bispos da Igreja e da própria Igreja. A de Jesus, obviamente..</em></p>
<p><strong>Acha que o Islão tem maior facilidade em cativar a juventude para a fé?</strong></p>
<p><em>R. Mas há Fé, no Islão? Ou tirania? Ou fanatismo? Fé, como acto de Lucidez e de Liberdade, como fonte de Maioridade Humana, eu só conheço uma, a mesma de Jesus. É a única que é Maiêutica. É a única que não tem na sua génese o Medo, o Ídolo, a Idolatria. Toda Fé religiosa tem na sua génese o Ídolo, a Idolatria. Por isso é que todas as religiões são perversas. E a do Islão não é excepção, bem pelo contrário. Basta ver a vida do suposto fundador, praticamente, nos antípodas da de Jesus, o filho de Maria, que não fundou nenhuma religião e combateu duelicamente, ainda que sempre desarmado, a Religião oficial do seu país, o que foi tido como a máxima blasfémia, sancionada com a morte crucificada na Cruz do Império. Os jovens muçulmanos podem ser aliciados /recrutados /amestrados para o Islamismo. Podem “oferecer-se” como “homens-bomba”. Mas a troco de quê? Por favor, não sejamos ingénuos. Lá, onde não houver Liberdade /Maioridade Humana, não há seres humanos. Há mercenários, há recrutados, há prosélitos, há escravos, há máquinas-humanas-prontas-a-fazer-se-explodir. “Eu – diz Jesus, a quem crucificaram – nasci e vim ao Mundo, para dar testemunho da Verdade; e para que todas, todos tenham vida, e vida em abundância”. Conhecemos mais alguém assim?!</em></p>
<p><strong>Já agora, como é que os padres resolvem os naturais ardores do desejo, a paixão, a tesão? Lêem Platão no lugar da Playboy ou da Gina?</strong></p>
<p><em> Teria de perguntar a cada um deles, porque cada ser humano, também o ser humano que se tornou padre, é único e irrepetível. Não há dois casos iguais. E, depois, é importante que quem faz perguntas a alguém saiba onde deve parar. Para não devassar a intimidade da pessoa que aceita que lhe façam perguntas. O que queremos para nós, devemos querer para as outras, os outros como nós. E nem sempre os jornalistas têm sido capazes de respeitar esta fronteira. E devassam a intimidade dos demais, como se fossem uma espécie de Pide de costumes, o que, obviamente, não é deontológico. Outra coisa importante a ter em conta, quando lidamos com os seres humanos e a sua intimidade, é percebermos a dimensão de Mistério que cada um de nós, ser humano, é. E ninguém, nem mesmo o próprio, deve profanar o Mistério que cada ser humano é, que todas, todos somos. Que fique claro duma vez por todas: A sexualidade humana só é bem abordada num clima de afectos partilhados. Nunca num clima de Tribunal, muito menos, de Tribunal da Inquisição jornalística. Cuidemos, primeiro e sempre, em formarmos seres humanos em estado de Liberdade e de Maioridade, e tudo o mais virá por acréscimo. Sem necessidade de polícias de costumes, como os fariseus do tempo e do país de Jesus, que não largavam nunca o pé de Jesus, para ver se o apanhavam em falso. Os padres /presbíteros que o são por vocação, como é o meu caso pessoal, e não por profissão ou como modo de vida, não precisam de frequentar Platão, muito menos a </em>Playboy<em> ou a </em>Gina<em>. Não porque essas sejam áreas interditas a um padre /presbítero da Igreja. Não são. Nada é interdito a um ser humano constituído na Liberdade e na Maioridade. Mas basta-nos frequentar-escutar-ser-viver, todos os dias, o belíssimo Poema erótico bíblico, </em>Cântico dos Cânticos<em>. Porque, lá, onde abundam os afectos partilhados, na sua máxima expressão, que é a Gratuidade e não a lei, a sexualidade humana é sempre vivida com a mesma naturalidade com que se respira. Ao modo matrimonial, nuns casos; ao modo de celibato pelo Reino /Reinado de Deus, noutros casos. Celibato como castração, é coisa desconhecida nesses ambientes de Liberdade /Maioridade Humana e de afectos partilhados, ainda que possa ser essa obscena concepção que continua aí na cabeça, nem sempre moralmente pura, de muita gente que, da sexualidade humana, (quase) só conhece a pornografia e a prostituição. Precisava essa muita gente de assumir /praticar o celibato pelo Reino /Reinado de Deus, num enfrentamento duélico de todos os dias contra o anti-Reino /Reinado de Deus, que é hoje o Império Financeiro Global, para saber por experiência como se vive a sexualidade, na alegre e feliz condição de celibato opcional, que não tem nada a ver com o celibato imposto por uma perversa Lei eclesiástica!</em></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-6683" title="padre mário de oliveir 010" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/05/padre-mário-de-oliveir-010.jpg" alt="" width="460" height="345" /></p>
<p><strong>Na pedagogia do seminário continua a induzir-se a masturbação para expiar a libertação do tirano?</strong></p>
<p><em>Do que hoje sucede, nos seminários, não posso falar. Mas não creio plausível tal coisa. Os tempos são outros e até os últimos quatro anos de Teologia, antes da ordenação, são passados na Universidade Católica, numa grande mistura de cursos, de mulheres e de homens, da mesma idade. Quanto ao passado, posso testemunhar que eu próprio frequentei o seminário durante 12 anos, entre 1950-1962, em regime de internato, e nunca percebi que nos fosse induzida, por parte do chamado “director espiritual”, semelhante orientação. O que sempre percebi é que praticamente tudo o que dissesse respeito a sexo era pecado, inclusive, a masturbação, um termo que, entretanto, nunca chegava a ser sequer pronunciado! A pedagogia era outra: manter-nos ininterruptamente ocupados, sem intervalos para a ociosidade, então, referida como “a mãe de todos os vícios”. Todos os minutos estavam programados, até o tempo de brincar e de dormir. Era como se todos fôssemos seres assexuados, sem sexo! Importa, pois, conhecermos bem a realidade de então, para não nos deixarmos enganar pelas mentes mais ou menos perversas /neuróticas de certos escritores que faziam (ainda fazem?!) do próprio acto de escrever romances ou guiões de filmes, uma masturbação intelectual. A ideologia que, então, se respirava no seminário era manifestamente moralista, fazia ver pecado em tudo o que tivesse a ver com sexo, mas, entratanto, não deixava de cultivar sólidos valores, só que dentro dessa visão moralista. Pessoalmente, nunca me senti reprimido naqueles doze anos de internato, com férias de permeio. Foram anos, durante os quais, desenvolvi múltiplas capacidades, inclusive, desportivas, por sinal, nem sempre bem vistas, estas últimas, por parte dos padres superiores. Em algumas delas, cheguei mesmo a ser craque, por exemplo, no voleibol, no futebol, no ténis-de-mesa e até no hóquei em patins! Depois de ordenado, apenas tive de me afastar rapidamente daquele sopro moralista em que havia crescido. Foi o que fiz e passei a deixar-me conduzir progressivamente pelo Sopro /Espírito de Jesus, que é o da Graça e da Verdade, e que fez/faz de mim um homem constituído na Liberdade /Maioridade, por isso, uma dádiva viva para os demais, Pão Partido que se dá a Comer, Vinho Derramado que se dá a Beber. E é assim que, ainda hoje, prossigo, como presbítero da Igreja do Porto, felizmente sem qualquer ofício pastoral oficial e também sem qualquer benefício eclesiástico. Digo felizmente. E se alguma coisa eu tenho a lamentar, é que a Instituição-Igreja que integro não me tenha acompanhado neste meu Êxodo do universo opressor do Moralismo e da Lei para o universo jesuânico /maiêutico da Graça e da Liberdade /Maioridade. Problema dela. Felicidade minha!</em></p>
<p><strong>O enredo d’ <em>O</em></strong><strong> <em>Crime do Padre Amaro </em></strong><strong>ainda se mantém contemporâneo?</strong></p>
<p><em>Pode haver ainda um caso ou outro, mas não é hoje o comum entre os padres da Igreja católica. Pelo menos, entre nós. Não digo que esta mudança resulte da maturidade do padre. Acho, até, que é o contrário. É ainda o Moralismo, entranhado como um mítico demónio na consciência dos padres, a fazer das dele. Cumpre-se – ou, dito pela negativa, não se faz isto ou aquilo – porque a Lei manda ou proíbe. E o desrespeito da Lei, para estes homens que não saíram do Moralismo, é sempre pecado, mais ou menos grave. E o pecado é um risco de condenação. O pior do Moralismo eclesiástico é manter as pessoas, padres e bispos incluídos, em estado de menoridade, por toda a vida. Fossem adultos, e seriam eles próprios os primeiros a derrubar o Sistema que os oprime e amedronta. Porque, afinal, o Sistema Eclesiástico é criação humana, é criação do Poder ou da fome /sede de Poder Eclesiástico. Não vem de Deus. Só do Ídolo. Cresçam os padres /presbíteros no Humano, e o Moralismo que os infantiliza, cai como um baralho de cartas. Erguer-se-ão, em seu lugar, padres /presbíteros em estado de Liberdade e de Maioridade Humana. Criadores de Liberdade e de autonomias. A Cúria Romana não gostará de semelhante revolução, mas não terá outro remédio senão aguentar. Ou terá de fechar as portas, por falta de quadros qualificados. Assim, pobres homens clericais, não passam de eunucos à força, que nunca chegam a libertar-se definitivamente do medo do “pai”, da “Lei”, do “Pecado”. Até que a Morte, quando chegar, faça o que os próprios, há muito, haveriam de ter feito!</em></p>
<p><strong>É um mito rural que os padres de vilas e aldeias se amigam com as suas devotas?<em> </em></strong></p>
<p><em>R. Acho que é um mito. Pode haver excepções a esta regra. Mas serão só isso: excepções. Como já disse, a “lei”, o “medo”, o “pecado”, o “castigo” ainda continuam a ter muito peso nos clérigos, formatados para obedecer à lei moralista e ao bispo-senhor. Pelo menos, os párocos mais velhos. Os das novas gerações, forma(ta)dos na Universidade Católica, em ambientes outros, poderão comportar-se de outro modo. Mesmo assim, o recente caso do Pe. Rui, obscenamente, mediatizado até à náusea, veio mostrar que, quando ele não foi mais capaz de resistir aos encantos da sua paroquiana, bem mais nova do que ele, pôs, de imediato, um ponto final no ofício de pároco e partiu para outra. O que só confirma o que comecei por responder: Hoje, é mais um mito rural, do que um facto.</em></p>
<p><strong>A Igreja só teria a ganhar na sua modernização se acabasse com estes dogmas arcaicos?<em> </em></strong></p>
<p><em>Sim, só teria a ganhar. Mas não confunda as coisas. Não são dogmas. São meras leis eclesiásticas que, assim como foram criadas pelos próprios homens da Igreja, à revelia do Evangelho de Jesus e das práticas paradigmáticas das primeiras comunidades do Novo Testamento, também podem e devem ser banidas, a qualquer momento, por eles. Cabe às gerações deste nosso Século XXI abolir de vez o que nunca deveria ter sido institucionalizado na Igreja. Manter por mais tempo essas leis, é pecado. Acatá-las e respeitá-las, sem convicção pessoal, só porque são leis da Igreja, é pecado. E nem é preciso ser muito corajoso para se avançar nesta direcção. O Povo de Deus, na sua esmagadora maioria, não quer outra coisa. E como reza um velho ditado teológico-popular: Vox populi, vox Dei (= voz do povo, voz de Deus). Avance-se, então. Já. Saibam que há 16 séculos, já era tarde para avançarmos!</em></p>
<p><strong>Acha que o Prémio Pessoa, o bispo do Porto D. Manuel Clemente, um homem com uma voz de largo espectro, devia desviar uns decibéis para estes temas espinhosos?</strong></p>
<p><em>Devia, mas não é o que está a acontecer, nem acontecerá. Como eu próprio escrevo no meu mais recente livro, </em>NOVO LIVRO DO APOCALIPSE OU DA REVELAÇÃO<em>, edição AREIAS VIVAS (um livro que revela o que o romance </em>Caim<em>, de Saramago, esconde!), os caminhos que o Bispo Manuel Clemente tem trilhado, desde que aceitou ser Bispo do Porto, podem ser muito eclesiásticos-católicos, mas não são nada jesuânicos. E, se não são nada jesuânicos, são inevitavelmente caminhos desviados do Caminho, da Verdade e da Vida que é Jesus, o filho de Maria. E, por isso, desviados dos seres humanos de carne e osso, também dos padres e dos bispos, inclusive, dele próprio, de seu nome, meu /nosso irmão.</em></p>
<p><em> </em></p>
<div id="attachment_6684" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><img class="size-full wp-image-6684" title="padre mário de oliveir 010" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/05/padre-mário-de-oliveir-0101.jpg" alt="" width="460" height="345" /><p class="wp-caption-text">Quem é quemPadre Mário de Oliveira  Nasceu a 8 de Março de 1937, em Lourosa, Feira. Foi ordenado padre/presbítero da Igreja do Porto, a 5 de Agosto de 1962. Desde então, até ficar, desde Março de 1973, por decisão pessoal unilateral do Bispo António Ferreira Gomes, na anómala situação canónica de padre sem ofício pastoral oficial, que é aquela em que ainda hoje se encontra, foi sucessivamente coadjutor da Paróquia das Antas, no Porto; professor de Religião e Moral nos Liceus Alexandre Herculano e D. Manuel II, também no Porto; capelão militar na Guiné-Bissau, de onde foi expulso, ao fim de quatro meses, por pregar o Evangelho da Paz aos que lá faziam a Guerra Colonial; pároco de Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, onde, desassombradamente, levou a sério a sua missão de Evangelizar os pobres, o que lhe valeu a exoneração, ao fim de 14 meses, decidida pelo então Administrador Apostólico da Diocese, o Bispo Florentino de Andrade e Silva, esse mesmo que, ao ver-se, ele próprio, 15 dias depois, afastado do cargo, devido ao inesperado regresso do exílio de dez anos do Bispo do Porto, levou com ele, da Cúria diocesana, a prova do crime, concretamente, o decreto comprovativo da exoneração; pároco de Macieira da Lixa, concelho de Felgueiras, em cujo exercício foi duas vezes preso pela Pide em Caxias e outras tantas julgado no Tribunal Plenário do Porto. Em Maio de 1974, já sem qualquer título pastoral oficial, ainda integrou, a pedido dos próprios, a Equipa de Padres da Zona Ribeirinha do Porto. E, sem deixar esse serviço presbiteral, tornou-se, em Janeiro de 1975, jornalista-delegado no Porto do vespertino República (carteira profissional n.º 492). Quando, um mês depois do 25 de Novembro de 1975, este vespertino acabou, por decisão do novo Poder Político emergente, foi sucessivamente redactor principal dos jornais Página Um, Aqui e Correio do Minho. Ao completar 50 anos de idade e 25 anos de presbítero, decidiu passar a integrar a pequenina Comunidade Jesuânica de Base “Grão de Trigo” e, com ela, viver organicamente ligado ao povo marginalizado de S. Pedro da Cova. Fundou, aí, juntamente com outros cristãos e cristãs de base, a Associação Padre Maximino, da qual continua a ser presidente da Assembleia-Geral, e lançou o Jornal Fraternizar, de que é director e redactor principal, há 23 anos consecutivos. Desde Fevereiro de 2004, como quem faz jus ao nome – Padre Mário da Lixa – pelo qual continua a ser ainda hoje mais conhecido, passou a viver sozinho numa casinha arrendada, em Macieira da Lixa. Como autor, tem mais de 30 livros publicados, todos fecundamente polémicos (ver a lista completa dos títulos, nas páginas finais deste volume).  </p></div>
<p><em> </em></p>
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		<title>Ricardo Ribeiro: onde mora o fado e a alma se demora</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Apr 2010 15:18:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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		<category><![CDATA[a23]]></category>
		<category><![CDATA[Orlando Leite]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Ribeiro]]></category>
		<category><![CDATA[“Porta do Coração”]]></category>

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		<description><![CDATA[Ricardo Ribeiro, que a britânica e prestigiada revista Songlines intitulou de “The rising star of Lisbon fado”, acaba de editar o seu novo disco, “Porta do Coração”. Um álbum em que o jovem cantor, habituado ao público das casas de fado e das noites de tertúlia fadista, opta de novo por escolher fados clássicos. Nele, o canto de Ricardo Ribeiro é desenvolto, descritivo e imaginativo, trazendo-nos à memória a mestria vocal dos mestres fadistas de outrora, corrente da qual, de resto, se revela aficionado. De Maurício a Marceneiro.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-6436" title="Ricardo Ribeiro /A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem12.png" alt="" width="458" height="681" /></p>
<p>Ricardo Ribeiro, que a britânica e prestigiada revista Songlines intitulou de “The rising star of Lisbon fado”, acaba de editar o seu novo disco, “Porta do Coração”. Um álbum em que o jovem cantor, habituado ao público das casas de fado e das noites de tertúlia fadista, opta de novo por escolher fados clássicos. Nele, o canto de Ricardo Ribeiro é desenvolto, descritivo e imaginativo, trazendo-nos à memória a mestria vocal dos mestres fadistas de outrora, corrente da qual, de resto, se revela aficionado. De Maurício a Marceneiro.    Entrevista de <strong>Orlando Leite /A23</strong><span id="more-6434"></span><br />
<strong><br />
A23: Qual foi o ponto de partida para este disco repleto de fados clássicos? </strong><br />
R.R. – Todo o processo passou por uma coisa muito simples. Eu canto isto diariamente e foi neste estilo e nesta forma de cantar que fui criado. Concretamente, a grande diferença, em relação aos discos anteriores, é que perdi os medos e não sigo uma estética vigente, vencedora. Nele pretendi dar corpo, e o meu melhor, ao que desde sempre fui aprendendo com os mestres fadistas. As acentuações tónicas, a divisão gramatical e as fronteiras entre o estilo e o improviso determinantes na qualidade dum fado.<br />
<strong></strong></p>
<p><strong>Quando dizes vencedora, a que te referes…</strong><br />
R.R. – Que não me preocupei em criar algo que estivesse na moda ou de ir ao encontro de novas fórmulas de cantar. “Porta do Coração” sou eu, o que aprendi, o que sinto e o que quero cantar. Atenção, que não estou a criticar nada, nem ninguém. Não tenho nada contra a renovação do fado e o seu convívio com outras sonoridades. Bem pelo contrário.<br />
<strong></strong></p>
<h2 class="mceTemp">
<dl id="attachment_6439" class="wp-caption alignnone" style="width: 900px;">
<dt class="wp-caption-dt"><strong><strong><img class="size-full wp-image-6439" title="Ricardo Ribeiro /A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem26.png" alt="" width="900" height="661" /></strong> </strong></dt>
<dd class="wp-caption-dd">
<h2><strong><strong>Caixa:</strong>“Porta do Coração”, mais do que um disco de fado é um documento musical  repleto de pormenores: de entoação, de estilos, de tradição. Basta olhar  à capa ao jeito de Fernando Maurício para nos apercebermos de imediato  do seu conteúdo: uma viagem a um passado luminoso que tem como guia  aquela que será, porventura, a mais bela voz do fado actual no  masculino. Cheio de tessituras instrumentais, o colorido tonal  espraia-se com desenvoltura e consistência no domínio de um fado bem  tradicional nada interessado em agitar águas. Não se tratando de um  disco de fácil assimilação, uma certeza, porém, nos fica: o fado vive  aqui. Por Orlando Leite<br />
</strong></h2>
<p><strong>Ricardo Ribeiro<br />
“Porta do Coração”, Fado, CD EMI<br />
5 estrelas. </strong></p>
</dd>
</dl>
</h2>
<p><strong>É um trabalho em que viajas por diversos estilos…</strong><br />
R.R. – Sim, dentro, volto a repetir, do fado tradicional. Neste disco há decassílabos, alexandrinos, sextilhas, quadras simples e glosadas, quintilhas, etc., de poetas populares de quem eu muito gosto e que muitas vezes vão ficando esquecidos e também de outros poetas, como o Mário Rainho, o José Luís Gordo, o Tiago Torres da Silva ou o Fernando Girão.<br />
<strong>O tema do Girão é um fado canção…</strong><br />
R.R. – É verdade. Mas é importante relembrar que o fado canção é tão legítimo e importante como o fado tradicional. Cada um na sua dimensão. Amália, Tristão da Silva, Francisco José, Tony de Matos, entre outros, deram-lhe estatuto e grandes compositores como o Frederico de Brito, Ferrer Trindade ou Frederico Valério escreveram canções imortais como por exemplo o “Fado Amália” ou a “Canção do Mar”. “Somos do Mar e do Vinho” é um fado canção muito bonito que o Girão escreveu para mim.<br />
<strong>Outra particularidade que notei neste novo disco é a aproximação que fazes ao fado balada muito semelhante ao desse grande intérprete e compositor, tão mal amado pelos puristas, que foi António dos Santos…</strong><br />
R.R. – É engraçado que me perguntes isso, o primeiro diga-se. Apesar de as minhas referências apontarem para outros lados, vejo o António dos Santos como um compositor brilhante e uma das mais belas vozes que me foram dadas a conhecer. A inclusão neste disco de “Barro Divino” de Álvaro Duarte Simões foi apenas uma questão de gosto pessoal. Mas reconheço que tem muito a ver com a música do António dos Santos.<br />
<strong>As tuas referências apontam para dois nomes: Fernando Maurício e Beatriz da Conceição, correcto?</strong><br />
R.R &#8211; Sim, mas também para Manuel Fernandes, Alfredo Marceneiro ou Maria José da Guia. E claro, a grande Amália. A Amália é única. Penso que está tudo dito.<br />
<strong>Há pouco, referiste o convívio do fado com outras sonoridades. Como foram as experiências com dois músicos de outras áreas como o Pedro Jóia ou o Rabih Abou-Khalil?</strong><br />
R.R. – Diferentes no conteúdo, excelentes na musicalidade. Duas colaborações que me enchem de orgulho pela satisfação que foi trabalhar com dois músicos de excepção.<br />
<strong>Continuas a ser um investigador do fado?<br />
R.R. -</strong> Investigador? Não tenho estudos para isso (risos). Sou apenas um apaixonado desta canção e essa paixão obriga-me a observá-la. Porque esta canção, o fado, é tão repleta de pormenores e histórias que faz com que a observe e a sinta com os ouvidos do espírito e não com os ouvidos da ambição.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-6440" title="Ricardo Ribeiro" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/04/Imagem31.png" alt="" width="441" height="661" /></p>
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		<title>Jill Tracy: Muito glamour e a paixão pelo mistério</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 03:55:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Centro Cultural Vila Flor em Guimarães]]></category>
		<category><![CDATA[Jill Tracy]]></category>
		<category><![CDATA[Jill Tracy esteve pela primeira vez em Portugal no passado dia 27 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães]]></category>
		<category><![CDATA[Orlando Leite]]></category>

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		<description><![CDATA[Jill Tracy esteve pela primeira vez em Portugal no passado dia 27 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães. Avessa ao mediatismo e ao mundo das “celebridades de papel”, concedeu-nos uma das raras entrevistas da sua carreira. A música de Jill Tracy é um baú de experiências sonoras sem fundo. Descrita como: “uma femme fatale de um filme noir; uma pálida porcelana Victoriana” Entrevista de <strong>Orlando Leite</strong>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5771" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><img class="size-full wp-image-5771" title="Jill Tracy /A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem14.png" alt="" width="460" height="333" /><p class="wp-caption-text">Jill Tracy esteve pela primeira vez em Portugal no passado dia 27 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães</p></div>
<p>A música de Jill Tracy é um baú de experiências sonoras sem fundo. Um teatro de sons a que se junta a voz sensual do “encenador” recortando, ao primeiro embate com o ouvinte, a singularidade das experiências propostas. Gosta da sua concisão, da condensação da pequena narrativa e inspira-se no estilo dos filmes noir e surreais, assim como nos mundos estranhos e escritos de Jean Cocteau e Ray Bradbury. Descrita como: “uma femme fatale de um filme noir; uma pálida porcelana Victoriana”, Jill Tracy esteve pela primeira vez em Portugal no passado dia 27 no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães. Avessa ao mediatismo e ao mundo das “celebridades de papel”, concedeu-nos uma das raras entrevistas da sua carreira. Entrevista de <strong>Orlando Leite</strong></p>
<p><strong>O que mais a inspira ao escrever?</strong><br />
JT: Nunca é uma coisa específica. E é nisso que reside a magia, surge aleatoriamente. É uma resposta sensitiva ao imediato; uma palavra ou uma frase, uma imagem, uma história, um sentimento, uma fragrância, textura e cores, o chamamento pelo desconhecido, pelo proibido, qualquer coisa que me permita encontrar um ponto de fuga e deixar-me ir. É um processo de vida que honra os momentos mágicos, estar viva num certo tempo e espaço e permitir que a luz entre. O meu objectivo é encontrar essas portas fechadas, ver o que se encontra debaixo das tábuas do chão… é onde todas as canções se escondem.</p>
<p><strong>Porque prefere canções sombrias a narrativas mais alegres?</strong><br />
JT: A alegria não é um grande desafio. É fácil e simpática; não é certamente perpétua ou intrigante. Mas o fascínio pelo misterioso, a sedução perigosa – é aqui que a verdade existe… escondida pelas convenções e conforto com que nos protegemos.</p>
<p><strong>Quando não está a compor ou em digressão, o que mais genuinamente a interessa? </strong><br />
JT: Adoro ler, ver filmes antigos, encontrar um livro raro nos alfarrabistas, assim como feiras de antiguidades onde encontro estranhas curiosidades. Adoro viajar, escrever o mapa das estrelas, chocolate preto, falar com desconhecidos, deitar-me demasiado tarde e contar histórias numa noite de copos.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5772" title="Jill Tracy/ A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem15.png" alt="" width="355" height="445" /><br />
<strong>Se existe uma, como define a sua música? </strong><br />
JT: a minha música é imagética; é a banda sonora para a minha vida. É o que oiço dentro da cabeça. É o que me possibilita criar o meu pequeno reino para onde escapo. É paralelamente um local negro e belo. Gosto de descrevê-lo como um elegante “netherworld”.</p>
<p><strong>Os seus concertos são muito teatrais. É esta a melhor forma para transmitir a sua mensagem e música?</strong><br />
JT: A minha música e concertos são muito emocionais. Sinto que tenho que ser um farol para as pessoas e conduzi-las para dentro do pântano das suas almas onde o sinistro e o sensual se encontram. Acho fascinante explorar esses locais e levar a minha audiência nessa viagem. Não sinto que “apresento um espectáculo” mas sim que sou o meio de transporte para levar as pessoas ao meu peculiar imaginário. Tento que cada concerto seja uma experiência única, para mim e para o público.</p>
<p><strong>A curta-metragem The Fine Art of Poisoning, realizada por Bill Domonkos, foi várias vezes premiada em festivais. Pode este filme falar pela sua grande relação com o cinema, nomeadamente nos géneros terror e fantástico?</strong><br />
JT: Sempre gostei do aspecto mais sonhador e sensual dos filmes, romances perigosos, diferentes enquadramentos e da iluminação surreal desses géneros. Fritz Lang, Alfred Hitchcock, The Twilight Zone. Em criança, só desejava viver nesses mundos. Pareciam perfeitos para mim. E ainda o são.<br />
<strong></strong><br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5773" title="Imagem16" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem16.png" alt="" width="305" height="454" /><br />
<strong>Para além das músicas e dos filmes, também escreve histórias…</strong><br />
JT: Tenho prazer ao escrever pequenos contos. Contribuí para a publicação de culto Morbid Curiosity Magazine. Recentemente foi editada uma antologia que compila as melhores histórias intitulada &#8220;Morbid Curiosity Cures the Blues”. O meu conto &#8220;The Keeper of the Shop&#8221; é uma delas.</p>
<p><strong>O que vamos ver e ouvir nesta sua primeira visita a Portugal? Exclusivamente o último álbum “Bittersweet Constrain” ou as novas canções que irão integrar o próximo disco?</strong><br />
JT: Uma variedade: algumas novas melodias, alguns favoritos mais antigos e ainda algumas surpresas! Tanto eu como o violinista Paul Mercer gostamos de compor músicas mesmo defronte à audiência, canalizando a energia espiritual da sala e das pessoas. É magia! É a nossa própria “sessão espírita musical”. Vamos de certeza criar algumas destas sonoridades para Portugal. E já sei que vou ser muito inspirada pelas ambiências locais.<br />
<img class="alignnone size-full wp-image-5774" title="Imagem17" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem17.png" alt="" width="295" height="442" /><br />
<strong>Mas iremos escutar canções de álbuns mais antigos como por exemplo “Evil Night Together”? </strong><br />
JT: Concerteza! &#8220;Evil Night Together&#8221; e &#8220;The Fine Art of Poisoning&#8221; são canções incontornáveis nos meus concertos.</p>
<p><strong>Sei que tem uma paixão curiosa que é a de coleccionar estranhos contos e objectos entre outras coisas… </strong><br />
JT: Encontro uma profunda energia e história nos mais variados objectos. Muitas ideias para as canções vêm deles. Conhece aquelas garrafas antigas que guardavam veneno? Colecciono-as! Nos últimos 20 anos também guardo todas as cartas de jogo que encontro na rua – chamo-lhes “sidewalk divination” ou mesmo poder cósmico. Caixas e caixinhas, tenho centenas no apartamento e algumas são a mais preciosa posse que detenho. Algumas são mesmo os meus talismãs e acompanham-me para todo o lado, assim como colares, contas…<br />
<strong></strong></p>
<p><strong>Para terminar. Porque cultiva uma imagem de uma diva sensual de cantora de cabaret, ao mesmo tempo vilã e heroína? </strong><br />
JT: Fiquei famosa pelo meu estilo e sentido de moda o que, essencialmente, sou EU! Sempre fui atraída pela elegância e graça da era dos filmes mudos, ciganos e cartomantes, o oculto e o glam rock dos anos 70. O meu estilo é uma colecção de paixões. Tanto sou uma Gloria Swanson como o Steve Tyler dos Aerosmith.</p>
<p><strong>Para saber mais:</strong><br />
<a href="http://www.jilltracy.com/">Jill Tracy</a></p>
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		<item>
		<title>Limpar Portugal: &#8220;Existem mais de 70 pontos negros no concelho do Fundão&#8221;</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/03/10/agostinho-alexandre-existem-mais-de-70-pontos-negros-e-a-maioria-sao-constituidos-por-entulho-de-obras-e-electrodomesticos/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Mar 2010 09:06:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Agostinho Alexandre]]></category>
		<category><![CDATA[Filipa Batista]]></category>
		<category><![CDATA[http://limparportugal.ning.com/group/fndfundo]]></category>
		<category><![CDATA[Vamos Limpar Portugal |Fundão]]></category>
		<category><![CDATA[Vamos Limpar Portugal!]]></category>

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		<description><![CDATA[Vamos Limpar Portugal! No Fundão este movimento conta já com os 83 membros registados na plataforma electrónica, http://limparportugal.ning.com/group/fndfundo/ . O coordenador da iniciativa do concelho, Agostinho Alexandre, 25 anos, deu a conhecer, em entrevista, os objectivos da iniciativa e os passos que estão a ser dados rumo à sua concretização.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_5743" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><img class="size-full wp-image-5743" title="Agostinho Alexandre /A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/IMG_2337.jpg" alt="" width="460" height="345" /><p class="wp-caption-text">Agostinho Alexandre identificando lixo depositado ilegalmente na Serra da Gardunha</p></div>
<p>Texto <strong>Filipa Batista</strong></p>
<p>A eliminação de todas as lixeiras e depósitos de resíduos indevidamente abandonados em zonas como florestas e campos, é a acção a ter lugar dia 20 de Março de 2010, sendo assim parte da solução, deixando de ser parte do problema ambiental mais grave do planeta, a poluição. Actualmente, está já em marcha a angariação de voluntários e a formação de grupos por diversos concelhos, todos conectados nacionalmente através do site http://limparportugal.ning.com/, dando início ao mapeamento dos locais a ser intervencionados. No Fundão este movimento conta já com os 83 membros registados na plataforma electrónica, <a href="http://limparportugal.ning.com/group/fndfundo/">http://limparportugal.ning.com/group/fndfundo/</a> e com o apoio da Câmara Municipal, o Agrupamento de Escuteiros e o Grupo Holon, entre outros. O coordenador da iniciativa do concelho, Agostinho Alexandre, 25 anos, deu a conhecer, em entrevista, os objectivos da iniciativa e os passos que estão a ser dados rumo à sua concretização.</p>
<p><strong>A23:  Para os leitores menos identificados com esta iniciativa, que projecto é este, qual o seu objectivo?</strong></p>
<p>O projecto Limpar Portugal é um movimento cívico altruísta que pretende promover a educação ambiental através da limpeza das florestas no próximo dia 20 de Março. Além desta acção de limpeza, pretende-se ainda sensibilizar as consciências para um futuro mais verde.</p>
<p><strong>A ideia aqui é a angariação de voluntários e não de apoios financeiros, qual é o nível de adesão?</strong></p>
<p>Contamos com cerca de 100 voluntários inscritos no site oficial do projecto e há ainda um grupo no facebook que já ultrapassou os 150 membros, dos quais mais de 80% não estão inscritos no site oficial. Dentro destes, há ainda membros que representam grupos associativos como os escuteiros, a Agência Gardunha 21, a Escola Profissional, entre outros. Virtualmente acho que posso arriscar 200 pessoas, mas só no dia saberei ao certo.</p>
<div id="attachment_5744" class="wp-caption alignnone" style="width: 471px"><img class="size-full wp-image-5744" title="Limpar o Fundão /A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/03/Imagem3.png" alt="" width="461" height="394" /><p class="wp-caption-text">Existem mais de 70 pontos espalhados por todo o concelho sendo que na maioria são constituídos por entulho de obras e electrodomésticos, diz Agostinho Alexandre</p></div>
<p><strong>Portugal está assim tão sujo? E o concelho do Fundão?</strong></p>
<p>Realmente é desolador o cenário com que nos temos deparado no trabalho de campo dos últimos meses. Já sabíamos que existiam várias lixeiras ilegais por todo o concelho do Fundão, mas com as saídas de identificação deparámo-nos com quantidades exurbitantes quer de lixeiras, quer de quantidades e variedades de lixo.</p>
<p>Existem mais de 70 pontos espalhados por todo o concelho sendo que na maioria são constituídos por entulho de obras ou mobiliário/electrodomésticos velhos provenientes das remodelações de casas. Depois há de tudo um pouco, pneus, latas, garrafas, vestuário, enfim tudo o que esteja à mão.</p>
<p>No entanto, o que mais me custa encontrar são fraldas sujas, pois são mães e pais que o fazem, embora os filhos possam não ter ainda a noção daquilo que os seus tutores estão a fazer, temo pelos valores transmitidos pelos mesmos no futuro&#8230;</p>
<p><strong> Como se desenrola todo este processo de organização de grupos de trabalho, angariação de apoios entre outros? Reuniões?</strong></p>
<p>A plataforma do ning foi o primeiro meio de divulgação através do envio de emails para as pessoas se registarem, depois as redes sociais como o facebook desempenharam também um papel muito importante, pois são um meio excelente de divulgação. No concelho do Fundão foram já realizadas três reuniões com os voluntários que se registaram e foram passando a palavra. Por fim a comunicação social, que tem também um papel fundamental na divulgação da iniciativa.</p>
<p>Aproveito ainda, para informar que esta sexta-feira, dia 12 de Março, vai ter lugar mais uma reunião do grupo Fundão – Limpar Portugal, no Salão Nobre da Camâra Municipal do Fundão pelas 21.30. Conto com a presença de todos os interessados.</p>
<p><strong>Como é feita a localização das lixeiras e posteriomente a sua remoção, a sua limpeza e o seu depósito?</strong></p>
<p>As lixeiras já foram todas identificadas por meia dúzia de membros do grupo. Ainda realizei algumas saídas para identificação, mas apareceram sempre os mesmos voluntários. Quero aproveitar para agradecer aos voluntários que me ajudaram neste processo inicial.</p>
<p>Para o dia 20 de Março, estão já a ser criados grupos de trabalho tendo em conta o tamanho das lixeiras, e assim contribuir para que a remoção seja total e eficiente. Depois o lixo será transportado para a zona adjacente às piscinas municipais da cidade, para daí ser recolhido pelas empresas do sector de tratamento e recolha de lixo, como a Lurec, Resistrela, entre outras.</p>
<p><strong>Quais as suas expectativas para o dia 20 de Março de 2010?</strong></p>
<p>Mais do que limpar Portugal e neste caso o concelho do Fundão, pretende-se sensibilizar muita gente para questões ambientais e a sua importância!</p>
<p>Conto com a presença das 100 pessoas que estão inscritas, mas acredito serem muito mais! Espero também que a remoção dos lixos seja eficiente e que ninguém se magoe.</p>
<p>Mas no fundo a minha preocupação é no período que se segue à acção do Limpar Portugal, ou seja, espero que um mês depois da iniciativa as florestas se mantenham limpas e é por esta razão que reforço a ideia sensibilização, pois o objectivo não é apenas Limpar Portugal mas mantê-lo limpo. Mãos à Obra! Apareçam! Limpar Portugal num só dia é o que se propõe, o desafio foi lançado “Nós vamos fazê-lo! E tu? Vais ficar em casa?&#8221;.</p>
<p><strong><span style="color: #3366ff;">Notícias relacionadas</span></strong></p>
<p><a href="http://www.a23online.com/2010/02/17/limpar-portugal-fundao-ja-tem-86-membros/">http://www.a23online.com/2010/02/17/limpar-portugal-fundao-ja-tem-86-membros/</a></p>
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		<title>Grande entrevista a Urbano Tavares Rodrigues</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/02/04/entrevista-a-urbano-tavares-rodrigues/</link>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 11:00:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[António Melo]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista a Urbano Tavares Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Paulouro]]></category>

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		<description><![CDATA[Prosador maior da nossa literatura, lançou esta semana a novela &#8220;Assim esvai a vida&#8221;, com a chancela da Dom Quixote, em entrevista exclusiva a A.23, Urbano Tavares Rodrigues desfia meio século de memórias e fala sobre a sua obra, o seu estilo e as suas influências Por Ricardo Paulouro e António Melo Fotos Rui Dias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-5211" title="Urbano Tavares Rodrigues" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/02/Imagem20.png" alt="" width="362" height="458" /></p>
<p>Prosador maior da nossa literatura, lançou esta semana a novela &#8220;Assim esvai a vida&#8221;, com a chancela da Dom Quixote, em entrevista exclusiva a A.23, Urbano Tavares Rodrigues desfia meio século de memórias e fala sobre a sua obra, o seu estilo e as suas influências Por <strong>Ricardo Paulouro e António Melo</strong> Fotos <strong>Rui Dias Monteiro</strong><span id="more-5208"></span><br />
<img title="More..." src="http://www.planetadacultura.com/a23online/portal/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="" /><br />
Começou a publicar há mais de 50 anos. Mas muito lhe devem a critica e a teoria literárias do século XX. &#8220;Assim esvai a vida&#8221; é a sua última obra que é, mais uma vez, um desejo de reflexão antropológica com o leitor. No tecido literário, Urbano Tavares Rodrigues cruza vários fios. Homem sedutor e generoso, é difícil traçar um retrato preciso de alguém que permaneceu fiel às suas convicções e à ética que lhe sustenta a literatura e a vida. Esta semana lançou o seu mais recente livro &#8220;Assim esvai a vida&#8221;, em entrevista exclusiva a A.23, Urbano Tavares Rodrigues desfia meio século de memórias</p>
<p><strong>Romance histórico: &#8220;O Campo das Promessas&#8221; e &#8220;Os Cadernos Secretos do Prior do Crato&#8221;</strong><br />
No romance &#8220;O Campo das Promessas&#8221;, atraiu-me fundamentalmente o sonho do Vasco da Gama de ir à Índia e desbravar mares e terras, bem como o diálogo que se estabelece entre ele e o amigo. Um diálogo de um homem de acção e um homem de reflexão, que é o diário entre um homem da Renascença e um homem que já pertence ao futuro e que sonha com um futuro diferente. &#8220;Os Cadernos Secretos do Prior do Crato&#8221; foram feitos com prazer e com sofrimento. Não sei se será um livro de testemunho, um livro de testamento, certamente que é. Eu diria que é um livro da procura da serenidade, através da angustia e através do remorso, da perplexidade e da luta. O Prior do Crato não era exactamente o homem fadado para ser o rei de Portugal e para encabeçar a luta contra Espanha. Já Jorge de Sena o tinha sentido também, na peça de teatro o &#8220;Indesejado&#8221;. Aqui ele é um místico sem Deus, ou alguém que O procura através da sensualidade, através da batalha, através de múltiplas experiências, encontrando a sua serenidade, de certo modo, no final do livro. Ele recusou o lado obscuro, o lado proibitivo e, então, eu diria, a parte final do livro, quando ele já se encontra em França a envelhecer, é justamente de uma serenidade perturbada que está no encontro do homem com a totalidade.</p>
<p><strong>Testemunho ou Testamento</strong><br />
O Prior do Crato tem muito a ver comigo . Escolhi-o um pouco por isso. Ele é um herói de causas perdidas, como eu fui na luta durante a minha vida toda, durante o fascismo e,depois, lutando por uma democracia avançada, a caminho do socialismo.&#8221;Os Cadernos Secretos do Prior do Crato&#8221; retrata a agonia de uma pátria que só vai ressurgir em 1640. Mas é também um testemunho de mim próprio, até mesmo na relação dele com as mulheres. Há qualquer coisa de experiências minhas também, de uma reflexão sobre o direito que se tem de, no fundo, utilizar as mulheres como objectos de descoberta e prazer. É essa curiosidade do ser humano e essa sensualidade que ele sente como remorsos que me atraiu. Esse remorso é também testemunhal</p>
<p><strong>Deus</strong><br />
Foi uma necessidade minha para criar o Prior do Crato. Este livro é mais Prior do Crato do que Urbano Tavares Rodrigues porque o Prior do Crato é um homem que pensa no além e o livro em Latim mostra isso. No meu livro, a ideia de Deus esbate-se um pouco e o Prior do Crato já é outra vez Urbano Tavares Rodrigues, sem deixar de ser o Prior do Crato, nessa procura que é o Uno, que é a unidade de todas as coisas e que seria uma visão quase panteísta, algo que me é intrínseco.</p>
<p><strong>Regressar ao Alentejo</strong><br />
É sempre bom regressar ao Alentejo. Eu procurei isso mesmo, uma escrita muito limpa, mas ao mesmo tempo poética sem ser barroca. Uma poesia que não se deve sentir muito mas que está lá.</p>
<p><strong>As personagens femininas</strong><br />
Em &#8220;Os Cadernos Secretos do Prior do Crato&#8221;, Elisabeth de Vignancour foi uma personagem criada por mim. A única referencia que tenho é que o Prior do Crato teve uma relação com uma senhora em França. Sabe-se que o Prior do Crato teve experiências eróticas acauteladas quando era governador de Tanger, mas não se sabe com quem Por isso inventei também Amina, uma algarvia levada para Marrocos e que depois se apaixona pelo Prior do Crato. Representa o encantamento erótico, o prazer quase puro, que é a mescla da sensualidade e da ternura e da aceitação de uma dádiva.<br />
As duas são completamente diferentes. Uma é só sentidos, a outra é a cabeça.</p>
<p><strong>Misericórdia</strong><br />
A palavra misericórdia é uma palavra que tem um valor não só cristão mas tem também um sentido universal, quer dizer a compaixão, partilhar do sofrimento dos outros. A entre-ajuda é um valor que está presente em toda a minha obra. Eu sou marxista mas nunca achei que lutar pela transformação do mundo seja suficiente. É preciso lutar no concreto por cada ser humano.</p>
<p><strong>O que posso saber, o que posso fazer, o que me é licito esperar</strong><br />
O que é licito esperar é aquilo que qualquer ser humano, em alguma fase da sua vida, se terá interrogado: o que há para além da morte? Eu sou um agnóstico, não acredito em Deus mas não nego a possibilidade de haver uma experiência de energia, ou uma forma superior de matéria que nos sobreviva e que seja, portanto, uma continuação da espécie. O Oscar Lopes creio que partilha um pouco esta minha idéia, sendo também marxista. Isto é, não vejo a divindade de Jesus, mas tenho uma grande simpatia pela figura de Jesus como alguém que vem pregar uma fraternidade, que procura uma redignificação da mulher, que tem ao seu lado os mais pobres e deserdados. A mensagem de Jesus é uma mensagem que a igreja católica tradicional hoje condenaria. Se Ele cá voltasse seria outra vez cuxificado, seria outra vez o Cristo.</p>
<p><strong><img class="alignnone size-full wp-image-5212" title="Imagem22" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/02/Imagem22.png" alt="" width="294" height="367" />Do marxismo ao capitalismo</strong><br />
Eu diria que não há dúvida que o desaparecimento da União Soviética veio demonstrar que havia certos erros que não podem  voltar a ser cometidos. O repensar as possibilidades do socialismo no futuro é absolutamente legítimo. Creio que o marxismo nunca foi tão importante como hoje, que é preciso lutar contra a forma extremamente egoística do capitalismo de mercado livre que conduz à miséria e à exploração, bem como à escravização de muitos seres humanos.</p>
<p><strong>Obras completas</strong><br />
Eu tinha a necessidade de publicar tudo sob a forma de &#8220;Obras Completas&#8221;, mesmo as coisas mais fracas, como por exemplo, &#8220;As horas perdidas&#8221;, que deve ser o meu romance mais fraco, escrito ainda antes dos vinte anos. Talvez porque me queria rever por inteiro com as minhas idéias, a minha sensibilidade, com aquilo que fui, com aquilo onde falhei, com aquilo onde acertei.</p>
<p><strong>Família</strong><br />
A Isabel (Fraga) tem mais influência da mãe, embora também tenha algumas marcas do pai. Acho que é uma escritora cheia de talento. Ela é uma escritora como a Maria Judite de Carvalho, um pouco secreta, que não gosta de se expor. Geralmente tenho o privilegio de ser o seu primeiro leitor.</p>
<p><strong>Geração</strong><br />
É curioso, eu não sou surrealista mas sofri uma grande influência do surrealismo francês que li desde muito cedo. O Manuel Gusmão, numa analise à minha escrita, refere elementos surrealistas muito sensíveis, no Alentejo mágico, em a &#8220;Porta dos Limites&#8221;, em muitos textos da &#8220;Noite Roxa&#8221;. Até hoje nunca desapareceram completamente as marcas existencialistas, nem as marcas surrealistas.</p>
<p><strong>Maior escritor português do século XIX</strong><br />
Para mim é o Eça de Queiroz. A omissão de Eça em Teixeira Gomes é fruto de uma moda. Ele o Fialho de Almeida toda essa geração reage contra o Eça. É a vontade de matar o Pai.</p>
<p><strong>Existencialismo e Neo-realismo</strong><br />
Eu regressei a Portugal e comecei a trabalhar como jornalista no Diário de Lisboa. Isso deu-me uma imagem da vida e do poder. O fascismo português repugnava-me. Eu tinha uma ânsia de luta enorme que faz com que escreva livros de resistência que se confundem com o Neo-realismo, um período onde escrevi &#8220;Uma pedrada no Charco&#8221;, &#8220;Os insubmissos&#8221;. No entanto, mesmo nesse período, nunca abandonei características que não são neo-realistas, como a convicção de que não se pode separar o conteúdo da forma, quer dizer, tenho preocupações estéticas ao nível da linguagem que o Neo-realismo nunca teve, ou teve muito pouco. Por outro lado, não tenho um herói colectivo e os meus livros desaguam muitas vezes em zonas muito sombrias. Em relação ao povo tenho quase sempre uma visão subjectiva que não é própria do Neo-Realismo e aparece apenas, em certa medida, em Carlos de Oliveira, que é um Neo-Realista muito sui generis. Nunca cheguei a ser verdadeiramente um Neo-Realista. Fui, sobretudo, um escritor de resistência que, por vezes, se pode confundir com o escritor neo-realista.</p>
<p><strong><img class="alignnone size-full wp-image-5213" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/02/Imagem21.png" alt="" width="299" height="374" /></strong></p>
<p><strong>Estilo</strong><br />
O meu estilo é a mistura do estilo de Teixeira Gomes, um estilo que tem a ver com o decadentismo e o simbolismo, e o Camilo Pessanha que me marcou profundamente e cujo onirismo marcou muito a minha escrita.</p>
<p><strong>Fernando Pessoa</strong><br />
Li muito Fernando Pessoa e interesso-me muito pela sua obra. Não sou dos escritores, como Vasco Graça Moura, que o recusa. Eu, pelo contrario, acho que ele é um pouco o pai de todos nós, em muitas coisas. Não seria o escritor que sou se não tivesse lido Fernando Pessoa. Ele estilhaça a língua portuguesa, sobretudo com o Álvaro Campos.</p>
<p><strong>Prémio Nobel</strong><br />
Se o Saramago não tivesse ganho bem poderia ter sido o António Lobo Antunes. Poderia também ter sido uma poetisa como Sophia de Mello Breyner.</p>
<p><strong>Leituras</strong><br />
No que diz respeito a uma geração mais nova de escritores, gosto muito de ler o José Luis Peixoto e o Possidónio Cachapa. Vejo surgir três escritores muito interessantes que são a Dulce Maria Cardoso, a Maria Antonieta Preto e a Patrícia reis, com talentos diferentes. O Gonçalo M. Tavares, embora não seja da minha família, acho que é um escritor com futuro.</p>
<p><strong>Novo Livro</strong><br />
Um livro de contos inéditos que foram escritos em alturas diferentes da minha vida, ao longo dos últimos anos, e mostram várias maneiras de escrever. Contos realistas, contos de humor trágico, contos mágicos, contos alegóricos. Apostei mais na grande variedade da escrita do que propriamente na unidade. A unidade terá de ser uma procura no meu estilo que percorre um pouco todo o livro.</p>
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		<title>Um jornal que faz serviço público de jornalismo</title>
		<link>http://www.a23online.com/2010/01/26/servico-publico-de-jornalismo/</link>
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		<pubDate>Tue, 26 Jan 2010 14:04:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Paulouro]]></category>
		<category><![CDATA[Fundão]]></category>
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		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Pelejão Marques]]></category>

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		<description><![CDATA[Todas as semanas Fernando Paulouro fecha a edição do "Jornal do Fundão", título que cumpre, hoje dia 27,  64 anos de defesa da liberdade e da região. Voz influente numa Beira à beira da Cova, Fernando Paulouro acredita no jornalismo como expressão de cidadania activa e defende uma das liberdades mais ameaçadas - a liberdade de pensar. À conversa com uma voz que prega num país desertificado, sobretudo, desertificado de ideias.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-4945" title="Fernando Paulouro /A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/Imagem9.png" alt="" width="434" height="323" /><br />
Entrevista de<strong> Rui Pelejão Marques</strong> Fotografias de Pedro Leal Salvado</p>
<p><strong>Todas as semanas Fernando Paulouro fecha a edição do &#8220;Jornal do Fundão&#8221;, título que cumpre mais de 60 anos de defesa da liberdade e da região. Voz influente numa Beira à beira da Cova, Fernando Paulouro acredita no jornalismo como expressão de cidadania activa e defende uma das liberdades mais ameaçadas &#8211; a liberdade de pensar. O Jornal do Fundão cumpre 64 anos. Um velho combatente pela liberdade e pelo desenvolvimento da terra e da região que lhe deu berço. Fernando Paulouro cresceu nesse universo onde a condição humana se eleva a assunto de primeira página. A condição humana na sua expressão local é um laço que nos une no combate pela defesa de um humanismo em derrocada à escala global. Por isso, o director do &#8220;Jornal do Fundão&#8221; acredita num jornalismo de serviço público; ao serviço dos que trabalham e dos que sofrem. Parece palavreado de esquerda E, se não é ao serviço do bem público que o jornalismo anda, então é ao serviço de quem? À conversa com uma voz que prega num país desertificado, sobretudo, desertificado de ideias.<span id="more-4943"></span><br />
</strong></p>
<p><strong>Roubando a pergunta de uma entrevista de Baptista Bastos a Carlos Pinhão &#8211; É a favor ou contra?</strong></p>
<p>Respondo o mesmo que o Carlos Pinhão &#8211; Sou a favor do contra. Escrever é estar contra. Sou a favor do contra, porque aquilo que escrevo não é um apelo à concordância e à unanimidade do rebanho.</p>
<p><strong>E o Jornal do Fundão ainda é do contra, quando ser do contra é ser contra a esquerda?</strong></p>
<p>O JF sempre foi um jornal plural, mas isso não impede uma linha editorial de intervenção. O nosso comprometimento é com a defesa das causas regionais, e independentemente da cor do poder, sempre tivemos razões de queixa. Ainda há pouco tempo publiquei um dos mais violentos artigos contra o primeiro-ministro Sócrates, com quem me dou bem, o que não impede que possa discordar de algumas das suas opções para o nosso país e para a região.</p>
<p><strong>Mas apesar dessa pluralidade do &#8220;contra&#8221; o JF é conotado como um jornal de esquerda, isso é porque o seu director é um homem de esquerda?</strong></p>
<p>Não me demito da opinião na minha &#8220;quinta&#8221; que é um espaço de comentário assinado. Quando foi da campanha para as presidenciais fiz críticas severas a Cavaco Silva, mas a cobertura jornalística e informativa do jornal não é condicionada pela minha opinião.</p>
<p><strong>Mas o Presidente Cavaco hoje parece mais à esquerda, e o primeiro-ministro Sócrates mais à direita, andamos um bocado baralhados&#8230;</strong></p>
<p>Julgo que o primeiro-ministro é um social-democrata, como aliás sempre se reclamou. A social-democracia não é nenhum pecado, um dos erros da esquerda, nomeadamente do Partido Comunista, foi em determinado momento da história ter querido suprimir a social-democracia. Em Portugal é que está tudo baralhado: os que estão do PSD se calhar não são sociais-democratas, mas sim liberais de direita e os que estão no PS se calhar estão mais perto da social-democracia. Quando se diz que as ideologias morreram e que a lógica de esquerda e direita não fazem sentido, está a fazer-se uma conveniente mistificação.</p>
<p><strong>Então o que é ser de esquerda hoje?</strong></p>
<p>Julgo que em larga medida é saber que vivemos num mundo que gera desigualdades sociais, injustiça, exclusão e miséria humana, e para a esquerda combater isso é a primeira prioridade e não a última. ,Dizem que o JF é de esquerda porque sempre foi um jornal sensível aos problemas sociais; porque é um jornal que desde o primeiro número disse que a nossa obrigação é estar com aqueles que trabalham e com aqueles que sofrem.</p>
<p><strong>Sempre nos habituamos a ver no JF um jornal de causas, de batalhas, primeiro pela liberdade, e mais recentemente pelo desenvolvimento regional. Hoje, ao folhearmos o jornal não descortinamos facilmente essas causas, parece que o JF está conformado &#8230;</strong></p>
<p>O problema é que actualmente as causas são mais complexas e diluídas. Aquilo que eram causas muito nítidas da realidade social e regional estão hoje dependentes de organizações de poder mais vastas e impessoais. Temos dúvidas sobre a quem atribuir as responsabilidades das grandes opções políticas, se ao Governo se à Comissão Europeia ou ao Banco Central Europeu. As causas actuais são necessariamente outras, mas temas como o património natural e histórico, o desenvolvimento cultural, ou o Regadio da Cova da Beira continuam a marcar presença no JF. Se calhar temos é de encontrar uma forma diferente de as defender.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-4946" title="Fernando Paulouro /A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/Imagem10.png" alt="" width="432" height="576" /><br />
<strong></strong></p>
<p><strong>A luta contra o encerramento de maternidades e escolas na Beira Interior não é uma causa à medida do JF?</strong></p>
<p>Defender causas da região não é defender que todos os concelhos têm de ter maternidades ou que todas as freguesias têm de ter escolas. O problema da segurança dos partos ou do isolamento das crianças devem sobrepor-se a todas as outras as questões.</p>
<p><strong>O estudo fez capa do Expresso, e dizia que 70 por cento das notícias da imprensa são &#8220;fornecidas&#8221; por agências de comunicação ou assessorias de imprensa. Mesmo a nível local existe uma pressão institucional grande para a prática de um jornalismo de agenda, o JF passa incólume a essa pressão?</strong></p>
<p>Todos os jornais têm tendência a criar rotinas e os jornalistas estão muito dependentes daquilo que é o mundo oficial e dos acontecimentos programados; o próprio poder local já se organiza numa lógica de comunicação política. Os e-mails, faxes e solicitações que chegam diariamente a uma redacção são imensos, mas a tarefa fundamental do jornalista é desde logo seleccionar a realidade e os jornais não podem ficar reféns da agenda institucional e por vezes de um facilitismo mecânico.</p>
<p><strong>Sobretudo quando a nível autárquico o papel das oposições é meramente decorativo, e raras vezes existe verdadeira discussão pública em torno das opções políticas. Um jornal regional tem um papel de esclarecimento público que não se esgota no anúncio oficial?</strong></p>
<p>O poder local foi uma grande conquista, mas hoje em dia não há participação e os poderes são indiferentes às críticas. Fizemos um grande tema no JF mostrando que o Fundão e a Covilhã deviam ter um planeamento comum e deixar de viver de costas voltadas, mas não vi nenhum autarca a manifestar-se, nem para concordar nem para discordar. Julgo que a ideia que tudo isto se resolve de quatro em quatro anos é minimalista. É aí que o jornal deve ter um papel primordial, provavelmente convidando mais pessoas a pronunciarem-se sobre as questões e acabar com as reservas mentais do silêncio e do acatamento cego.</p>
<p><strong>Não falta então ao JF um pouco daquela velha receita &#8211; jornalismo não diz ás pessoas como pensar, mas sim sobre o que devem pensar?</strong></p>
<p>Penso que há uma matriz fundadora e identitária do JF que não se perdeu, e que se renova todos os dias, e essa é precisamente, ser um espaço para a liberdade de pensar, mesmo em tempos em que pensar era proibido. O meu tio, António Paulouro era um homem que gostava de arriscar e andar no fio da navalha; julgo que ao fazê-lo contribuiu para mudar a feição do Fundão em termos políticos. O Fundão era uma terra conservadora e deixou de o ser graças ao percurso de moldagem cívica instigado pelo jornal.</p>
<p><strong>Como é que um jornal de uma pequena cidade do interior percorreu tão longo caminho e chegou tão longe, extravasando as fronteiras &#8220;paroquiais&#8221; que normalmente circunscrevem a imprensa regional?</strong></p>
<p>Há agora uma realidade urbana na região; Castelo Branco deixou de ser uma cidade de guarnição e secretaria como dizia o Torga, a Covilhã é uma cidade universitária e o Fundão agora é uma cidade, mas quando o JF foi fundado em 1946, o Fundão era apenas uma pequena vila. O que é espantoso no jornal é que cresceu acima da dimensão da terra. António Paulouro era um homem inquieto e culturalmente aberto que via mais à frente, moldando o carácter e o caminho do JF. Depois houve um trabalho colectivo com contributos geracionais diversos que levam o jornal a alargar fronteiras, a chegar ao Brasil, a Espanha, às comunidades portuguesas. Penso que essa universalidade de raiz local se deve a dois factores: Primeiro porque a matriz identitária do jornal é a do território, e segundo porque procuramos que a informação tenha uma projecção global. Mesmo as causas que são daqui têm uma leitura mais vasta e o que acontece nas Minas da Panasqueira tem paralelo noutras região mineiras; o que acontece na nossa emigração não é diferente do que acontece com outras zonas de emigração; e o que acontece na cultura é comum a outras realidades arteriais. O trabalho do jornalista é saber perceber a condição humana e o tema central do JF sempre foi a condição humana, que não se extingue na fronteira da nossa região.</p>
<p><span style="color: #808080;"><strong>Desenvolvimento Regional</strong></span></p>
<p><strong>Quais é que são hoje as bandeiras do Jornal do Fundão?</strong></p>
<p>Uma causa que me tenho batido é para ver se há um planeamento e uma articulação entre os eixos urbanos mais importantes da região e que a cultura que tem de ter uma rede regional de equipamentos. Estou farto de bater nessas teclas.</p>
<p><strong>As Jornadas da Beira Interior que o Jornal do Fundão organizou deu ao Jornal do Fundão uma vocação regionalista ao jornal?</strong></p>
<p>O exemplo das jornadas da Beira Interior consubstancia muito isso, se virmos isso antecipamos a discussão sobre a cooperação transfronteiriça, já nessa altura tivemos como um dos temas &#8211; a raia traço de união. Nós fizemos três jornadas, e o director dizia na altura que agora há universidades e politécnicos, devem ser eles a fazê-las, até porque na altura o reitor da UBI onde se realizaram as últimas jornadas, o Prof. Passos Morgado, numa sessão onde estavam professores universitários portugueses e estrangeiros e alguns figuras centrais da intelectualidade portuguesa, desde o Gomes Canotilho ao Eduardo Lourenço, mandou dizer esta coisa no papel que foi lido, que as universidades deviam estar a recato dessas coisas, que agora havia hotéis, que isso podia estragar as universidades. A verdade é que a partir de então nunca mais se fizeram jornadas com aquela magnitude, e o jornal fê-lo sem meios.</p>
<p><strong>Qual é o grande travão a uma lógica de planeamento regional?</strong></p>
<p>São os votos. Cada presidente da câmara administra o seu colégio eleitoral. Bati-me pela regionalização, como é que se explica que fossem os próprios eleitores de regiões como a Guarda e de Castelo Branco a dizer que não queriam regionalização, que estavam bem sob a para do centralismo?<br />
A hipocrisia e a má consciência que há sobre a regionalização é uma coisa tremenda, porque mesmo os governos que recusaram a regionalização diziam que era preciso fazer outra coisa, e fez-se a Comurbeiras que é um modelo territorial perfeitamente anedótico, o Fundão está com Castelo Branco, a Covilhã está com a Guarda.</p>
<p><strong>E o mapa das cinco regiões?</strong></p>
<p>É uma homenagem que se está a fazer ao Marcelo Caetano, porque foi ele o criador dessa teoria, e quando de certa maneira são os netos do Marcelo que estão no poder, sempre é uma forma de materializar um projecto que depois foi metido na gaveta. Agora não tenho nada contra cinco regiões-plano, mas depois como é que isso vai evoluir, vão-se apenas alterar as centralidades. Que raio de país é este em que o gabinete de estudos transfronteiriço tem de estar em Coimbra, quando os interlocutores estão aqui ao pé de Castelo Branco de da Guarda. As grandes causas são o desemprego, as desigualdades sociais, o problema das periferias, e as sucessivas periferias que se vão agravando. E um causa interessante é que futuro para o mundo rural? Essas são causas permanentes no JF, sobre as quais nos debatemos e lançamos interrogações todas as semanas.</p>
<p><strong><span style="color: #808080;">Ligação à terra</span></strong></p>
<p><strong>Está ligado umbilicalmente ao JF há mais de 40 anos, nunca pensou cortar o cordão umbilical?</strong></p>
<p>Naquela época o jornalismo impunha-se como uma tarefa cívica. Além disso o jornal tinha outra vertente que pessoalmente me atraía, já que me dava oportunidades de contactar e criar laços com pessoas como o João Cabral de Melo Neto, ou conversar com o Erico Veríssimo e ele assinar-me no livro &#8220;com muitas felicidade na sua futura carreira&#8221;. Farta recompensa foi já o facto de ter estabelecido uma amizade grande com o José Cardoso Pires, que conversava comigo sobre coisas que eu escrevia, o que era muito gratificante. Depois houve outro aspecto importante, já que eu era militante do Partido Comunista na clandestinidade, e a minha actividade aqui era útil. Ao longo dos anos houve vário projectos e oportunidades de ir para Lisboa, mas eu sempre, achei que, como dizia o Manuel Alegre noutro contexto, &#8220;ás vezes a verdadeira aventura é ficar&#8221;.</p>
<p><strong>A entrada da Lusomundo no capital do JF suscitou alguma preocupação entre os leitores, que temiam que uma visão puramente empresarial e orientada para o lucro viesse descaracterizar o jornal&#8230;</strong></p>
<p>O modelo de sociedade configurado na Europa é um modelo que aponta para a concentração de meios e de empresas, e por isso a velha ideia romântica ligada ao jornal de antigamente, tal como se configurava em torno de António Paulouro dificilmente sobreviveria no ambiente de competição económica que se vive hoje. O JF foi um projecto muito exigente e pouco compensador do ponto de vista económico, mas a que o meu tio nunca virou costas, mesmo com sacrifício pessoal. Julgo que hoje isso é impossível, o jornal tem de ser gerido empresarialmente. Aceito perfeitamente que as pessoas possam discordar, mas parece-me que a identidade e o património afectivo que o JF construiu ao longo de 60 anos são também valores interessantes para quem é proprietário de um meio de comunicação social.</p>
<p><strong>Mais do que contra-poder o jornalismo é hoje outra forma de poder&#8230;</strong></p>
<p>A lógica da divisão dos poderes desmoronou aquilo que era o edifício clássico a partir do momento em que o poder económico ganhou ascendente. O Pepe Montalban de quem tenho grandes saudades, dizia &#8220;não obriguem o jornalista a ser herói todos os dias, não tem de atirar-se de pára-quedas sobre o Laos&#8221;, e dizia-o porque vivemos um tempo em que todos dão conselhos. A magistratura do conselho está instalada desde os cardeais, os políticos e até o Papa do conselho, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, todos eles têm conselhos a dar sobre as boas práticas do jornalismo. Somos confrontados com a diluição dos poderes, os jornais estão envolvidos nisso porque pertencem ao poder económico.</p>
<p><strong>Mas cada vez mais o jornalismo está orientado para resultados e pela pressão das audiências, isso não desvirtua o seu importante papel social?</strong></p>
<p>Considero que o jornalismo é um serviço público e por isso deve ser um contra-poder. Mas essa ideia está a ser combatida todos os dias pela realidade. Mesmo professores de jornalismo andam a papaguear pelas universidades que isso do &#8220;contra-poder&#8221; já não se usa, sacralizando a objectividade e a neutralidade, quando o que eles querem é uma neutralidade útil.</p>
<p><strong>O seu &#8220;serviço público&#8221; e exercício de cidadania passa exclusivamente pela escrita, ou admite um regresso à política?</strong></p>
<p>A política é um assunto completamente arrumado. Neste momento o meu envolvimento é puramente cívico. Felizmente penso muitas vezes em voz alta e dou o meu testemunho que é apenas isso, um testemunho.</p>
<p><strong><span style="color: #808080;">Novos projectos literários</span></strong></p>
<p><strong>A produção escrita de Fernando Paulouro não se esgota no jornalismo como autor e pensador tem publicado ficção. O que o seduz na literatura?</strong></p>
<p>Seduz-me uma ficção muito assente em personagens reais e em situações que apesar de recriadas têm uma sustentabilidade real, porque nenhuma imaginação é mais criadora do que a experiência. Apaixona-me essa reelaboração da memória .Depois de algumas incursões pela dramaturgia, com uma peça escrita para o GICC Teatro das Beiras e também com um livro-reportagem a duas mãos (com Daniel Reis) sobre as Minas da Panasqueira. Tenho muito projectos, podia-me aposentar já hoje. Queria reunir um conjunto de crónicas publicadas no JF, depois tenho em mãos um projecto que era para ser mais um conjunto de contos, mas que está a evoluir para uma novela em que a acção e personagens têm como espaço narrativo um café e o seu largo fronteiro. Finalmente pretendo reeditar o livro das Minas, e comparar à distância de 30 anos, a realidade original com que ali nos deparamos, depois daquele final em que o mineiro dizia após a derradeira greve &#8211; &#8220;ganhámos!&#8221;</p>
<p>Neste roteiro pessoal para a revisitação da memória falta o fôlego de um romance, mas Fernando Paulouro reconhece que &#8220;a produção de um romance exige distanciamento e alguma solidão para poder escrever, e isso não se compadece com o ritmo do jornal. Tenho um bocado aquela ideia do poema do Ungaretti em que um tipo dizia que viver é roubar horas à morte, e a minha forma de envolver na ficção é pura e simplesmente isso.&#8221;</p>
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		<title>Manuel António Pina: &#8221; Suspeito dos que têm constantemente a boca cheia de ética&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 12:14:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clico Manuel António Pina]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista a Manuel António Pina]]></category>
		<category><![CDATA[Manuel António Pina]]></category>
		<category><![CDATA[TMG]]></category>

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		<description><![CDATA[A Câmara Municipal da Guarda, o TMG e o CEI promovem a partir de Domingo um Ciclo dedicado à obra de Manuel António Pina. Considerado uma das mais importantes figuras da literatura portuguesa, Nome respeitadíssimo do jornalismo é cronista de ironia subtil e inquieta. A A23 dedica-lhe hoje uma grande entrevista.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_4650" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><img class="size-full wp-image-4650" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/02-Pina©IPLB_LuísaFerreira.jpg" alt="" width="460" height="304" /><p class="wp-caption-text">Fotografia de Luísa Ferreira</p></div>
<p>Manuel António Pina é considerado uma das mais importantes figuras da literatura portuguesa. Recebeu vários prémios, nacionais e internacionais, designadamente o Prémio da Crítica da Associação Internacional de Críticos Literários, atribuído à globalidade da sua obra poética. Nome respeitadíssimo do jornalismo, é cronista de ironia subtil e inquieta. Entrevista conduzida por <strong>Ricardo Paulouro</strong></p>
<p><span id="more-4649"></span></p>
<p><strong>A23 &#8211; Manuel António Pina é um autor multifacetado. Escreve poesia, prosa, literatura infantil e é jornalista. Como é que consegue conviver com tudo isto?</strong><strong><br />
</strong>Perfeitamente e sem conflitos de maior. No fundo, trata-se de vozes de uma mesma voz, por vezes incoerentes entre si (mas não é a incoerência humana, demasiadamente humana?), mas, em geral, coincidentes. Às vezes digo que o jornalismo me serve para ganhar a vida e a literatura para tentar salvá-la. O que quer que salvar a vida isso signifique, uma coisa sei: salvar a vida, como no poema de Fernando Lemos, não é aprender a nadar. Mas já me aconteceu escrever literatura, ou lá o que é, para ganhar a vida, e o jornalismo, em certos momentos, também talvez possa ser da ordem da salvação, se feito em harmonia, sem concessões, com aquilo que somos. Acho que em uma ou outra das minhas crónicas – mas as crónicas estão a meio caminho entre jornalismo e literatura, são jornalismo com saudades da literatura e literatura com remorsos de ser jornalismo – estive próximo de algo parecido.</p>
<p><strong>O jornalismo pode aprender alguma coisa com a literatura?</strong><strong><br />
</strong>O que de fundamental o jornalismo tem a aprender com a literatura é o valor das palavras, que as palavras não apenas malas que transportam sentido ou se limitam a repetir o mundo. De facto, as palavras não só dizem como fazem o mundo, <em>convocam</em> o mundo. Ao mesmo tempo, são forma, isto é, o que se diz é sempre o modo como se diz. As palavras têm vida própria, independente da daquele que escreve; há palavras que se amam, outras que apenas se toleram entre si, outras ainda capazes das piores tropelias se imprudentemente deixadas juntas com algumas das suas semelhantes. Por fim, as palavras são seres volúveis, que é preciso pastorear distantemente, sem autoritarismo nem permissividade (como naquele título de Alexandre O’Neill, em regime de “abandono vigiado”), deixá-las ir indo, conduzindo-as sem que elas se sintam excessivamente constrangidas; porque, se não, tanto podem pôr-se a falar sozinhas como simplesmente calar-se. Dito de outro modo, há que confiar nas palavras e deixá-las viver a sua vida, mesmo se não permitindo (que diabo, jornalismo não é literatura) que a sua vida atropele a nossa. O que de mais importante o jornalismo tem a aprender com a literatura é, no fundo, o respeito pelas palavras.</p>
<p><strong>E a literatura com o jornalismo?</strong><strong><br />
</strong>A principal lição que o jornalismo dá à literatura é a da humildade. Os velhos tipógrafos diziam dos jornais que, no dia seguinte, só serviam para embrulhar peixe. Também a literatura, por muito que alguns escritores queiram acreditar no contrário, no dia seguinte serve só para embrulhar peixe, no dia seguinte ou no ano, década ou século seguintes. Vistos a distância suficiente, não há diferença substantiva entre um dia e um século, tudo tende irremediavelmente para o esquecimento e nem o jornalismo nem a literatura podem nada contra isso. Por outro lado, o jornalismo vive permanentemente no fio da navalha de inúmeros constrangimentos, de espaço, de tempo, das suas <em>legis artis</em>, dos processos de organização e trabalho. Mais ainda: uma peça jornalística, antes de chegar ao público, passa frequentemente por muitas mãos, e nem sempre para bem dela e da sua integridade. Ora não há – digo-o muitas vezes – nada mais libertador que um bom constrangimento. Os escritores têm tendência a sacralizar aquilo que escrevem, como se estivessem permanentemente diante da eternidade. No jornalismo aprende-se todos os dias que nada do que escrevemos tem mais importância que outra coisa qualquer, que a eternidade não existe e que nenhuma palavra, mesmo a mais útil ou a mais bela, é suficientemente sagrada para merecer permanecer.</p>
<p><strong>Escreve uma crónica por dia no JN. Não é um trabalho árduo e cheio de ansiedade?</strong><strong><br />
</strong>É um exercício diário de servidão. Tenho que ter (sou pago para isso) diariamente opinião, eu que, espontaneamente, nem uma vez por ano tenho uma opinião! As minhas crónicas do JN – e esta questão liga-se ainda com a resposta à questão anterior – não podem ter mais que 1 100 caracteres, espaços incluídos, e o título tem que ter duas linhas, cada uma com um máximo de 13 caracteres. Normalmente, escrevo muitos mais, e a principal fatia de tempo que gasto com cada crónica é a cortar caracteres, palavras, frases, períodos inteiros para, como se diz na gíria, fazer o morto à medida do caixão. Às vezes, antes de iniciar essa tarefa, fico deprimido, parece-me que será impossível fazê-lo, quase tudo o que escrevi se me afigura imprescindível. Não é, aprendo-o todos os dias. Nada é imprescindível (lá está a lição diária de humildade de que falava antes), mesmo que umas coisas sejam mais prescindíveis que outras. E quantas vezes, no decurso desse trabalho, “ganhando” um caracter aqui, outro acolá, desistindo definitivamente de uma expressão ou de uma frase, chego a caminhos de forma e sentido distintos dos iniciais! Como se a escrita, até a de uma simples crónica de jornal, se regesse por leis próprias e constantemente me dissesse: vamos por aqui. O que, ao longo de tantos anos a escrever crónicas, e com tantas e tão diferentes limitações, fui descobrindo é que o processo mais eficaz de escrevê-las é deixá-las irem-se escrevendo a si mesmas, mesmo que com a minha ajuda. As que sinto que me saem melhor são aquelas em que a minha ajuda é quase só a primeira frase. Quando, um pouco à maneira do que Valéry diz do processo poético (que o primeiro verso é dado e os restantes têm que ser conquistados) dou à crónica a primeira frase e, depois, ela conquista as seguintes. Para, como na velha canção de Tom Jobim, tudo se acabar na quarta-feira, que é como quem diz no dia seguinte. E recomeçar de novo. Depois há a questão do ritmo. Eu sou, como cronista, um corredor de meio fundo, e as crónicas do JN são provas de velocidade, não posso corrê-las com, por exemplo, o mesmo ritmo das crónicas que escrevia na “Visão (3 500 caracteres) ou as que agora escrevo na “Notícias Magazine” (3 000). Aos poucos, e contra os meus ritmos naturais, acabei por me rotinar na distância curta das crónicas do JN, e nem calcula como agora, de 15 em 15 dias, me custa já adaptar-me ao ritmo das crónicas mais longas da NM…</p>
<p><strong></p>
<div id="attachment_4652" class="wp-caption alignnone" style="width: 470px"><strong><img class="size-full wp-image-4652" title="01 Pina©IPLB_LuísaFerreira" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2010/01/01-Pina©IPLB_LuísaFerreira1.jpg" alt="" width="460" height="447" /></strong><p class="wp-caption-text">Fotografia de Luísa Ferreira</p></div>
<p>Tem sempre um tema para escrever?</strong><strong><br />
</strong>Tenho que ter. E, se não tenho, tenho que inventá-lo. Leio jornais, blogues, sei lá que mais. Às 23 horas, no máximo, a crónica tem que estar na redacção, tenha eu assunto ou não. Às vezes parece-me um milagre diário, conseguir descarregar tal defunto. Já pensei em pôr um anúncio a dizer que compro temas…</p>
<p><strong>É natural do Sabugal, onde foi recentemente homenageado. Que memórias guarda do Sabugal?</strong><strong><br />
</strong>Poucas, e provavelmente apenas falsas memórias, de coisas que minha mãe me contou e que hoje sinto como se as recordasse eu. A memória é uma narrativa que construímos do nosso passado, e quem não tem cão caça com gato. Não tendo (provavelmente) memórias directas, pois que saí do Sabugal com poucos anos de idade (talvez três, talvez quatro ou cinco), construí a minha memória sobre a memória de minha mãe. Lembro-me, no entanto, de uma fonte de mergulho diante da casa de meus avós para onde, um dia, outro miúdo atirou o meu chapéu de palha. Deve ser uma memória real, porque imaginava essa fonte como tendo um grande tamanho, aí uns seis ou sete metros de diâmetro, e afinal, constatei-o quando recentemente lá voltei, tem pouco mais de metro e meio. Ou então fui eu que entretanto cresci…</p>
<p><strong>Como é que viveu essa homenagem?</strong><strong><br />
</strong>Como um regresso. Não só aos lugares da infância (e como precisamos todos de lugares da infância!) mas também como um regresso à proximidade e ao amor maternal, e a uma nebulosa identidade que é provavelmente, mas que sei eu?, a minha. A amizade e a generosidade das pessoas do Sabugal que organizaram a tal homenagem fizeram-me experimentar algo inestimável e raro: o sentimento de, depois de uma peregrinação interminável, estar de novo em casa, sob um tecto por fim. Isso não se compra com dinheiro nenhum. Nem se paga, pelo que terei que ficar para sempre devedor dessas pessoas.</p>
<p><strong>Um dos seus poemas, de 1984, tem como título &#8220;O caminho de casa&#8221;. Esse foi um caminho reencontrado?</strong><strong><br />
</strong>Talvez por, em virtude da profissão de meu pai, ter durante toda a minha vida perdido casas (e rostos, e nomes, e lembranças), a ideia de regresso é um dos temas recorrentes da minha poesia. Mesmo o tema da morte é, parece-me, também fundamentalmente o do regresso, regresso ao calor do ventre da terra, isto é, da mãe. Num outro poema meu (que diabo, também sou um leitor daquilo que escrevo) há o seguinte verso: “Faz frio como num parto”. É ainda, acho eu, o sentimento do desconforto da existência fora de casa, fora <em>da</em> casa. Como não haveria a minha poesia de falar tanto de regressos? Senti a homenagem no Sabugal como um regresso, sim; talvez não ainda <em>o</em> regresso, mas, provisório e efémero, um regresso.</p>
<p><strong>O que encontrou numa cidade como o Porto?</strong><strong><br />
</strong>Um lugar, enfim, de repouso. Depois de toda a infância e adolescência constantemente a partir, finalmente, <em>fiquei</em>. Cheguei ao Porto aos 17 anos, aqui construí uma casa, aqui fiz amigos, aqui conheci minha mulher, aqui nasceram as minhas filhas, aqui, aos poucos, me fui construindo também a mim mesmo. Por isso costumo dizer que me nasci a mim mesmo no Porto. E no Porto, provavelmente, morrerei um dia.</p>
<p><strong>Entre os seus autores preferidos, dá relevo a Borges. Porquê?</strong><strong><br />
</strong>À ficção e ensaísmo de Borges, sim; menos à sua poesia, se bem que certos poemas – curiosamente os mais afins da sua ficção – me tenham também marcado muito. Porquê é mais difícil dizê-lo. Amamos principalmente aquilo que se nos assemelha; talvez, quem sabe? (eu não sei), algures eu seja parecido – ou lá o que for – com a literatura especular de Borges, talvez haja na literatura de algo onde o meu desejo e o meu medo se revejam.</p>
<p><strong>Outro ícone indispensável é Fernando Pessoa. O seu diálogo com ele é permanente?</strong><strong><br />
</strong>Não. Foi muito intenso na adolescência, nas velhas edições da Ática. Ganhei, no Liceu de Aveiro, uns prémios literários em dinheiro que tinha que ser gasto em livros. Escolhi, além das obras completas de Eça de Queirós, “A velha casa”, de Régio, e a maior parte da obra de Pessoa até então publicada. Excepto o Eça, ainda guardo todos esses livros, que li repetidamente (sei muitos poemas desses livros, principalmente do Pessoa ortónimo, de cor). Hoje sou um leitor bissexto de Pessoa. Tenho medo dele, sou muito vulnerável e transformo-me facilmente na coisa amada. Pessoa tem uma imensa força de gravidade, receio talvez – já me tenho perguntado porque deixei de ler Pessoa – esmagar-me contra a sua superfície. E isso não me acontece só com Pessoa, acontece-me com outros grandes poetas, sinto confusamente que tenho que me proteger deles.</p>
<p><strong>Voltemos à sua obra poética. Considera que nela existem temas obsessivos (como a morte, a casa, a mulher do poeta, os gatos, as lembranças&#8230;)?</strong><strong><br />
</strong>E os livros… É óbvio que sim. A poesia escreve-se com a memória, e é natural que os centros de gravidade da minha memória sejam também os da minha poesia (juntamente com a consciência desse facto). Memória é tudo o que somos, memória e palavras. E a poesia, pelo menos a minha, escreve-se com aquilo de que somos mais fundamente feitos e desfeitos. Reparo na lista que enumera e penso que todos esses temas são, talvez, um só: a casa, aquilo que, noutro poema, chamo de “um sítio onde pousar a cabeça”. É talvez isso o que a minha poesia procura ser, um sítio onde pousar a cabeça.</p>
<p><strong>Poderemos então afirmar que a sua poesia é um permanente questionamento da vida e do tempo?</strong><strong> </strong><br />
E que poesia não é? Da vida, isto é, do amor e da morte, e do tempo, “esse país estrangeiro” (lá estou a citar-me outra vez, desculpe).</p>
<p><strong>Às tantas, a meio de uma frase metafísica, ri. O riso é assim tão importante para a sua poesia?</strong><strong><br />
</strong>Bataille diz, salvo erro em “Madame Edwarda”: “Ris-te porque tens medo”. Talvez seja medo, ou talvez necessidade de me separar criticamente do que, num dado momento, digo, ou de me questionar se não estou a levar-me (pecado contra a razão) excessivamente a sério.</p>
<p><strong>Que poetas portugueses admira?</strong><strong><br />
</strong>A Cesário, Camilo Pessanha, Pessoa, Alexandre O’Neill, Ruy Belo, Fernando Assis Pacheco, Eugénio, Cesariny e mais que, por algum motivo, pressinto como sendo da minha família, amo-os. Admirar é algo diferente, há poetas que reconheço como poetas maiores, mas que não me são, ou, como o Herberto do poema II do ciclo “Fonte”(e outros poemas ainda), são apenas ocasionalmente, consanguíneos.</p>
<p><strong>Acha que ainda há poetas satíricos em Portugal?</strong><strong><br />
</strong>Quase todos mortos, mas vai havendo…</p>
<p><strong>Os gatos são muito importantes na sua obra. Quantos gatos tem actualmente?</strong><strong><br />
</strong>Em tempos, antes da lei celerada de Durão Barroso que proíbe ter mais de quatro, tive 13. Hoje tenho mais do que um e menos que 10…</p>
<p><strong>Manuel António Pina, jornalista e escritor, tem, no tempo actual, ou acha que deve ter, uma atitude ética em relação ao país todos os dias?</strong><strong><br />
</strong>Normalmente desconfio da ética e suspeito dos que têm constantemente a boca cheia de ética, porque frequentemente têm o coração (já nem digo as mãos) sujo. É outra coisa que não se compra nem se vende, a ética; há quem tenha “uma atitude ética em relação ao país de todos os dias”, e quem não tenha (e, pior, sem sequer saber que não tem), e pouco há a fazer quanto a isso. Como Diderot diz, “ah, Madame, que la morale des aveugles est différente de la notre”. Depois há a coragem; eu não sou uma pessoa corajosa, falo é talvez de mais. Mas o silêncio, em tempos de tantas palavras, pode também ser, e é-o muitas vezes, uma atitude ética, e a conversa fiada nem sempre o é. Não me leve, pois, a mal se prefiro não responder a esta questão. A atitude ética ou a falta dela é sobretudo, acho eu, uma questão que cada um tem consigo mesmo (e que se põe quando estamos sós connosco, os que são capazes, por um momento que seja, ficar sós consigo mesmos) e não algo com que se ande na lapela.</p>
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		<title>Entrevista a Francisco Louçã: &#8220;O Sahara deve ser uma nação independente&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Dec 2009 03:26:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Bloco de Esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Louçã]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Paulouro]]></category>
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		<description><![CDATA[O Bloco de Esquerda questionou o governo sobre os esforços diplomáticos  realizados para a concretização do processo de descolonização do Sahara Ocidental, que perdura há mais de 35 anos . Em entrevista à A23 Francisco Louçã afirma que a &#8220;UE tem tido uma posição hipócrita em relação à questão do povo Saharau&#8221;. Entrevista de Ricardo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-3361" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/12/Imagem23.png" alt="" width="461" height="304" /></p>
<p>O Bloco de Esquerda questionou o governo sobre os esforços diplomáticos  realizados para a concretização do processo de descolonização do Sahara Ocidental, que perdura há mais de 35 anos . Em entrevista à A23 Francisco Louçã afirma que a &#8220;UE tem tido uma posição hipócrita em relação à questão do povo Saharau&#8221;.<span id="more-3359"></span></p>
<p>Entrevista de <strong>Ricardo Paulouro</strong></p>
<p><strong>A23: Qual a posição do Bloco de Esquerda em relação ao conflito no Sahara Ocidental e aos cerca de 200.000 mil refugiados Saharaui a viver há 34 anos em campos de refugiados na região de Tindouf? </strong></p>
<p><strong>Francisco Louçã -</strong> O Bloco de Esquerda sempre se associou  às resoluções internacionais e à defesa da independência do Sahara Ocidental. Parece-nos que é um direito irrecusável à existência de um estado que corresponde a uma nação.</p>
<p><strong>A23: O Bloco de Esquerda tem criticado o posicionamento do estado português relativamente a esta questão. Porquê?</strong></p>
<p><strong>F.L</strong>.- O estado português tem tido uma posição entre o silêncioso e o cúmplice com a Espanha e Marrocos e tem tido uma atitude de grande ignorância em relação às exigências de independência e de respeito. O que é estranho, dado que Portugal estava nesse período envolvido no apoio à independência de Timor Leste, com um critério que só pode ser obviamente o mesmo.</p>
<p><strong>A23: Qual a resposta e justificação do Estado face a estas críticas?</strong></p>
<p><strong>F.L-</strong>Tem variado muito ao longo do tempo mas é evidentemente uma questão que a diplomacia portuguesa procura menorizar e procura até ignorar, pelas pressões das relações europeias, sobretudo, relações ibéricas.</p>
<p><strong>A23: Os múltiplos acordos de pesca entre a UE e Marrocos contemplam o uso de águas, por direito pertencentes ao Sahara Ocidental, para exploração por parte dos países membros. Considera que a UE tem tido uma posição hipócrita em relação à questão do povo Saharaui? </strong></p>
<p><strong>F.L.- </strong>Sim, não há dúvida nenhuma. Os acordos de pesca são, ao que conheço, a actividade económica mais importante em que se tem explorado os recursos do que deveria ser um Sahara indepedente. Há um interesse económico muito forte de Marrocos em intensificar esta relação com a UE para normalizar e até banalizar a sua presença no território.</p>
<p><strong>A23: Nas últimas eleições europeias, o Bloco de Esquerda triplicou a sua influência eleitoral. Faz parte da agenda política do Bloco de Esquerda alertar os países membros para a causa Saharaui? </strong></p>
<p><strong>F.L.-</strong>Temo-lo feito sempre não só no Parlamento Europeu, como na Assembleia da República. A Ana Drago representou o Bloco de Esquerda numa delegação que esteve no Sahara Ocidental numa reunião promovida pela Frente Polisário. Nós temos uma relação muito intensa com a Frente Polisário que se tem feito representar nas nossas convenções e temos acompanhado com muito cuidado e preocupação todo o seu trabalho de diplomacia internacional. É uma questão que continuaremos sempre a seguir porque nos parece que é um critério muito importante, até do ponto de vista de Portugal, do ponto de vista das relações de Portugal com Espanha, do ponto de vista das relações de Portugal com o Mediterrâneo em geral e com  África, em termos genéricos.</p>
<p><strong>A23: Na sua opinião, quais são as medidas necessárias para se chegar à resolução definitiva deste conflito?</strong></p>
<p><strong>F.L.-</strong>É preciso concretizar as resoluções anteriores das Nações Unidas no sentido de perimtir a escolha livre do povo Sarahui para poder estabelecer a sua independência e as suas regras de organização pública.</p>
<p><object classid="clsid:02bf25d5-8c17-4b23-bc80-d3488abddc6b" width="100" height="100" codebase="http://www.apple.com/qtactivex/qtplugin.cab#version=6,0,2,0"><param name="autoplay" value="false" /><param name="src" value="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Francisco-Louçã-2.mp3" /><embed type="video/quicktime" width="100" height="100" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Francisco-Louçã-2.mp3" autoplay="false"></embed></object></p>
<p>Entrevista publicada na revista A23 nº6</p>
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		<title>Rodrigo Leão: “A minha forma de trabalhar é muito intuitiva”</title>
		<link>http://www.a23online.com/2009/11/13/rodrigo-leao-%e2%80%9ca-minha-forma-de-trabalhar-e-muito-intuitiva%e2%80%9d/</link>
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		<pubDate>Fri, 13 Nov 2009 15:49:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA["Mãe" de Rodrogo Leão]]></category>
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		<category><![CDATA[Guarda]]></category>
		<category><![CDATA[Rodrigo Leão]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro Municipal da Guarda]]></category>

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		<description><![CDATA[Rodrigo Leão subiu este sábado ao palco do TMG. Uns dizem que a sua música é melancólica, mas para outros ela é solar. Composto, sobretudo, para vozes masculinas, este álbum conta com a participação de nomes como Stuart Staples, Neil Hannon e Daniel Melingo.  Mãe mostra como a música é partilhada pela poesia e pelo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-2466" title="Imagem15" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Imagem152.png" alt="Imagem15" width="460" height="300" />Rodrigo Leão subiu este sábado ao palco do TMG. Uns dizem que a sua música é melancólica, mas para outros ela é solar. Composto, sobretudo, para vozes masculinas, este álbum conta com a participação de nomes como Stuart Staples, Neil Hannon e Daniel Melingo. <em> Mãe</em> mostra como a música é partilhada pela poesia e pelo cinema, numa linguagem universal que se espalha pelo mundo<strong>. </strong>Texto de<strong> Alcides Parreira<span id="more-2464"></span></strong></p>
<p><strong>A23: A sua carreira musical, de uma forma mais activa, começou no início da década de 80 com os Sétima Legião. Como era o panorama musical português nessa época?</strong></p>
<p>Rodrigo Leão &#8211; Era muito diferente do que é actualmente. Mas o início dos anos 80 continua a ser uma data muito importante para mim, que guardo com muito carinho. O início da Sétima Legião em 1982&#8230; Já passaram muitos anos, mas quando penso nisso, fica tudo mais perto da memória, há influências que continuam a estar muito presentes. Quase as mesmas que existiam há 30 anos, quando éramos um grupo de amigos</p>
<p>que queriam fazer música, sem terem uma escola ou uma técnica definida, mas com uma vontade enorme de fazer algo, por muito simples que fosse. E foi aí que tudo começou&#8230; É evidente que na altura existiam menos grupos, menos locais para as bandas poderem tocar, por isso, de alguma forma, era talvez tudo um pouco mais fácil. Hoje em dia há muito a acontecer em várias vertentes, é muito diferente&#8230;</p>
<p><strong>Em relação ao acesso a outros músicos, a outros projectos, actualmente com a internet é algo muito fácil. Como músico e pessoa interessada em música, como selecciona aquilo que ouve?</strong></p>
<p>Ouço muito pouca música. Até uma certa altura ouvi, mas nos últimos 20 anos estou mais preocupado com o quero fazer, com as melodias, ando à procura das minhas músicas. Claro, tenho alguns amigos que me mostram coisas que se vão fazendo actualmente e sabe-me bem ouvi-las, mas não tenho a curiosidade que muita gente tem, para ouvir a maioria do que se faz hoje em dia. Por um lado, há um excesso de oferta, mas também uma comunicação inacreditável através da internet entre os músicos. No meu último disco, tive a oportunidade de trabalhar com três músicos de sítios muito diferentes. Envio-lhes uma maquete, e no dia seguinte eles enviam-ma de volta, já com algumas letras e vozes em cima daquilo que fiz. Há 20 anos era</p>
<p>impossível isso acontecer. É muito estimulante, termos um contacto tão próximo entre diferentes culturas, apesar da distância. Temos todos a ganhar com essa situação.</p>
<p><strong>No início da sua carreira, alguma vez pensou chegar ao reconhecimento crítico de que goza actualmente?</strong></p>
<p>Não&#8230; Mas falta-me ainda fazer muito, tanto em termos de colaborações como de discos. Quando deixei os Madredeus há mais de 10 anos, nunca pensei que pudesse lançar tantos álbuns, como fiz até hoje. Claro que o meu objectivo era fazer música, como sempre foi. Acho que, provavelmente, tive alguma “sorte”&#8230;<img class="alignleft size-full wp-image-2470" title="Rodrigo Leão " src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Imagem181.png" alt="Rodrigo Leão " width="450" height="293" /></p>
<p><strong>Os projectos em que esteve envolvido, como os Sétima Legião, os Madredeus, e agora a solo, fogem ao chamado “mainstream”, ao tipo de música considerada mais comercial. Porquê esta opção?</strong></p>
<p>Tivemos sempre a sorte de fazer exactamente aquilo que queríamos, e nunca nos passou pela cabeça fazer algo de diferente. Isto, independentemente de querermos vender. Mas o resultado poderia ter sido diferente&#8230;</p>
<p><strong>Com os Madredeus deu-se a internacionalização comercial, a entrada em mercados estrangeiros. Na sua opinião, o que permitiu esse salto?</strong></p>
<p>Essa época continua a ser uma das alturas mais importantes da minha vida. O contacto</p>
<p>com pessoas diferentes, músicos diferentes, a descoberta de países onde nunca tínhamos estado, foi importantíssimo para nós enquanto músicos e enquanto pessoas. Foi muito gratificante para todos nós, penso eu.</p>
<p><strong>Após a sua saída dos Madredeus, tanto o EP como os dois álbuns que lançou posteriormente, têm títulos em latim. Qual foi o motivo dessa escolha?</strong></p>
<p>Na altura, a maior parte da música que estava a criar era instrumental. Não quis fazer</p>
<p>o mesmo que nos Sétima Legião ou nos Madredeus, em que a utilização da língua</p>
<p>portuguesa era muito importante. Para mim, o latim tinha a ver com alguns dos instrumentos que utilizava na altura, era uma língua que as pessoas não iriam necessariamente perceber, concentrando-se por isso completamente na parte musical.</p>
<p><strong>A maioria das vozes que marcam presença nos seus trabalhos a solo é feminina. É algo propositado?</strong></p>
<p>Penso que isso aconteceu por acaso. A minha forma de trabalhar é muito intuitiva.</p>
<p>Tento construir as músicas e não sei no início, se irão ser cantadas, se vão ser instrumentais ou se serão cantadas por vozes femininas ou masculinas. Acabam, até hoje e na maior parte das músicas, por serem cantadas por vozes femininas, mas não é algo pensado. No próximo disco há três vozes masculinas, portanto&#8230;</p>
<p><strong>Parece ter uma forte ligação a Espanha. De onde vem essa ligação?</strong></p>
<p>Tenho família espanhola da parte do meu pai, mas penso que não será isso. Não sei&#8230;</p>
<p>Acho que tenho muitas influências, principalmente na minha adolescência, em casa</p>
<p>dos meus pais, através das músicas que eles ouviam, música francesa, italiana, música clássica&#8230; Acho que acabei por ter, inconscientemente, essas influências como base para fazer aquilo que quero.</p>
<p><strong>Outro aspecto importante na sua música é a presença da poesia e do cinema, não só no nome de alguns dos seus álbuns, mas também pelo peso que parecem ter nas suas composições&#8230;<br />
</strong>A poesia pode ser algo bastante subjectivo, podemos encontrá-la em pequenas coisas do dia-a-dia. Lembro-me de ouvir em criança, na casa dos meus pais, a “Toada de Portalegre”, de José Régio, dita pelo João Villaret. Apesar de sermos miúdos, aquilo entrava&#8230; A poesia esteve sempre presente em minha casa e a música também. Já em relação ao cinema, para mim sempre foi uma paixão muito grande e acaba por ser uma inspiração enorme para fazer música, como qualquer arte.</p>
<p><strong>Quando não está a trabalhar na sua música, dedica muito tempo ao cinema?</strong></p>
<p>Hoje em dia isso é mais complicado. Acabo por ver mais filmes em casa e ir cada vez</p>
<p>menos ao cinema, mas ainda lhe dedico algum do meu tempo.</p>
<p><strong>Sabemos que tem uma casa em Avis. Como é essa vivência no interior alentejano?</strong></p>
<p>Aconteceu por acaso. Nos últimos anos, muitas das minhas músicas foram compostas</p>
<p>ali. Aquele sossego, no meio de todas aquelas oliveiras, é uma inspiração muito grande&#8230;</p>
<p><strong>Lida bem com o facto de ser uma figura pública? É geralmente abordado na rua ou sofre com este tipo de exposição?</strong></p>
<p>Não sou muito abordado. Não sou propriamente um músico conhecido. Algumas</p>
<p>pessoas conhecem-me, porque faço música há muitos anos, mas não me sinto incomodado. De vez em quando há pessoas que vêm ter comigo, mas lido bastante bem com isso.</p>
<p><strong>Rodrigo Leão</strong></p>
<p>Natural de Lisboa, nascido no ano de 1964, Rodrigo Leão rapidamente ascendeu ao mais alto patamar da cena musical portuguesa. Em 1982, foi um dos fundadores dos Sétima Legião, banda mítica da década de 80, que rompeu com os moldes musicais de então, abraçando sonoridades que iam do pop à música tradicional e que foi considerada por muitos “o grupo da década”. Três álbuns depois, formou os Madredeus, juntamente com Pedro Ayres de Magalhães, banda portuguesa com uma projecção internacional invejável, tornando-se num dos nomes incontornáveis da música contemporânea europeia. O ano de 1992 serviu de ponto de partida para uma carreira a solo, mantendo-se a eterna busca da música perfeita. A poesia e o cinema são presença assídua no percurso deste músico, deixando aqui e ali a sua marca indelével. Assumindo-se desde o início como compositor por excelência, Leão tem colaborado com nomes importantes a nível internacional, como por exemplo Beth Gibbons (Portishead), Adriana Calcanhoto ou Ryuichi Sakamoto. O seu último álbum, recém-lançado, é “A Mãe”.</p>
<p>*parceria A23 revista Pormenores</p>
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		<title>Gilberto Gil: De onde vem o Baião?</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Nov 2009 14:09:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Editor</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_2096" class="wp-caption alignnone" style="width: 465px"><img class="size-full wp-image-2096" title="Gilberto Gil / A23" src="http://www.a23online.com/wp-content/uploads/2009/11/Imagem10.png" alt="Foto de Christian Cravo" width="455" height="350" /><p class="wp-caption-text">Foto de Christian Cravo</p></div>
<p>Gilberto Gil apresenta a 08 de Novembro, na Casa da Música, no Porto, o seu &#8220;Concerto de Cordas&#8221;, que repete, dois dias depois, no Centro Cultural de Belém. Gilberto Gil (voz e guitarra) será acompanhado pelo filho Bem Gil, na guitarra, e por Jaques Morelenbaum, no violoncelo. Natural de Salvador, na Bahia, os ritmos e os sons desta terra marcaram a infância do cantor e compositor baiano que, desde a infância, descobriu a sua vocação para a música. A carreira com cerca de 50 anos, repleta de sucessos, mostra-nos como vai longe o tempo em que definir Gilberto Gil como tropicalista bastava para o caracterizar. O distanciamento crítico e a capacidade de melhor se auto-avaliar permitem-lhe hoje reconhecer as marcas de um modo de ser brasileiro, uma harmonia de contrastes que tão bem caracteriza o Brasil. <strong>Entrevista de Margarida Gil dos Reis<span id="more-2094"></span></strong></p>
<p>A23 &#8211; <strong>Passados mais de 50 anos de carreira, quais são as diferenças entre o Gilberto Gil que, em 1965, compôs as suas primeiras bossas e jingles e o Gilberto Gil hoje, um dos músicos de referência brasileiros?</strong><br />
Estou mais velho e o envelhecimento é um elemento modificador das disposições, das ambições, das capacidades. São capacidades que se desvanecem, outras, pelo contrário, ganham cores mais fortes. Com as ambições passa-se exactamente a mesma coisa. Desaparecem muitos dos aspectos de configuração das ambições de juventude, e aparecem outras novas. No meu caso, há uma avaliação psicossomática de que há vantagens no envelhecimento [risos].</p>
<p>A23 &#8211; <strong>Com esse distanciamento crítico que o tempo lhe deu, é-lhe mais fácil reconhecer as várias influências ao longo da sua carreira musical.</strong><br />
Consigo, de facto, identificar várias influências ao longo da minha carreira. Acho que as que mais se mantiveram foram as primeiras, as que estão ligadas à formação, não só de carácter musical, mas também da minha pessoa. As influências ligadas aos aspectos estruturais da vida brasileira, do modo de ser brasileiro, do samba e também a música afro, a música do mundo, americana, do Caribe&#8230; Eu diria que estas foram as influências que prevaleceram como anima musical. Existem, claro, outras influências que são mais do campo da mentalidade, tais como a influência europeia e ibérica, a influência clássica. Em ambos os casos, os aspectos mais presentes até hoje são os primeiros, os modos musicais com que  convivi na infância e na adolescência.</p>
<p>A23 &#8211; <strong>A palavra é um instrumento importante na sua música?</strong><br />
Sim, a palavra acabou por ser importante. Eu tinha um interesse puramente musical quando comecei a interessar-me por música, na infância. Mas, já nesta altura, existia a palavra das canções populares, quase todas muito marcadas pelo binómio música-palavra cantada. No entanto, o meu interesse recaía sobretudo na sonoridade daquilo que convencionalmente chamamos de música, ritmos ou harmonias. Quando eu me interessei pela criação musical na adolescência e início da idade adulta, a poesia e a palavra vieram como um elemento complementar, até hoje. Eu nunca mais me dediquei apenas à música.</p>
<p>A23 &#8211; <strong>“A refavela / revela a escola / de samba paradoxal / brasileirinho / pelo sotaque / mas de língua internacional”. Esta letra de uma música composta em 1977 revela já a consciência da pluralidade e da interculturalidade que existe num país como o Brasil?</strong><br />
Ainda que essa pluralidade exista em qualquer cultura, especialmente nas fases moderna e pós-moderna da história humana, alguns países são mais plurais do que outros, até mesmo pela condição geográfica. O caso das Américas é exactamente esse: as Américas são mais plurais pela sua geografia, a sua sociologia e a sua antropologia. Um pouco mais até do que a Ásia e a África. Talvez até mais do que a Europa, embora a Europa na fase da modernidade tenha ultrapassado o domínio do que é estritamente europeu e tenha começado a ganhar contactos com o mundo e a absorver essas influências. Eu diria mesmo que, depois das Américas, a Europa é o continente mais pluralizado. O Brasil é, de facto, um dos países mais marcados por essa multiculturalidade e interculturalidade. Isso está sem dúvida em mim e na minha música.</p>
<p>A23 &#8211; <strong>Para além da necessidade de “escutar um samba-canção”, o futebol também o atrai?</strong><br />
Eu sou de, pelo menos, três clubes de futebol! Sou do Bahia, do Fluminense, do Santos Futebol Clube. Nunca joguei muito futebol mas quando jogava era arqueiro (guarda-redes).</p>
<p>A23 &#8211; <strong>Qual foi a importância de Chico Buarque na sua carreira musical?</strong><br />
Nós fomos muito estimulantes nas nossas carreiras, um para o outro. Essa é a marca principal da nossa relação. Nós tivemos uma instigação mútua. Acompanhámo-nos desde o início da carreira e já nessa ocasião os trabalhos de um impressionavam muito o outro. Estabeleceu-se entre nós uma espécie de competição olímpica silenciosa, velada. Eu sempre acompanhei com interesse profundo tudo o que ele fez. Desde o primeiro instante, a sua forma de criar causou-me muita satisfação. Tenho a impressão de que até hoje nos relacionamos a partir dessa capacidade de atenção e observação mútuas. Uma atenção para com os novos discos de cada um, espectáculos, interesses&#8230; Quando, por exemplo, ele enveredou pelo caminho da literatura, eu segui a política.</p>
<p>A23 &#8211; <strong>Como definiria a música de Buarque, relativamente à sua?</strong><br />
A música do Chico é neo-clássica. Ele tem muito respeito e reverência pelas formas clássicas da música popular e um cuidado muito especial com a inserção de elementos inovadores. De um certo modo, eu também sou assim, só que, no caso dele, a dosagem de reverência e respeito ao arcádio é maior do que em mim. Eu sou menos cuidadoso, ainda que seja um cultor, um músico cuja base de interesse é o aspecto clássico. Acho que eu me dei com mais despudor à aventura e às operações de ruptura e desconstrução. Ele é um construtivista fiel.</p>
<h6>(Textos e Pretextos, 2005)</h6>
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