Editorial
Ricardo Paulouro
Escrito por Editor
Editorial, Últimas Notícias
10 - 12 - 2009
Não sei se é por passar mais de um século da morte de Eça de Queirós, o poder político dominante (falamos de PS e de PSD, claro está) teima em dar-lhe cruel actualidade. O que é mais espantoso é que neste Dezembro frio, depois de o Partido Socialista ter perdido a maioria absoluta e os portugueses, fartos do “absolutismo” de Sócrates, terem dado à Assembleia da República um enorme e novo protagonismo, nem isso mudou o comportamento dos partidos, absurdamente à deriva. Vem isto a propósito de, na primeira audição da Comissão Parlamentar de Saúde, Maria José Nogueira Pinto chamar «palhaço» ao socialista Ricardo Gonçalves, que respondeu acusando a deputada do PSD de se vender a qualquer preço para ser eleita. Na Assembleia da República a cedência à mediocridade, tornou-se uma banalidade, os partidos ainda não perceberam que a A.R. não é propriamente o local para fazer rir a nação. A imagem que os deputados dão, não é de uma Assembleia da República, mas de um manicómio…
Infelizmente não faltam exemplos de como os partidos são território priviligiado de troca de influências, de promoção de mediocridade, de pagamentos, através do estado, da fidelidade dos votos. Outra notícia do dia: uma semana depois de tomar posse, a directora Regional de Educação do Centro, Beatriz Proença, abandona funções. Ao que parece, houve uma tentativa de impôr os nomes da equipa que seria liderada por Beatriz Proença, supostamente nomes ligados ao Partido Socialista da região Centro. Isto não aconteceu em nenhum manicómio, aconteceu num sítio chamado Portugal.
R.P
Escrito por Editor
Editorial, Últimas Notícias
03 - 12 - 2009
De Espanha chegam notícias inquietantes: a resistente saharaui, Aminatu Haidar, encontra-se em greve de fome, desde 15 de Novembro, no aeroporto de Lanzarote. Fragilizada, chama a atenção para a luta do povo saharaui que, há mais de 35 anos, luta pelo direito a um território contra um estado torcionário, como é o de Marrocos. Se há palavras que doem, Sahara Ocidental é uma delas: 200 mil refugiados, atentados contra os direitos humanos, centenas de torturados, presos políticos. A todos os que ainda acreditam ser cidadãos do mundo, a situação que está viver Aminatu Haidar diminuiu-nos. Este é um dos casos paradigmáticos da hipócrisia em que vive a comunidade internacional, da duplicidade de valores (em Portugal será que ainda alguém se lembra de Timor?). Desde o Governo Espanhol, ao Português (Francisco Louçã di-lo com todas as palavras), da UE à ONU, todos lá figuram como responsáveis por um dos conflitos mais antigos do planeta. Vemos, ouvimos e lemos. Aminatu Haidar é um nome que nos ajuda a dar sentido à vida e, por isso, a Amnistia Internacional – Portugal realiza hoje , em Lisboa, uma vigília de solidariedade. Durante esta semana, várias personalidades, José Saramago, entre outros, expressaram pessoalmente a sua solidariedade com a resistente saharaui.
Aminatu Haidar, considerada a “Gandhi Saharaui”, descrevia a situação actual no Sahara Ocidental como alarmante, denunciando a escalada da repressão policial, julgamentos militares.
Também o alto comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, qualificou de “verdadeiramente dramática” a situação dos refugiados saharianos ocidentais no Sul da Argélia e considerou que se encontram “bastante esquecidos” pela comunidade internacional. Guterres visitou, no mês de Agosto, os campos de refugiados de Tindouf, no Sudoeste argelino.
A A23 esteve na Sahara Ocidental e traz esta semana um trabalho jornalístico que documenta um dos conflitos mais antigos da história pós-colonialista em África. Durante a visita aos campos de refugiados, na província Argelina de Tindouf, e ao território liberado do Sahara Ocidental, a A23 teve a oportunidade de ver e documentar a vida de milhares de pessoas que, devido à invasão levada a cabo por Marrocos, há 34 anos atrás, se viram forçadas a abandonar o seu território em busca de uma vida mais segura no país vizinho. Esta é a primeira de uma série de reportagens exclusivas que A23 vai publicar sobre um conflito e um povo esquecido pelo mundo ocidental. Poderá o mundo fechar os olhos a uma realidade de mais de 200.000 pessoas que vivem nos campos de refugiados do Sahara Ocidental? Poderá o mundo fechar os olhos à notícia inquietante da greve de fome de 17 dias de Aminatu Haidar? Um povo que só quer ter direito a uma vida normal.
R.P.
Escrito por Editor
Editorial
02 - 12 - 2009
1-A taxa de desemprego em Portugal ultrapassou os dez por cento em Setembro, indicam os números revistos do Eurostat. Na Zona Euro, o desemprego estabilizou nos 9,8 por cento, mantendo-se assim nos níveis mais altos desde há 11 anos. O desemprego em Portugal, ultrapassou a barreira simbólica dos dois dígitos em Outubro, um recorde desde 1983, ano em que este gabinete começou a recolher dados. Há 26 anos que os números não eram tão elevados. A taxa de desemprego subiu para os 10,2% e fica acima da média europeia (9,3%). José Sócrates acredita que as medidas de apoio à economia vão permitir uma recuperação do emprego já em 2010. Os partidos da Oposição defendem o reforço do apoio às empresas e a alteração do modelo económico. Também os sindicatos exigem ao governo medidas concretas para o Vale do Ave (a viver uma situação dramática) e para a Beira Interior (onde a crise no sector Têxtil levou ao desemprego milhares de trabalhadores). Nestas regiões o desemprego está acima da média nacional. Nada é mais justo do que o pedido dos sindicatos de um plano para salvar empregos, pois se aceita a necessidade de salvar várias entidades financeiras, bancos especuladores (a economia de casino) e várias empresas, tem também o governo a obrigação de preparar medidas que invertam a situação de desemprego da Beira Interior e do Vale do Ave. Governos, oposições e actores sociais têm a obrigação de seguir uma caminho de cooperação e centrarem-se no essencial. E o essencial, neste momento, é salvar o emprego. Porque só o emprego é que vai permitir a Portugal crescer e desenvolver-se de maneira sustentável.
Ricardo Paulouro
Escrito por Editor
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25 - 11 - 2009
Texto de Ricardo Paulouro
1- Quando se assinala o Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência Contra as Mulheres, a A23 publica, esta semana, uma reportagem da jornalista Dulce Gabriel sobre a violência doméstica, no distrito de Castelo Branco. Ao ampliarmos o retrato vemos que cada vez há mais mulheres que são vítimas de maus-tratos físicos e psicológicos. A mulher com quem falámos nem sequer se pode dizer que é pobre ou oriunda de uma família problemática. A Ana é tão só uma entre muitas mulheres agredidas em Portugal e é apenas um dos rostos que engrossam a estatística da violência exercida sobre as mulheres, no distrito de Castelo Branco.
2-O relatório divulgado revela que houve um aumento de 6 % de queixas em relação ao ano anterior, dos processos que chegaram aos 15 Gabinetes de Apoio à Vítima da ONG e à Linha de Apoio à Vítima, 8.496 crimes, enquanto no mesmo período de 2008 foram contabilizados 7.788 crimes. No mesmo sentido, o Observatório de Mulheres Assassinadas, organismo da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), revela que 26 mulheres foram assassinadas (uma morreu a semana passada em Castelo Branco) desde o início do ano e 43 foram vítimas de tentativa de homicídio. Segundo a UMAR, o número de mulheres assassinadas por aqueles que ainda eram companheiros, maridos e namorados constituem 64 por cento dos casos, sendo que 36 por cento foram vítimas de homens de quem já estavam divorciadas ou separadas. Devido a factores culturais e, sobretudo, judiciais (o Ministério Público demora em média um ano para deduzir uma acusação em casos de violência doméstica sobre mulheres que tiveram de se refugiar em centros de acolhimento) este é um tempo interminável para uma mulher vítima de violência doméstica.
O combate da luta contra a violência doméstica tem de ser encarado como um grande desafio da sociedade portuguesa e como diz a Governadora Cívil de Castelo Branco Alzira Serrasqueiro “a prevenção da violência doméstica deveria ser motivo de uma campanha choque e maior envolvimento dos media” como já acontece em Espanha. A violência doméstica requer mais esforços, recursos e uma justiça mais rápida porque é, neste momento, um dos flagelos da sociedade portuguesa.
Escrito por Editor
Editorial
26 - 10 - 2009

Olhamos sempre para o mundo e para o país com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e com os pés / E com o nariz e com a boca (Alberto Caeiro)
1- Uma primeira palavra a todos os que nos acompanharam ao longo dos últimos anos e nos ajudaram a tornar possível este projecto. Manifestamos o nosso agradecimento na forma mais humilde: a promessa de os guardar sempre no espaço do nosso coração. A esses – leitores e colaboradores – ficamos a dever o mais díficil período da vida de um órgão de comunicação que nasceu na cidade do Fundão através da Associação Cultural A23, sem qualquer apoio por parte Câmara Municipal PSD e do seu desgovernado vereador da cultura Paulo Fernandes . Aos nossos leitores e colaboradores – bem hajam por tudo.
2- Enquanto a Revista A23 circulava um pouco por todo o pais, fomos tornando este projecto conhecido fora de portas. A A23 online foi a grande aposta do último ano, se considerarmos que um dos melhores espaços de intercâmbio cultural é porventura aquele sem barreiras ou limitações físicas que sublinha a dimensão multicultural e a variedade de opiniões. Na semana que dobrámos as 100.000 visitas (é apenas uma marca, um número, mas ainda assim vale a pena assinalar), a A23 muda de casa e como em todas as mudanças vai haver coisas que se vão perder, mas muitas mais se vão ganhar. Durante esta semana vai haver lugares arrumados e outros desarrumados. A todos, leitores frequentes ou ocasionais, o nosso agradecimento e desculpas. Ainda estamos a arrumar a mobília nesta nova habitação, mas a nova moradia já está aberta.
Ricardo Paulouro
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Editorial
27 - 07 - 2009
1-Esta semana, propomos o primeiro roteiro da A23 que surge no Verão e não é por acaso. O Verão desacelera a velocidade com que vivemos habitualmente. Tentamos pôr à sombra os problemas cruéis do quotidiano, iludimo-nos com o prolongamento do tempo e disfrutamo-lo de outra forma. No Verão saboreamos esse “prato de figos” de que nos falava Eugénio de Andrade e compensamos as avalanches turísticas com um pôr do sol depois de uma tarde quente. Mas o Verão é também silêncio. Tempo de reflexão, mesmo que outra coisa não façamos, como tão bem disse Herberto Helder, do que “dar passos em volta”.
2-Durante este mês, oferecemos uma selecção de seis locais no interior de Portugal. Seguindo o velhinho lema “Vá para fora cá dentro”, estes são percursos alternativos, por vezes tão ao nosso alcance, que nos permitem escapar à rotina com o silêncio e a tranquilidade da natureza como banda sonora para um fim de semana. Ideias atractivas de última hora para quem ainda não tem planos. Olhamos para o Verão como podemos olhar para a própria vida. Um período onde a luz parece mais clara e onde os problemas parecem ter uma resolução mais fácil. Outros Verões se seguirão, depois de passarmos pelos nossos Outonos, Invernos e Primaveras. Mesmo debatendo-nos, cada vez mais, com o sentimento da perda, o interior de Portugal continua a tentar preservar o que de mais ancestral e identitário esta região nos pode dar.
Ricardo Paulouro
Escrito por admin
Editorial
20 - 07 - 2009
1-Na semana em que se soube, através de um processo judicial, da possível inconstitucionalidade da ASAE, a A23 fez-se à estrada e foi à procura de tradições e locais que se mantêm por Portugal. O grande repórter Rui Pelejão foi à procura das tabernas que fecham os olhos, tolhidas pela modernidade plastificada.
A grande reportagem que publicamos esta semana e que enfrenta um dos temas mais marcantes da actualidade: a ASAE. Entre o Portugal profundo e a cidade cosmopolita, viaja-se pelas tascas e bares de Portugal, num movimento que tenta perceber o que já está enraizado e faz parte da nossa própria identidade. Milhares de processos, com uma média de sete denúncias diárias, de incumprimento à Lei do Tabaco. Padarias, restaurantes, armazéns de alimentos, cantinas e até lares de idosos fecharam as portas, pagaram avultadas multas ou viram os seus alimentos oferecidos pela população serem destruídos com litros de lixívia. As instituições de solidariedade falam em “excesso de zelo”, a ASAE continua a probir que estes aceitem alimentos dados pelas populações e a deitar fora toda a comida congelada em arcas normais. É certo que há, pela primeira vez, uma polícia de segurança alimentar e que existem regras de higiene que é preciso cumprir. Mas como podemos viver sem as bolas de berlim ou as colheres de pau? Como podemos não nos assustar com agentes fardados e em treino militar a fiscalizarem as feiras? Nem as marcas de luxo, como a Cartier, a Hermès ou a Louis Vitton escapam ao olhar da ASAE. Voltámos ao tempo da polícia como juiz e executante de pena, como é natural, um tribunal vem alertar para a possível inconstitucionalidade da ASAE, ainda bem. Um western bem português onde o polícia passa a vilão…
2- A grande entrevista é dedicada a um dos melhores cantores e compositores da actualidade: Jorge Palma. Poucos sabem redescobrir a música, exibindo sentimentos, explorando emoções e cativando sempre mais gente. O seu último álbum é disso prova. “Com o sopro da manhã e o aroma / das frésias eu sonhava longamente”, assim o disse, com uma musicalidade tão sua, Eugénio de Andrade. Os dias correm longos e por cá tenta-se encontrar a sombra , clareiras da imaginação que nos obrigam sempre a estar atentos enquanto o inverno fica ancorado nos tempos do passado (e do tempo que há-de vir).
Ricardo Paulouro