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Cultura, Livros
18 - 11 - 2009

O Irão foi palco, nos últimos vinte e cinco anos, de vários eventos traumáticos. No ano em que se assinalam os 30 anos da Revolução de 1979, esta antologia mostra como está a ocorrer um verdadeiro renascimento cultural nas artes do país. Editado pela Nova Vega, este livro quebra a barreira que se tem colocado um pouco por todo o mundo de termos acesso aos novos rumos desta literatura. A ausência de traduções tem-nos privado de bons textos desde a Revolução e de uma cultura rica. A antologia reúne dois grupos de escritores iranianos – os escritores consagrados antes da Revolução e que continuaram a publicar após este período – Mahmud Dowlatabadi, Hushgang Golshiri, Simin Daneshvar (a primeira mulher romancista), Nassim Khaksar e Iraj Pezeshkad – e um segundo grupo de escritores que começaram a publicar após a Revolução e que abordam agora na sua obra alguns daqueles que são ainda considerados temas tabu (Reza Daneshavar, Farkondeh Aghai, Assghar Abdollahi, Seyyed Ebrahim Nabavi, Shahriyar Mandanipur, Ghazi Rabihavi e Goli Taraghi). Um livro a descobrir.
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Cultura, Livros
29 - 10 - 2009

O escritor chileno regressa ao romance com uma grande homenagem ao idealismo dos perdedores. Prémio Primavera de Romance 2009, A Sombra do que Fomos é um virtuoso exercício literário posto ao serviço de uma história carregada de memórias do exílio, de sonhos desfeitos e de ideais destruídos. Um romance escrito com o coração e o estômago, que comove o leitor, lhe arranca sorrisos e até gargalhadas, levando-o no fim a uma reflexão profunda sobre a vida.
Num velho armazém de um bairro popular de Santiago do Chile, três sexagenários esperam impacientes pela chegada de um quarto homem. Cacho Salinas, Lolo Garmendia e Lucho Arencibia, antigos militantes de esquerda derrotados pelo golpe de estado de Pinochet e condenados ao exílio, voltam a reunir-se trinta e cinco anos depois, convocados por Pedro Nolasco, um antigo camarada sob cujas ordens vão executar uma arrojada acção revolucionária. Mas quando Nolasco se dirige para o local do encontro é vítima de um golpe cego do destino e morre atingido por um gira-discos que insolitamente é lançado por uma janela, na sequência de uma desavença conjugal…
Luis Sepúlveda nasceu em Ovalle, no Chile, em 1949. Da sua vasta obra, toda ela traduzida em Portugal, destacam-se os romances O Velho que lia Romances de Amor e História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, ambos já adaptados ao cinema. Mas Mundo do Fim do Mundo, Nome de Toureiro, Patagónia Express, Encontros de Amor num País em Guerra ou Diário de um Killer Sentimental, por exemplo, conquistaram também, em todo o mundo, a admiração de milhões de leitores.
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Cultura, Livros
26 - 10 - 2009

Existe, nos últimos romances de José Saramago, uma clara atracção pelos temas históricos. Desde os tribunais da Inquisição, passando pela construção do Convento de Mafra, o Nobel da Literatura regressa aqui a um dos dilemas que mais parece atormentar Saramago e, ao que parece, grande parte da critica: a fronteira entre o sagrado e o profano. Caim é a visão de Saramgo de um dos episódios bíblicos mais emblemáticos: em suma, Deus é considerado o autor moral do assassinato de Abel. Filho primogénito de Adão e Eva segundo o Antigo Testamento da Bíblia, Caim sentiu ciúmes por Deus ter preferido as ofertas feitas pelo irmão mais novo, Abel, e matou-o, cometendo o primeiro homicídio na história da Humanidade. Pilar del Rio já afirmou que, apesar do tema, este “não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra”.
Relembre-se que, em 1991, O Evangelho Segundo Jesus Cristo causou acesa polémica em Portugal e viria a ser vetado pelo governo à época para concorrer ao Prémio Europeu de Literatura, iniciativa que pesou na decisão do escritor para abandonar o país e passar a residir em Lanzarote, Espanha.
Aos 86 anos, José Saramago edita agora um livro que parte de uma reflexão pessoal sobre Deus, mas também sobre a própria Humanidade. Caim estará à venda nas livrarias em Portugal, Espanha e América Latina.
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Cultura, Livros, País
16 - 10 - 2009

Na apresentação do seu livro “O Caderno” pela editora Bollati Boringhieri, José Saramago fez duras críticas a Berlusconi acusando-o de atitudes fascistas.
“Não é um fascismo como o dos anos trinta, feito de gestos ridículos como levantar o braço. Mas tem outros gestos igualmente ridículos. Não será um fascismo de camisas negras, mas sim de laços Armani”.
Saramago, que chegou esta semana a Roma, vindo de Alba (Piamonte), emocionou o público e fê-lo aplaudir estas afirmações: “Berlusconi diz que é ofensivo que uma prostituta vá à televisão. E ir para a cama do primeiro-ministro, não é?” Saramago fará 87 anos no próximo mês e admitiu que esta será a sua última viagem a Itália.
A forte recepção que teve até agora é para Saramago um sinal de que “já não há diferença entre a escrita num blog e a escrita literária”.
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Cultura, Livros
24 - 09 - 2009
31-01-2009 | Cultura: Livros
Texto de Margarida Gil dos Reis
Editado pela Tinta da China, “A Invenção do Cinema Português”, de Tiago Baptista, é uma excelente sugestão de leitura para quem quer compreender a evolução operada no cinema em Portugal. Por detrás das várias fotografias e sinopses de filmes, destaca-se uma reflexão sobre a dita cinematografia nacional que, de forma provocatória, começa com uma negação de uma famosa afirmação de Bénard da Costa: “O cinema português nunca existiu”, título da monografia publicada em 1996 (edições CTT) e tese por ele explorada no documentário de Manuel Mozos, “Cinema Português?” (1997).
Para Tiago Baptista, essa é justamente a tese desde livro, que acaba por ser uma rigorosa história do cinema em Portugal, que nos indica uma bibliografia composta sobretudo por artigos dispersos em livros ou em revistas.
A partir de uma selecção de meia centena de filmes, desde “Saída do Pessoal da Camisaria Confiança” (1896), de Aurélio Paz dos Reis, a “Aquele Querido Mês de Agosto” (2008), filme de Miguel Gomes, Tiago Baptista mostra-nos como o debate sobre esta temática é uma obsessão antiga que acabou por ser alvo de uma construção da própria ideia do cinema em Portugal.
A construção dessa ‘portugalidade’ é demonstrada através da reprodução de cartazes dos anos 30 e 40, incluídos no livro, tendo sido o último filme a publicitar-se como “português” “Os Verdes Anos” (1963). Para o autor, apesar de nos anos 60 ter existido uma ruptura relativamente ao cinema da década de 50, o esforço por representar uma ideia de Portugal mantém-se. Existe, por isso, neste livro a necessidade de demonstrar uma continuidade cronológica e um dinâmica que convergiam no objectivo de criar uma cinematografia nacional.
Tiago Batista (2008), A Invenção do Cinema Português. Lisboa: Tinta da China. 231 pp.
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Cultura, Livros
24 - 09 - 2009
18-01-2009 | Cultura: Livros
Texto de Margarida Gil dos Reis
Entre os melhores da poesia portuguesa contemporânea, Eugénio de Andrade tem um lugar enraizado em seis décadas de obra. Prestes a sair uma nova edição do livro “À Sombra da Memória”, com um texto inédito de Gonçalo M. Tavares, assim como outros textos de Eugénio de Andrade, relembramos aqui uma das últimas edições da Fundação Eugénio de Andrade. Poesia, revista e acrescentada por Arnaldo Saraiva e editada pela Fundação, comprova, por um lado, a grandeza do poeta e, por outro, o rigor e a lapidação da palavra de que Eugénio de Andrade era mestre.
Com o mesmo aspecto gráfico, o mesmo título, em tudo idêntica à edição de 2000, a segunda edição de Poesia mostra-nos o trabalho e rigor que sustentam a simplicidade do dizer que tem caracterizado a obra de Eugénio de Andrade. Os 41 poemas de Os Sulcos da Sede (2001) foram acrescentados a esta segunda edição, bem como pequenas correcções gramaticais, grafias e substituições pontuais feitas pelo poeta. Na «Nota Final», Arnaldo Saraiva legitima a opção de não incluir outros poemas posteriores a Os Sulcos da Sede, uma vontade expressa pelo próprio Eugénio. A esta reedição soma-se ainda a rigorosa bibliografia actualizada, para além da fixação do texto que, no espaço de cinco anos, foi reescrito, ou não fosse esse o ‘ofício’ do poeta. Arnaldo Saraiva chega mesmo a referir uma das alterações mais importantes: a “reposição da segunda estrofe do poema “Rente ao Chão”, de Rente ao Dizer, que o Poeta não incluíra em Poesia por sugestão de um amigo mas que disso se arrependera, como confessou a Dario Gonçalves”. Na saída da primeira edição de Poesia, Eugénio dedica-a a Arnaldo Saraiva da seguinte forma: “Você tem nas suas mãos quase a minha vida toda”. Talvez para a Eugénio de Andrade, a poesia fosse isso mesmo, um instrumento vivificador, tão simples como um “prato de figos”: “Também a poesia é filha/da necessidade – /fora do tempo / deixou de ser a sumarenta alegria / do sol sobre a boca; / esta, perdida a fresa / e nacarada pelo adolescente, / mais parece um desses figos / secos ao sol de muitos dias / que no Inverno sempre se encontram / postos num prato / para comeres junto ao fogo”.
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Cultura, Livros
24 - 09 - 2009
18-01-2009 | Cultura
“No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida”
Texto de Ricardo Paulouro
Eugénio de Andrade nasceu no dia 19 de Janeiro de 1923, na Póvoa da Atalaia, no concelho do Fundão. Tendo passado por cidades como Castelo Branco, Lisboa ou Coimbra, acabou por fixar a sua residência no Porto, onde, por iniciativa de um grupo de amigos, nasceu uma Fundação que lhe foi dedicada.
Considerado um poeta maior da actualidade, apesar do prestígio nacional e internacional da sua obra, as poucas aparições públicas de Eugénio foram justificadas pelo poeta com “essa debilidade do coração que é a amizade”.
Em 1941 teve lugar a primeira referência pública à sua poesia na conferência que Joel Serrão, seu amigo, pronunciou na Faculdade de Letras de Lisboa, sobre “A Nova Humanidade da Poesia Nova”. Um ano depois, em Novembro, Eugénio lança o seu primeiro livro de poesia: “Adolescente”. Seguiram-se, até hoje, dezenas de obras que marcaram uma carreira especialmente rica em poesia, mas também com produções nos domínios da prosa, da tradução e da antologia. 1948, com “As Mãos e os Frutos” foi o ano que marcou o sucesso e reconhecimento de uma figura que se ergue no primeiro plano da poesia portuguesa.
Durante os anos que se seguem até hoje, o poeta fez diversas viagens, foi convidado para participar em vários eventos e travou amizades com muitas personalidades da cultura portuguesa e estrangeira, como Joel Serrão, Miguel Torga, Afonso Duarte, Carlos Oliveira, Eduardo Lourenço, Joaquim Namorado, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Mário Cesariny de Vasconcelos, José Luís Cano, Ángel Crespo, Luís Cernuda, Marguerite Yourcenar, Herberto Helder, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Óscar Lopes, entre muitos outros.
A personalidade marcante é talvez uma das características que muitos dos que com ele privaram lhe apontam. Mário Soares descreveu-o mesmo como “um poeta com uma certa inclinação grega, uma grande influência mediterrânica e uma grande sensibilidade na sua poesia”.
Homenageado em vida com inúmeros prémios e distinções, Eugénio de Andrade recebeu em 2001 o Prémio Camões. O lapidar das palavras, perseguindo o poema de edição para edição, depurando-o, é talvez a marca do seu processo criativo. Hoje os seus versos pertencem a todos nós, ecoando nas gerações de poetas que são posteriores, nos seus poemas musicados, nas várias traduções da sua obra, nas antologias ou até mesmo nos manuais escolares. A riqueza e a complexidade da sua obra fez com que muitos falassem sobre ela. Para Eduardo Prado Coelho “Em Eugénio de Andrade, o poema é, na sua admirável transparência, de uma opacidade total: ele não permite que se veja através dele, porque continuamente nos reafirma que tudo está nele”. A fidelidade ao sentido ético da vida e a uma visão solar mas, nem por isso desatenta aos silêncios ou angústias do quotidiano, permite-nos recordar palavras de Eugénio quando diz: “Num tempo degradado como o nosso, todas as fontes estão ocultas. A tarefa do poeta é desocultá-las. Tudo o que nos saia das mãos sem este sabor original são só palavras a mascarar a palavra, miséria que nos impede até de ouvir a magnífica e alta música do silêncio” (Afluentes do Silêncio)
A exaltação da vida que nos toca através das palavras de Eugénio, palavras exactas que nos dão a impressão de não poderem ser outras que não aquelas, fazem-nos crer, como o poeta, que nós somos o que resta dos deuses.
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Cultura, Livros
24 - 09 - 2009
1-12-2008 | Cultura: Livros
Texto de Margarida Gil dos Reis
Publicado pela Guimarães Editores, com quem Agustina sempre manteve uma relação editorial aos longo dos últimos 60 anos de vida literária, “Dicionário Imperfeito” é uma antologia de pensamentos repleta de surpresas para o leitor. Mais do que a reunião de excertos de textos de Agustina, publicados na imprensa, em conferências, ensaios vários ou até mesmo em alguns dos seus romances, esta é uma iniciação na obra da autora portuense.
Organizado por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira, este dicionário revela-nos alguns dos temas e autores que influenciaram a escrita de Agustina. De facto, aqui pode-se ler de tudo um pouco, estando os verbetes organizados por ordem alfabética. O casamento, a fé, o amor, que é “o invisível no habitual”, a infância, o autor, a vida – “O Homem não se cansa de viver. E nós vemos que é mais fácil morrer em jovem, que morrer em velho” ou a relação escorregadia com o tempo: “Não sei se alguma vez escrevi para me opor ao tempo. Não sei se o tenho como adversário e o que ele significa.” Fragmentado,este livro conduz-nos por um caminho de certezas, angústias, dúvidas, admirações e convicções. São, aliás, muitos os que têm aqui inscrito o seu nome: Manoel de Oliveira, Salazar, Francisco Sá-Carneiro, Dostoievski, José Rodrigues Miguéis, Camões ou Jean-Paul Richter, Tristão e Isolda ou Zé do Telhado. Talvez, por isso, ao longo de trezentas páginas, este livro possa ser estimulante: ele próprio tenta motivar a discussão com o leitor. Veja-se, por exemplo, as seguintes passagens: “custa tanto escrever um bom livro como um mau livro” ou “o escritor moderno é um estado civil, uma soma de papéis de identidade”. Agustina, sem receios da uso da palavra, dá aqui um toque do seu humor e ironia, evidenciando um pensamento por vezes amargo, outras provocador. Nada escapa ao seu olhar astuto, desde a política, à literatura e ao seu ensino, passando pela sexualidade e pelos direitos do homem. E mesmo quando se pensa que o literário é o campo privilegiado da ecscritora, Agustina não deixa de nos surpreender com entradas como esta: Nudismo. “O nudismo foi declarado mais afoitamente do que a Revolução dos cravos. Não porque seja confortável, já Mendes Pinto achava que não era; nem elegante, nem natural. É uma espécie de fanatismo, como quando a humanidade é sacudida por qualquer coisa de irracional e insensato, estranho ao mundo familiar, e tenta produzir o exorcismo da degenerescência.” Muitas vezes, o uso da palavra é sábio, pela forma acutilante e actual como se dizem as coisas e o estado de um país: “Portugal é um dos países com mais poder de adaptação. Resulta isso da influência que tem na sociedade o factor feminino, para quem o homem se destinava a obter uma boa situação. Noventa por cento das viúvas de tipo latino, ao exprimirem a dor da perda do seu companheiro, modelo de pai e de marido, não se esquecem de referir que a sua perda é tanto mais triste quanto ele acabava de obter uma boa situação.” Invocando a primeira pessoa, sem ficções, Agustina revela-se aqui naquele que parece ser um exercício diário de pensar o mundo em que se vive. Curiosamente, se a primeira entrada do dicionário é Adaptação, a última é a de quem reconhece o seu próprio ofício de escrita – Vocação: “Eu tenho só uma, que é escrever. Usar a palavra, dar-lhe vida, confiar nela para que nela vejam verdades poderosas, como a de sermos destinados a coisas maravilhosas”.
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Cultura, Livros
24 - 09 - 2009
23-11-2008 | Cultura: Livros
Texto de Margarida Gil dos Reis
“É curiosa esta experiência de escrever mais leve e para muitos, eu que escrevia ‘minhas coisas’ para poucos”. Assim escreveu Clarice Lispector, em 1972, no “Jornal do Brasil”, abrindo, na imprensa brasileira, a possibilidade de novas leituras sobre a sua obra. Aparecida Maria Nunes descreve em livro este que é um dos ofícios menos conhecidos da escritora, mas um dos que mais elementos oferece para a apreciação da trajectória da sua obra literária.
Clarice ingressou no jornalismo na década de 40 e poucos saberão que era a única mulher na redacção em que trabalhava. Na década de 50, por necessidades financeiras, manteve, em diferentes periódicos, colunas femininas, ocultando a sua identidade através de pseudónimos e desmontando clichés vários da feminilidade amordaçada e comprometida por um tempo regido pelos comportamentos mais tradicionais.
Aparecida Maria Nunes, professora da academia brasileira, mostra neste livro como o estilo de Clarice foi plural, compilando algumas das mais interessantes passagens do exercício do jornalismo da escritora, desde notícias de moda, entrevistas, a receitas de cozinha ou à publicação dos primeiros contos e crónicas, sementes lançadas no papel para a matéria da ficção.
Apesar do desejo de se dedicar integralmente à literatura, Clarice Lispector foi uma presença assídua na imprensa brasileira. Desde 1940, quando publica na revista “Pan” o conto “Triunfo”, até colaborações que lhe valeram maior prestígio e notoriedade como os textos escritos para o “Diário da Noite” (1960-1961) ou o “Jornal do Brasil” (1967-1973), Clarice sempre tentou fugir às futilidades das mulheres, dando-lhes uma voz diferente. Não será por acaso que o ambiente doméstico é cenário em vários dos seus contos e romances, onde a voz interior feminina é uma das imagens de marca da sua ficção. Contudo, a procura de um estilo que Clarice acaba por afirmar, revelando-se inimitável, é aquilo que em 1970 a faz afirmar: “Escrever para o jornal não é tão impossível: é leve, tem que ser leve, e até mesmo superficial: o leitor, em relação a jornal, não tem vontade nem tempo de aprofundar”.
Ao longo de cerca de 300 páginas, Aparecida Maria Nunes abre caminho a uma das facetas mais interessantes da obra de Clarice Lispector, mostrando-nos as variações da ficcionista e a génese de certos temas recorrentes na sua ficção, mas também o contributo dado pela romancista ao jornalismo.
Aparecida Maria Nunes
Clarice Lispector Jornalista. Páginas Femininas & Outras Páginas
São Paulo, Senac.
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Cultura, Livros
24 - 09 - 2009
17-11-2008 | Cultura: Livros
Sextante publica contos de Truman Capote
Os contos do escritor norte-americano Truman Capote conhecem agora a primeira edição integral em português, com a chancela da Sextante Editora. Com tradução de José Vieira Lima, o volume compila contos escritos entre a década de 40 e a década de 80. Quarenta anos de vida literária daquele que foi considerado o “escritor excêntrico” pela forma como, apesar da trágica trajectória de vida, Truman Capote conquistou um lugar na literatura pela sua voz ficcional única.
Numa completa introdução assinada pelo ensaísta e escritor Reynolds Price, traça-se um retrato onde a biografia se relaciona com o olhar incisivo que Capote tinha do mundo. Os sentimentos que perpassam a sua ficção sobrepõem-se a este “homem que personificou um clown exótico”, nos primeiros anos da sua carreira, dando lugar a um “clown público”, como nota Reynolds.
De seu nome verdadeiro Truman Streckfus Persons, Truman Capote publicou, em 1948, o seu primeiro romance, chamado “Other Voices, Other Room”, livro que, embora de forma implícita, contava o despertar de um jovem para a sua homossexualidade. No ano seguinte, compilou os contos publicados nas revistas femininas num livro chamado “A Tree of Night” e o seu terceiro livro saiu em 1951 e chamou-se “The Grass Harp”, remontando a algumas passagens biográficas de Capote. Escreveu entretanto duas biografias, “The Muses are Heard”, e “The Duke in his Domain”, biografia não autorizada de Marlon Brando. Em 1958, publica “Breakfast at Tiffanys”, imortalizado no cinema pelo realizador Blake Edwards e protagonizado por Audrey Hepburn. Até ao final da década de 60, dedicou-se à escrita para televisão, iniciando uma colaboração regular com o cinema e teatro. A mais aclamada das suas obras surgiria em 1966, “In Cold Blood”, fruto de uma longa investigação do autor sobre o homicídio de uma família no Kansas. MGR