Escrito por Editor
Cultura, Destaque, Livros, Últimas Notícias
23 - 02 - 2010
Podem o sacrifício e a honra ser menos valorizados do que o sucesso ou o poder pragmático do dinheiro ? Pode a bondade ser considerada uma tendência suspeita e o sonho uma natural catástrofe ? Durante décadas e décadas, contrabandistas e emigrantes foram assinalados como celerados e uns toscos arrivistas desprezados em Portugal.
Este romance que repõe a dignidade de um contrabandista no seu verdadeiro lugar, que também dá um relevo especial a um homem bondoso e crístico e que relata a ascensão fulgurante de um fabricante de sonhos cinematográficos, começa por um atropelamento de uma cadela numa estrada francesa e termina com um brinde de amizade diante de um rio espanhol cheio de produtos tóxicos onde tantos portugueses pereceram ao tentar a travessia que os conduzia ao eldorado.
São três histórias interligadas que têm com pano de fundo os forros da nossa História mais recente onde o savoir-faire, a imaginação prodigiosa e a poesia surreal de Manuel da Silva Ramos produzem mil centelhas de prazer e emoção.
O leitor atento vai abrir, durante horas e horas, fervorosamente, este retábulo regenerador e humano e não esquecerá tão cedo Brigas, Alves e Da Silva, três heróis anónimos do nosso tempo.
Primavera 2004
Une hirondelle fait le printemps.
Uma só andorinha faz a primavera.
Jordi Nadal, aliás Monsieur Pierre Salvat, aliás Juan de Vilamos, mais conhecido em 1936 pelo Rojo da Maladeta, apoiou a sua mão magra sobre o bocal do poço que servia para regar a sua mini-hortinha e olhou o pássaro de arribação. Era o primeiro que chegava a uma velocidade estonteante.
- Olá ! disse.
Gostava das andorinhas. Eram a bondade em movimento. E nunca ninguém as capturava. Livres andavam pelo mundo lucrativo sempre com um chilreio gratuito atrás de si. Pousavam pouco. Deviam com toda a certeza pensar que os homens eram buracos insatisfeitos. Tinham toda a razão. Os homens (totoditos) agiam sob impulsos de vingança. Outros debaixo de impulsões mórbidas envergonhavam o género humano. Aqueloutros impelidos por forças cegas eram menos que bostume. Conhecera poucas pessoas que tinham direito a chamarem-se homens. Eram só indivíduos, indivíduos permanentemente cansados. As andorinhas, essas sim, tinham dignidade. O voo delas era um abraço largo ao mundo. Mas vistas num pessoal espelhinho convexo de bolso ( onde a fotografia gravada representava a saída dos operários da fábrica de La Ciotat em Marselha tirada pelos irmãos Lumière, recordação do primo Javier perecido no campo de concentração francês de ) que misturava a História repulsiva e o destino individual que gostava de premeditar tudo, elas também lembravam a falência da Humanidade.
O velho anarquista olhou o leirão que esperava já que o andorinhão- preto se pousasse. E fizesse um ninho de pêlos, penas e saliva na obscuridade da sua garagem no capô do seu hirto citroën- quinze cavalos. Para lhe saltar em cima como fizeram falangistas, nacionalistas, franquistas, tantos carabineiros consigo próprio — mas ele tinha escapado milagrosamente mais a Regina de Toulouse. Que escondera o passaporte falso na sua larga cona republicana que servira para consolar tantos e tantos irmãos de combate. Agora morta. Mas grande figura típica da cidade de Toulouse. Baixou-se e pegando numa pedra que bordejava o repuxo constante de nenúfares lançou-a à bitola do cabrão. Não lhe acertou mas o rabanadão fugiu. Foi nesse preciso instante em que a longa cauda se artepirou que ouviu o choque e o trangido dos pneus a travarem como uma companhia faminta de leirões.
Ao encaminhar-se para o desastre na estrada nacional 20, pensou em Regina. No passaporte molhado. Que a salvara. Salvara-se também ele e fora por causa disso que se pusera esse nome. Regina que durante muitos anos vendera nas ruas de Toulouse o France-Soir e o Fígaro , jornais da direita capitalista. Com um carrinho de mão enquanto fumava cigarrilhas pretas. Fumo no ar e óculos pretos. E sotaque rolante. Rainha dos aflitos testiculares. Rainha dos deserdados da terra. Rainha dos esperançosos da terra. Rainha dos carcomidos da terra. Tinham caído tantos. Ficavam a apodrecer ao sol. Ele quase. E de repente diante da Libertad, a sua cadela morta desfeita em sangue, viu o Canário.
Primavera 1938
O que era de Vilaflor apontou a sua arma às cabeças dos fugitivos.
Era o povo mais alto das Canárias. Pum ! Bastava um só tiro em cada tolice de movimento. E depois cairiam. Visou o da mão preta e viu um pino gordo, o maior, quase oitenta metros de altura. Quando era miúdo vinha para o pé dele e tentava abraçá-lo pensando no seu pai ausente. Visou a rapariga pequena, mais rapaz, que se deslocava de calças, cabelos ao vento, fúria republicana. Pum ! Bastava um só tiro também para acabar com a sua fuga. Nunca matara uma mulher. Agora tinha que ser ! Apontava agora ao buraco do cu da fugente. Gozo infinito ( em pintura ). Viu a areia negra da praia da Viúva, na Candelaria. Gostaria de estar ali, soldado de um pelotão de execução. Com anarquistas vendados, comunistas cegos, republicanos constapados/constipados. Ver o sangue misturar-se com a areia preta. Viva a morte – um oblíquo paraíso ! Abraçou o pino gordo em sonhos e pôs-se depois a voar. Parou por cima de um quartel em Santa Cruz. O pai estava de serviço à entrada. Desceu…
O tiro partiu quando viu que o fachina não era o seu pai. O teu pai foi transferido para Lanzarote. Pensión España , Gran Canaria,1. Telefone 190. O anarquista caiu com o impacto da bala que lhe atravessou o ombro. Mas rapidamente se soergueu. A camisa preta ensopada de sangue fugia agora por uma vereda — no final da vereda estava o País da Liberdade. Canário, que saía ao pai pela profissão e por uma teimosia exsicante, correu para se maravilhar com o tiro de misericórdia. Era mal contar com a força polida e indomável do anarquista que tinha dos cimos das montanhas uma grande opinião. O vermelho, que via todas as manhãs da sua aldeia do Val d´ Aran o pico da Maladeta, a sua poderosa e sombria força, granjeara nessa vista imparável a inflexibilidade do seu carácter.
- Cabrão ! Filho da puta ! gritou o de Vilamos, já do outro lado da fronteira.
Canário olhou-o com um sinistro ódio no olhar, capaz de matar cem guanches ao mesmo tempo. Nunca mais esquecera esse momento. Nem essa cara escurassa. Nem essa desprezoeira de filho de paincógnito. Porque era, e procurava o sexerrante. Que pelara a sua mãe no interior do pino gordo, na toca de uma noite de verão. Uma vez diante do mar, na praia da Candelaria, cheia de pedrinhas redondas, arbitrando à civil uma luta canária, quase lhe falara…
Voltou-lhe as costas e o anarquista ficara ali plantado até que a Regina, sempre molhadíssima, lhe pegara na mão e o conduzira para trás de uns arbustos. Tirara o passaporte molhado da cona e abria-se para ele. Viva a Liberdade ! Te quiero, cariño ! Amor ¡ Vive La France ¡
Uma andorinha arabesconverteu-se ao céu…
Logo viu que o condutor não era francês. Choraminguava agarrado ao cadáver da sua brancadela — bemorta. A camisa ensanguentada levantou-se e enfrentou-o humildementemente:
- Pas vu…Vite fait …Freiner trop tard…Pardon!
Depois em inconsciências de suor apadrinhado:
- Perdão ! Mil vezes perdão !
A culpa não era dele. Com a idade a cadela tornara-se rabugenta e ladrava a vagabundos, a carteiros, a amigos, Agora era a vez dos carros. Gangania contra os travarões que iam chegar a Montauban e ladrava contra os impotentes que voavam para Toulouse.
O escorralhas continuou em português, muito próximo da sua língua maternal :
- Chamo-me Reis. Vivo em Brive. Venho de Portugal, da Bismula, que é a minha terra… Onde é que eu posso lavar as mãos ? perguntou fazendo o gesto.
- Venha comigo a minha casa …Já que temos que preencher um constat, para o seguro… – falou o outro em francês.
Reis seguiu o homem idoso que lhe pareceu dono de uma saúde de ferro. Morava à beira da estrada, tinha uma hortinha onde cultivava o seu físico, tivera uma cadela, uma mulher, ou talvez não, pelo escrupuloso andar via-se que frequentava putas enlatadas nas cercanias de estações de caminho de ferro. As francesas, escoavam líquidos de amor, por diante e por detrás. Seria isso ?
O outro adivinhou.
_-Sempre fui contra o capitalismo cansativo das mulheres. Os homens, esses enclavagistas praticantes, adoram sacrificar o belo sexo fraco na pira da conveniência. A minha amiga Regina tinha razão que mostrava o passaporte caducado na sua cona a todos os homens: alguns adoravam-no…Vi muitos empalidecerem diante dele !
Reis engoliu o cuspo da atrapalhação…
O anarquista continuou:
- A fronteira entre o sexo e a amizade é tão ténue que mal se vê ! Exactamente como a baba de caracol num muro de Bosost numa manhã de inverno.
Bosost ? Onde era ? pensou Reis que tinha da geografia uma noção chapada: a Terra era redonda e boa lá onde se trabalhava e ganhava melhor, parada e vil lá onde não havia trabalho e onde a exploração deixara fábricas com vidros partidos. Ruínas de homens e ruínas de pedra. O pior era encontrar Deus. Quando o encontrava vestido de trolha e com as unhas manchadas de tinta branca as lágrimas vinham-lhe aos olhos.
_ Onde é ? perguntou Reis para fugir à emoção.
O dono da cadela morta não era de planetas secundários.
- É uma vila no Val d´Aran onde passa um rio caudaloso, o Garona, e onde matei um fascista com um tiro no cu ! Um sacana que até quando cagava nos campos fazia a saudação franquista !
Reis lembrou-se de repente da sua raia. Também lá a violência fora total. Já não tinha pressa de partir.
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04 - 02 - 2010

A novela “Assim esvai a vida” é o novo livro de Urbano Tavares Rodrigues que o escritor vai lançar hoje, 4 de Fevereiro, às 18h30, na Livraria Leya na Barata, em Lisboa. Prosador maior da nossa literatura, a obra de Urabano Tavares Rodrigues vai ser apresentada por Francisco José Viegas. A novela de passa-se durante o regime ditatorial em Portugal, de 1926 a 1974, com várias cenas da vida quotidiana. O livro inclui ainda os títulos “O cornetim encarnado” e “Os olhos do demónio e Outros contos”. “Personagens inventadas se mesclam com outras reais e onde as cenas eróticas, por vezes muito cruas, alternam com momentos poéticos, numa sarabanda original e inesperada. Avultam as intentonas para derrubar o regime e a luta nas trevas, a par de visões da vida cultural e da autêntica revolução sexual provocada, em certos meios, pelo aparecimento da pílula anticoncecional”, segundo nota das Publicações D. Quixote, que chancelam a obra.
“O cornetim encarnado” são “memórias avulsas, reflexões e poemas, um estimulante trabalho de metaliteratura em que o autor se expõe”, refere a mesma nota.
Os contos do terceiro título do livro, segundo a mesma nota, “revelam arrojo” e “temas insólitos”.
Urbano Tavares Rodrigues, 86 anos, manteve até 1993 a carreira docente na Faculdade de Letras de Lisboa com a de escritor, tendo sido distinguido com vários prémios.
“Uma pedrada no charco” (1958) foi a primeira obra galardoada, com o Prémio Ricardo Malheiros, tendo Urbano Tavares Rodrigues recebido já os prémios da Associação Internacional de Críticos Literários, da Imprensa Cultural, Vida Literária/Associação Portuguesa de Escritores, e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.
“A Noite roxa”, “Bastardos do sol”, “Os Insubmissos”, “Imitação da felicidade”, “Fuga imóvel”, “Violeta e a noite”, “O Eterno efémero” e “Ao contrário das ondas” são alguns dos títulos de obras de sua autoria.
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16 - 01 - 2010

fotografia de Luísa Ferreira
É poeta, autor de livros para crianças, colunista e tradutor. Foi jornalista, professor e membro do Conselho de Imprensa. Manuel António Pina, 66 anos, nasceu no Sabugal. A Câmara Municipal da Guarda, o TMG e o CEI juntam-se agora para divulgar a obra de um dos maiores escritores da actualidade. A iniciativa incluirá exposições, seminários, teatro e poesia do autor em diversos espaços da Guarda entre 16 e 22 de Janeiro do próximo ano.
O ciclo tem início a 16 de Janeiro com a peça “O Escaravelho Contador” da Companhia de Teatro de Braga que actua no Pequeno Auditório do TMG, às 16.00h, no âmbito da iniciativa Famílias ao Teatro. «Como uma caixa dentro de uma caixa, dentro de uma caixa, dentro de uma caixa o escritor escreve as histórias que o escaravelho lhe contou e que o encenador transforma em imagens no teatro e de que por sua vez os
actores são os fazedores», explica o texto de apresentação do espectáculo. Trata-se de uma história baseada no livro “História que me contaste tu” de Manuel António Pina. É pois um livro «que se transforma em teatro para os mais novos que por sua vez levarão os mais crescidos a acompanhá-los nestas histórias vivas». A peça é para maiores de quatro anos e tem a encenação e dramaturgia de José Caldas, cenografia e figurinos de José António Cardoso, desenho de luz de Fred Rompante e conta ainda com a interpretação de Carlos Feio, Jaime Soares, Rogério Boane, Solange Sá, Teresa Chaves e Alexandre Sá.
A 18 de Janeiro é inaugurada na Galeria do Paço da Cultura uma exposição da autoria da artista plástica e ilustradora Ilda David’ que reúne as ilustrações do livro “O sábio fechado na sua biblioteca”, da autoria de Manuel António Pina. A exposição tem entrada livre e ficará patente até 27 de Fevereiro.
Sobre o mesmo livro é apresentada uma peça homónima, marcada para o dia 20 no Pequeno Auditório do TMG. A “História do sábio fechado na sua biblioteca” é apresentada pela companhia Pé de Vento em duas sessões. A primeira às 10h00 para o público das escolas e a segunda às 21h30 para o público em geral. A peça conta a história de um Sábio que vivia há muitos anos fechado na sua Biblioteca e sabia tudo. Nada do que existia, e até do que não existia, tinha para ele segredos. Sabia quantas estrelas há no céu e quantos dias tem o mundo, até ao dia que um estrangeiro lhe bate à porta. O espectáculo tem encenação de João Luiz, cenografia de João Calvário e Rui Azevedo, figurinos de Susanne Rösler, música original de Pedro Junqueira Maia, desenho de luz de Rui Damas e interpretação de Rui Spranger e Sara Paz.
Também no dia 20, mas às 18h00, na Sala Tempo e Poesia da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, está marcada a inauguração da exposição “Manuel António Pina – Palavras, livros, registos, percursos, crónicas, lembranças…”. Trata-se de uma exposição bio-bibliográfica sobre o autor, que mostrará o percurso pessoal e profissional do multifacetado Manuel António Pina. A exposição ficará patente na BMEL até 27 de Fevereiro.
No dia seguinte, 21 de Janeiro, às 09h00 na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço decorre o Seminário Ibérico “Manuel António Pina – Palavras para além das Fronteiras”. A iniciativa estará dividida em três painéis: Poesia, Literatura Infanto-Juvenil e Jornalismo. Para o primeiro painel a organização convidou como oradores António Sáez Delgado da Universidade de Évora, Gabriel de la S. T. Sampol da Universidade das Islas Baleares e Inês Fonseca Santos, jornalista. Para o painel Literatura Infanto-Juvenil estão previstas as intervenções de Perfecto Quadrado da Universidade das Islas Baleares, Sara Reis da Silva da Universidade do Minho e Adelaide Lopes da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico da Guarda. No terceiro e último painel, sobre Jornalismo, intervirão José Carlos Vasconcelos (Jornal de Letras), Luís Miguel Queirós (Público), Viale Moutinho (Diário de Notícias), Fernando Paulouro (Jornal do Fundão) moderados pelo também jornalista da revista Visão Pedro Dias de Almeida. O Seminário Ibérico contará ainda com a conferência inaugural de Arnaldo Saraiva, professor universitário, investigador literário, ensaísta, cronista e poeta e ainda com a conferência de encerramento do ensaísta português Eduardo Lourenço.
Logo após o seminário e ainda na BMEL será apresentado, às 18h00, o prémio literário Manuel António Pina, a atribuir nas áreas da literatura para a infância e da poesia (alternadamente). Será também apresentado o regulamento e as condições de acesso a este galardão que passará a marcar anualmente o panorama cultural da cidade.
Ainda no dia 21, às 21h30, é apresentado no Pequeno Auditório do TMG o recital “Poesia Reunida”. Uma iniciativa que reunirá em palco gente conhecida e também alguns anónimos para recitar poesia da autoria de Manuel António Pina. Todos eles terão o acompanhamento ao piano de Élia Fernandes que assina também a autoria de todas as músicas, criadas propositadamente para cada um dos poemas.
Ainda na área da poesia destacamos a iniciativa “Poemas de Manuel António Pina na Rádio”. Numa colaboração com a Rádio Altitude (90.9 fm), serão divulgados de hora a hora entre as 07h e as 20h, poesia do autor lida por gente dás áreas do teatro e da rádio.
Entre 18 e 22 de Janeiro, será dinamizado pelo Serviço Educativo do TMG uma oficina que tem como destinatários os alunos das escolas do concelho. A oficina incide sobre a Matemática e a Música e consiste numa actividade didáctica com base num jogo de cartas original criado pela artista plástica Brígida Ribeiro, com ilustrações originais. Este jogo, baseado no “Livro da Desmatemática” de Manuel António Pina, tem como objectivo constituir famílias de múltiplos, ao mesmo tempo que as crianças descobrem os textos de Manuel António Pina. Paralelamente e de forma complementar a este jogo, a oficina conta também com uma componente musical que apela a jogos fonéticos que têm por base textos do autor.
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Cultura, Livros, Últimas Notícias
15 - 12 - 2009

Durante vários dias a Guarda reflecte sobre a obra de M.A.P. Fotografia de Ricardo Paulouro /A23
É poeta, autor de livros para crianças, colunista e tradutor. Foi jornalista, professor e membro do Conselho de Imprensa. Manuel António Pina, 66 anos, nasceu no Sabugal. A Câmara Municipal da Guarda, o TMG e o CEI juntam-se agora para divulgar a obra de um dos maiores escritores da actualidade. A iniciativa incluirá exposições, seminários, teatro e poesia do autor em diversos espaços da Guarda entre 16 e 22 de Janeiro do próximo ano.
O ciclo tem início a 16 de Janeiro com a peça “O Escaravelho Contador” da Companhia de Teatro de Braga que actua no Pequeno Auditório do TMG, às 16.00h, no âmbito da iniciativa Famílias ao Teatro. «Como uma caixa dentro de uma caixa, dentro de uma caixa, dentro de uma caixa o escritor escreve as histórias que o escaravelho lhe contou e que o encenador transforma em imagens no teatro e de que por sua vez os
actores são os fazedores», explica o texto de apresentação do espectáculo. Trata-se de uma história baseada no livro “História que me contaste tu” de Manuel António Pina. É pois um livro «que se transforma em teatro para os mais novos que por sua vez levarão os mais crescidos a acompanhá-los nestas histórias vivas». A peça é para maiores de quatro anos e tem a encenação e dramaturgia de José Caldas, cenografia e figurinos de José António Cardoso, desenho de luz de Fred Rompante e conta ainda com a interpretação de Carlos Feio, Jaime Soares, Rogério Boane, Solange Sá, Teresa Chaves e Alexandre Sá.
A 18 de Janeiro é inaugurada na Galeria do Paço da Cultura uma exposição da autoria da artista plástica e ilustradora Ilda David’ que reúne as ilustrações do livro “O sábio fechado na sua biblioteca”, da autoria de Manuel António Pina. A exposição tem entrada livre e ficará patente até 27 de Fevereiro.
Sobre o mesmo livro é apresentada uma peça homónima, marcada para o dia 20 no Pequeno Auditório do TMG. A “História do sábio fechado na sua biblioteca” é apresentada pela companhia Pé de Vento em duas sessões. A primeira às 10h00 para o público das escolas e a segunda às 21h30 para o público em geral. A peça conta a história de um Sábio que vivia há muitos anos fechado na sua Biblioteca e sabia tudo. Nada do que existia, e até do que não existia, tinha para ele segredos. Sabia quantas estrelas há no céu e quantos dias tem o mundo, até ao dia que um estrangeiro lhe bate à porta. O espectáculo tem encenação de João Luiz, cenografia de João Calvário e Rui Azevedo, figurinos de Susanne Rösler, música original de Pedro Junqueira Maia, desenho de luz de Rui Damas e interpretação de Rui Spranger e Sara Paz.
Também no dia 20, mas às 18h00, na Sala Tempo e Poesia da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, está marcada a inauguração da exposição “Manuel António Pina – Palavras, livros, registos, percursos, crónicas, lembranças…”. Trata-se de uma exposição bio-bibliográfica sobre o autor, que mostrará o percurso pessoal e profissional do multifacetado Manuel António Pina. A exposição ficará patente na BMEL até 27 de Fevereiro.
No dia seguinte, 21 de Janeiro, às 09h00 na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço decorre o Seminário Ibérico “Manuel António Pina – Palavras para além das Fronteiras”. A iniciativa estará dividida em três painéis: Poesia, Literatura Infanto-Juvenil e Jornalismo. Para o primeiro painel a organização convidou como oradores António Sáez Delgado da Universidade de Évora, Gabriel de la S. T. Sampol da Universidade das Islas Baleares e Inês Fonseca Santos, jornalista. Para o painel Literatura Infanto-Juvenil estão previstas as intervenções de Perfecto Quadrado da Universidade das Islas Baleares, Sara Reis da Silva da Universidade do Minho e Adelaide Lopes da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico da Guarda. No terceiro e último painel, sobre Jornalismo, intervirão José Carlos Vasconcelos (Jornal de Letras), Luís Miguel Queirós (Público), Viale Moutinho (Diário de Notícias), Fernando Paulouro (Jornal do Fundão) moderados pelo também jornalista da revista Visão Pedro Dias de Almeida. O Seminário Ibérico contará ainda com a conferência inaugural de Arnaldo Saraiva, professor universitário, investigador literário, ensaísta, cronista e poeta e ainda com a conferência de encerramento do ensaísta português Eduardo Lourenço.
Logo após o seminário e ainda na BMEL será apresentado, às 18h00, o prémio literário Manuel António Pina, a atribuir nas áreas da literatura para a infância e da poesia (alternadamente). Será também apresentado o regulamento e as condições de acesso a este galardão que passará a marcar anualmente o panorama cultural da cidade.
Ainda no dia 21, às 21h30, é apresentado no Pequeno Auditório do TMG o recital “Poesia Reunida”. Uma iniciativa que reunirá em palco gente conhecida e também alguns anónimos para recitar poesia da autoria de Manuel António Pina. Todos eles terão o acompanhamento ao piano de Élia Fernandes que assina também a autoria de todas as músicas, criadas propositadamente para cada um dos poemas.
Ainda na área da poesia destacamos a iniciativa “Poemas de Manuel António Pina na Rádio”. Numa colaboração com a Rádio Altitude (90.9 fm), serão divulgados de hora a hora entre as 07h e as 20h, poesia do autor lida por gente dás áreas do teatro e da rádio.
Entre 18 e 22 de Janeiro, será dinamizado pelo Serviço Educativo do TMG uma oficina que tem como destinatários os alunos das escolas do concelho. A oficina incide sobre a Matemática e a Música e consiste numa actividade didáctica com base num jogo de cartas original criado pela artista plástica Brígida Ribeiro, com ilustrações originais. Este jogo, baseado no “Livro da Desmatemática” de Manuel António Pina, tem como objectivo constituir famílias de múltiplos, ao mesmo tempo que as crianças descobrem os textos de Manuel António Pina. Paralelamente e de forma complementar a este jogo, a oficina conta também com uma componente musical que apela a jogos fonéticos que têm por base textos do autor.
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Cultura, Livros
06 - 12 - 2009

A Porto Editora lançou a antologia Poemas Portugueses que reune mais de dois mil poemas portugueses de 267 autores. Organizada por Rui Lage e Jorge Reis-Sá, esta será a maior antologia de poesia portuguesa jamais reunida num só volume. Os antologiadores consideram que o elemento de distinção da obra, relativamente às organizadas no passado, é o facto de ela ser “a primeira antologia panorâmica que abarca a poesia portuguesa desde os seus alvores, na transição do século XII para o século XIII até ao ano de 2008″. A antologia está organizada por ordem cronológica do nascimento de cada poeta, abrindo com a “Cantiga de Garvaia”, de Pai Soares de Taveirós, trovador do primeiro decénio do século XIII, e fechando com um poema de Outubro de 2008, “Rasto”, de Luís Quintais. O prefácio de Poemas Portugueses é de Vasco Graça Moura.
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Cultura, Livros
23 - 11 - 2009

Américo Rodrigues, director do Teatro Municipal da Guarda
Américo Rodrigues, Fernando Mora Ramos, José Luís Ferreira e Manuel Portela encontram-se em Quatro ensaios à boca de cena – para uma política teatral e da programação, uma edição da Cotovia, com prefácio de José Gil, que reflecte sobre o teatro português e as novas políticas culturais. Os ensaios são diversificados. Fernando Mora Ramos, com um extenso currículo à frente do CENDREV, em projectos do TNSJ ou da programação de Coimbra – Capital da Cultura 2003 fala sobre “Teatro Português: Para uma superação da insignificância”, Américo Rodrigues, director do Teatro Municipal da Guarda desde 2005 reflecte sobre “A descentralização. A Rede. As políticas culturais.”. José Luís Ferreira, actual coordenador do Departamento de Relações Internacionais do Teatro Nacional São João, assina o ensaio “Não é fácil…”. Manuel Portela, director do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, entre 2005 e 2008, assina um texto sobre essa experiência, intitulado “TAGV 2005-2008: Uma Experiência Interrompida”. No prefácio, José Gil reforça a importância desta obra para a reflexão sobre as artes em Portugal: “Acredito que este livro abrirá a oportunidade para um vasto debate, a nível nacional, sobre o presente e o futuro do teatro no nosso país”.
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Cultura, Livros
18 - 11 - 2009

O Irão foi palco, nos últimos vinte e cinco anos, de vários eventos traumáticos. No ano em que se assinalam os 30 anos da Revolução de 1979, esta antologia mostra como está a ocorrer um verdadeiro renascimento cultural nas artes do país. Editado pela Nova Vega, este livro quebra a barreira que se tem colocado um pouco por todo o mundo de termos acesso aos novos rumos desta literatura. A ausência de traduções tem-nos privado de bons textos desde a Revolução e de uma cultura rica. A antologia reúne dois grupos de escritores iranianos – os escritores consagrados antes da Revolução e que continuaram a publicar após este período – Mahmud Dowlatabadi, Hushgang Golshiri, Simin Daneshvar (a primeira mulher romancista), Nassim Khaksar e Iraj Pezeshkad – e um segundo grupo de escritores que começaram a publicar após a Revolução e que abordam agora na sua obra alguns daqueles que são ainda considerados temas tabu (Reza Daneshavar, Farkondeh Aghai, Assghar Abdollahi, Seyyed Ebrahim Nabavi, Shahriyar Mandanipur, Ghazi Rabihavi e Goli Taraghi). Um livro a descobrir.
Escrito por Editor
Cultura, Livros
29 - 10 - 2009

O escritor chileno regressa ao romance com uma grande homenagem ao idealismo dos perdedores. Prémio Primavera de Romance 2009, A Sombra do que Fomos é um virtuoso exercício literário posto ao serviço de uma história carregada de memórias do exílio, de sonhos desfeitos e de ideais destruídos. Um romance escrito com o coração e o estômago, que comove o leitor, lhe arranca sorrisos e até gargalhadas, levando-o no fim a uma reflexão profunda sobre a vida.
Num velho armazém de um bairro popular de Santiago do Chile, três sexagenários esperam impacientes pela chegada de um quarto homem. Cacho Salinas, Lolo Garmendia e Lucho Arencibia, antigos militantes de esquerda derrotados pelo golpe de estado de Pinochet e condenados ao exílio, voltam a reunir-se trinta e cinco anos depois, convocados por Pedro Nolasco, um antigo camarada sob cujas ordens vão executar uma arrojada acção revolucionária. Mas quando Nolasco se dirige para o local do encontro é vítima de um golpe cego do destino e morre atingido por um gira-discos que insolitamente é lançado por uma janela, na sequência de uma desavença conjugal…
Luis Sepúlveda nasceu em Ovalle, no Chile, em 1949. Da sua vasta obra, toda ela traduzida em Portugal, destacam-se os romances O Velho que lia Romances de Amor e História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, ambos já adaptados ao cinema. Mas Mundo do Fim do Mundo, Nome de Toureiro, Patagónia Express, Encontros de Amor num País em Guerra ou Diário de um Killer Sentimental, por exemplo, conquistaram também, em todo o mundo, a admiração de milhões de leitores.
Escrito por Editor
Cultura, Livros
26 - 10 - 2009

Existe, nos últimos romances de José Saramago, uma clara atracção pelos temas históricos. Desde os tribunais da Inquisição, passando pela construção do Convento de Mafra, o Nobel da Literatura regressa aqui a um dos dilemas que mais parece atormentar Saramago e, ao que parece, grande parte da critica: a fronteira entre o sagrado e o profano. Caim é a visão de Saramgo de um dos episódios bíblicos mais emblemáticos: em suma, Deus é considerado o autor moral do assassinato de Abel. Filho primogénito de Adão e Eva segundo o Antigo Testamento da Bíblia, Caim sentiu ciúmes por Deus ter preferido as ofertas feitas pelo irmão mais novo, Abel, e matou-o, cometendo o primeiro homicídio na história da Humanidade. Pilar del Rio já afirmou que, apesar do tema, este “não é um tratado de teologia, nem um ensaio, nem um ajuste de contas: é uma ficção em que Saramago põe à prova a sua capacidade narrativa ao contar, no seu peculiar estilo, uma história de que todos conhecemos a música e alguns fragmentos da letra”.
Relembre-se que, em 1991, O Evangelho Segundo Jesus Cristo causou acesa polémica em Portugal e viria a ser vetado pelo governo à época para concorrer ao Prémio Europeu de Literatura, iniciativa que pesou na decisão do escritor para abandonar o país e passar a residir em Lanzarote, Espanha.
Aos 86 anos, José Saramago edita agora um livro que parte de uma reflexão pessoal sobre Deus, mas também sobre a própria Humanidade. Caim estará à venda nas livrarias em Portugal, Espanha e América Latina.
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Cultura, Livros, País
16 - 10 - 2009

Na apresentação do seu livro “O Caderno” pela editora Bollati Boringhieri, José Saramago fez duras críticas a Berlusconi acusando-o de atitudes fascistas.
“Não é um fascismo como o dos anos trinta, feito de gestos ridículos como levantar o braço. Mas tem outros gestos igualmente ridículos. Não será um fascismo de camisas negras, mas sim de laços Armani”.
Saramago, que chegou esta semana a Roma, vindo de Alba (Piamonte), emocionou o público e fê-lo aplaudir estas afirmações: “Berlusconi diz que é ofensivo que uma prostituta vá à televisão. E ir para a cama do primeiro-ministro, não é?” Saramago fará 87 anos no próximo mês e admitiu que esta será a sua última viagem a Itália.
A forte recepção que teve até agora é para Saramago um sinal de que “já não há diferença entre a escrita num blog e a escrita literária”.