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Manuel Luís Cochofel expõe na Galeria Pente 10

26-01-2009 | Cultura: Fotografia

Manuel Luís Cochofel tem-se afirmado como um dos fotógrafos mais promissores do panorama artístico português. Premiado em diversos concursos de fotografia, entre os quais se destaca a IX Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira em 2006, Manuel Luís Cochofel está representado em diversas colecções públicas e privadas, nomeadamente: Optimus, Thyssen, Universidade Católica Portuguesa, Tubus, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e Câmara Municipal da Moita. The Inner World of VALENTINA 170167 é a sua mais recente exposição, a ser inagurada no dia 27 de Janeiro, na Galeria Pente 10. A A.23 reproduz aqui o texto de Mário Verino Rosado que acompanha o catálogo. 31 imagens a cores e uma imagem a preto e branco, obtidas entre 2005 e 2006, podem ser vistas e apreciadas até 21 de Março, de 3ª a Sábado (15h00-20h00).

Texto de Mário Verino Rosado
(Texto inserido no catálogo da exposição)

I – Valentina 170167
Não se lembra de quando começou a construir a arquitectura fragmentária de si. Encontrou na Fotografia a própria definição da existência. Inscrevia, recorrentemente, a sua vida na sensibilidade da película fotográfica, desenhando-se com luz sobre o papel; fixando-se para sempre em alquimias químicas. O seu retrato de mil fragmentos ganhava forma, muitas vezes, no lugar da ausência dos corpos. Limitava-se a ser o vestígio de sua passagem; a imagem espectral de um percurso. Guardava, assim, a imagem da sua memória em álbuns de recordações. Escondia mil lusco-fuscos em cadernos fotográficos. Por vezes, mantinha apertadas junto ao peito as fotografias de corpos com quem partilhara uma cama ou uma escova de dentes. Nas suas gavetas habitava um etéreo material emulsionado de infinito.
Dos pequenos fragmentos de vida que se dedicava a fotografar, preservava a memória dos sítios onde comeu, dormiu, pensou, amou ou existiu. Consumia através da luz todas as sombras e é era esse o combustível da sua imaginação. Encerrava estórias, segredos e breves sussurros na imaterialidade do fotográfico… aprisionava, assim, o “ser” que lhe aconteceu e fotografava, todos os dias, o local onde as nossas mãos se tocaram pela primeira vez.

…O seu retrato não se esgotou nunca numa única imagem de si…

II – Um Retrato-Fragmento

A lógica evidenciada por Manuel Luís Cochofel na conceptualização de The Inner World of Valentina 170167 parte do discutível pressuposto de que um retrato não se esgota na imagem única de um “si”; podendo, pelo contrário, ser realizado através de um conjunto de imagens que evocam e, de certo modo, definem uma dada existência. Através desta exposição/instalação, Cochofel efectua a (re) criação de uma intimidade e propõe a estruturação de uma dinâmica ficcional em torno das possibilidades que constituem a Identidade e o “Ser”.
A dimensão discursiva inerente a este projecto implica, portanto, que o conjunto fragmentário e “aleatório” de fotografias que o constituem (originais do autor e apropriações trabalhadas de imagens pré-existentes) deva ser apreendido como algo que detém uma dimensão estrutural bem mais ampla do que à primeira vista poderíamos supor. Não estamos perante o retrato de Valentina, mas na presença de “um” potencial retrato composto por fragmentos que procuram evocar a vida interior de uma “personagem”.
O que sabemos, realmente, sobre Valentina? Sabemos, apenas, que não é uma ficção (de facto Valentina existe e responde pelo número 170167 de um serviço on-line onde mulheres e homens colocam anúncios em busca de um parceiro para casar). Este conjunto de fotografias lança, assim, o desafio de se produzirem múltiplos jogos narrativos em torno de uma existência. Em última análise, e permitindo, enfim, que as próprias imagens se façam “ouvir”, resta alertar para o facto de que o desenrolar desta ficção depende apenas e unicamente da interpretação de quem se detiver nas imagens e se permitir a alguns momentos de imaginação…

“Have you ever been on an adventure that goes on and on and on? With every breath you take the problems melt away and your deepest dreams desires and fantasies become more and more yours. Welcome to my reality”.

(Texto de um anunciante identificado)

Fotógrafa Margarida Dias expõe no Pavilhão 28

14-12-2008 | Artes Plásticas: Cultura

O Pavilhão 28 do complexo hospitalar Júlio de Matos, espaço já conotado com algumas iniciativas artísticas contemporâneas, tem sido considerado uma plataforma intermédia de divulgação da prática artística emergente em Portugal. A relação do espaço interior com o espaço exterior está novamente presente através da exposição “land-scape”, uma mostra de vários artistas – Andreia Quelhas Lima, Margarida Dias, Margarida Palma, Martinha Maia, Raquel Feliciano, Joana Consiglieri, Esther Villalobos, Tiago Margaça, José Ribeiro, Patrícia Barbosa e Marta Ramos – que, através de representações em diversos materiais (pintura, escultura, fotografia), reflectem sobre temas como a ecologia, o ambiente ou a paisagem natural e esculpida pelo Homem.
Para Isabel Vaz Lopes, é importante salientar o papel de relevo da paisagem na arte “após a ocupação selvática do território que, ao longo dos séculos, o Homem tem vindo a fazer”. Esta é, por isso, uma “auto-reflexão” que nos leva ao “questionamento da nossa relação com a ‘Natureza’ e com o nosso ’ser animal’”. Interessante será também observar não só as diferentes perspectivas sobre a Natureza e a sua representação, mas também a inscrição do sujeito na paisagem, revelando-nos diferentes formas de envolvimento.
Margarida Dias, colaboradora da A.23, integra esta mostra com quatro fotografias às quais deixa regressar um vestígio de cor. Um aspecto interessante na sua obra, quase feita, na totalidade, em tons de preto e branco, e que revela também a evolução técnica da própria fotografia: “Hoje, é a mágica luz do ecrã do computador que me mantem ‘enfeitiçada’… mesmo depois de, sem pedir licença, me ter substituído os sais de prata por ‘pixels’… Para grande surpresa minha, perdi um medo e comecei a deixar um vestígio de cor, no meu preto e branco. Ao ’sabor do vento’ sigo viagem e, embora de forma inconsciente, continuo fiel a pequenos nadas que sempre estiveram à minha volta”, explica Margarida Dias.
Para ver de 13 Dezembro a 30 Janeiro, das 10.00 às 19.30, de Segunda a Domingo.

Jorge Molder: “De todas as formas e feitios”

1-12-2008 | Cultura: Fotografia

Texto de Margarida Gil dos Reis

Depois de ter apresentado, recentemente, em Madrid, “Malas Maneras”, Jorge Molder tem agora uma nova exposição na Galeria Pedro Oliveira, no Porto. “De todas as formas e feitios” reúne duas séries de fotografias deste ano – “Tangram” (2004/08) e “Ocultações” (2008).
“Tangram” “recupera a ideia do quebra-cabeças de origem chinesa, em que a partir de sete figuras que subdividem um quadrado é possível construir uma infinidade de novas formas”. Partindo de um grupo de polaróides, tiradas pelo autor em 2004, que mostram a interacção da mão humana com uma caixa de luz, Jorge Molder explora as possibilidades combinatórias que existem e que podem ser captadas através da fotografia. Mais uma vez, como vem sendo habitual na sua obra, Jorge Molder recorre à presença da mão na sua fotografia. A mão que, ao se desdobrar em posições e movimentos, acaba por ser um dos objectos privilegiados de Molder.
É também da contemplação, do ver e ser visto ou do ver e ocultar que fala Jorge Molder em “Ocultações”. “Entre ver e ocultar, desvendam-se infinitas modulações, mostrar e fingir, olhar disfarçadamente e fugir com o olhar, mostrar tudo o que há por dentro e produzir uma separação inultrapassável”, diz Jorge Molder a propósito desta série de 12 fotografias. De algum modo, a própria fotografia, que proporciona um jogo de visões com o espectador, descreve a expressividade dos órgãos do corpo, olhos e mãos, neste caso. O movimento de ocultação/desocultação, sempre no limite da evidência e da não evidência, dá à obra de Molder os contornos de um jogo que tem sempre subjacentes as ideias de repetição e possibilidade.
Jorge Molder (n.1947, Lisboa) é um dos nomes incontornáveis da sua geração. Começou a expor com regularidade no final dos anos 70. Está representado em várias colecções públicas, em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Suíça, Brasil e EUA.

Para ver até 31 de Janeiro, na Galeria Pedro Oliveira, no Porto.

Manuel Luís Cochofel: duas exposições em Vila Franca de Xira

10-11-2008 | Cultura: Fotografia

Escrever o mundo com imagens

Texto de Margarida Gil dos Reis

No dia 8, abre ao público a 10.ª Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, retomando assim aquela que é uma das mais antigas e reputadas iniciativas do seu género no nosso País. Esta exposição estará patente ao público no Celeiro da Patriarcal até ao dia 7 de Dezembro e decorre em paralelo com um extenso programa de exposições dentro e fora do Concelho. Destaque para a dos vencedores da 9.ª Bienal, Hélder Macedo e Manuel Luís Cochofel, patente na Galeria de Exposições da Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, de 6 Novembro a 7 de Dezembro. Manuel Luís Cochofel está ainda representado na Bienal de V. Franca com seis ‘Polaroid Portraits’.

A obra de Manuel Luís Cochofel tem-se revelado mestra na criação de envolvimentos, de elos imediatos com o mundo, com corpos e com sensações. Ela desenvolve a riqueza das nossas percepções, passando pelo tecido da nossa vida quotidiana e pela necessidade da sua representação. Pormenores arquitectónicos, símbolos da obra humana, pernas sem um corpo, anónimas mas por isso mesmo universais, ou a redução de uma paisagem a traços simples e dominantes, como se a escrita se sobrepusesse à imagem são, sobretudo, vestígios de uma forma de escrita que resulta da apreensão da essência do que é representado. Ver e dizer dão-nos aqui uma descrição pormenorizada de uma porção do mundo.

A viagem de Manuel Luís Cochofel é exactamente a de fixar proporções para as desconstruir em seguida. É o que tem lugar, ora quando comparamos a escala de um edifício com a de uma pessoa, ora quando podemos imaginar uma nuvem que quase toca um telhado.

Alguns dos elementos captados funcionam também como a imagem da sua ausência. Vestígios, traços inscritos num vidro (como se por momentos nos fizessem crer que estão inscritos na própria lente), manchas, apagadas, sem singularidade, que ocultam o que está para lá dessa fronteira e lhe retiram o papel de protagonista. Apenas coisas que nos mostram o quanto existe da condição humana na fotografia. Talvez porque as imagens dizem (-nos) mas também nos ocultam. E o mundo continua a existir. Pode ser fixado, descrito ou reinventado. Através da obra de Manuel Luís Cochofel, nas suas várias abordagens do real, ora utilizando a cor, ora rendendo-se ao preto e branco, o tempo existe. Essa é a grande condição do fotógrafo: existir no tempo e nele fazer-nos existir.

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