
Entrevista de Rui Pelejão Marques Fotografias de Pedro Leal Salvado
Todas as semanas Fernando Paulouro fecha a edição do “Jornal do Fundão”, título que cumpre mais de 60 anos de defesa da liberdade e da região. Voz influente numa Beira à beira da Cova, Fernando Paulouro acredita no jornalismo como expressão de cidadania activa e defende uma das liberdades mais ameaçadas – a liberdade de pensar. O Jornal do Fundão cumpre 64 anos. Um velho combatente pela liberdade e pelo desenvolvimento da terra e da região que lhe deu berço. Fernando Paulouro cresceu nesse universo onde a condição humana se eleva a assunto de primeira página. A condição humana na sua expressão local é um laço que nos une no combate pela defesa de um humanismo em derrocada à escala global. Por isso, o director do “Jornal do Fundão” acredita num jornalismo de serviço público; ao serviço dos que trabalham e dos que sofrem. Parece palavreado de esquerda E, se não é ao serviço do bem público que o jornalismo anda, então é ao serviço de quem? À conversa com uma voz que prega num país desertificado, sobretudo, desertificado de ideias.
Roubando a pergunta de uma entrevista de Baptista Bastos a Carlos Pinhão – É a favor ou contra?
Respondo o mesmo que o Carlos Pinhão – Sou a favor do contra. Escrever é estar contra. Sou a favor do contra, porque aquilo que escrevo não é um apelo à concordância e à unanimidade do rebanho.
E o Jornal do Fundão ainda é do contra, quando ser do contra é ser contra a esquerda?
O JF sempre foi um jornal plural, mas isso não impede uma linha editorial de intervenção. O nosso comprometimento é com a defesa das causas regionais, e independentemente da cor do poder, sempre tivemos razões de queixa. Ainda há pouco tempo publiquei um dos mais violentos artigos contra o primeiro-ministro Sócrates, com quem me dou bem, o que não impede que possa discordar de algumas das suas opções para o nosso país e para a região.
Mas apesar dessa pluralidade do “contra” o JF é conotado como um jornal de esquerda, isso é porque o seu director é um homem de esquerda?
Não me demito da opinião na minha “quinta” que é um espaço de comentário assinado. Quando foi da campanha para as presidenciais fiz críticas severas a Cavaco Silva, mas a cobertura jornalística e informativa do jornal não é condicionada pela minha opinião.
Mas o Presidente Cavaco hoje parece mais à esquerda, e o primeiro-ministro Sócrates mais à direita, andamos um bocado baralhados…
Julgo que o primeiro-ministro é um social-democrata, como aliás sempre se reclamou. A social-democracia não é nenhum pecado, um dos erros da esquerda, nomeadamente do Partido Comunista, foi em determinado momento da história ter querido suprimir a social-democracia. Em Portugal é que está tudo baralhado: os que estão do PSD se calhar não são sociais-democratas, mas sim liberais de direita e os que estão no PS se calhar estão mais perto da social-democracia. Quando se diz que as ideologias morreram e que a lógica de esquerda e direita não fazem sentido, está a fazer-se uma conveniente mistificação.
Então o que é ser de esquerda hoje?
Julgo que em larga medida é saber que vivemos num mundo que gera desigualdades sociais, injustiça, exclusão e miséria humana, e para a esquerda combater isso é a primeira prioridade e não a última. ,Dizem que o JF é de esquerda porque sempre foi um jornal sensível aos problemas sociais; porque é um jornal que desde o primeiro número disse que a nossa obrigação é estar com aqueles que trabalham e com aqueles que sofrem.
Sempre nos habituamos a ver no JF um jornal de causas, de batalhas, primeiro pela liberdade, e mais recentemente pelo desenvolvimento regional. Hoje, ao folhearmos o jornal não descortinamos facilmente essas causas, parece que o JF está conformado …
O problema é que actualmente as causas são mais complexas e diluídas. Aquilo que eram causas muito nítidas da realidade social e regional estão hoje dependentes de organizações de poder mais vastas e impessoais. Temos dúvidas sobre a quem atribuir as responsabilidades das grandes opções políticas, se ao Governo se à Comissão Europeia ou ao Banco Central Europeu. As causas actuais são necessariamente outras, mas temas como o património natural e histórico, o desenvolvimento cultural, ou o Regadio da Cova da Beira continuam a marcar presença no JF. Se calhar temos é de encontrar uma forma diferente de as defender.

A luta contra o encerramento de maternidades e escolas na Beira Interior não é uma causa à medida do JF?
Defender causas da região não é defender que todos os concelhos têm de ter maternidades ou que todas as freguesias têm de ter escolas. O problema da segurança dos partos ou do isolamento das crianças devem sobrepor-se a todas as outras as questões.
O estudo fez capa do Expresso, e dizia que 70 por cento das notícias da imprensa são “fornecidas” por agências de comunicação ou assessorias de imprensa. Mesmo a nível local existe uma pressão institucional grande para a prática de um jornalismo de agenda, o JF passa incólume a essa pressão?
Todos os jornais têm tendência a criar rotinas e os jornalistas estão muito dependentes daquilo que é o mundo oficial e dos acontecimentos programados; o próprio poder local já se organiza numa lógica de comunicação política. Os e-mails, faxes e solicitações que chegam diariamente a uma redacção são imensos, mas a tarefa fundamental do jornalista é desde logo seleccionar a realidade e os jornais não podem ficar reféns da agenda institucional e por vezes de um facilitismo mecânico.
Sobretudo quando a nível autárquico o papel das oposições é meramente decorativo, e raras vezes existe verdadeira discussão pública em torno das opções políticas. Um jornal regional tem um papel de esclarecimento público que não se esgota no anúncio oficial?
O poder local foi uma grande conquista, mas hoje em dia não há participação e os poderes são indiferentes às críticas. Fizemos um grande tema no JF mostrando que o Fundão e a Covilhã deviam ter um planeamento comum e deixar de viver de costas voltadas, mas não vi nenhum autarca a manifestar-se, nem para concordar nem para discordar. Julgo que a ideia que tudo isto se resolve de quatro em quatro anos é minimalista. É aí que o jornal deve ter um papel primordial, provavelmente convidando mais pessoas a pronunciarem-se sobre as questões e acabar com as reservas mentais do silêncio e do acatamento cego.
Não falta então ao JF um pouco daquela velha receita – jornalismo não diz ás pessoas como pensar, mas sim sobre o que devem pensar?
Penso que há uma matriz fundadora e identitária do JF que não se perdeu, e que se renova todos os dias, e essa é precisamente, ser um espaço para a liberdade de pensar, mesmo em tempos em que pensar era proibido. O meu tio, António Paulouro era um homem que gostava de arriscar e andar no fio da navalha; julgo que ao fazê-lo contribuiu para mudar a feição do Fundão em termos políticos. O Fundão era uma terra conservadora e deixou de o ser graças ao percurso de moldagem cívica instigado pelo jornal.
Como é que um jornal de uma pequena cidade do interior percorreu tão longo caminho e chegou tão longe, extravasando as fronteiras “paroquiais” que normalmente circunscrevem a imprensa regional?
Há agora uma realidade urbana na região; Castelo Branco deixou de ser uma cidade de guarnição e secretaria como dizia o Torga, a Covilhã é uma cidade universitária e o Fundão agora é uma cidade, mas quando o JF foi fundado em 1946, o Fundão era apenas uma pequena vila. O que é espantoso no jornal é que cresceu acima da dimensão da terra. António Paulouro era um homem inquieto e culturalmente aberto que via mais à frente, moldando o carácter e o caminho do JF. Depois houve um trabalho colectivo com contributos geracionais diversos que levam o jornal a alargar fronteiras, a chegar ao Brasil, a Espanha, às comunidades portuguesas. Penso que essa universalidade de raiz local se deve a dois factores: Primeiro porque a matriz identitária do jornal é a do território, e segundo porque procuramos que a informação tenha uma projecção global. Mesmo as causas que são daqui têm uma leitura mais vasta e o que acontece nas Minas da Panasqueira tem paralelo noutras região mineiras; o que acontece na nossa emigração não é diferente do que acontece com outras zonas de emigração; e o que acontece na cultura é comum a outras realidades arteriais. O trabalho do jornalista é saber perceber a condição humana e o tema central do JF sempre foi a condição humana, que não se extingue na fronteira da nossa região.
Desenvolvimento Regional
Quais é que são hoje as bandeiras do Jornal do Fundão?
Uma causa que me tenho batido é para ver se há um planeamento e uma articulação entre os eixos urbanos mais importantes da região e que a cultura que tem de ter uma rede regional de equipamentos. Estou farto de bater nessas teclas.
As Jornadas da Beira Interior que o Jornal do Fundão organizou deu ao Jornal do Fundão uma vocação regionalista ao jornal?
O exemplo das jornadas da Beira Interior consubstancia muito isso, se virmos isso antecipamos a discussão sobre a cooperação transfronteiriça, já nessa altura tivemos como um dos temas – a raia traço de união. Nós fizemos três jornadas, e o director dizia na altura que agora há universidades e politécnicos, devem ser eles a fazê-las, até porque na altura o reitor da UBI onde se realizaram as últimas jornadas, o Prof. Passos Morgado, numa sessão onde estavam professores universitários portugueses e estrangeiros e alguns figuras centrais da intelectualidade portuguesa, desde o Gomes Canotilho ao Eduardo Lourenço, mandou dizer esta coisa no papel que foi lido, que as universidades deviam estar a recato dessas coisas, que agora havia hotéis, que isso podia estragar as universidades. A verdade é que a partir de então nunca mais se fizeram jornadas com aquela magnitude, e o jornal fê-lo sem meios.
Qual é o grande travão a uma lógica de planeamento regional?
São os votos. Cada presidente da câmara administra o seu colégio eleitoral. Bati-me pela regionalização, como é que se explica que fossem os próprios eleitores de regiões como a Guarda e de Castelo Branco a dizer que não queriam regionalização, que estavam bem sob a para do centralismo?
A hipocrisia e a má consciência que há sobre a regionalização é uma coisa tremenda, porque mesmo os governos que recusaram a regionalização diziam que era preciso fazer outra coisa, e fez-se a Comurbeiras que é um modelo territorial perfeitamente anedótico, o Fundão está com Castelo Branco, a Covilhã está com a Guarda.
E o mapa das cinco regiões?
É uma homenagem que se está a fazer ao Marcelo Caetano, porque foi ele o criador dessa teoria, e quando de certa maneira são os netos do Marcelo que estão no poder, sempre é uma forma de materializar um projecto que depois foi metido na gaveta. Agora não tenho nada contra cinco regiões-plano, mas depois como é que isso vai evoluir, vão-se apenas alterar as centralidades. Que raio de país é este em que o gabinete de estudos transfronteiriço tem de estar em Coimbra, quando os interlocutores estão aqui ao pé de Castelo Branco de da Guarda. As grandes causas são o desemprego, as desigualdades sociais, o problema das periferias, e as sucessivas periferias que se vão agravando. E um causa interessante é que futuro para o mundo rural? Essas são causas permanentes no JF, sobre as quais nos debatemos e lançamos interrogações todas as semanas.
Ligação à terra
Está ligado umbilicalmente ao JF há mais de 40 anos, nunca pensou cortar o cordão umbilical?
Naquela época o jornalismo impunha-se como uma tarefa cívica. Além disso o jornal tinha outra vertente que pessoalmente me atraía, já que me dava oportunidades de contactar e criar laços com pessoas como o João Cabral de Melo Neto, ou conversar com o Erico Veríssimo e ele assinar-me no livro “com muitas felicidade na sua futura carreira”. Farta recompensa foi já o facto de ter estabelecido uma amizade grande com o José Cardoso Pires, que conversava comigo sobre coisas que eu escrevia, o que era muito gratificante. Depois houve outro aspecto importante, já que eu era militante do Partido Comunista na clandestinidade, e a minha actividade aqui era útil. Ao longo dos anos houve vário projectos e oportunidades de ir para Lisboa, mas eu sempre, achei que, como dizia o Manuel Alegre noutro contexto, “ás vezes a verdadeira aventura é ficar”.
A entrada da Lusomundo no capital do JF suscitou alguma preocupação entre os leitores, que temiam que uma visão puramente empresarial e orientada para o lucro viesse descaracterizar o jornal…
O modelo de sociedade configurado na Europa é um modelo que aponta para a concentração de meios e de empresas, e por isso a velha ideia romântica ligada ao jornal de antigamente, tal como se configurava em torno de António Paulouro dificilmente sobreviveria no ambiente de competição económica que se vive hoje. O JF foi um projecto muito exigente e pouco compensador do ponto de vista económico, mas a que o meu tio nunca virou costas, mesmo com sacrifício pessoal. Julgo que hoje isso é impossível, o jornal tem de ser gerido empresarialmente. Aceito perfeitamente que as pessoas possam discordar, mas parece-me que a identidade e o património afectivo que o JF construiu ao longo de 60 anos são também valores interessantes para quem é proprietário de um meio de comunicação social.
Mais do que contra-poder o jornalismo é hoje outra forma de poder…
A lógica da divisão dos poderes desmoronou aquilo que era o edifício clássico a partir do momento em que o poder económico ganhou ascendente. O Pepe Montalban de quem tenho grandes saudades, dizia “não obriguem o jornalista a ser herói todos os dias, não tem de atirar-se de pára-quedas sobre o Laos”, e dizia-o porque vivemos um tempo em que todos dão conselhos. A magistratura do conselho está instalada desde os cardeais, os políticos e até o Papa do conselho, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, todos eles têm conselhos a dar sobre as boas práticas do jornalismo. Somos confrontados com a diluição dos poderes, os jornais estão envolvidos nisso porque pertencem ao poder económico.
Mas cada vez mais o jornalismo está orientado para resultados e pela pressão das audiências, isso não desvirtua o seu importante papel social?
Considero que o jornalismo é um serviço público e por isso deve ser um contra-poder. Mas essa ideia está a ser combatida todos os dias pela realidade. Mesmo professores de jornalismo andam a papaguear pelas universidades que isso do “contra-poder” já não se usa, sacralizando a objectividade e a neutralidade, quando o que eles querem é uma neutralidade útil.
O seu “serviço público” e exercício de cidadania passa exclusivamente pela escrita, ou admite um regresso à política?
A política é um assunto completamente arrumado. Neste momento o meu envolvimento é puramente cívico. Felizmente penso muitas vezes em voz alta e dou o meu testemunho que é apenas isso, um testemunho.
Novos projectos literários
A produção escrita de Fernando Paulouro não se esgota no jornalismo como autor e pensador tem publicado ficção. O que o seduz na literatura?
Seduz-me uma ficção muito assente em personagens reais e em situações que apesar de recriadas têm uma sustentabilidade real, porque nenhuma imaginação é mais criadora do que a experiência. Apaixona-me essa reelaboração da memória .Depois de algumas incursões pela dramaturgia, com uma peça escrita para o GICC Teatro das Beiras e também com um livro-reportagem a duas mãos (com Daniel Reis) sobre as Minas da Panasqueira. Tenho muito projectos, podia-me aposentar já hoje. Queria reunir um conjunto de crónicas publicadas no JF, depois tenho em mãos um projecto que era para ser mais um conjunto de contos, mas que está a evoluir para uma novela em que a acção e personagens têm como espaço narrativo um café e o seu largo fronteiro. Finalmente pretendo reeditar o livro das Minas, e comparar à distância de 30 anos, a realidade original com que ali nos deparamos, depois daquele final em que o mineiro dizia após a derradeira greve – “ganhámos!”
Neste roteiro pessoal para a revisitação da memória falta o fôlego de um romance, mas Fernando Paulouro reconhece que “a produção de um romance exige distanciamento e alguma solidão para poder escrever, e isso não se compadece com o ritmo do jornal. Tenho um bocado aquela ideia do poema do Ungaretti em que um tipo dizia que viver é roubar horas à morte, e a minha forma de envolver na ficção é pura e simplesmente isso.”
Entrevista publicada no numero 0 da revista A23














Boa malha, miúdos, embora também não seja tão difícil, assim, trocar dois dedos de prosa com o SENHOR entrevistado, pois resulta sempre excepcional e dá imenso sumo para publicar. Mas como não quero continuar a parecer puxa-saco, apenas deixo um abraço para o Pelejão e para o senhor Director Ricardo (I presume). Ah, antes que me esqueça: a primeira foto tem muita pinta. Olé!
Dani Bogas
Boa peça, excelente serviço e, claro, as melhores companhias. Parabéns. Abraço.
Afonso Camões