
Fotografia de Pedro Martins
Texto e fotografias de Pedro Martins – Aqui vivem 58 pessoas, 2000 cabras e 58 ovelhas. Estamos quase a chegar a Covas do Monte, esta aldeia, tem na pastorícia a sua principal fonte de rendimento. Todos uma vez por dia são pastores das 2000 cabras. Continuamos na senda de Covas do Monte, apenas nos anos oitenta do século passado se abriu esta estrada e o alcatrão chegou mais tarde, dali não segue para mais lado nenhum. Agora, encosta abaixo vemos já a pequena aldeia, fica encravada num vale da Serra de São Macário a uma altitude de 450 m, à sua volta fica uma imensa montanha de xisto, manchada de verde das giestas e do mato, aqui e ali salpicada por algumas manchas de pinheiro e alguns, poucos, eucaliptos.

Quando chego à aldeia sou invadido pela curiosidade dos habitantes, deambulando vou conhecendo a Tia Maria, o ti José pelo afecto parece que nos conhecemos há muito tempo, pergunto por curiosidade, então e as cabras? Ao que me respondem que devem estar a chegar, mas tarde entendo este facto. As cerca de 2000 cabras que sobem, diariamente, num espectáculo inusitado e surpreendente, as várias encostas, e, para as guardar, os habitantes organizaram “parceiradas” em que se revezam, à vez e de forma comunitária, na guarda do gado (pobreiro), isto na encosta acima, depois para baixo elas vêm sozinhas ao seu ritmo, algumas acabam por ficar lá nas encostas mais altas da Serra de Arada e São Macário e voltam depois a casa.

A aldeia é constituída na sua maioria por construções de xisto, incluindo o telhado que é feito por placas desta mesma rocha (lousa). Dispostas por ruas sinuosas, por norma, as casas têm um piso térreo onde se abrigam os animais e as alfaias agrícolas e um primeiro andar para habitação. Ao anoitecer então como estava prometido, as cabras começam a percorrer as ruas lamacentas da aldeia, cada uma se encaminha para o seu curral, o frio está a chegar e as ultimas são levadas pelos donos até a tranca encerrar o frio da rua.

Estou acompanhado por técnicos da Associação de Desenvolvimento – Criar Raízes, que me explicam os vários projectos que tem vindo a desenvolver na aldeia, um parque de campismo ecológico que aproveitamos para visitar, um espaço de internet já em funcionamento que tem sido bem acolhido pelos “pobreiros” que em dias de folga aproveitam para percorrer também os caminhos da informação e do conhecimento.

Esta Rota de levar o gado até ao cimo do monte, é também de vez em quando, realizada por turistas que vêm na curiosidade e vestem também a pele de serem eles também os pastores das 2000 cabras, a Rota do Pobreiro é realizada várias vezes ao ano e sempre com marcação. Para o final o melhor, no dia a seguir bem cedo estamos de volta a Covas do Monte, agora também temos a oportunidade de subir o monte na companhia das cabras, para as guiar duas mulheres d. Antónia e Isaltina, mais nova, habituadas a este ritmo e tarefas dão o mote de saída e á medida que vão percorrendo as estreitas e frias ruas da aldeia o grupo das cabras vai aumentando, rapidamente os pequenos grupos dão lugar a um grande grupo e ficamos a olhar a fila já interminável, nunca imaginei que 2000 cabras fossem tantas cabras, comentei eu para mim, sigo o passo acelerado das minhas guias pastoras, que com ajuda de dois cães lá vão encaminhando o gado agora no estreito trilho.

Olhando no prolongamento do vale são visíveis os campos férteis e verdejantes. Ali perto, o Portal do Inferno espreita….mas não temos tempo hoje. Já no cimo do Monte, um nevoeiro denso e frio invade toda a paisagem, deixo de ver as cabras, mas elas agora mais cansadas estão mais calmas e aproveitam para retemperar forças da subida. Com esta etapa feita, aproveito agora para conhecer mais da aldeia, regresso pelo apertado trilho. No prolongamento do vale ficam situadas as “Terras do Pão”.

São terrenos férteis e com abundância de água que escorre da serra por alguns ribeiros que é utilizada e distribuída pelos campos através de um regadio tradicional. É também essa água que dá força para fazer andar as mós, nos seculares moinhos de água, onde se procede à moagem dos cereais para se fazer a broa. Existiam na aldeia, antigamente, três lagares de azeite, dos quais um, o comunitário, encontra-se neste momento em recuperação.

Para terminar esta pequena viagem nada melhor que retemperar o estômago, curiosidade das curiosidades, a antiga escola de Covas do Monte, já não funciona, também porque não há crianças, mas alberga o Restaurante da Associação dos Amigos de Covas do Monte, merece uma visita atenta e demorada, podendo deliciar-se com algumas das especialidades regionais, como os rojões ou o cabrito e a vitela assada. Lá fora está frio e chuva, ficamos com tempo para recordar os melhores momentos desta aldeia, onde o tempo tem outro significado.















Fica a vontade de conhecer…
Parabéns Pedro pela reportagem, é muito importante a divulgação do interior, já de si esquecido. É esse tipo de trabalho que faz com que esse interior tão pobre e ao mesmo tempo tão rico em história, pessoas e beleza natural, seja também conhecido pelas outras gentes.
Excelente reportagem, texto documentado por fotos/imagens de grande qualidade que nos levam ao verdadeiro Portugal “profundo”. Parabéns ao seu autor.
Gostei de visitar a página sobre Covas do Monte e as suas cabras, ícone incontronavel da aldeia.
Tenho relaçoes familiares e consequentemente uma grande estima e apreço por quem lá vive.
Em relação aos rebanhos de cabras:
Covas do Monte
Oh! como eu gostava
de beber leite de cabra.
Calcorrear os velhos caminhos,
olfatar a carqueja e a urze,
colher ramos de papoilas
e meter-me com as mocoilas,
que cheias de truques e manhas,
apacentam imberbes rebanhos,
que me parecem estranhos,
nessas tão altas montanhas.
Fmorujão
excelente reportagem mesmo, imagens e histórias em que nos levam ao algum lugar,
covas do monte minha aldeia natal, embora distante dai…sinto orgulho da minha terra e da minha familia