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A luz proíbida do ecrã

Texto-Miguel Ángel Barroso Com o primeiro beijo filmado pelo inventor do fonógrafo e da lâmpada, Thomas A. Edison, nasceu o erotismo no cinema. Porque, convenhamos, o que era o cinema naquele ano de 1895? Apenas película de celulóide que trazia magia à realidade e dava movimento a uma fotografia. Daí para os sentimentalismo havia um passo muito curto e previsível. Possivelmente, o astuto comerciante que era Edison nunca pensou nas suas possibilidades eróticas. Mas o seu filme, The Kiss, com um minuto de duração, causou um tremendo escândalo ao gravar os seus dois actores, já de idade madura, a dar três beijos (dois na bochecha e um no canto da boca), colocando em pé de guerra os defensores da moral – entre os quais constava a revista The Chap Book, a qual denuncia claramente a liberdade de expressão, ao escrever este artigo: “os empresários de espectáculos estão dispostos a eclipsar tudo o que foi visto até agora, por detrás de material de mau gosto. Numa obra recente vocês recordam o beijo que trocaram uma tal May Irwin e John C. Rice. Nenhum dos intérpretes era particularmente atractivo e o espectáculo entre um e outro tornou-se insuportável. Com o tamanho natural já era algo anormal, mas não era nada comparado com o efeito produzido por este acto aumentado a proporções gigantescas e repetido três vezes consecutivas. O resultado é absolutamente repulsivo. Todo o encanto da menina Irwin se desvanece, convertendo a sua arte em algo indecente e de uma vulgaridade prodigiosa. Tais feitos exigem a intervenção das autoridades policiais”.

No entanto, apesar das tentativas de censura, The Kiss tornou-se cada vez mais popular e permaneceu nas salas de cinema locais até que as cópias, de tanto uso, ficaram fora de serviço. O filme podia ser visto dentro da invenção de Edison, chamado Kinetoscopio – que não podia projectar as imagens para o exterior, apesar de poder ser adaptado para esse fim. Deste modo, sem intenção, também Edison descobriu o futuro magnetoscópio, enquanto o kinetoscopio permitia uma intimidade que é impossível numa sala de projecção cheia de gente.

O sexo no cinema estava assim inventado. Os franceses e os italianos rodavam, com audácia, películas em que se mostrava a nudez feminina na sua plenitude, acompanhada de um cocktail erótico e sexual descarado. A produtora Pathé possui um catálogo realmente rico e de qualidade, eroticamente falando: La Puce (1896 – se bem que alguns catálogos apontem a data para 1907; Bains Des Dames De La Cour (1900); Flirt En Chemin De Fer (1902); L’Amour A Tous Les Étages (1900-1903), verdadeira jóia centrada na figura de um mirone que observa pela fechadura; Par Le Trou De Serrure (Peeping Tom) (1901), outro voyeur que vê através de fechaduras, neste caso um mordomo; Baignade interdite (1903), etc.

O poder e as instituições proibiam estes filmes, mas o cidadão comum exigia-los cada vez mais. Inicia-se assim a espiral perversa e hipócrita que define a nossa sociedade de pensadores: “Existe, mas não vejo; nego, mas consumo.”

Por outro lado, os Estados Unidos torna-se rapidamente no grande produtor mundial de filmes pornográficos, hegemonia que continua a conservar na actualidade. Os produtores abordam sem pudor todo o tipo de actividades sexuais, incluindo práticas como a zoofilia, a chuva dourada, o sadomasoquismo, e também agradam a procura de cinema gay e lésbico. Dentro destes filmes, conhecidos vulgarmente como stags (cujo significado é “para homens”, “reunião de homens” – stag party – ou “despedida de solteiro”, etc.), os espectadores encontravam todo o tipo de actividades eróticas, tais como: sexo anal, dupla penetração, trios, orgias, fantasias mórbidas com jovens demasiado excitadas, reparadores de televisão, canalizadores, playboys, velhos, aristocratas pervertidos, ninfomaníacas insaciáveis, padres, monges, políticos, militares e tudo o que é imaginável por uma mente acalentada.

Logicamente, como já apontámos, estes filmes circulavam clandestinamente. Realizados entre 1915 e 1970, tiveram o seu esplendor nos anos 20 e 30, eram projectados em 16mm (antes em 35mm, naturalmente), em sessões de duas a três horas. O preço destas sessões oscilava entre os cinquenta e os cem dólares. As projecções tinham lugar em casas particulares, diante de um público selecto (as estrelas de Hollywood também organizavam sessões com os seus amigos), que se submergia num mundo de pecado, onde o som do projector se misturava com o respirar ofegante e os gemidos que emanavam da irresistível luxúria que envolvia tudo. Ou, pelo menos, assim deveria ser.

Chegaram, inclusivamente, a ser rodados filmes de desenhos animados, entre os quais se deve destacar uma jóia chamada Buried Treasure (1928-33), uma sátira cruel acerca do membro viril que, na ânsia de fornicar tudo, ganha vida própria e coloca-se em sarilhos tremendos em busca de sexos femininos onde se possa instalar. Apesar de não haver provas concretas, esta obra prima da animação, rodada num grande estúdio a horas nocturnas, é muito provável que estivesse a ser realizado, na parte artística, por Gregory La Cava, e na sua técnica de animação por Walter Lantz, o criador do popular Woody Woodpecker (o Pica-Pau). É impensável, dada a grandiosa produção do cartoon, que tenha saído das mãos de um simples amador. Pode parecer estranho que um grande realizador como La Cava, responsável por melodramas elegantes e refinados, fizesse um filme tão desavergonhado, mas analisando com atenção a sua obra vemos que grande parte dos seus argumentos giram em torno do sexo. La Cava, que não era nenhum moralista, bem podia ter-se juntado a Lantz, a quem está associada uma animação tão irreverente, e os dois tornaram real uma obra que nunca se pôde produzir abertamente num estúdio convencional.

“A vida está feita para o prazer”, disse-o Kichi, o protagonista d’O Império dos Sentidos (Ai no corrida, 1976), à sua amada Sada. E, sem dúvida, esta é a filosofia dos realizadores mais amantes do erotismo e de gosto refinado por cinema: Tinto Brass, Roger Vadim, Russ Meyer, Walerian Borowczyk, Tex Avery, Claude Pierson, Max Pecas, Just Jaeckin, Gerard Damiano, os irmãos Mitchell, Mario Salieri, Moli, Michel Ricaud, John Leslie, Henry Paris (Radley Metzger), etc. Juntos ou separados, uns mais refinados que outros, todos eles nos ofereceram momentos inesquecíveis de erotismo puro e sexo a rodos, deixando a sua autoria no género mais difícil da arte cinematográfica, porque não há nada mais complicado que filmar sexo. Na literatura acontece o mesmo: a repetição do acto sexual pode deixar de ser algo excitante e converter-se num exercício rotineiro de corpos fornicando mecanicamente e sem ponta de imaginação.

Tudo isto o sabia bem Gerard Damiano quando concebeu uma das suas obras primas, Garganta Funda (Deep Throat, 1972). Como fazer o “mesmo”, mas de forma “distinta”? Inventando um mundo real, mas com toques de surrealismo. A protagonista, Linda (Linda Lovelace), está desesperada porque a sua vida sexual não funciona, nada nem ninguém a faz chegar ao orgasmo que para ela são fogos de artifício e sons de campainhas, até que um médico excêntrico (Harry Reems), descobre que o seu problema reside na sua garganta; ou, dito de outra forma, o clítoris de Linda estava alojado na sua glote. “Doutor, então como faço?”, diz a jovem chorando oceanos. Tanta ingenuidade dota o filme desse encanto que Damiano soube criar através das imagens com um ritmo excelente. Garganta Funda colocou um ponto final na proibição em torno da pornografia nos Estados Unidos, e conseguiu ser estreada (após um julgamento escandaloso que ecoou por todo o país) em salas comerciais como se se tratasse de mais um filme. Mas Garganta Funda era mais que um filme comercial. Produzida por uma máfia nova-iorquina com somente 20.000 dólares e apenas dez dias de rodagem, converteu-se no filme hardcore mais visto do mundo, o qual daria começo a uma nova era do cinema pornográfico.

“Tudo o que fazemos juntos, mesmo que seja o simples acto de comer, deve ser um acto de amor”, diz Sada ao seu amante Kichi, dando-lhe a provar a comida directamente do seu sexo.

O cinema erótico (mal denominado – não é correcta a separação entre erotismo e pornografia, pois este é um assunto mais sobre moral do que apenas uma correcta definição), entende-se como o acto sexual dissimulado e bonito, e o cinema pornográfico costuma evidenciar o acto sexual explícito e feio. Esta tem sido sempre a catalogação para não mostrar que gostamos de ver o acto sexual representado no ecrã. Erotismo pode ser sexo com todas as suas consequências (penetração real), e ser altamente erótico e estimulante para os sentidos. Tudo depende do olhar e da estética com que o realizador aborda o assunto. Por este motivo, um filme como O Império dos Sentidos, filmado por um dos cineastas modernos mais importantes do cinema, Nagisa Oshima, nasceu para revolucionar e colocar em ridículo a definição de pornografia. Oshima pintou com a sua câmara um dos enredos cinematográficos mais belos, sensuais, cruéis e eróticos que haviam sido projectados nas galerias de arte do cinema. O Império dos Sentidos utiliza o acto sexual explícito; é como quem diz, os actores fazem o amor (ou o acto genital) de verdade, sem cortes, incluindo os felácios e ejaculações, assim como outras audácias que nunca contemplaríamos de forma real no cinema mal denominado “erótico”. Inevitavelmente, O Império dos Sentidos foi etiquetado como obra de arte e estreou-se como um filme para uso em todas as salas comerciais do mundo, estando isento de ser exibido nas caves lúgubres destinadas à projecção de cinema designado como “Cinema X” por conter sexo explícito. Naturalmente, não é comparável (e não é a minha intenção fazê-lo) um filme de Oshima com o cinema pornográfico comum, rodado em quatro dias e com nulas qualidades artísticas, mas quero sim colocar o dedo no olho da hipocrisia social. De uma coisa estou certo, e isso é que se a sociedade fosse mais livre e aberta, O Império dos Sentidos não continuaria a ser um filme ostracizado devido ao seu atrevido conceito sexual.

A década de setenta pode considerar-se, para bem e para mal, como a mais prolífica no que respeita a sexo visto num ecrã de cinema. Produziram-se nestes anos os géneros e os seus consequentes subgéneros, numa infinidade de filmes de baixo custo e sem nenhum tipo de qualidade artística, que tanto dano fazem a obras importantes de excelentes realizadores como Pier Paolo Pasolini e a sua trilogia formada por Il Decameron (1971), I Racconti Di Canterbury (1972) e Il Fiore Del Mille e Una Notte (1974). Ou Bernardo Bertolucci e ao seu Ultimo Tango a Parigi (1972), e também afecta consagrados e declarados amantes do erotismo como o polaco afincado em França Walerian Borowczyk, cujo sentido estético responde a uma plástica refinada que dota o seu cinema de um nível cultural elevado: Goto, l’Ile D’Amour (1968), Contes Inmoraux (1974), La Bête (1975), Interno Di Un Convento (1978), Les Heroines Du Mal (1978), etc. Ou Tinto Brass, sem dúvida numa linha oposta a Borowczyk, mas dotado de uma personalidade forte e conhecimento da arte, que o leva a inventar um cinema próprio, original e divergente de qualquer moda “erótica” do momento. Tinto Brass influi positivamente na concepção de sexo no cinema, mas o seu estilo, único, aparece tão inimitável que permanece intocado pelos acontecimentos daqueles anos, nos quais qualquer filme erótico de qualidade tinha de imediato uma sequela pobre destinada a aproveitar o filão da onda de erotismo que parecia ter-se apoderado da Europa.

Na França nasce outro dos grandes mitos eróticos: Emmanuelle (1975), realizado por Just Jaeckin, um fotógrafo que nunca tinha enveredado pelo cinema, e protagonizado por uma secretária holandesa de beleza comovedora e excitante, chamada Sylvia Kristel. O filme pode ser mau ou falhado como cinema, mas não se pode negar a sua indubitável vocação pela sensualidade e pelo refinamento em cada acto sexual que presenciamos. É inesquecível o orgasmo de Sylvia Kristel, dentro de um avião de passageiros, em que, para não ser ouvida, aguenta os gemidos apesar de não conseguir evitar mover a cabeça de um lado para o outro com um gesto de prazer absoluto que inunda os seus olhos de felicidade. A minha humilde opinião é que Emmanuelle se coloca na luz do novo século numa posição vantajosa que faz com que não tenha envelhecido de todo. Aliás, a sua pureza e inocência tornam-se absolutamente encantadoras e cheias de ternura nos tempos que correm. Era uma época em que se criavam mitos eróticos e símbolos sexuais reais: Brigitte Bardot era-o, Stefania Sandrelli era-o, Sylvia Kristel era-o, Laura Gemser (a Emmanuelle negra) era-o, Corinne Clery (a rapariga de Historie D’O – 1975), era-o… Talvez isto seja fruto da honestidade ideológica daqueles anos, a crença nas revoluções, na paz mundial, na arte como arma para mudar o mundo. Fruto de tudo isto que digo é, sem dúvida, o hoje esquecido, ainda que reivindicado, Max Pecas, outro dos grandes renovadores do género erótico, que deu um sopro de ar fresco a temas escandalosos ou “muito sérios” considerados tabu pela sociedade burguesa. Pecas, consciente de que o cinema tem de ser bem feito, mimou todos os seus filmes sem nunca cair para a tradição. Quando teve ofertas para realizar Cinema X, disse que não porque procurava coisas diferentes no seu tratamento da sexualidade e prazer dos sentidos. Só aceitou uma vez incorporar planos hardcore em Les Mille Et Une Perversions De Félicia (1975), e só depois de ter obtido a permissão de todos os actores participantes. As suas duas melhores obras consagradas ao sexo são: Je Suis Une Nymphomane (1970) e Je Suis Frigide… Porquoi? (1972), ambas protagonizadas pela bela e expressiva Sandra Jullien, uma heroína digna de Marquês de Sade, a quem Pecas por certo evoca admiravelmente, na sua concepção do bem e do mal. Ela, rapariga inocente e de bom coração, procura ansiosamente o amor em todos os seres humanos que se cruzam no seu caminho. A doce vítima resigna-se a viver com a sua desgraça pessoal, uma enfermidade sexual que faz com que a sociedade ostracize de quem dela padece. O cineasta é elegante, refinado e moralmente consequente com as suas histórias. Pecas constrói personagens credíveis e filma um erotismo belo e sugestivo, inclusive nas suas sequências mais delicadas.

Nas décadas seguintes, o sexo no cinema perde o seu sentido lúdico e ingénuo para se transformar numa sexualidade mais agressiva, mais doente, mais mecânica. Parece que a sede do público pela festa do sexo já estava saciada. Agora era exigido uma maior violência no acto carnal, o stress da sociedade tecnológica apodera-se dos sentidos e é exigido somente sexo: o acto carnal ganha evidência (não como n’O Império dos Sentidos que correspondia a uma busca do absoluto através da vida e da morte), nem que seja como um refúgio aos problemas humanos, para deleite apenas da exploração do coito. O único que importa é foder e saciar-se, mas isto traz frustração, pois o sexo esvazia-se de todo o sentido espiritual. Substitui-se o amor pelo ódio. Em vez de se fazer amor faz-se sexo. De todo o modo é importante salientar que durante a década de oitenta, é a já mencionada indústria do cinema X, especialmente nos Estados Unidos, aquela que mostra um erotismo hardcore muito colorido e entusiasmante. As estrelas do porno daqueles dias vestem-se (ou despem-se) de naturalidade e transmitem a alegria de viver (Ginger Lynn, Marilyn Chambers, Tracy Lords ou Moana Pozzi na Europa). É curioso que seja precisamente o género X aquele que mais sensibilidade mostre na hora de falar de sexo, sem a afectação patológica do cinema convencional que, por outro lado, tem obras excelentes. Neste sentido, a indústria do cinema para adultos ia-se degenerando pouco a pouco, com um sexo cada vez mais despersonalizado, violento e com uma rotina rígida com a sua repetição mecânica do “tira e põe”. Nos nossos dias é óbvio que o cinema pornográfico deixou de existir como fonte de desejo e erotismo sem tabus, para se converter em talho que “fabrica” actos sexuais entediantes, vazios e completamente banais. A cirurgia plástica é uma das grandes culpadas desta despersonalização. Antes, o espectador identificava-se com os homens e mulheres que desfilavam no ecrã. Agora, apenas observa figuras de cera que saltam compulsivamente em cima de corpos nus que parecem clones de um mesmo corpo que, por sua vez, também salta desenfreadamente sobre outro corpo clonado…

Nos últimos anos, tanto o cinema europeu como o oriental têm dado mostras de uma excelente saúde erótica (Catherine Breillat, Wong Kar Wai, Patrice Chereu, Kim Ki-Duk, Hong Sangsoo, Olivier Assayas…) com filmes arriscados que tentam bater os tabus de uma sociedade que oferece resistência ao crescimento intelectual, apesar do rápido progresso tecnológico e industrial. A Internet parece a Torre de Babel do século XXI e o saco de todos os vícios, perversões e maldades imagináveis de um mundo esgotado e vulgarizado como nunca. A Internet, então, corresponde à realidade em que vivemos? Estou convencido que não, porque a rede é algo que é feita pelos utilizadores e isto por si só não é representativo de nada. O sexo às toneladas é só carne para ser consumida rapidamente e de qualquer maneira. O problema continua a ser a educação e a repercussão que esta tem na sexualidade. Agora os adolescentes têm mais informação que nunca e, inevitavelmente, o número de grávidas indesejadas atingiu a quota mais alta das últimas décadas. A Internet, portanto, é uma ferramenta útil que é necessário aprender a manejar para que o seu uso seja controlado por cada indivíduo livre. O sexo gera liberdade, pensamento avançado. O sexo gera vontade de viver! Quem diz o contrário mente ou então serve outros interesses determinados.

Miguel Ángel Barroso

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