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Para ganhar à Espanha

Hoje o mais importante para Portugal é ganhar à Espanha. Aliás, já é assim há mais ou menos 900 anos, desde que D. Afonso Henriques driblou os castelhanos, subornou o papa, e com muita manha e coragem conseguiu organizar um princípio de país que desde então tem vivido, alegre e fatalmente, sob o signo da desorganização. Para ganhar à Espanha devemos mesmo ouvir as vozes dos nossos egrégios avós, e adoptar a táctica do quadrado que tão bons resultados deu no derby de Aljubarrota. Depois é esperar que Cristiano Ronaldo dê uma de padeira de Aljubarrota e mande uma pazada na cabeça de Casillas. Para ganhar à Espanha é preciso evocar os espíritos dos doze de Portugal, os magriços, que foram a Inglaterra desancar uns cavaleiros brutamontes que tinham desonrado uma donzela. Bateram-se numa liça medieval e inspiraram a selecção de 66, com Eusébio na pele de Álvaro Gonçalves Coutinho, bem na pele um pouco mais escura. Por falar nisso, temo que nesta equipa portuguesa falte um pouco de cor, por isso é imprescindível que Miguel ou pelo menos Pepe joguem, caso contrário seremos uma equipa demasiado albina. É imperioso ganhar à Espanha nem que seja para justificar o TGV para Madrid, e assim já podermos ir a La Chueca contar umas piadas sobre o mundial e beber umas cañas, mas para ganhar à Espanha é preciso mais do que um professor de ginástica sobrevalorizado e onze rapazolas com a mania que são artistas. Naquela equipa só há um artista, chama-se Cristiano Ronaldo, e é bom que os outros metam isso na cabeça, mais o capacete de mineiro na cabeça e o fato de macaco no tronco. É verdade que na selecção de Portugal, Cristiano Ronaldo passa mais tempo a assoprar do que a jogar, mas para ganharmos à Espanha temos de acreditar que ainda temos crédito com a nossa senhora do Caravaggio e que Ronaldo vai fazer de Casillas o Homer Simpson do anúncio da Nike. A Espanha é naturalmente a favorita, tem melhores jogadores, melhores ideias de jogo (copiadas do grande Barcelona) e um meio campo de tique-taque que deixa zonzo qualquer intrépido trinco, por isso, a derrota é o mais provável, mas pela primeira vez, o pragmatismo é a única hipótese de alimentar o romantismo nacional, e o pragmatismo diz que a única forma de bater a Espanha é povoar o meio campo, como D. Dinis fez com o interior de Portugal. Cá por mim, que sou apenas um dos 10 milhões de seleccionadores nacionais, metia Pepe e Pedro Mendes – com um deles, exclusivamente dedicado a desligar o gerado Xavi, secando assim Torres e Vila; depois metia Raul Meireles e Tiago para tentarem fazer os espanhóis correr atrás da bola e ainda Miguel Veloso para dar pau e tentar uns remates de meia distância. Lá na frente metia Cristiano Ronaldo, estilo Lone Ranger, à espera de uma bola perdida ou de um milagre e dava carta branca a Fábio Coentrão e Miguel para subirem pelas alas, explorando as fraquezas de Sergio Ramos e Capdevilla. Deixava-me portanto de ilusões e apostava tudo num catenaccio à portuguesa. Se a táctica desse para o torto metia o Hugo Almeida, o Simão e o Deco na segunda parte, e pronto, acendia uma velinha à Nossa Senhora do Caravaggio. Se nada disto resultar, pelo menos temos uma consolação, as vuvuzelas vão para a reciclagem e Portugal fica com superavit em plástico, que pode sempre trocar por crédito internacional ou por uma auto-estrada nova, a pagar claro.

1 Resposta a “Para ganhar à Espanha”

  1. Rui says:

    Isto nem com velinhas a todos os Santos lá foi…
    Eduardo foi o Martim Moniz que manteve a porta da esperança aberta enquanto aguentou a carga castelhana. Acabou entalado à traição pelo Ricardo Costa. Cristiano Ronaldo foi igual a si próprio: muito bom nos anúncios da Nike, com o gel impecavelmente espalhado pelo cabelo e o seu estilo de forcado na hora de bater uma bola parada. Depois do golo à Coreia do Norte parece que o Zoo Marine quer contratá-lo para substituir uma foca adoentada. Queiroz defendeu bem o 0-1 ao tirar o único avançado e ao deixar Deco no banco por ter queixado, naquilo que foi uma perversão do normal funcionamento das coisas – somos nós que nos queixamos à Deco e não a Deco que se queixa de nós. Hoje lá estarei na Portela para levar a ganadaria lusitana para as várzeas ribatejanas. Merecem descansar, depois das bonitas chicuelinas que levaram da companhia de cavaleiros e forcados Del Bosque.

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