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O Mário – O Templo Gastronómico da Beira Baixa

Texto de Manuel da Silva Ramos

Na mítica Estrada Nacional 18, que viu passar o Alves Barbosa, o Ribeiro da Silva, o Joaquim Agostinho, ciclista do sonho puro, que viu passar também em herói o Humberto Delgado em cima de um descapotável, o Kubitchek, Presidente da República do Brasil, mais o António Paulouro num carro negro cheio de esperança, há um restaurante que pela sua história pessoal e pela sua evolução surpreendente se projecta como o templo gastronómico da nossa Beira.

Fomos lá comer um dia destes em que um frio glacial nos atravessava o corpo e os nossos olhos pediam um auxílio e um reconforto. E o tempo fortificou-nos, encheu-nos de uma alegria e de uma plenitude espantosas.

Raras são as ocasiões nesta vida onde um lume crepitante de uma lareira acompanha um cabrito jovem à pátria da felicidade e onde um acolhimento beirão nos fustiga o rosto com uma chuva mais carinhosa. No cruzamento de Alçaria, o Mário proporcionou-nos tudo, nessa noite hostil, o que um homem de gosto e de sensibilidade espera e mais: deu-nos a certeza de estarmos no local certo, movidos por iguarias magnéticas, presos a um milagre culinário. Porque nestes instantes intensos e magnificentes, a vida só pode ser ilusão.
Já o disse muitas vezes que o transporte mágico nos lega a boa comida de uma recompensa à falta de magia que há neste mundo. Flaubert, que foi um bom gourmet burguês, dizia rindo que toda “a cozinha burguesa era sã” e que “a comida de restaurante era sempre escaldante”. Todos estes preconceitos existem nos nossos beirões que gostam também de catalogar as coisas que comem nos sítios eleitos. O Mário até ontem era o templo da cozinha regional da nossa Beira; hoje ele é o templo de toda a cozinha (e até a internacional) da Beira Baixa. Indiscutivelmente. Invejamos, para aqueles que tem dúvidas nas papilas gustativas e dos olhos. E nos ouvidos.
Começamos a nossa refeição ideal por um belíssimo pão de centeio e um cremoso queijo fresco, mesmo ali fabricado ao lado, na Beiralact, que nos deixou logo em transe. O presunto pata negra que comemos a seguir tinha a idade fantástica das certezas. Vieram a seguir umas cherovias alouradas e bem espalmadinhas que nos convenceram que este adorado tubérculo é o sol da nossa boca. Depois os pastelinhos de bacalhau que provamos, na sua espessura e combinação, demonstraram que são únicos no mundo. A nossa barriga acalmada, passamos às coisas mais requintadas.

Regado por um maravilhoso branco da Quinta Almeida Garrett o Camarão Tigre à Mário que nos serviram lançou-nos para a intemporalidade. Estava soberbo o miolo alvíssimo daquele fruto de mar que cavalgando um canapé de pão de centeio e regado com um molho extraordinário de marisco com mostarda nos transportou para paises distantes e exóticos. O zênite não tardou a vir. E isso na figura de um Filet Mignon divino e tenríssimo. Já há mais de vinte anos, (desde que deixei a doce França e a sua cozinha familiar) que não comia uma carne assim deslizante na boca, gostosa como os afectos mais intensos. Servido com um arroz certo de ervilhas, cogumelos, salsa frita, este prato combinado com o tinto da casa ( um formidável tinto simples da quinta Almeida Garrett) fez o nosso peito cantar interiormente. Terminámos a refeição com um extraordinário requeijão com doce de abóbora e cereja. Vindo também da vizinha Beiralact, este requeijão imenso e cremoso fez-nos soletrar que nunca tínhamos comido igual. Assim se terminava uma refeição de beleza entalhada no melhor dos mundos.
Mas o Mário reserva todas as surpresas, é ainda mais que isto. Uma sumptuosa cozinha regional infinita e que nos bate nas costas. Vejam só. Sopas diferentes e lindas (provem por exemplo a sopa de feijão à Beira Baixa) que são um regalo de harmonia. Tibórnias de bacalhau, Panela no Forno, Arroz de Carqueja, Leitão do Monte com passas de cereja, Cabrito no Churrasco, Cabrito à Padeiro, etc, etc. O Bucho de Porco do Fundão com grelos salteados com batata cozida, o Feijão à Lavrador no Inverno, o Entrecosto na Brasa com feijão manteiga, couve, enchidos e batatas cozidas, a Mãozinha de Vaca com grão de bico, a Feijoada à Transmontano (às segundas-feiras, especialidade para os negociantes do mercado do Fundão, são pratos que levantam a alma Beirã).
Mas o milagre d’ Mário. A caça também está presente. Pode-se comer aqui o que não há noutro sitio: perdiz, javali, coelho, lebre. O peixe que aqui se serve é fresquíssimo e rico: cherne, garoupa, robalo, salmão, polvo, etc. No tempo adequado o sável e a lampreia fazem brilhar a mesa fraternal e sazonal. Com dezoito pratos quotidianos de carne e peixe, mais de quarenta sobremesas onde as papas de carolo, o arroz doce, a tigelada da beira, o celebre requeijão com doce de cereja iluminam o nosso rosto, o Mário tem escolhas dos deuses.
E agora vamos aos vinhos, meus amigos, porque o vinho enobrece o humano. Numa carta de vinhos invejável, os regionais de proximidade como a Quinta dos Termos, Almeida Garrett, a Alma da Beira, vinho d’Alcaria, colocam-se sem vergonha ao lado de um Barca Velha, de um Quinta do Vale Meão, de um Quinta do Confradinho, de um Mouchão, de um Esporão, e de vinhos do Dão e de outras zonas demarcadas. É para terminar uma refeição aqui se encontra o surpreendente o Bastardinho de Azeitão.
Montaigne dizia que “um homem satisfeito vale por dois”. Foi o que sentimos ao sair deste templo único da cozinha da Beira Baixa com quarenta anos. E nem o frio entrou connosco. E antes de abrirmos as portas do carro lembramo-nos do Mário, o pai fundador já falecido, deste restaurante acolhedor hospitaleiro gerido familiarmente, que começando por uma humilde taberna criou um maravilhoso reino de sabores na nossa fria mas comovente região.

O Mário
Refeição media: 10 a 15 euros
Estrada Nacional 18 Cruzamento de Alcaria
Telf.: 275 750 001/0
Coordenadas de localização para GPS: 40º 12.055’N/ 7º 29.859’W
Ambiente rústico, com duas lareiras, ar condicionado e duas salas para fumadores e não fumadores , acessibilidade e deficientes.
Lotação: 170 pessoas
4 parques de estacionamento
Reservas.

1 Resposta a “O Mário – O Templo Gastronómico da Beira Baixa”

  1. Imagem bonita e boa, mais easunto…aff

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