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Essaouira, a “bela adormecida” em terras Berber

Texto e fotografia de Paulo Nunes dos Santos

Cidade Património da Humanidade, Essaouira, na costa marroquina, mantém o charme e a autenticidade de uma terra perdida no tempo. Sob a protecção dos ventos do Atlântico, a sua medina encanta viajantes do mundo inteiro que aqui chegam à procura de um refúgio mágico e de ondas perfeitas.

Ninguém sabe ao certo de onde vem o fascínio que Essaouira exerce sobre os viajantes, mas há quem diga que se trata de um encantamento provocado pelo vento que sopra forte por entre as ruas e as vielas da medina desta pequena cidade piscatória, situada a duas horas de viagem da estância balnear de Agadir e a cerca de 180 quilómetros da imperial Marraquexe.

Com uma localização estratégica, esta velha conhecida dos portugueses – Essaouira é a antiga Mogador que Portugal invadiu no século XVI –, foi redescoberta nos anos 60 por viajantes solitários e pelas vagas de hippies enamorados de Marrocos. Pouco depois, como um segredo que se revela apenas a bons amigos, esta povoação muralhada da costa atlântica, conhecida como a “Bela Adormecida” pela sua autenticidade anacrónica, tornou-se um local mítico para uma pequena elite de intelectuais, uma espécie de refúgio-fetiche de pintores, escritores, músicos, actores e realizadores cinematográficos do mundo inteiro. Na lista dos artistas famosos que já passaram por Essaouira é emblemático o nome de Orson Welles, que rodou aqui parte do seu kafkiano Othello, com o qual ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 1952. Jimi Hendrix e os Beatles foram também visitantes assíduos desta pitoresca povoação.

Simples e despretensiosa, a minúscula medina de Essaouira encerra um conjunto de pequenos edifícios caiados de um branco imaculado, pontuado aqui e ali pelo azul- marinho das portadas das janelas. Ruas estreitas e angulosas procuram proteger os moradores dos fortes e constantes ventos alísios vindos do Atlântico que se entranham no recato dos lares muçulmanos. No cais, a lide da pesca mantém-se inalterada desde há anos. Tal como a mistura entre povos e culturas que sempre caracterizaram a sua história cosmopolita, canal de comunicação com o estrangeiro e ponto de encontro entre africanos, judeus, berberes, portugueses e franceses…

Calcula-se que Mogador, o seu primeiro nome, tenha raízes no Fenício antigo, uma palavra que significa torre de vigia e se presume que seja o monte desordenado de pedras batido pelo mar situado no extremo mais distante da praia. Porém, a fama da cidade é ainda mais remota. Tanto os cartagineses como os fenícios faziam aqui as suas trocas comerciais, trocando seda e especiarias por ostras, penas e ouro africano. Por sua vez, nos tempos do império romano, a região – que inclui a península onde hoje se ergue a cidade e a ilha de Mogador, na baía – ficou conhecida como as Ilhas Púrpuras, pois era este o local de onde provinha o corante púrpura mais requintado, extraído dos moluscos, que era usado para tingir as roupas dos imperadores.

Dos tempos da curta ocupação portuguesa restam poucos vestígios – com excepção de troços da fortificação, alguns canhões e a fachada em ruínas da primeira igreja da cidade –, pelo que a Essaouira como hoje a conhecemos foi fundada em meados do século XVIII, quando o sultão Mohammed Ben Abdallah decidiu instalar na antiga Mogador a sua base naval, transformando-a no único porto autorizado para contacto entre o reino e o Ocidente. Pouco depois passa a viver aqui uma elite de mercadores judeus com um estatuto especial de intermediários entre o sultão e as potências estrangeiras, obrigadas a instalar um consulado no local.

Quanto à nova cidade, o seu desenho foi encomendado a Théodore Cornut, um arquitecto francês a soldo dos ingleses de Gibraltar, entretanto expulso sob acusação de espionagem. Uma outra versão da história conta que Cornut já estava aprisionado em Marrocos e que trocou a sua liberdade pela realização gratuita do projecto arquitectónico. Mas, lendas à parte, ficou na memória o sucesso do seu traço, que deu origem ao nome actual de Es Saouira, que significa “a bem desenhada”. Depois disto, a importância da cidade como posto de trocas e de contrabando de piratas não parou de crescer até ao início do século XX, quando finalmente foi caindo no esquecimento de todos.

Toda a sua história justifica o caldeirão cultural que continua a caracterizar a cidade, ponto de encontro entre as civilizações árabe, africana e europeia. Aqui convivem duas tribos locais – os chiadma (árabes) e os haha (berberes) –, a etnia dos gnaouas, descendentes dos escravos negros que acompanhavam as caravanas de ouro e sal vindas do Sudão, e cerca de um milhar de ocidentais que vieram em visita e decidiram ir ficando… sem previsão de partida.

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