A23 Online

“A tela de uma história que não se apaga” | Ana Pereira

A tela de uma história que não se acende

“O toque repetido duma campainha convida-nos a entrar. Uma montra expõe à nossa curiosidade uma panóplia de enormes rostos pintados, fotografias de beijos, de abraços, de cavalgadas. Entramos nas trevas duma gruta artificial, onde uma poalha luminosa se projecta e dança sobre um ecrã, absorvendo o nosso olhar: essa poalha ganha corpo e vida; arrasta-nos para uma aventura errante”. Palavras como estas de Edgar Morin apresentam-nos o cinema como um fenómeno que exige ser captado em toda a sua plenitude. A sua dívida à fotografia, a uma visão ‘objectiva’ é, aliás, evidente. Realidade ou ilusão, em “A tela de uma história que não se acende”, Ana Pereira capta a melancolia das salas de cinema do Porto, votadas ao abandono, algumas em mau estado de conservação. Ali, conseguimos pressentir os vestígios de salas cheias de gente, catedrais da Sétima Arte. As fotografias são uma sequência de pormenores desses espaços, desde o cinema Passos Manuel, até ao Sá da Bandeira, passando pelo cinema Batalha, entre outros, imprescindíveis do ponto de vista cultural para a introdução do cinema no país. Quase sob os nossos olhos, o mundo parece humanizar-se e os cinemas parecem voltar a encher-se de gente e de imagens. Texto Ricardo Paulouro
Fotografias de Ana Pereira | Edição Susana Paiva

The Portfolio Project

“A propósito do trabalho do Teatro Bruto Alter-Ego, fui procurar as salas de cinema da cidade do Porto, algumas actualmente encerradas ou com actividades paralelas à exibição de filmes.

Procurar as imagens, os fantasmas, as memórias e particularidades de cada sala.

Abertas as portas e acessas as luzes a vida volta a encher estes espaços como aquelas cenas dos filmes em que se acende a luz do parque de festas e lentamente começa a ouvir-se o som dos carrosséis e das pessoas ao fundo.

Sentem-se os cheiros, são visíveis as marcas das histórias que se viveram, nas imagens, nos recados, nas fotografias, em todas as provas de memória.

E estes momentos em que estou a fotografar, são apenas pequenos intervalos de tempo, entre sessões, entre filmes, entre histórias.

Esta versão multimédia conta com uma selecção mais alargada de imagens e a banda sonora do Geovane, que traz além do silêncio ruidoso que caracteriza tão bem os espaços vazios de presente e cheios de passado, traz também imagens sonoras que acrescentam sentido narrativo às imagens visuais.”

Ana Pereira

A história dos cinemas do Porto

“Pela mão de Aurélio Paz dos Reis, considerado o pioneiro do cinema em Portugal, os portuenses puderam assistir ao filme “A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”. Realizado e produzido por Paz dos Reis, este filme é uma réplica do primeiro da história do cinema “La Sortie de l’usine Lumière à Lyon” La Sortie de l’usine Lumière à Lyon”, rodado em França pelos irmãos Lumière um ano antes, em 1895. O cinematógrafo inventado pela família Lumière foi então apresentado em sessão pública no Teatro do Príncipe Real, mais tarde chamado Teatro Sá da Bandeira, no dia 12 de Novembro de 1896.

As primeiras exibições cinematográficas decorriam simultaneamente na Feira de S. Miguel, num campo que anos depois deu lugar à Rotunda da Boavista. Com o nome de Salão High-Life, era animado por Edmond Pascaud, que se associou a António Neves, marcando o percurso da exibição cinematográfica no Porto até aos nossos dias. Estas duas figuras, às quais se juntaria mais tarde Luís Neves Real, um dos grandes cineclubistas portugueses, foram determinantes na divulgação do cinema como espectáculo, divertimento e veículo de cultura.

O local depressa se revelou inadequado, mudando-se dois meses depois para um auditório mais vasto, no Jardim da Cordoaria, onde permaneceu durante dois anos. A 29 de Fevereiro de 1908, a sala voltou a mudar-se, desta vez de forma definitiva, para um requintado edifício na Praça da Batalha, apresentando-se como Novo Salão High-Life. Em 1913 fixava-se como Cinema Batalha.

Surge depois o Salão-Jardim Passos Manuel, inaugurado em 1908, onde esteve localizada, temporariamente, a Invicta Film, um dos primeiros grandes estúdios portugueses. O Salão Trindade, da empresa Neves & Pascaud, inaugurado em 1913, limitava-se ao cinema mudo. Também os teatros apresentavam pequenos filmes nos intervalos dos espectáculos, nomeadamente o Teatro Nacional Rivoli, o Carlos Alberto e o Sá da Bandeira.

Nas décadas seguintes, com o advento do cinema sonoro, a cidade do Porto assistiu ao nascimento de uma nova geração de salas o novo Teatro Rivoli em 1926 e oito anos depois o Teatro S. João, com a sala S. João-Cine.

O actual Cinema Batalha, inaugurado em 1947, foi durante muito tempo palco dos ciclos promovidos pelo Cineclube do Porto.

Após uma fase de decadência, o Salão-Jardim dá lugar, em 1941, ao Coliseu do Porto e à pequena sala Passos Manuel. Também a sala Júlio Diniz inicia actividade nesta altura, entre várias outras cujos edifícios não chegaram aos nossos dias.

Na década de 70 continuarão a nascer novas salas, com contornos de modernidade, muitas delas associadas à expansão dos espaços comerciais.

O cinema Pedro Cem e as duas salas do centro comercial Stop são disso exemplo, assim como o Charlot Cinema, no interior do centro comercial Brasília. O Foco foi inaugurado em 1973 e mais tarde o cinema Nun’Álvares.

Esta década marca o início daquilo que viria a ser a época negra para os cinemas do Porto, que entram em colapso em meados dos anos 90, mediante a afirmação de um novo conceito, os centros comerciais, que congregam num mesmo espaço uma multiplicidade de salas e de escolhas.

Em 2000, o número de espectadores do Cinema Trindade desceu para 7,3, encerrando definitivamente no dia 1 de Janeiro de 2001; a sala Júlio Dinis transforma-se em danceteria e o cinema Nun’Álvares, representado pela Medeia Filmes na última fase, é o último a fechar em 2004.

A desertificação dos centros das cidades e a proliferação das grandes superfícies comerciais são as principais causas apontadas para o desaparecimento do público das tradicionais salas de exibição de cinema. Contudo, nos últimos anos, tem-se assistido a um movimento de regresso à baixa, experimentado por uma geração que procura o centro da cidade para habitar, para o comércio alternativo e também para diversão.

O cinema no Porto e toda a cultura que lhe está associada constitui um património valioso e pouco divulgado.”

Mafalda Martins, a partir de www.cinemasdoporto.com

Participe. Deixe o seu comentário...

A23 FOTOGRAFIA

www.flickr.com
Itens de A23 FOTOGRAFIA Vá para A23 FOTOGRAFIA galeria

A23 RÁDIO

A23 (c) 2009