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O esquecimento conduz à repetição

“Quem controla o Passado, controla o Futuro; Quem controla o Presente, controla o Passado.” É esta frase a porta de entrada no universo Orwelliano de “1984”, onde a História é reescrita diariamente, de modo a encaixar-se na estratégia e objectivos do Poder Presente.

Fazemos parte dos “filhos da madrugada”, da primeira geração a nascer num Portugal livre, com os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos repostas e protegidas pela força de uma Constituição da República. Fomos ensinados desde muito novos a compreender e a respeitar a revolução dos cravos e a dar valor à luta de muitos para que hoje possa fazer algo tão simples como escrever este texto, sem que com isso cometa algum delito ou crime.

Ouvimos com atenção o discurso de 25 de Abril do Sr. Presidente da República, a invocação do ideário de Abril e o rol de “recados” e alertas ao Governo e todos os partidos em geral. No entanto, não podemos esquecer que foi precisamente no último mandato da maioria PSD, liderada pelo Dr. Cavaco Silva, que o 25 de Abril passou a ser um tema de menor importância no ensino da História. Vimos, com a reforma curricular efectuada naquela altura, a revolução de 1974 passar a ocupar um espaço exíguo nos manuais de História, ofuscada a montante pelo “Fascismo em Portugal” e a jusante pela “Adesão à C.E.E.”. Passou a ser um mero facto histórico, um ponto na barra cronológica, sem grande aprofundamento dos seus motivos, dos seus feitos, do seu ideário. Mais grave: desde a década da maioria PSD, o 25 de Abril passou a ser intencionalmente conotado como “uma coisa da esquerda”, “a festa dos comunistas” como não raramente ouvimos na universidade… Esta simplificação e menorização da revolução dos cravos acarreta grandes perigos para a nossa democracia, altera a memória colectiva, apagando paulatinamente 50 anos de fascismo, guerra, opressão e ditadura. Mas tem outros efeitos deveras perniciosos, como o ser hoje banal ouvir as gerações mais novas falar do Estado Novo ou de Oliveira Salazar com simpatia, com orgulho num Portugal passado que reputam de “forte”, de “melhor”…

Somos da opinião que cabe ao poder democrático não deixar esquecer as conquistas de Abril, não deixar esquecer a que realidade passada é que se opõe o actual regime democrático.

É com enorme tristeza que temos assistido nos últimos anos ao progressivo silenciamento do 25 de Abril. Aquela que deveria ser a “festa da democracia e da liberdade” tem vindo a ser esquecida pelo nosso poder político. Repare-se que já nem a tradicional descida da Avenida da Liberdade o discurso de 25 de Abril é feito pelo Sr. Presidente da República – tal é a importância que este lhe reconhece – e poucos são os deputados da Assembleia da República que se dignam comparecer.

Não pedimos muito e de certo que aqueles que lutaram por Abril também não. Bastaria um foguete (as actuais comemorações do centenário da República têm um orçamento de 50 milhões de euros…), apenas um, um dos muitos que com certeza o Sr. Presidente lançará aquando da visita do Papa a Portugal… um foguete que faça os mais novos perguntar “porquê?”.

Não poderemos deixar que amanhã no nosso País, se adopte a vergonhosa postura do histórico do PSD Alberto João Jardim, e simplesmente decida que aqui não se comemora o 25 de Abril, esquecendo que não fora a revolução dos cravos não teria sequer esse direito de opção.

Ensina-nos a História que esta é escrita pelos vencedores, pois bem, cabe-nos a nós todos, portugueses livres, vencedores de Abril, não deixar que o apaguem e aos seus princípios e ideais.

A direcção
Ricardo Paulouro | Pedro Leal Salvado | Paulo Nunes dos Santos

2 Respostas a “O esquecimento conduz à repetição”

  1. Bruno Ramos says:

    Belo texto, que subscrevo inteiramente.
    Estive hoje na Avª da Liberdade e foi confrangedora e alarmante a falta de pessoas na descida da rua.
    Mas apetece-me dizer:
    “Se Abril ficar distante desta terra e deste povo temos força bastante para fazer um Abril novo!” José Carlos Ary dos Santos

  2. Também, no Fundão, cada vez se vê menos gente na habitual arruada do 25 de Abril. Além de triste, é assustador.

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