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Ricardo Ribeiro: onde mora o fado e a alma se demora

Ricardo Ribeiro, que a britânica e prestigiada revista Songlines intitulou de “The rising star of Lisbon fado”, acaba de editar o seu novo disco, “Porta do Coração”. Um álbum em que o jovem cantor, habituado ao público das casas de fado e das noites de tertúlia fadista, opta de novo por escolher fados clássicos. Nele, o canto de Ricardo Ribeiro é desenvolto, descritivo e imaginativo, trazendo-nos à memória a mestria vocal dos mestres fadistas de outrora, corrente da qual, de resto, se revela aficionado. De Maurício a Marceneiro.    Entrevista de Orlando Leite /A23

A23: Qual foi o ponto de partida para este disco repleto de fados clássicos?

R.R. – Todo o processo passou por uma coisa muito simples. Eu canto isto diariamente e foi neste estilo e nesta forma de cantar que fui criado. Concretamente, a grande diferença, em relação aos discos anteriores, é que perdi os medos e não sigo uma estética vigente, vencedora. Nele pretendi dar corpo, e o meu melhor, ao que desde sempre fui aprendendo com os mestres fadistas. As acentuações tónicas, a divisão gramatical e as fronteiras entre o estilo e o improviso determinantes na qualidade dum fado.

Quando dizes vencedora, a que te referes…
R.R. – Que não me preocupei em criar algo que estivesse na moda ou de ir ao encontro de novas fórmulas de cantar. “Porta do Coração” sou eu, o que aprendi, o que sinto e o que quero cantar. Atenção, que não estou a criticar nada, nem ninguém. Não tenho nada contra a renovação do fado e o seu convívio com outras sonoridades. Bem pelo contrário.

Caixa:“Porta do Coração”, mais do que um disco de fado é um documento musical repleto de pormenores: de entoação, de estilos, de tradição. Basta olhar à capa ao jeito de Fernando Maurício para nos apercebermos de imediato do seu conteúdo: uma viagem a um passado luminoso que tem como guia aquela que será, porventura, a mais bela voz do fado actual no masculino. Cheio de tessituras instrumentais, o colorido tonal espraia-se com desenvoltura e consistência no domínio de um fado bem tradicional nada interessado em agitar águas. Não se tratando de um disco de fácil assimilação, uma certeza, porém, nos fica: o fado vive aqui. Por Orlando Leite

Ricardo Ribeiro
“Porta do Coração”, Fado, CD EMI
5 estrelas.

É um trabalho em que viajas por diversos estilos…
R.R. – Sim, dentro, volto a repetir, do fado tradicional. Neste disco há decassílabos, alexandrinos, sextilhas, quadras simples e glosadas, quintilhas, etc., de poetas populares de quem eu muito gosto e que muitas vezes vão ficando esquecidos e também de outros poetas, como o Mário Rainho, o José Luís Gordo, o Tiago Torres da Silva ou o Fernando Girão.
O tema do Girão é um fado canção…
R.R. – É verdade. Mas é importante relembrar que o fado canção é tão legítimo e importante como o fado tradicional. Cada um na sua dimensão. Amália, Tristão da Silva, Francisco José, Tony de Matos, entre outros, deram-lhe estatuto e grandes compositores como o Frederico de Brito, Ferrer Trindade ou Frederico Valério escreveram canções imortais como por exemplo o “Fado Amália” ou a “Canção do Mar”. “Somos do Mar e do Vinho” é um fado canção muito bonito que o Girão escreveu para mim.
Outra particularidade que notei neste novo disco é a aproximação que fazes ao fado balada muito semelhante ao desse grande intérprete e compositor, tão mal amado pelos puristas, que foi António dos Santos…
R.R. – É engraçado que me perguntes isso, o primeiro diga-se. Apesar de as minhas referências apontarem para outros lados, vejo o António dos Santos como um compositor brilhante e uma das mais belas vozes que me foram dadas a conhecer. A inclusão neste disco de “Barro Divino” de Álvaro Duarte Simões foi apenas uma questão de gosto pessoal. Mas reconheço que tem muito a ver com a música do António dos Santos.
As tuas referências apontam para dois nomes: Fernando Maurício e Beatriz da Conceição, correcto?
R.R – Sim, mas também para Manuel Fernandes, Alfredo Marceneiro ou Maria José da Guia. E claro, a grande Amália. A Amália é única. Penso que está tudo dito.
Há pouco, referiste o convívio do fado com outras sonoridades. Como foram as experiências com dois músicos de outras áreas como o Pedro Jóia ou o Rabih Abou-Khalil?
R.R. – Diferentes no conteúdo, excelentes na musicalidade. Duas colaborações que me enchem de orgulho pela satisfação que foi trabalhar com dois músicos de excepção.
Continuas a ser um investigador do fado?
R.R. -
Investigador? Não tenho estudos para isso (risos). Sou apenas um apaixonado desta canção e essa paixão obriga-me a observá-la. Porque esta canção, o fado, é tão repleta de pormenores e histórias que faz com que a observe e a sinta com os ouvidos do espírito e não com os ouvidos da ambição.

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