A23 Online

A birra do morto e os sapatos do defunto

No país dos pés-descalços um primeiro-ministro faz a birra do morto à Vicente Sanches, enquanto no PSD se organizam as partilhas dos sapatos do defunto.

Texto de Rui Pelejão Marques
Um país bordel, palco de ópera bufa, a passar fomeca e de mão estendida para a esmolinha, senhor doutor.
Um país desgovernado por um morto político a fazer birra. No velório, com as alminhas pungentes e as carpideiras a soldo, o primeiro-ministro cadáver dá coices iracundos.
Está indignado o homem, com as afrontas, com a perseguição, com o jornalismo de buraco de fechadura, com as tricas e as campanhas orquestradas.
Recusa o óbito e convoca as almas penadas do PS para mais uma batalha para se manter vivo.
O negacionismo, tese mirabolante que põe a salvo Sócrates e respectiva corja das malhas laças da justiça e do julgamento da opinião pública, é um verdadeiro atentado à inteligência de um povo preguiçoso e cobardolas, incapaz de remover nódoas políticas com benzena.
Perante as evidências, negar sempre. Esta é a artimanha desesperada do adúltero apanhado em flagrante delito no leito conjugal e que clama a sua inocência até às últimas consequências.

Mas há que não diminuir a eficácia da tropa de choque do PS, capaz de suster a primeira carga de cavalaria, de fileiras cerradas, esperando que o tempo e a indiferença endémica da nação acabem por branquear o que para o senso comum é evidente.
A barafunda e cortejo de tristes figuras em que se tornou a Comissão de Ética, e que será convenientemente replicada na Comissão de Inquérito, serve os interesses do PS, lançando uma cortina de fumo sobre o caso PT, de que Sócrates sairá apenas chamuscado.
É evidente que Sócrates e seus acólitos têm uma obsessão perigosa com o controlo político: do Estado, das empresas, da comunicação social e em última instância, com o controlo da opinião pública.
E isto não é uma mera opinião ou suposição, é uma constatação baseada em factos, e sobretudo num padrão. Um padrão forjado na politiquice de paróquia e na mentalidade provinciana que foi o leitmotiv da carreira de Sócrates e da sua clique.
Eles são caciques que exorbitaram para uma gamela de maiores proporções do que o pratinho de lentilhas a que a concelhia lhes dá acesso.
Tal como um presidente da câmara do interior, sabem que é preciso ter à soleira do gabinete as empresas e a iniciativa privada, distribuir prebendas e bulas e domesticar com rédea curta a comunicação social, pagando generosamente a sede da nova rádio ou sendo um anunciante incontornável para a sustentabilidade do jornal.
Nalguns casos, até fica mais barato comprar um jornal regional, para púlpito das suas ambições e vaidades. Basta correr o país para ver este padrão replicado em cada autarquia.
No caso de Sócrates, só a escala é infinitamente maior, os meios colossais e as ambições desmesuradas.
Apesar do que dizem as sondagens do contentamento socialista, o consulado de Sócrates tem certidão de óbito passada, porque apesar da sua endémica indiferença, os portugueses estão fartos da personagem.
Só esperam cordatamente que apareça outro figurante do mesmo calibre para correr com Sócrates.
Em Portugal, o Governo cairá de podre nas mãos do líder que estiver mais à mão, assim que Cavaco esteja comodamente instalado no seu segundo mandato e a oposição seja obrigada a chegar-se à frente.
É pena, porque se não se tivesse deslumbrado com o exercício do poder, com a sua narrativa fantasista e com a sua própria vaidade, Sócrates poderia ter sido um bom primeiro-ministro, reformista, corajoso e com uma agenda moderna.
Para mal dos nossos pecados, foi vítima das suas próprias ilusões de grandeza e de alguns pouco recomendáveis compagnons de route.
Este morto político que governa Portugal e que faz mais birras que um garoto de cinco anos, será vítima de uma doença crónica – as escandaleiras que o debilitaram até ao estertor final.
Sairá de cena pela porta baixa, porque lhe faltou a grandeza de um líder nacional e lhe sobraram os vícios e manias de um político de paróquia.
Pequeno e mesquinho.
Organizam-se agora os candidatos a calçar os sapatos do defunto. Como diz o ditado e o filme de João César Monteiro, “Quem espera por sapatos de defunto, morre calçado”.
É esse o tema central da reunião do tupperware que o PSD organiza este fim-de-semana em Arruda dos Vinhos. Trata-se de saber qual das três patéticas alminhas tem direito de ficar à espera dos sapatos do defunto.
Mas o PSD é hoje um partido muito parecido com aquelas velhas famílias queques que se pegam ao estalo quando toca às partilhas das pratas da Avô Esmeralda.
Uma família desavinda que naturalmente só se unirá quando tiver os sapatos do defunto calçados, porque os sapatos do defunto dão controlo, poder e muitas prebendas e lugarzinhos nas PT`s do país para distribuir entre os primos, mesmo que afastados.
Independentemente do resultado do Concílio de Arruda dos Vinhos, uma coisa é certa; Portugal está condenado à birra de um morto por mais um ano e meio, e depois a mais uns tantos de um homem que governará com os sapatos de defunto.
Assim, continuaremos descalços, nem todos, mas a esmagadora maioria.

Participe. Deixe o seu comentário...

A23 FOTOGRAFIA

www.flickr.com
Itens de A23 FOTOGRAFIA Vá para A23 FOTOGRAFIA galeria

A23 RÁDIO

A23 (c) 2009