
A inocência do voyeur
Um dos fetiches de que mais se fala na sociedade contemporânea é o voyeurismo. Tenta-se ver tudo, de todas as maneiras, olhar para o outro, analisá-lo, tentar percebê-lo para chegarmos à conclusão de quem somos afinal. Talvez possamos chamar a este olhar o duplo olhar, aquele que vê para além do que nos é superficialmente dado a ver. O portfolio de Ricardo Figueira apresenta-se-nos, justamente, como uma espécie de diário fotográfico, útil instrumento para o voyeur, fragmentos de instantes que nos perturbam e provocam. Estas são, por isso, fotografias que nos introduzem no conhecimento do que está oculto. Tal como Helmut Newton, que na sua época foi considerado um dos maiores voyeurs, Ricardo Figueira retoma essa tradição e apresenta-nos um portfolio com um estilo próprio, repleto de sedução. Se o voyeur é inocente ou não, cabe agora ao espectador decidir. Texto de Ricardo Paulouro
Fotografias de Ricardo Figueira | Edição de Susana Paiva
Texto de Ricardo figueira
O meu nome é Horácio. Vivo numa cidade sem nome. Uma grande cidade, com avenidas largas, grandes edifÃcios, luzes, um metro, centros comerciais, anúncios publicitários, carros… aqui, tudo é anónimo. As pessoas vêm e vão, sem se olharem.
Gosto de passear, sobretudo de noite. Gosto de observar os corpos em movimento sob as luzes da cidade. Erro sem destino, paro aqui e ali, nos bares, para beber álcool. O álcool dá-me uma visão das coisas que não teria de outra forma.
Olho as mulheres. Se calhar sou um tarado, não sei. Gosto de as observar, quer sejam reais, quer existam somente nos anúncios e nas vitrines… olho, mas não toco. Tenho alguns amigos. Não muitos. Há quem diga que sou um potencial serial killer. Não é verdade, é um exagero. Sou apenas um voyeur. Lyon, 13 de Setembro de 2009















Fotos muito boas, parabéns Ricardo