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Pré-publicação de “Três vidas ao espelho” de Manuel da Silva Ramos

Podem o sacrifício e a honra ser menos valorizados do que o sucesso ou o poder pragmático do dinheiro ? Pode a bondade ser considerada uma tendência suspeita e o sonho uma natural catástrofe ? Durante décadas e décadas, contrabandistas e emigrantes foram assinalados como celerados e uns toscos arrivistas desprezados em Portugal.

Este romance que repõe a dignidade de um contrabandista no seu verdadeiro lugar, que também dá um relevo especial a um homem bondoso e crístico e que relata a ascensão fulgurante de um fabricante de sonhos cinematográficos, começa por um atropelamento de uma cadela numa estrada francesa e termina com um brinde de amizade diante de um rio espanhol cheio de produtos tóxicos onde tantos portugueses pereceram ao tentar a travessia que os conduzia ao eldorado.

São três histórias interligadas que têm com pano de fundo os forros da nossa História mais recente onde o savoir-faire, a imaginação prodigiosa e a poesia surreal de Manuel da Silva Ramos produzem mil centelhas de prazer e emoção.

O leitor atento vai abrir, durante horas e horas, fervorosamente, este retábulo regenerador e humano e não esquecerá tão cedo Brigas, Alves e Da Silva, três heróis anónimos do nosso tempo.

Primavera 2004

Une hirondelle fait le printemps.

Uma só andorinha faz a primavera.

Jordi Nadal, aliás Monsieur Pierre Salvat, aliás Juan de Vilamos, mais conhecido em 1936 pelo Rojo da Maladeta, apoiou a sua mão magra sobre o bocal do poço que servia para regar a sua mini-hortinha e olhou o pássaro de arribação. Era o primeiro que chegava a uma velocidade estonteante.

- Olá ! disse.

Gostava das andorinhas. Eram a bondade em movimento. E nunca ninguém as capturava. Livres andavam pelo mundo lucrativo sempre com um chilreio gratuito atrás de si. Pousavam pouco. Deviam com toda a certeza pensar que os homens eram buracos insatisfeitos. Tinham toda a razão. Os homens (totoditos) agiam sob impulsos de vingança. Outros debaixo de impulsões mórbidas envergonhavam o género humano. Aqueloutros impelidos por forças cegas eram menos que bostume. Conhecera poucas pessoas que tinham direito a chamarem-se homens. Eram só indivíduos, indivíduos permanentemente cansados. As andorinhas, essas sim, tinham dignidade. O voo delas era um abraço largo ao mundo. Mas vistas num pessoal espelhinho convexo de bolso ( onde a fotografia gravada representava a saída dos operários da fábrica de La Ciotat em Marselha tirada pelos irmãos Lumière, recordação do primo Javier perecido no campo de concentração francês de                   ) que misturava a História repulsiva e o destino individual que gostava de premeditar tudo, elas também lembravam a falência da Humanidade.

O velho anarquista olhou o leirão que esperava já que o andorinhão- preto se pousasse. E fizesse um ninho de pêlos, penas e saliva na obscuridade da sua garagem no capô do seu hirto citroën- quinze cavalos. Para lhe saltar em cima como fizeram falangistas, nacionalistas, franquistas, tantos carabineiros consigo próprio —  mas ele tinha escapado milagrosamente mais a Regina de Toulouse. Que escondera o passaporte falso na sua larga cona republicana que servira para consolar tantos e tantos irmãos de combate. Agora morta. Mas grande figura típica da cidade de Toulouse. Baixou-se e pegando numa pedra que bordejava o repuxo constante de nenúfares lançou-a à bitola do cabrão. Não lhe acertou mas o rabanadão fugiu. Foi nesse preciso instante em que a longa cauda se artepirou que ouviu o choque e o trangido dos pneus a travarem como uma companhia faminta de leirões.

Ao encaminhar-se para o desastre na estrada nacional 20, pensou em Regina. No passaporte molhado. Que a salvara. Salvara-se também ele e fora por causa disso que se pusera esse nome. Regina que durante muitos anos vendera nas ruas de Toulouse o France-Soir e o Fígaro , jornais da direita capitalista. Com um carrinho de mão enquanto fumava cigarrilhas pretas. Fumo no ar e óculos pretos. E sotaque rolante. Rainha dos aflitos testiculares. Rainha dos deserdados da terra. Rainha dos esperançosos da terra. Rainha dos carcomidos da terra. Tinham caído tantos. Ficavam a apodrecer ao sol. Ele quase. E de repente diante da Libertad, a sua cadela morta desfeita em sangue, viu o Canário.

Primavera 1938

O que era de Vilaflor apontou a sua arma às cabeças dos fugitivos.

Era o povo mais alto das Canárias. Pum ! Bastava um só tiro em cada tolice de movimento. E depois cairiam. Visou o da mão preta e viu um pino gordo, o maior, quase oitenta metros de altura. Quando era miúdo vinha para o pé dele e tentava abraçá-lo pensando no seu pai ausente. Visou a rapariga pequena, mais rapaz, que se deslocava de calças, cabelos ao vento, fúria republicana. Pum ! Bastava um só tiro também para acabar com a sua fuga. Nunca matara uma mulher. Agora tinha que ser ! Apontava agora ao buraco do cu da fugente. Gozo infinito ( em pintura ). Viu a areia negra da praia da Viúva, na Candelaria. Gostaria de estar ali, soldado de um pelotão de execução. Com anarquistas vendados, comunistas cegos, republicanos constapados/constipados. Ver o sangue misturar-se com a areia preta. Viva a morte – um oblíquo paraíso ! Abraçou o pino gordo em sonhos e pôs-se depois a voar. Parou por cima de um quartel em Santa Cruz. O pai estava de serviço à entrada. Desceu…

O tiro partiu quando viu que o fachina não era o seu pai. O teu pai foi transferido para Lanzarote. Pensión España , Gran Canaria,1. Telefone 190. O anarquista caiu com o impacto da bala que lhe atravessou o ombro. Mas rapidamente se soergueu. A camisa preta ensopada de sangue fugia agora por uma vereda — no final da vereda estava o País da Liberdade. Canário, que saía ao pai pela profissão e por uma teimosia exsicante, correu para se maravilhar com o tiro de misericórdia. Era mal contar com a força polida e indomável do anarquista que tinha dos cimos das montanhas uma grande opinião. O vermelho, que via todas as manhãs da sua aldeia do Val d´ Aran o pico da Maladeta, a sua poderosa e sombria força, granjeara nessa vista imparável a inflexibilidade do seu carácter.

- Cabrão ! Filho da puta ! gritou o de Vilamos, já do outro lado da fronteira.

Canário olhou-o com um sinistro ódio no olhar, capaz de matar cem guanches ao mesmo tempo. Nunca mais esquecera esse momento. Nem essa cara escurassa. Nem essa desprezoeira de filho de paincógnito. Porque era, e procurava o sexerrante. Que pelara a sua mãe no interior do pino gordo, na toca de uma noite de verão. Uma vez diante do mar, na praia da Candelaria, cheia de pedrinhas redondas, arbitrando à civil uma luta canária, quase lhe falara…

Voltou-lhe as costas e o anarquista ficara ali plantado até que a Regina, sempre molhadíssima, lhe pegara na mão e o conduzira para trás de uns arbustos. Tirara o passaporte molhado da cona e abria-se para ele. Viva a Liberdade ! Te quiero, cariño ! Amor ¡ Vive La France ¡

Uma andorinha arabesconverteu-se ao céu…

Logo viu que o condutor não era francês. Choraminguava agarrado ao cadáver da sua brancadela — bemorta. A camisa ensanguentada levantou-se e  enfrentou-o humildementemente:

- Pas vu…Vite fait …Freiner trop tard…Pardon!

Depois em inconsciências de suor apadrinhado:

- Perdão ! Mil vezes perdão !

A culpa não era dele. Com a idade a cadela tornara-se rabugenta e ladrava a vagabundos, a carteiros, a amigos, Agora era a vez dos carros. Gangania contra os travarões que iam chegar a Montauban e ladrava contra os impotentes que voavam para Toulouse.

O escorralhas continuou em português, muito próximo da sua língua maternal :

- Chamo-me Reis. Vivo em Brive. Venho de Portugal, da Bismula, que é a minha terra… Onde é que eu posso lavar as mãos ? perguntou fazendo o gesto.

- Venha comigo a minha casa …Já que temos que preencher um constat, para o seguro… – falou o outro em francês.

Reis seguiu o homem idoso que lhe pareceu dono de uma saúde de ferro. Morava à beira da estrada, tinha uma hortinha onde cultivava o seu físico, tivera uma cadela, uma mulher, ou talvez não, pelo escrupuloso andar via-se que frequentava putas enlatadas nas cercanias de estações de caminho de ferro. As francesas, escoavam líquidos de amor, por diante e por detrás. Seria isso ?

O outro adivinhou.

_-Sempre fui contra o capitalismo cansativo das mulheres. Os homens, esses enclavagistas praticantes, adoram sacrificar o belo sexo fraco na pira da conveniência. A minha amiga Regina tinha razão que mostrava o passaporte caducado na sua cona a todos os homens: alguns adoravam-no…Vi muitos empalidecerem diante dele !

Reis engoliu o cuspo da atrapalhação…

O anarquista continuou:

- A fronteira entre o sexo e a amizade é tão ténue que mal se vê ! Exactamente como a baba de caracol num muro de Bosost numa manhã de inverno.

Bosost ? Onde era ? pensou Reis que tinha da geografia uma noção chapada: a Terra era redonda e boa lá onde se trabalhava e ganhava melhor, parada e vil lá onde não havia trabalho e onde a exploração deixara fábricas com vidros partidos. Ruínas de homens e ruínas de pedra. O pior era encontrar Deus. Quando o encontrava vestido de trolha e com as unhas manchadas de tinta branca as lágrimas vinham-lhe aos olhos.

_ Onde é ? perguntou Reis para fugir à emoção.

O dono da cadela morta não era de planetas secundários.

- É uma vila no Val d´Aran onde passa um rio caudaloso, o Garona, e onde matei um fascista com um tiro no cu ! Um sacana que até quando cagava nos campos fazia a saudação franquista !

Reis lembrou-se de repente da sua raia. Também lá a violência fora total. Já não tinha pressa de partir.

1 Resposta a “Pré-publicação de “Três vidas ao espelho” de Manuel da Silva Ramos”

  1. [...] economia das regiões portuguesas vizinhas da fronteira espanhola» Quem ficou curioso pode ler a oportuna pré-publicação do romance que aqui fizémos. Com este evento o escritor covilhanense dá seguimento ao ciclo de [...]

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