
Ora venha de lá essa história! Jolon, correspondente do “Jornal do Fundão” em Penamacor há mais de 30 anos tem uma retrosaria aberta com um balcão de histórias de vida que recolhe. É um biógrafo do povo, um jornalista que nos leva ao coração sentimental das histórias. Vamos à boleia. Texto Ricardo Paulouro e Rui Pelejão Marques Fotografias Margarida Dias
“Eu dormia no palheiro perto das cabras e de dois burros que meus pais tinham. Uma noite, ao entrar, reparei que os burros tinham o pêlo todo eriçado e cheio de gotas de água. Deitei-me e de repente noto que me tiram a manta de cima. Tento acender a lanterna, mas gastei metade da caixa de fósforos e não consegui acendê-la. Entretanto sinto como que pessoas a passarem perto de mim e risos. Pareceu-me reconhecer o rir de uma moça de quem eu andava atrás. Então disse-lhes: ó filhas do diabo se quereis brincar vinde aqui para a cama que eu já vos ensino a brincar. Mas elas continuavam a rir e a correr. Tentei agarrá-las com a mão esquerda – dizem que só assim se conseguem apanhar as bruxas – mas não apanhei nenhuma. Agarrei o meu gibão e enrolei-me nele. Olha que dava três voltas ao corpo! Deitei-me. Quando dei conta senti-me no ar e sem o gibão. Tapei-me com a enchalma, tornaram a tirar-ma. Mas sem medo continuei a convidá-las para se meterem na cama comigo. Até que sinto um corpo mais pesado a escorregar na palha e um gargalhar de homem que me meteu medo. A partir de então já não ouvi nada mais. Diziam que sempre que as bruxas saem são acompanhadas pelo demónio, terá sido ele que se riu daquela maneira”.
Ele há histórias do diabo. Ele há histórias do catrino. Esta é uma das “Estranhas e fantásticas histórias de Ti Zé Trapiço”, publicada no Jornal do Fundão em 27 de Julho de 2001. Então com 92 anos, Ti Zé Trapiço, velhote das longínquas Aranhas, contava a picaresca aventura com as insinuantes bruxas a José Lopes Nunes, correspondente do JF no concelho de Penamacor. Fica gravada a memória nas páginas de um jornal, museu do efémero, mesmo agora que Zé Trapiço já abalou para a terra da verdade. Fica gravada, graças a José Lopes Nunes, ou simplesmente Jolon que é como assina este “mineiro” de histórias da raia perdida.
No meio de tanto palavreado e banzé retórico que se publica aí pelas estrebarias a seis colunas, há uma leitura obrigatória em Portugal. Obrigatória para quem ainda acredita, como nós, que o coração sentimental do jornalismo são as pessoas.
Há quase trinta anos que Jolon nos conta histórias de pessoas. Num tempo de jornalismo autista, enfeudado à missinha da assembleia municipal (simulacro de democracia local), ao comodismo do ar-condicionado, da preguiça da internet e das sinecuras que a profissão oferece (paga-se mal em dinheiro, mas generosamente em vaidade); num tempo de jornalismo funcionário e mouco, ler as refrescantes histórias de Jolon serve para nos tirar a cera da indiferença dos ouvidos e escutar a voz humana, modulada em palavras que são eco da condição humana, aqui na expressão de um mundo rural que vai morrendo aos poucos, mas com uma dignidade e uma alegria só possível a quem ao longo da vida se habituou a viver com nada ou pouco mais que isso. Mais do que saber contar histórias, Jolon sabe ouvi-las. Tem orelha treinada e faro de perdigueiro. Ao balcão da sua retrosaria em Penamacor ou calcorreando as aldeias remotas, os lugarejos mais inóspitos daquela região raiana, Jolon sabe como ninguém puxar pela língua às pessoas. “Venha de lá essa história, Ti Joaquim Bicicleta”. E a língua das pessoas lá se solta, abrindo o coração que se ilumina nos olhos com as memórias de outros tempos. Depois, com a minúcia de um cinzelador aponta-as no seu bloquinho para as trazer semanalmente às páginas do nosso “Jornal do Fundão”.
São mais do que crónicas do efémero ou retratos do quotidiano. São registos únicos de um modo de vida que desaparece lentamente, são retratos eloquentes da vida no campo, esculpidos nas rugas das caras dos velhos. Na sua expressão sincera e espontânea que nem a fotografia esboroada a tinta de jornal finge ou intimida, antes esclarece. Mas chega de floreados e mariquices. Um jornalista deve saber ouvir, saber calar-se e ouvir. Vamos à viagem, vamos às histórias, dás-nos boleia Jolon?
Nasce torto e jamais se endireita
E este país que nasceu torto, jamais se endireita, não é Ti António Ramos, “indreita”?
“Aos 87 anos, António Ramos ainda endireita muita gente”
“Contando já com 87 anos, António Ramos diz ter nascido já com o dom de endireita, assim como o pai, porém foi com este que se foi aperfeiçoando. Para evidenciar os ensinamentos do pai, contou que o ‘Ti Alexandre, pastor de seu pai, natural de Segura, também aprendeu. Um dia, o Ti Alexandre foi preso. Diante do juiz pediu que lhe levassem um galo. Satisfeita a vontade, num instante partiu as pernas à ave, atirou com elas ao chão e desafiou que qualquer médico lhe pusesse o galo a andar. Posteriormente ele mesmo o fez perante a admiração de todos. O réu foi mandado em paz. O Ti Ramos esclarece que o homem não partiu as pernas ao galo ‘ele só as desmanchou, depois foi só pôr os ossos no lugar e o galo voltou a andar’. (…) A primeira vez que o levaram, recorda, foi para endireitar um pé ao Dr. Rolão Preto ‘ Ele era um político. Uma vez estava em casa dele e chegaram uns indivíduos para o prender. Ele vestiu-se com uma samarra de pele de cabra, pegou num cacete e num guarda-chuva e disse bem alto – vou botar o gado fora. Passou por entre os guardas, que não o reconheceram e foi-se embora.”
A arte de endireitar quebrantos ortopédicos é comum e especial na Beira Baixa como documenta o caso de Tó Craveiro, o homem dos sete ofícios: “Foi emigrante na Alemanha, trabalhou na Câmara Municipal de Castelo Branco , nas horas vagas matava e vendia cabritos. Para além disso ainda era endireita, este é o retrato de Tó Craveiro”. Bem aos ossos faz-lhe a cerveja: “Grande apreciador de cervejas, quando vivia em Castelo Branco, uma empresa de cervejas oferecia-lhe uma grade desta bebida pelo Natal, como recompensa por ser tão bom consumidor”.
Se Tó Craveiro era conhecido como o varredor dos cabritos em Castelo Branco, também Fernando Pombo ganhou fama como matador de porcos. Uma fábula à La Fontaine o pombo mata-porcos.
Na Aldeia do Bispo encontramos,
“Fernando Pombo excelente matador de porcos”
“Junto de uma velha pipa de madeira as galinhas esgravatavam na esperança de encontrarem alguma minhoca. Estrategicamente colocada a bancada de madeira aguardava a chegada da vítima: O porco.Minutos depois, os homens após alguma luta, conseguem prender as patas e colocá-las em cima da banca. Fernando Pombo previne os ajudantes para segurarem bem o animal de modo a que não venham a ser feridos quando ele esfaquear no momento de aflição. Lava a barbela do animal e ao contrário do que estamos habituados a ver, utiliza uma pequena navalha com uma lâmina de cerca de 10 centímetros. Mais surpreendidos ficamos ainda porque em poucos minutos o porco estava morto. Pode afirmar-se que teve uma morte rápida e de sofrimento mínimo para o animal. Este é porventura o motivo porque o matador é considerado um dos melhores da terra. A experiência de largos anos é outra justificação para cerca de uma centena de solicitações por ano, para a matança de porcos, em Aldeia do Bispo. A arte de matar porcos, cabritos ou cabras aprendeu-a com o pai que era talhante. Tinha 15 anos de idade. O porco maior que matou pesava 200 kg.”
Matar para ganhar a vida. O sustento, o trabalho árduo, os ofícios que se extinguem num mundo rural. Tudo isto faz parte do roteiro de Jolon. O trabalho dos homens e das mulheres da Beira Baixa é um filão que o jornalista garimpa como mineiro de metais preciosos. Seja no balcão da sua retrosaria ou quando se acamarada com os velhos dormitando ao sol no terreiro das Aranhas, Jolon sabe que basta um fósforo para acordar as memórias. E como estamos na raia, as histórias de contrabando vêm à baila com uma mini na mão e um lampejo de malandrice e saudade.

“Zé Tostão: ganhão, pastor e contrabandista”
“Era o tempo da Guerra Civil de Espanha. Eles não tinham lá nada, nós tínhamos de tudo. Eu levava farinhas de milho, trigo, centeio, bacalhau, açúcar, café. Cheguei a fazer o alqueire de centeio a 100 escudos e a vendê-lo a 200 e 250 escudos. Era então, muito, mas muito dinheiro. (…) A conversa é como as cerejas, diz o povo. De facto a conversar com José Borrego Domingos não se dá pela passagem do tempo e as histórias surgem espontaneamente. Em relação aos tempos antigos e ais actuais, que tem a dizer?: ‘Agora é que está o diabo…’ coça a cabeça.”
Pois, é do diabo. Agora não há fronteiras, nem Guerra Civil em Espanha, a fome que há anda escondida e envergonhada, calada, mas o diabo anda por aí a gargalhar como no palheiro de Ti Zé Trapiço. Mas vamos ouvir mais histórias de contrabandistas, que são das boas:
“Chegamos a ser quase 50 contrabandistas a cavalo”
“António Luís (o Paca) de 79 anos, foi companheiro de muitas dessas aventuras. Fomos encontrá-lo em casa bastante debilitado, pois havia passado a noite hospitalizado em Castelo Branco. Apesar disso, o ânimo foi-se elevando a pouco e pouco com o desenrolar da conversa. A tal ponto que acabou sentado no banco de pedra defronte da sua residência, onde habitualmente passa as tardes com o seu amigo Carreto, recordando com nostalgia, os desafios que correram em conjunto durante vários anos das suas vidas. O Pacas iniciou-se na sua vida de contrabando aos 14 anos, e recorda: ‘Chegámos a ir 50 a contrabandistas em cavalos carregados com cargas de 80 a 100 quilos de café cubano. Escolhíamos as noites de chuva, pois normalmente os guardas não saiam de casa. Íamos numa longa fila, distanciados uns dos outros por alguns metros. Se os guardas apareciam e tentavam apanhar algum, este gritava e os outros fugiam.’ Aos tiros de intimidação juntavam-se os gritos do cavaleiro, o que fazia com que os contrabandistas se livrassem da carga, cortando as cordas que a prendia ai cavalo. Em caso de perigo extremo, tentavam salvar o cavalo e a eles próprios. Se não fosse possível, o cavalo era sacrificado e ficava para trás.”
Para trás ficam esses tempos de aventuras, para trás ficam também ofícios, artes e profissões que se foram extinguindo à medida que as terras envelhecem e ficam desertas, entregues aos fantasmas e às memorias, que essas vivem e perduram. Uma terra que já não precisa de barbeiro é um terra onde já nada prospera, como em Quintãs:
“O último barbeiro das Quintãs”
“Uma pequena e antiga oficina de barbearia que é uma verdadeira preciosidade. Um museu mesmo. Quem ali entra regressa invariavelmente ao século passado. Desde a cadeira, passando pelos objectos usados na profissão, do espelho, até ao velho candeeiro de vidro a petróleo, tudo faz recordar os tempos em que as máquinas de cortar o cabelo e barbear eléctricas ainda não sonhavam ser inventadas.
O banco corrido em madeira (tipo dos usados nas antigas tabernas) onde os clientes se sentavam aguardando a sua vez, matando o tempo contando histórias de lobos, lobisomens, bruxas e bruxarias, enfim, pondo as notícias em dia. (…) Neto e filho de barbeiros, João Martins Leal, viúvo, 81 anos de idade, todos os dias vai à sua oficina. Os clientes é que não.”
Ao longo das semanas, Jolon vai dando conta nas páginas do Jornal do Fundão das profissões em vias de extinção espalhadas pelas terreolas, vamos pelos títulos que só por si são histórias de humanidade. Benquerença – “Dos estafetas dos CTT de há 40 anos um ainda é vivo”, Aldeia de Joanes – “Artesão, cineasta e poeta popular”, Penamacor “Foi ganhão e cocheiro sem nunca ter tido férias”, Meimão “A última tremoceira continua a vender”; Tortosendo “Já houve seis alfaiates mas agora só trabalha um”, Benquerença “talhantes e taberneiros: duas profissões em vias de extinção”. E por falar em tabernas, quando o povo já não molha o bico, só falta a última pazada de terra.

Tratemos dos vivos
Jolon conta a história de Maria Pires: “Mulher de armas mete respeito no negocio: Corpulenta e desassombrada, Maria Pires sempre pôs os clientes da taberna em respeito ‘eles tinham medo de mim’”.
Nas fotocópias dos seus artigos o correspondente do Jornal do Fundão faz anotações. Junto à fotografia de Maria Pires com o seu marido, “ambos já falecidos”. Epitáfio de um tempo que se acaba.
“Até a enterrar mortos trabalho de mulher é descriminado”
“Inédito não será, mas a situaç\ao comporta carga bastante de insólito para merecer algumas linhas de jornal. É em Aranhas, freguesia do concelho de Penamacor, onde, como acontece por essas aldeias da Beira Interior, os braços dos homens escasseiam. Conta-se breve a história que o nosso correpondente em Penamacor fez chegar à redacção. Maria de Lurdes Dias, viúva, 52 anos, alem de varrer as ruas de Aranhas enterra os mortos da localidade. A tarefa é o expediente que lhe calhou em sortepara ganhar a vidinha. Os leitores de Aranhas dirão – olha a admiração! Atao ela não é filha do ti José Inês e sobrinha do Ti João Inês, ambos coveiros da freguesia em tempos idos. – Será? Mas o caso é que Maria de Lurdes, que tanto faz a limpeza das ruas como a abertura das covas e correlativo tratamento do cemitério, não tem problemas em barbear e vestir defuntos, uma questão de profissionalismo. Medo? Só dos vivos, que os mortos não fazem mal a ninguém. O problema é outro: mãe de 9 filhos (apenas 2 em casa), não está satisfeita com o vencimento que lhe atribuíram. Por cada funeral recebe 4.000 escudos e a Junta de Freguesia paga-lhe uma mensalidade de 23 contos. É caso para dizer: até a enterrar mortos o trabalho da mulher é descriminado”.
Mas cuidemos dos vivos, cuidemos dos nossos velhos e demos-lhes ouvidos, são retratos e memórias que todos podemos coleccionar e guardar como ensinamentos de humanidade e lições de vida como na história:
“Os últimos residentes da Bazágueda:
“Rodeado de serras, pinheiros, estevas, giestas urzes, medronheiros, , já as famílias viveram naquela zona. Mas foi aos 20 anos de idade que Domingos Campos decidiu fazer do local a sua residência. A atracção que aqueles sítios exercem sobre uma pessoa são motivo suficiente e justificativo para que apesar de contar 80 anos de idade, ele e a sua mulher, D. Maria José Cunha, de 67, continuem a residir na Bazágueda”.
Por cima da foto, Jolon anota. “O homem já faleceu, ela continua lá”. Uma anotação com uma força terrível, solitária, mas carregada de uma certa esperança, enquanto a D. Maria José Cunha continuar lá, Jolon trará a vida das pessoas normais para as páginas do “Jornal do Fundão”, e fará da vida, notícia, nem que seja uma história de amor, como o casal de anciões da Benquerença: “Casados há 66 anos, cada vez se querem mais bem”.
Bem haja pela boleia, Jolon.















bem haja pelas noticias de jolon como eu o conheço (ze do ti david) de-nos mais historias destas .obrigado