Manuel Alegre não é o melhor candidato que a esquerda pode produzir para derrota Cavaco? Goste-se ou não, é o único.
Rui Pelejão Marques
Um circo de variedade e de tontarias, é assim que se vai organizando a vida política portuguesa, mais dada às actividades recreativas, golpadas e conspirações de restaurante finório do que a socorrer a vida de um país á beira da apoplexia.
Ainda mal rescaldados de um ano de eleições em barda, parece que começou agora o corridinho para as eleições presidenciais.
Como vivemos numa paróquia, o arranque oficial da campanha foi dado no boletim da paróquia, quando Manuel Alegre se descaiu ao “Expresso”, afirmando que era candidato ao Presidente da Repúblca.
Parem as rotativas, o “scoop” do ano, Manuel Alegre candidato a Presidente da República, quem diria. Agora só falta Cristo descer à terra e Marcelo ser candidato a líder daquela confraria da Lapa, ou dizer que Santana Lopes continua por aí, como o zombie político mais vivaço da história da democracia portuguesa.
A um ano das eleições, Manuel Alegre chegou-se à frente, ou seja, atravessou-se; antes que a esquerda romântica e a outra, pragmática começasse a burilar figurões presidenciáveis nas páginas dos pasquins solícitos.
Logo foi acusado de estar a lançar uma candidatura prematura e sem apoios, mas se recordarmos, fez exactamente como Jorge Sampaio, que se candidatou a presidente sem perguntar nada a ninguém, marcando desde logo o seu território com um bom sentido de oportunismo político.
No caso de Manuel Alegre, este anúncio não passa de uma mera formalidade técnica, porque depois dos resultados obtidos nas eleições onde foi derrotado por Cavaco Silva, Manuel Alegre pressentiu que a sua voz tinha um milhão de legionários, prontos a segui-lo na sua cruzada contra o Partido Social Democrata do PS (o de Sócrates) e contra a direita dos patrões e da globalização, ou contra o sistema partidário em geral, ou seja, Alegre é o campeão dos desencantados, descontentes e idealistas. Isso e um pouco da sua vaidade (justificada, aliás) são o carimbo da sua candidatura.
Mais interessante que a crónica de uma candidatura anunciada, foi ver a onda de reacções que esta gerou, com o caudalosos comentários, análises e escalpelizações.
Particularmente curioso é ver o embaraço do PS com este reclame prematuro (como se não estivessem à espera) e também algum desconforto das hostes cavaquistas que trataram de começar a colar Manuel Alegre ao Bloco de Esquerda e á esquerda mais ou menos pipoca e radical.
No PS, espante-se, há quem duvide da capacidade de Manuel Alegre derrotar Cavaco, ou sequer de ser um bom candidato presidencial para o PS. Quero crer que este raciocínio, produzido por exemplo por Sérgio Sousa Pinto ou Vitalino Canas, (ventríloquos de José Sócrates) não é produto de pura destrambelhice socialista.
É antes o azedume entranhado, ressabiamento por Manuel Alegre se ter atrevido a pensar pela sua cabeça e ser uma voz dissonante do orfeão afinado da direcção do partido. Para muitos “aparatchicks” socialistas, Alegre é um traidor que não soube comungar das homilias e da vontade do chefe, e se Roma não paga a traidores, o PS muito menos.
Os políticos socialistas começam a parecer desligados da realidade e a viver no seu próprio mundo de fábula e de política de gabinetes. E isso é perigoso porque são eles que estão sentados em frente às gamelas do poder.
Em primeiro lugar acreditam que Cavaco está irremediavelmente ferido na sua credibilidade com o caso das escutas, e por isso, qualquer luminária que avance com o beneplácito de Sócrates, será aclamada num triunfal desfile para o Palácio de Belém.
Acontece que a memória dos portugueses é curta e a esponja é forte. Se decidir avançar para a sua recandidatura, Cavaco será um candidato praticamente imbatível, não porque tenha exercido um magistério de grandeza ou substância, mas pela simples razão de que os portugueses querem uma trela forte em Sócrates e nos seus mastins.
Foi aliás esse sentimento anti-Sócrates (agora mais arreigado) que deu a vitória a Cavaco nas últimas presidenciais, ao unir o centro-direita contra uma esquerda dividida pelos seus imensos egos.
Se o PS quiser repetir a gracinha, só há uma conclusão a tirar. O PS de Sócrates prefere o professor de Boliqueime, apesar de tudo mais previsível e institucional, do que o libertário e impulsivo de Alegre, que será sempre um canhão à solta em Belém.
Se o PS acredita que um candidato seu, com o rótulo de marioneta de Sócrates pode aspirar a mais do que 15 por cento dos votos, está obviamente a delirar, ou então a produzir um candidato fantasma, para incinerar as hipóteses de Manuel Alegre chegar a Belém.
Nomes como Jaime Gama, António Vitorino ou mesmo António Costa ou Jorge Sampaio são autênticas anedotas num confronto com Cavaco.
A verdade é esta, nenhum candidato inventado por Sócrates terá a mínima hipótese de bater Cavaco, e na esquerda não há uma única figura presidenciável (já agora, na direita também não).
Manuel Alegre, apesar de ser uma figura histórica do PS (e não do Bloco de Esquerda) é o único candidato com estatuto de independência suficiente para agregar os votos da esquerda sociológica, e até poder colher votos no centrão que ainda tenha memória das desastradas patarequices de Cavaco.
Por mais que custe ao PS de Sócrates, Alegre pode até não conseguir bater Cavaco, mas se não for ele, mais ninguém é. Sócrates sabe isto, mesmo pensando, venha o diabo e escolha.
Curiosamente, Cavaco e Alegre partilham um capital imenso, que é o descontentamento generalizado com a política partidária. Eles encarnam uma espécie de mitologia de personalidades independentes, acima da política, que é obviamente uma construção boa para captar votos, mas que não passa disso mesmo, uma construção.
Cavaco e Alegre são políticos como os outros, que souberam explorar esse distanciamento altivo, e uma espécie de nojo da política. Fizeram-no de uma forma calculista e pragmática, como qualquer político de concelhia. Assim sendo, o dilema de Sócrates é o mesmo que o nosso, venha o diabo e escolha o novo presidente da paróquia.














