
Homem de costas
“Nature” é uma série de fotografias de Miguel Godinho (1984-), o mais recente vencedor do Prémio Novos Talentos Fnac, que inaugura no dia 22 de Janeiro uma exposição de fotografia, “Mimesis”, na Fnac do Colombo. Talvez uma das primeiras impressões que e”Nature” nos desperta é o remeter-nos para o universo de Magritte. O desconcerto das telas de Magritte partia do uso de elementos que contrastavam ou se excluíam, sempre representados por um realismo conciso. Como esquecer o célebre homem de costas que se contempla num espelho? Não é o seu rosto que se reflecte, mas a nuca. A combinação de detalhes absurdos rompe a visão do mundo aparentemente realista e transforma-a em ilusão. Em “Nature”, todas as personagens, se assim lhes podemos chamar, estão de costas e contemplam essa paisagem natural da qual se destacam. Mas também todas elas deixam margem para essa ilusão que pode existir na forma como nos relacionamos com o mundo. Homem versus natureza, uma relação explorada, aliás, na obra de Miguel Godinho, que nos mostra como o homem tem necessidade de interagir e delimitar o seu espaço a partir do espaço da natureza. A expor desde 2006, terminou o curso de fotografia no Ar.Co em 2008. Miguel Godinho tem estado presente em várias galerias, como na Kgaleria, em Lisboa, onde apresentou a exposição individual “Nature”, e em exposições colectivas nos Recreios da Amadora, no Centro de Arte & Comunicação Visual, em Lisboa, e na Galeria Casa do Pelourinho, em Óbidos. Texto |Ricardo Paulouro
Fotografias de Miguel Godinho | Edição de Susana Paiva
NATURE | Texto de Miguel Godinho
Na tradição da pintura ocidental, a paisagem preenche uma longa e complexa história na qual a sua função simbólica foi mudando ao longo dos séculos. No Renascimento a paisagem é representada como motivo de enquadramento das cenas religiosas e mitológicas. A concepção romântica do mundo trouxe um novo comportamento, onde a expressão dos sentimentos, dos conflitos interiores e da espiritualidade requer uma nova forma de conceber a arte. Ao contrário do que ocorria com a estética clássica, o homem passa a estar submetido à natureza, dividido entre a capacidade da razão e as grandes motivações da sensibilidade e da emoção.
Foi a partir desta noção de paisagem que desenvolvi o meu trabalho: paisagens evocativas de um estado de espírito que estabelecem relações entre o próximo e o longínquo, entre o Homem e a natureza. Uma preocupação sobre a necessidade que o homem tem de interagir com o meio natural e de que forma é que essa interacção acontece. A escolha em retratar as figuras de costas, contemplando, de modo a que as suas identidades não sejam reconhecidas, é representativa da vontade de as tornar, de uma certa forma, veículos de mensagens universais. Frequentemente, as figuras são minúsculas de forma a sublinhar a pequenez e a solidão do homem na grandeza da paisagem.
Subimos então ao cume de uma montanha, contemplamos as longas cadeias de colinas…e que emoções sentimos?(1) As imagens não são sobre o que se vê, mas sim sobre o que se sente.
Carls Gustav Carus (1835)














