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Manuel António Pina: ” Suspeito dos que têm constantemente a boca cheia de ética”

Fotografia de Luísa Ferreira

Manuel António Pina é considerado uma das mais importantes figuras da literatura portuguesa. Recebeu vários prémios, nacionais e internacionais, designadamente o Prémio da Crítica da Associação Internacional de Críticos Literários, atribuído à globalidade da sua obra poética. Nome respeitadíssimo do jornalismo, é cronista de ironia subtil e inquieta. Entrevista conduzida por Ricardo Paulouro

A23 – Manuel António Pina é um autor multifacetado. Escreve poesia, prosa, literatura infantil e é jornalista. Como é que consegue conviver com tudo isto?
Perfeitamente e sem conflitos de maior. No fundo, trata-se de vozes de uma mesma voz, por vezes incoerentes entre si (mas não é a incoerência humana, demasiadamente humana?), mas, em geral, coincidentes. Às vezes digo que o jornalismo me serve para ganhar a vida e a literatura para tentar salvá-la. O que quer que salvar a vida isso signifique, uma coisa sei: salvar a vida, como no poema de Fernando Lemos, não é aprender a nadar. Mas já me aconteceu escrever literatura, ou lá o que é, para ganhar a vida, e o jornalismo, em certos momentos, também talvez possa ser da ordem da salvação, se feito em harmonia, sem concessões, com aquilo que somos. Acho que em uma ou outra das minhas crónicas – mas as crónicas estão a meio caminho entre jornalismo e literatura, são jornalismo com saudades da literatura e literatura com remorsos de ser jornalismo – estive próximo de algo parecido.

O jornalismo pode aprender alguma coisa com a literatura?
O que de fundamental o jornalismo tem a aprender com a literatura é o valor das palavras, que as palavras não apenas malas que transportam sentido ou se limitam a repetir o mundo. De facto, as palavras não só dizem como fazem o mundo, convocam o mundo. Ao mesmo tempo, são forma, isto é, o que se diz é sempre o modo como se diz. As palavras têm vida própria, independente da daquele que escreve; há palavras que se amam, outras que apenas se toleram entre si, outras ainda capazes das piores tropelias se imprudentemente deixadas juntas com algumas das suas semelhantes. Por fim, as palavras são seres volúveis, que é preciso pastorear distantemente, sem autoritarismo nem permissividade (como naquele título de Alexandre O’Neill, em regime de “abandono vigiado”), deixá-las ir indo, conduzindo-as sem que elas se sintam excessivamente constrangidas; porque, se não, tanto podem pôr-se a falar sozinhas como simplesmente calar-se. Dito de outro modo, há que confiar nas palavras e deixá-las viver a sua vida, mesmo se não permitindo (que diabo, jornalismo não é literatura) que a sua vida atropele a nossa. O que de mais importante o jornalismo tem a aprender com a literatura é, no fundo, o respeito pelas palavras.

E a literatura com o jornalismo?
A principal lição que o jornalismo dá à literatura é a da humildade. Os velhos tipógrafos diziam dos jornais que, no dia seguinte, só serviam para embrulhar peixe. Também a literatura, por muito que alguns escritores queiram acreditar no contrário, no dia seguinte serve só para embrulhar peixe, no dia seguinte ou no ano, década ou século seguintes. Vistos a distância suficiente, não há diferença substantiva entre um dia e um século, tudo tende irremediavelmente para o esquecimento e nem o jornalismo nem a literatura podem nada contra isso. Por outro lado, o jornalismo vive permanentemente no fio da navalha de inúmeros constrangimentos, de espaço, de tempo, das suas legis artis, dos processos de organização e trabalho. Mais ainda: uma peça jornalística, antes de chegar ao público, passa frequentemente por muitas mãos, e nem sempre para bem dela e da sua integridade. Ora não há – digo-o muitas vezes – nada mais libertador que um bom constrangimento. Os escritores têm tendência a sacralizar aquilo que escrevem, como se estivessem permanentemente diante da eternidade. No jornalismo aprende-se todos os dias que nada do que escrevemos tem mais importância que outra coisa qualquer, que a eternidade não existe e que nenhuma palavra, mesmo a mais útil ou a mais bela, é suficientemente sagrada para merecer permanecer.

Escreve uma crónica por dia no JN. Não é um trabalho árduo e cheio de ansiedade?
É um exercício diário de servidão. Tenho que ter (sou pago para isso) diariamente opinião, eu que, espontaneamente, nem uma vez por ano tenho uma opinião! As minhas crónicas do JN – e esta questão liga-se ainda com a resposta à questão anterior – não podem ter mais que 1 100 caracteres, espaços incluídos, e o título tem que ter duas linhas, cada uma com um máximo de 13 caracteres. Normalmente, escrevo muitos mais, e a principal fatia de tempo que gasto com cada crónica é a cortar caracteres, palavras, frases, períodos inteiros para, como se diz na gíria, fazer o morto à medida do caixão. Às vezes, antes de iniciar essa tarefa, fico deprimido, parece-me que será impossível fazê-lo, quase tudo o que escrevi se me afigura imprescindível. Não é, aprendo-o todos os dias. Nada é imprescindível (lá está a lição diária de humildade de que falava antes), mesmo que umas coisas sejam mais prescindíveis que outras. E quantas vezes, no decurso desse trabalho, “ganhando” um caracter aqui, outro acolá, desistindo definitivamente de uma expressão ou de uma frase, chego a caminhos de forma e sentido distintos dos iniciais! Como se a escrita, até a de uma simples crónica de jornal, se regesse por leis próprias e constantemente me dissesse: vamos por aqui. O que, ao longo de tantos anos a escrever crónicas, e com tantas e tão diferentes limitações, fui descobrindo é que o processo mais eficaz de escrevê-las é deixá-las irem-se escrevendo a si mesmas, mesmo que com a minha ajuda. As que sinto que me saem melhor são aquelas em que a minha ajuda é quase só a primeira frase. Quando, um pouco à maneira do que Valéry diz do processo poético (que o primeiro verso é dado e os restantes têm que ser conquistados) dou à crónica a primeira frase e, depois, ela conquista as seguintes. Para, como na velha canção de Tom Jobim, tudo se acabar na quarta-feira, que é como quem diz no dia seguinte. E recomeçar de novo. Depois há a questão do ritmo. Eu sou, como cronista, um corredor de meio fundo, e as crónicas do JN são provas de velocidade, não posso corrê-las com, por exemplo, o mesmo ritmo das crónicas que escrevia na “Visão (3 500 caracteres) ou as que agora escrevo na “Notícias Magazine” (3 000). Aos poucos, e contra os meus ritmos naturais, acabei por me rotinar na distância curta das crónicas do JN, e nem calcula como agora, de 15 em 15 dias, me custa já adaptar-me ao ritmo das crónicas mais longas da NM…

Fotografia de Luísa Ferreira

Tem sempre um tema para escrever?
Tenho que ter. E, se não tenho, tenho que inventá-lo. Leio jornais, blogues, sei lá que mais. Às 23 horas, no máximo, a crónica tem que estar na redacção, tenha eu assunto ou não. Às vezes parece-me um milagre diário, conseguir descarregar tal defunto. Já pensei em pôr um anúncio a dizer que compro temas…

É natural do Sabugal, onde foi recentemente homenageado. Que memórias guarda do Sabugal?
Poucas, e provavelmente apenas falsas memórias, de coisas que minha mãe me contou e que hoje sinto como se as recordasse eu. A memória é uma narrativa que construímos do nosso passado, e quem não tem cão caça com gato. Não tendo (provavelmente) memórias directas, pois que saí do Sabugal com poucos anos de idade (talvez três, talvez quatro ou cinco), construí a minha memória sobre a memória de minha mãe. Lembro-me, no entanto, de uma fonte de mergulho diante da casa de meus avós para onde, um dia, outro miúdo atirou o meu chapéu de palha. Deve ser uma memória real, porque imaginava essa fonte como tendo um grande tamanho, aí uns seis ou sete metros de diâmetro, e afinal, constatei-o quando recentemente lá voltei, tem pouco mais de metro e meio. Ou então fui eu que entretanto cresci…

Como é que viveu essa homenagem?
Como um regresso. Não só aos lugares da infância (e como precisamos todos de lugares da infância!) mas também como um regresso à proximidade e ao amor maternal, e a uma nebulosa identidade que é provavelmente, mas que sei eu?, a minha. A amizade e a generosidade das pessoas do Sabugal que organizaram a tal homenagem fizeram-me experimentar algo inestimável e raro: o sentimento de, depois de uma peregrinação interminável, estar de novo em casa, sob um tecto por fim. Isso não se compra com dinheiro nenhum. Nem se paga, pelo que terei que ficar para sempre devedor dessas pessoas.

Um dos seus poemas, de 1984, tem como título “O caminho de casa”. Esse foi um caminho reencontrado?
Talvez por, em virtude da profissão de meu pai, ter durante toda a minha vida perdido casas (e rostos, e nomes, e lembranças), a ideia de regresso é um dos temas recorrentes da minha poesia. Mesmo o tema da morte é, parece-me, também fundamentalmente o do regresso, regresso ao calor do ventre da terra, isto é, da mãe. Num outro poema meu (que diabo, também sou um leitor daquilo que escrevo) há o seguinte verso: “Faz frio como num parto”. É ainda, acho eu, o sentimento do desconforto da existência fora de casa, fora da casa. Como não haveria a minha poesia de falar tanto de regressos? Senti a homenagem no Sabugal como um regresso, sim; talvez não ainda o regresso, mas, provisório e efémero, um regresso.

O que encontrou numa cidade como o Porto?
Um lugar, enfim, de repouso. Depois de toda a infância e adolescência constantemente a partir, finalmente, fiquei. Cheguei ao Porto aos 17 anos, aqui construí uma casa, aqui fiz amigos, aqui conheci minha mulher, aqui nasceram as minhas filhas, aqui, aos poucos, me fui construindo também a mim mesmo. Por isso costumo dizer que me nasci a mim mesmo no Porto. E no Porto, provavelmente, morrerei um dia.

Entre os seus autores preferidos, dá relevo a Borges. Porquê?
À ficção e ensaísmo de Borges, sim; menos à sua poesia, se bem que certos poemas – curiosamente os mais afins da sua ficção – me tenham também marcado muito. Porquê é mais difícil dizê-lo. Amamos principalmente aquilo que se nos assemelha; talvez, quem sabe? (eu não sei), algures eu seja parecido – ou lá o que for – com a literatura especular de Borges, talvez haja na literatura de algo onde o meu desejo e o meu medo se revejam.

Outro ícone indispensável é Fernando Pessoa. O seu diálogo com ele é permanente?
Não. Foi muito intenso na adolescência, nas velhas edições da Ática. Ganhei, no Liceu de Aveiro, uns prémios literários em dinheiro que tinha que ser gasto em livros. Escolhi, além das obras completas de Eça de Queirós, “A velha casa”, de Régio, e a maior parte da obra de Pessoa até então publicada. Excepto o Eça, ainda guardo todos esses livros, que li repetidamente (sei muitos poemas desses livros, principalmente do Pessoa ortónimo, de cor). Hoje sou um leitor bissexto de Pessoa. Tenho medo dele, sou muito vulnerável e transformo-me facilmente na coisa amada. Pessoa tem uma imensa força de gravidade, receio talvez – já me tenho perguntado porque deixei de ler Pessoa – esmagar-me contra a sua superfície. E isso não me acontece só com Pessoa, acontece-me com outros grandes poetas, sinto confusamente que tenho que me proteger deles.

Voltemos à sua obra poética. Considera que nela existem temas obsessivos (como a morte, a casa, a mulher do poeta, os gatos, as lembranças…)?
E os livros… É óbvio que sim. A poesia escreve-se com a memória, e é natural que os centros de gravidade da minha memória sejam também os da minha poesia (juntamente com a consciência desse facto). Memória é tudo o que somos, memória e palavras. E a poesia, pelo menos a minha, escreve-se com aquilo de que somos mais fundamente feitos e desfeitos. Reparo na lista que enumera e penso que todos esses temas são, talvez, um só: a casa, aquilo que, noutro poema, chamo de “um sítio onde pousar a cabeça”. É talvez isso o que a minha poesia procura ser, um sítio onde pousar a cabeça.

Poderemos então afirmar que a sua poesia é um permanente questionamento da vida e do tempo?
E que poesia não é? Da vida, isto é, do amor e da morte, e do tempo, “esse país estrangeiro” (lá estou a citar-me outra vez, desculpe).

Às tantas, a meio de uma frase metafísica, ri. O riso é assim tão importante para a sua poesia?
Bataille diz, salvo erro em “Madame Edwarda”: “Ris-te porque tens medo”. Talvez seja medo, ou talvez necessidade de me separar criticamente do que, num dado momento, digo, ou de me questionar se não estou a levar-me (pecado contra a razão) excessivamente a sério.

Que poetas portugueses admira?
A Cesário, Camilo Pessanha, Pessoa, Alexandre O’Neill, Ruy Belo, Fernando Assis Pacheco, Eugénio, Cesariny e mais que, por algum motivo, pressinto como sendo da minha família, amo-os. Admirar é algo diferente, há poetas que reconheço como poetas maiores, mas que não me são, ou, como o Herberto do poema II do ciclo “Fonte”(e outros poemas ainda), são apenas ocasionalmente, consanguíneos.

Acha que ainda há poetas satíricos em Portugal?
Quase todos mortos, mas vai havendo…

Os gatos são muito importantes na sua obra. Quantos gatos tem actualmente?
Em tempos, antes da lei celerada de Durão Barroso que proíbe ter mais de quatro, tive 13. Hoje tenho mais do que um e menos que 10…

Manuel António Pina, jornalista e escritor, tem, no tempo actual, ou acha que deve ter, uma atitude ética em relação ao país todos os dias?
Normalmente desconfio da ética e suspeito dos que têm constantemente a boca cheia de ética, porque frequentemente têm o coração (já nem digo as mãos) sujo. É outra coisa que não se compra nem se vende, a ética; há quem tenha “uma atitude ética em relação ao país de todos os dias”, e quem não tenha (e, pior, sem sequer saber que não tem), e pouco há a fazer quanto a isso. Como Diderot diz, “ah, Madame, que la morale des aveugles est différente de la notre”. Depois há a coragem; eu não sou uma pessoa corajosa, falo é talvez de mais. Mas o silêncio, em tempos de tantas palavras, pode também ser, e é-o muitas vezes, uma atitude ética, e a conversa fiada nem sempre o é. Não me leve, pois, a mal se prefiro não responder a esta questão. A atitude ética ou a falta dela é sobretudo, acho eu, uma questão que cada um tem consigo mesmo (e que se põe quando estamos sós connosco, os que são capazes, por um momento que seja, ficar sós consigo mesmos) e não algo com que se ande na lapela.

1 Resposta a “Manuel António Pina: ” Suspeito dos que têm constantemente a boca cheia de ética””

  1. cristina says:

    É com gosto que constato que o Manuel António Pina – escritor, poeta e jornalista com uma coluna vertebral invejável, livre de escolioses – se recusa a falar de ética. Sou tocada pela doçura da sua poesia e rejubilo frequentemente com a coragem das suas crónicas, sentindo a ausência de cedências a outros interesses maiores do que os que lhe ditam a consciência.

    Obrigada

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