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“Amanhã” | Jorge Valente

Jorge Valente

Jorge Valente ou a escrita com a luz

Escrever com a luz é uma das metas mais procuradas por quase todos os fotógrafos, mas são poucos os que a conseguem usar como suporte para a escrita da sua experiência. Numa só fotografia, une-se a energia do fotógrafo com outra energia abstracta e universal. Assim se expressa a fotografia de Jorge Valente que, neste portfolio, nos tenta explicar a essência do ofício do fotógrafo. Caçador de instantes, mas também da luz, Jorge Valente converte o enigma da luz em arte. Qual forma de escrita, a luz é utilizada como o meio mais apropriado, mais harmonioso e mais natural de expressão. Fazendo jus ao conceito de invenção da imagem, protagonizado por Niépce, Jorge Valente encontra na luz a forma única e diferenciada de escrever a realidade, na certeza de que a luz é também observar, compreender, analisar a sua leitura do mundo através da imagem. Texto | Ricardo Paulouro
Fotografias de Jorge Valente | Edição de Susana Paiva

“Amanhã” |  Texto de Jorge Valente

“A manhã não cala em mim a voz. Adormecem os sons das palavras não pronunciadas, mas acordam as cores dos sonhos por sonhar, da vida por viver…
O branco que amanhece, prende-me, acorda-me as palavras que escrevo, num desejo forte. Palavras que vão escorrendo letra a letra dos meus dedos para um ecrã iluminado onde cada letra é ausência de luz. A luz da noite para descrever a luz do dia, no acto de amanhecer.
A luz nas imagens, a ausência dela nas palavras, o branco e o negro, a luz e as trevas, a noite e o dia… e o espaço do amanhecer onde tudo é ainda indistinto, onde as trevas são brancas e as palavras ecoam.
(a)manhã é o momento de todas as promessas, o futuro tornado presente, a esperança que o negro das letras se sublime e ecoem as cores de palavras belas, num texto cheio dos sons com que me construo.
São as luzes que se apagam, com o branco a invadir tudo, esbatendo cores, abafando sons, deixando-nos mais sós perante nós próprios.
Mais do que a solidão é a estranheza de estar só, perante um mundo ainda adormecido. Estar ali, desperto, e surpreender o bocejo matinal da natureza ao acordar, diz-me que estou vivo. Sinto na pele a emoção de ver o nunca visto, num puro prazer da descoberta…”
Jorge Valente

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