
Russos, brasileiros ou romenos, escolhem o distrito de Castelo Branco para iniciarem uma nova vida. Chegam em busca de novas oportunidades de vida e de um salário que lhes pague as contas ao fim do mês.
Alguns têm formação académica superior e abandonam a sua terra natal na contingência de encontrar melhores condições de vida. No dia que se comemora o Dia Internacional do Imigrante a A23 encontrou três casos de sucesso no interior de Portugal
Na Ucrânia, por exemplo, um operário especializado ganha pouco mais de duzentos euros por mês, enquanto que uma professora do ensino oficial ganha cerca de sessenta euros mensais. Portugal passa assim a ser palco de uma diversidade cultural que pode também ser um elo de ligação entre povos.
São, porém, cada vez mais os trabalhadores estrangeiros que não têm contrato de trabalho, seguro de saúde ou segurança social. A maioria encontra apenas trabalhos temporários, na construção civil ou na produção fabril, totalmente desprovida de apoios para a saúde ou a velhice. A língua continua, para muitos, a ser o principal entrave. Muitos não chegam a aprender o português e, por isso, não têm qualquer acesso à informação sobre o processo de legalização e adaptação.
A imigração, no distrito de Castelo Branco, tem também aumentado progressivamente. E são muitos os que chegam dos quatro cantos do mundo e escolhem a Beira para viver. Estima-se que, em 2006, residissem no distrito, legalmente, 223 brasileiros, 85 cabo-verdianos, 85 espanhóis e 51 angolanos. Estas são algumas das nacionalidades com números significativos que terão duplicado, em alguns casos, nos últimos dois anos.
Se, para muitos, o sonho esmoreceu na chegada a Portugal, a Beira conta com alguns casos de sucesso entre a população imigrante.
Texto de Ricardo Paulouro
Entre a Música e a Matemática: um casal de sucesso no Fundão
Tâmara Antontseva e Stanislav Antontsev escolheram a cidade do Fundão para viverem. Ambos donos de um percurso brilhante, ela pianista, ele matemático, dão razões de sobra à cidade para estar orgulhosa por ter dois cidadãos tão ilustres. Foi a abertura de horizontes da Santa Casa da Misericórdia, sobretudo pela mão do seu antigo Provedor, Dr. Manuel Correia, que levou Stanislav e Tâmara a se instalarem no Fundão.
Tâmara, natural de Donetsk , Ucrânia, iniciou os estudos musicais aos sete anos e, em 1968, completou a sua formação, no Conservatório Estatal Superior M.I.Glinka como Pianista Solista, Pianista Acompanhadora e Solista de Grupo de Câmara, além da qualificação de Professora de Piano. Pianista acompanhadora do Teatro Académico Estatal de Ópera e Ballet de Novosibirsk, não hesita em referir o grau de exigência que lhe era exigido: “O ensino de música na Rússia era muito exigente. Requeria muita atenção e concentração”.
Aos 38 anos, já casada e com dois filhos, doutorou-se no Instituto Estatal de Música e Pedagogia da Família Gnessin em Moscovo, tendo após isto sido nomeada Directora do Departamento de Ópera e Arte Sinfónica do Conservatório Superior Estatal de Novosibirsk.
Como professora são já muitos os alunos laureados em concursos nacionais e
internacionais para além de entre eles alguns possuírem o título de “Artista Emérito”. Mas a falta de pagamento de salários fê-la emigrar: “Após quase um ano sem receber salário, decidi partir para ajudar a minha família na Rússia”.
Reside em Portugal desde 1997, sendo professora da Academia de Música e Dança do Fundão, onde lecciona a disciplina de Piano e Musica de Câmara. O principal obstáculo, que se tornou num desafio, foi o ter de ensinar crianças, quando até então, na Rússia, havia ensinado apenas adultos.
Com a sua ajuda muitos jovens alunos fundanenses já viram o seu trabalho reconhecido nacional e internacionalmente. Pedimos a Tâmara Antontseva para fazer um balanço dos últimos nove anos em Portugal: “O que mais me agrada são os resultados na Academia do Fundão, os prémios que os alunos têm obtido em concursos dentro e fora do país”.
Sobre o segredo do sucesso, Tâmara não tem dúvidas em afirmar: “Em qualquer área, para se ser bom, é necessário trabalhar, trabalhar, trabalhar.”
Stanislav Antontsev, natural de Volgograd, Rússia, é outra presença genial no distrito de Castelo Branco, actualmente Professor Catedrático do Departamento de Matemática da Universidade da Beira Interior. Licenciado e Mestre em Matemática de Cálculo pela Universidade Estatal de Kazan, doutorou-se em Física-Matemática na Universidade Estatal de Novossibirsk.. São muitos os graus académicos e a lista de publicações de que dispõe no seu currículo. Foi aliás premiado com o Diploma de Honra da Academia de Ciências da URSS e condecorado pelo Estado, em 1986, com a Ordem da Amizade dos Povos, do Soviete Supremo da URSS. Espanha Áustria, Alemanha, EUA, França, Itália ou Suiça foram alguns dos países por onde passou como docente mas foi Portugal, mais precisamente a cidade do Fundão, que escolheu para viver: “Comprámos casa no Fundão porque a Tâmara gostava mais de viver aqui do que na Covilhã. Além do mais, foi importante para o trabalho da Tâmara optarmos por uma cidade do interior. Para estudar música é necessário tempo”. A isto Tâmara acrescenta: “Em Lisboa o tempo corre. Uma hora por semana, em música, não é nada. Aqui no Fundão posso trabalhar mais tempo com os alunos e os resultados estão à vista”.
No Tabuleiro da Vida
Aurélio Rugovschi, licenciado em Engenharia Agrícola, chegou a Portugal em 2002. Os baixos salários na Roménia fizeram-no emigrar por indicação de um amigo. No seu país, trabalhava num centro de investigação, em Portugal trabalhou na construção civil e agora é capataz de uma exploração agrícola.
Reconhece que a língua é talvez a principal dificuldade, a barreira que afasta os que chegam dos que já cá estão. A sua integração foi por isso um processo
complicado: “Quando trabalhei na construção civil não conseguia perceber o que me dizia o patrão e isso fez com que fosse despedido”. De Portugal, apenas conhecia o futebol e já na Roménia era um admirador do Futebol Clube do Porto. Quatro anos depois, tudo é agora mais fácil. Um ano após ter chegado a Portugal, a mulher, psicóloga, que deixou na Roménia, pediu o divórcio. Actualmente vive já com uma mulher portuguesa mas o seu sonho é trazer a filha que também por lá ficou. Gosta da Beira Baixa para viver mas às vezes dá por si a pensar que a licenciatura que tirou está sub-aproveitada. Pensa muitas vezes em tentar a sorte nas grandes cidades, Lisboa e Porto, mas sabe que “os patrões não depositam muita confiança nos estrangeiros”. O processo de legalização de Aurélio foi, aliás, muito complicado: “Quis muito ficar cá. A legalização é muito importante. Tive há tempos um acidente grave no trabalho e apercebi-me que a legalização era importante até para a minha própria segurança”
Um dia, passou em frente ao Núcleo Sportinguista do Fundão e os tabuleiros de xadrez chamaram a sua atenção. Já na Roménia jogava muito com os colegas de Faculdade, numa prática contínua. Começou a jogar e já ganhou, em terras lusas, o 3º lugar num Torneio de Xadrez na Covilhã, assim como no Torneio 25 de Abril.
Quando lhe perguntamos quais são as principais diferenças entre a Roménia e Portugal, não hesita na resposta: “Nós somos mais severos e mais frios. Em Portugal acho que as pessoas são mais alegres, mais amigas”. Apesar de tudo os melhores amigos ficaram lá.
Norey e Mário Teodósio, 14 anos ao serviço da saúde e da estética no Fundão
Chegaram ao Fundão em 1992, vindos de São Paulo, Brasil. A perspectiva cada vez mais real de uma vida conturbada na terra natal fê-los emigrar. Mário Teodósio trabalhava já então com o pai como dentista. Quando Color de Melo ganhou as eleições decidiram que tinha chegado a hora de abandonar o Brasil. No entanto, até ao processo de legalização estar completo, Norey e Mário passaram por um período de adaptação difícil. A permanente indefinição sobre se ficariam ou não em Portugal marcou os primeiros anos da sua estadia. Mas as boas notícias não tardaram em chegar. A equivalência do seu curso de dentista que lhe foi dada pela Ordem, em Portugal, modificou a vida deste casal. Com a simpatia e o profissionalismo, Mário começou a arranjar clientes em várias aldeias da Beira Baixa. A sua fama de bom dentista levou-o a abrir dois consultórios, um no Fundão e outro em Castelo Branco, e a dar consultas em Belmonte, Tortosendo, Paúl, Silvares e Teixoso. Quanto a Norey, tornou-se empresária e abriu um centro de estética na Covilhã. Hoje têm uma raíz que os une profundamente a Portugal. O filho Lucas, natural do Fundão, é disso a prova. Vieram para ficar.














