Texto de Rui Pelejão Marques
Agasalha-te, senão apanhas uma recessão! – Aconselhou o ministro à jovem e volúvel economia. – Não te preocupes que tomo défice e uso uma Termoteb – respondeu esta com a sua habitual coqueteria.
Entretanto num bairro social, junto a uma mesinha de dominó, o Sr. Adérito, reformado dos correios, lê com sobrolho franzido as últimas notícias: “Desemprego aumenta, crescimento negativo, inflação galopante, corrupção e negociatas, deputados baldas e inimputáveis.”
Preocupado o velhote anunciou aos seus companheiros de dominó a terrível notícia – CHEGOU A CRISE! – O Firmino talhante aposentado ergue a pestana e inquire: – Ai sim, e vem cá fazer o quê? – E, coloca o carrão em jogo com um estalido metálico na mesa da jogatana.
Entretanto no Casino do Estoril, no Salão Preto e Prata, os funcionários de um poderoso grupo de comunicação social chegam à festa de natal da sua empresa. É vê-los aprumados, perfumados e bem vestidos com o último casaquinho comprado nos saldos.
Este anos são menos e os sinais de azia são evidentes, afinal as últimas semanas têm exigido grande esforço gástrico para digerir os sucessivos jantares de despedida de colegas que “foram abraçar outros projectos profissionais” – eufemismo para dizer que foram engrossar as fileiras do fundo de desemprego.
Mas é Natal, e é preciso ter esperança, mesmo sabendo, como Céline, que “esperança é acreditar que um dia a merda cheire bem”.
Portugal pode ter o ordenado mínimo mais mínimo de toda a Europa para cá da antiga cortina de ferro, mas em muitos aspectos é uma nação civilizada e até cosmopolita. Temos por exemplo uma agência de segurança alimentar que quer banir os fritos e as bolas de berlim e também temos uma nova tradição – os jantares de Natal das empresas.
Seguimos o modelo americano à risca, excepto na parte do sexo pós-festa de Natal, que desconfio, é o grande segredo do sucesso das jantaradas natalícias na América.
Desinibidos, os colegas de trabalho que flirtam envergonhadamente durante o ano libertam-se em danças insinuantes e whiskys a transbordar de lascívia, mas nós por cá, raramente cruzamos a linha divisória entre os desejos reprimidos e as consequências “perniciosas” do dia seguinte, em que qualquer excesso ou investida da véspera é tratado com chispa moralizante pelos nossos coleguinhas.
É por isso que encaro com muita tranquilidade o convite o jantar de Natal da empresa no Casino do Estoril.
Lá estarei com um fatinho coçado casual chique – conforme recomendado no convite – a derrubar com eficácia whiskys de má índole, a escutar atentamente o Armando Gama a canção vencedora do Festival da Canção de 1983 e a fazer todos os possíveis para não lançar olhares conspícuos às minhas colegas de trabalho; pelo menos não mais do que lhes dedico durante o ano lectivo.
É muito reconfortante pertencer a uma nação civilizada, casual chique, sobretudo com whisky à farta. Enquanto der para o whisky e os Nouvelle Vague fizerem boas versões do “Too drunk to fuck” dos Dead Kennedys (ver vídeo), tenho esperança.
Quando o whisky acabar torno-me grego e passo para os cocktails molotov.
Bom Natal














