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O ecologista que guarda o Tejo

Paulo Monteiro

Texto de Paula Nogueira

De mochila às costas, uns equipados a rigor, outros nem tanto. Um ou outro com cajado. A maioria com máquinas fotográficas. São nove e meia da manhã e o dia não podia estar mais de feição para o passeio. Estamos no Centro de Estudos da Natureza dos Alares. A aldeia do Rosmaninhal, ficou uns quilómetros para trás.
Mas o que leva um grupo de quase trinta pessoas, das mais diversas idades, a madrugarem num domingo? Pedro Martins, técnico de turismo da Câmara de Idanha, entidade promotora do passeio, dá a resposta: “É com ele que vamos aprender a conhecer a flora do Tejo Internacional”.
Ele é Paulo Monteiro, engenheiro florestal, aluno e depois professor da Escola Superior Agrária de Castelo Branco, de onde saiu “à procura da felicidade”.
Pelos vistos encontrou-a no Rosmaninhal, para onde se mudou há 14 anos. Dirigente e fundador da Quercus, faz parte do grupo de activistas daquela associação cujo trabalho contribuiu decisivamente para a criação, faz agora 10 anos, do Parque Natural do Tejo Internacional.
Para ele este território, que ajudou, às vezes quase ferozmente, a proteger, não tem segredos. E os que tem devem estar todos, ou quase todos, contados no “Guia de Percursos-Tejo Internacional, obra de que é autor, e que continua a ser o único trabalho documental sobre esta área protegida.

Paulo Monteiro

Sem o Guia no bolso, mas guiados por este verdadeiro guardião do Tejo Internacional, começamos por conhecer a história recente daquela paisagem, onde hoje dominam as azinheiras, o rosmaninho e as estevas. Antes, na década de 30, era a seara que dominava. A campanha do trigo, incrementada pelo Estado Novo, durou até à década de 60, altura em que a emigração e o consequente abandono dos campos permitiu uma lenta regeneração natural. A natureza, neste caso, aves como os pombos e os gaios foram espalhando as sementes das azinheiras. Em algumas zonas do Parque dá-se, entretanto, nos anos 80, a plantação de eucaliptos, que ainda hoje ocupa cerca de 30 por cento da área total.
Paulo Monteiro impõe ao passeio uma marcha lenta. Mostra-nos o zimbro, que “serve para curar feridas”, o medronheiro, ou um menos conhecido aderno-bastardo, cujos bagos “servem de alimento para as aves”. Explica-nos, diante de um carvalho que aqui, “estas árvores têm folha persistente, enquanto no Norte têm folha caduca”.
Não se esquece da mais familiar esteva, acrescentando que destas flores se extrai uma substância que serve para fixar perfume, mas apresenta-nos outras plantas menos familiares como a cebola albarrã, a aroeira ou o sanganho-mouro.
Já na descida para o Observatório dos Alares, espectacular varanda sobre o Tejo, e depois de termos aguçado a curiosidade de uma boa meia dúzia de grifos, Paulo Monteiro dá-nos a conhecer uma das raridades do parque, o narciso rupícula.
O passeio interrompe-se. Não para ouvirmos o nosso guia falar de mais uma planta. Chegamos ao Observatório dos Alares. O Tejo, lá ao fundo, reclama toda a atenção do olhar. E nós olhamos. Maravilhados.
Paulo Monteiro recorda-nos, à margem deste passeio, os tempos que antecederam a criação do Parque, um período de intensa actividade dos activistas da Quercus que no Centro de Estudos de Natureza dos Alares (onde começou o nosso passeio) desenvolveram, projectos de educação ambiental desenvolvido com centenas de jovens, de sensibilização das populações para a criação de área protegida, a monotorização de espécies, a manutenção do montado de azinho e onde acolhiam visitantes e se desenvolviam campos de férias e de trabalho. O casario, que antes servia de posto da Guarda Fiscal, está hoje abandonado e as marcas da degradação são já visíveis. Propriedade do Instituto de Conservação da Natureza, este centro esteve cedido à Quercus que, confrontada com a falta de apoios estatais para continuar a sua actividade teve de encerrar as portas.
Paulo Monteiro Passados nove anos, 16 de Agosto de 2000,  sobre a criação do parque, Paulo Monteiro afirma que “o que se avançou fica áquem das expectativas”. E lamenta que o Plano de Ordenamento, instrumento de planeamento fundamental para regular as actividades dentro da área e permitir que a população beneficie de apoios específicos, que potenciem a produção e comercialização de produtos, bem como o turismo de natureza, esteja há quatro anos para ser elaborado.
Sofia Silveira,  ex-directora do parque Natural do Tejo Internacional reconhece que “houve promessas que não foram cumpridas”, e que o Plano de Ordenamento está atrasado: “É um processo que se arrasta desde 1997, mas começamos a trabalhar nele a sério em 2004”.
A alteração dos limites, que alarga o Parque até Salvaterra do Extremo, passa a incluir a Herdade do Monte Barata da Quercus, e amplia a área, a Sul, até à albufeira de Monte Fidalgo, contribuíram para a demora do processo que está agora na sua fase final, prevendo-se para breve que a sua versão final seja posta à discussão pública.
A provação do Plano de Ordenamento vai também permitiu o enquadramento legal do Plano de Acção Turística, instrumento que para além de regular as actividades de turismo de natureza vai também permitir aos investidores privados a obtenção de ajudas específicas para a implementação de projectos.
Paulo Monteiro
O Plano de Ordenamento permitiu o reforço das ajudas à actividade agrícola e abre portas à certificação e comercialização de produtos com a marca do Parque.
Sofia Silveira acredita que hoje a população residente na área já está consciente de que o Parque não vem limitar as suas actividades. E apesar das restrições financeiras houve a preocupação, em conjunto com as Câmaras de Idanha e Castelo Branco de melhorar as acessibilidades.
 O  projecto de educação ambiental, o que vai permitir um conjunto de actividades de divulgação a promoção do parque, em espacial junto da população mais jovem.

1 Resposta a “O ecologista que guarda o Tejo”

  1. É com acções,não só com palavras,que se mudam atitudes e maneiras de estar.
    Força.

    O futuro depende do presente.

    Um abraço,
    mário-Trepadeira Azul

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