
Paulo Nunes Santos conheceu vítimas de minas antipessoais e fez os seus retratos a preto e branco. As impressões que ficam de um país marcado por um regime sangrento.
Três décadas depois da queda do regime dos Khmer Vermelhos, elementos do partido liderado por Pol Pot sentam-se no banco dos réus, num tribunal criado pelo Governo do Camboja com a ajuda das Nações Unidas. São acusados de crimes de guerra.
Paulo Nunes dos Santos esteve no Camboja e faz o retrato de um país marcado por um conflito que se estima ter vitimado 1,7 milhões de pessoas. A lente do fotojornalista captou expressões e momentos que o tempo dificilmente apagará. Da menina que entrou num concurso de beleza ao rapaz que ganhou o equipamento do Cristiano Ronaldo.
VEJA O ESPECIAL MULTIMÉDIA “HERANÇAS DE UMA GUERRA” NO FINAL DA REPORTAGEM.
Texto e Fotografia de Paulo Nunes dos Santos
Décadas de guerra marcaram o Camboja de várias formas. Um dos últimos vestígios dos conflitos são as minas antipessoais, que continuam a fazer vítimas diariamente por todo o país. Pol Pot, o famoso chefe do regime genocida dos Khmer Vermelhos e responsável pela morte de milhares de pessoas durante os anos 70, apelidou as minas antipessoais de “soldados perfeitos”, pelo facto de causarem tantas mortes e aterrorizarem fortemente a população.
Uma pessoa pisa uma mina terrestre, o peso detona-a, o impacto é como um comboio de alta velocidade a embater contra uma perna. Os ossos do pé e da perna desfazem-se e pequenos pedaços, como se de cristal se tratasse. O som da explosão pode causar surdez e cegueira permanente. A vítima entra em choque e sangra incontrolavelmente. Esta é a descrição que Thang Thig, de 45 anos de idade, faz do momento em que ele próprio pisou uma mina.
Em 1993 ocorreram as primeiras eleições livres após a queda do regime dos Khmer Vermelhos. As eleições trouxeram alguma estabilidade ao país e com ela milhares de refugiados, dos campos improvisados na vizinha Tailândia, voltaram para casa. Durante este movimento populacional, o número de vítimas aumentou drasticamente, criando uma segunda geração de amputados. A população sabe que as vilas e campos estão minados, mas para sobreviverem vêem-se forçados a trabalhar as terras.
Koy Kol, representante da Handicap International, uma das Organizações Não Governamentais (ONG) mais activas no apoio aos sobreviventes de minas terrestres, afirma que “a população sabe que está a arriscar as suas vidas ao trabalhar no campo, mas não tem outra opção.”
Esta e outras ONGs têm hoje em dia um papel muito activo no tratamento e reintegração dos amputados na sociedade. Uma tarefa nada fácil pelo facto de até bem recentemente, milhares de minas antipessoais serem fabricadas por países do mundo ocidental, alguns dos quais fortes defensores da democracia e direitos do homem. Estes artefactos militares são agora ilegais, mas no entender de Koy Kol “a herança que deixa para trás continuará a fazer vítimas diariamente por muito mais tempo”.














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