A A23 analisou os parqueamentos pagos de quatro cidades do Interior – Castelo Branco, Covilhã, Fundão e Guarda – tentando responder à pergunta: “é realmente necessário pagar para parar no Interior?” Massificados nos finais da década de 80 e princípios de 90, nos grandes pólos urbanos do país, o chamado “estacionamento pago” apresentou-se como a única via possível para disciplinar o trânsito cada vez mais caótico que tomava conta de cidades como Lisboa ou Porto. Inicialmente utilizados em empreendimentos privados rapidamente o uso dos parquimetros foi visto pelas autarquias para além de um elemento disciplinador do trânsito e dissuasor do uso descomedido do automóvel na cidade, como um meio gerador de receitas. No Interior, os parquímetros começaram por aparecer timidamente em meados da década de 90, em pequenas zonas, principalmente nas zonas históricas. No entanto, nos últimos anos, as autarquias do Interior adicionaram os parqueamentos subterrâneos à lista de obras indispensáveis, gastando milhões de euros na sua construção. Mas serão assim tão indispensáveis?
Castelo Branco – um mal necessário
Na capital de Distrito, o parqueamento subterrâneo encontra-se inserido no projecto que repensou e reconstruiu o centro da cidade e foi realizado ao abrigo do programa POLIS. No caso de Castelo Branco, o problema do estacionamento era um problema real, onde centenas de carros se amontoavam ao longo dos passeios e em estacionamentos improvisados constituídos em lotes por construir. “Às vezes era às meias horas que andávamos às voltas para encontrar um lugarzito”, referiu-nos um dono de um estabelecimento comercial. Com o programa POLIS a autarquia albicastrense retirou por completo os automóveis do centro, construindo uma ampla praça pedonal dotada de jardim e inúmeras infra-estruturas culturais, de recreação e de restauração. Para o estacionamento foi construído no subsolo daquelas infra-estruturas um silo auto com 386 lugares e para o trânsito foram abertos túneis, de modo a retirar por completo os automóveis da praça central. O silo auto tem uma taxa de ocupação de cerca de 70% e contribuiu para disciplinar o trânsito outrora caótico do centro da cidade, ao mesmo tempo que revitalizou e requalificou esse mesmo centro.
Covilhã – resolução de um problema com danos colaterais
O centro da Covilhã encontrava-se também desde há muito estrangulado em termos de transito automóvel. Às dificuldades de estacionamento do quotidiano acresciam aquelas emergentes do enorme tráfego provocado pelo turismo de Inverno na Serra da Estrela, altura em que centenas de pessoas de todo o país acorrem à neve e às valências turísticas oferecidas pela Serra. O problema da disciplina do trânsito automóvel no centro da cidade foi inicialmente atenuado com a construção de um silo auto privado – no Shopping Sporting – mas depressa se, revelou insuficiente para o fluxo de novos automóveis que invadem a cidade durante todo o Inverno. Inserida também no programa POLIS, a Covilhã aproveitou os fundos destinados à requalificação e recuperação do centro para construir um projecto ambicioso de estacionamento subterrâneo com 250 lugares, que representa do ponto de vista da construção e de engenharia uma obra notável. Com a construção do silo auto ficaram resolvidos definitivamenteos problemas de estacionamento no centro da cidade. A autarquia dotou ainda toda a zona envolvente do centro de parquímetros, sendo hoje praticamente impossível estacionar sem pagar, embora segundo uma projecção avançada pela C.M. da Covilhã, o executivo camarário afirme que na cidade existem 559 lugares de estacionamento não tarifado, para 169 pagos. Já em fase de concessão encontra-se um novo silo auto construído na Estação, não se sabendo ainda se os estacionamentos até agora gratuitos na área envolvente passarão a ser tarifados. A taxa de ocupação situa-se próxima dos 70%, sendo superior durante o Inverno, principalmente devido ao turismo. De novo ao ouvirmos os utentes, o principal problema apontado foi o preço das tarifas e a falta de alternativas gratuitas. No entanto, se por um lado se resolveu o problema do estacionamento e se disciplinou o trânsito, na medida em que é possível fazê-lo numa cidade com as características físicas da Covilhã.
Fundão – Um desastre para o comércio tradicional
Também a cidade do Fundão se encontra dotada de um parque de estacionamento subterrâneo pago com capacidade para 300 veículos – desde há vários anos que é utilizado um outro silo auto sito no Pavilhão Multiusos, gratuitamente, embora de modo condicionado. A obra, finalizada em Agosto de 2005 e orçada em dois milhões de euros, fez parte do projecto de requalificação do centro do Fundão. Das cidades abordadas, o Fundão é a única onde a criação de uma zona de parqueamento pago se apresenta mais como um investimento de futuro do que solução para um problema actual.O que poderá indicia a desnecessidade actual de um parqueamento pago na cidade do Fundão encontra-se na taxa de ocupação daquela infra-estrutura: cerca de 2%. Mesmo perante tal evidência, o Município aprovou a implementação de parquímetros na cidade. Estar-se-á a criar uma necessidade que na realidade não existe, ou essa implementação será condição sine qua non de concessão a privados? A obrigatoriedade de pagar para parar no centro da cidade teve um efeito colateral negativo no comércio desse mesmo centro: a menos de 5 minutos do centro da cidade existem várias grandes superfícies comerciais dotadas de parqueamento grátis, sendo uma delas dotada de estacionamento coberto, gratuito, o que afastou muitos consumidores do comércio tradicional, principalmente durante o Inverno.
De qualquer modo, é um facto que, pelo menos actualmente, a necessidade de pagar para parar ainda não se faz sentir de maneira a ser considerada uma opção pela grande maioria dos condutores fundanenses, sendo a única justificação possível para a implementação de parquímetros, e que resultará numa clara perda da qualidade de vida dos cidadãos, a simples criação de mais uma fonte de receitas, municipal ou não.
Texto publicado na revista A23 Nº1














