Cada vez que presencio e vivo o empolgamento de cada jogo da Selecção Portuguesa não deixo de me lembrar como o escritor brasileiro Graciliano Ramos está longe de ver a sua profecia cumprida. “Para chegar ao soberbo resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol”, dizia Graciliano Ramos, em 1921, numa fórmula que quase parecia uma mezinha caseira de preparação para o Verão.
Por mais estranho que hoje nos pareça, Graciliano estava convicto de que o brasileiro não tinha vocação para o futebol. Garrincha, Viola, Ronaldo, Pelé, Ronaldinho, Roberto Dinamite, entre tantos outros, devem tapar os ouvidos ao texto que se segue: “Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não. No caso afirmativo, seja muito bem vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve. (…) A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência! Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro – e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa. Cultivem a rasteira, amigos! E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno. Muito útil, sim senhor. Dediquem-se à rasteira, rapazes”, analisava com graça Graciliano Ramos.
O que é certo é que o futebol entrou na vida de muitos escritores. Lembro-me, por exemplo, de “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, um livro que revelava os corredores obscuros da censura. A história, passada em 1970, conta a história de amor de Zezinho e Nely. Zezinho sonha ascender socialmente pelo futebol e tem, por isso, algumas descrições brilhantes: “Eu tinha que comer a bola no domingo, do Madureira para a seleção, bola com Zezinho, é goool! A multidão gritava dentro de minha cabeça”. E nada melhor do que reagir assim à derrota: “Vamos virar esse placar, pessoal, eu disse para os companheiros, botando a bola debaixo do braço e correndo para o meio do campo, pra dar a saída, igual o Didi na final da copa de sessenta e dois”.
Em 1998, era lançada um antologia de contos sobre futebol, intitulada “Onze em campo e um banco de primeira”, onde vários escritores, como João Ubaldo Ribeiro ou Rubens Fonseca, centravam a sua arte num só tema: o futebol.
Mas serão talvez Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues quem abriu verdadeiramente a porta da literatura ao futebol. Drummond de Andrade, entre crónicas e poemas, escreveu versos como estes: “Futebol se joga no estádio? / Futebol se joga na praia, / futebol se joga na rua, / futebol se joga na alma.” O jogo elevado a um estádio superior, o da alma, é um tema retomado por Nelson Rodrigues, autor de frases memoráveis como esta: “Qualquer técnico tem a torva e atra vaidade de uma prima-dona gagá, cheia de pelancas e varizes; quem ganha e perde as partidas é a alma; a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável”.
Quando a bola é lançada, o jogador que a recebe tem jogadores adversários. A partir daí começam as complicações. Mas eu prefiro chamar-lhe o ‘inesperado’. Na verdade, em campo, tudo pode acontecer, como na literatura, onde se joga com cada palavra, com os sentidos ou as construções gramaticais. Quando algo inexplicável acontecia num jogo, Nelson Rodrigues dizia tratar-se da intervenção de uma entidade chamada Sobrenatural de Almeida. Se uma bola aparentemente sem defesa era travada pelo guarda-redes, então era obra e arte do Sobrenatural de Almeida. Se um passe de bola torto mudava subitamente de direcção e entrava na baliza, entre o goleador era o Sobrenatural de Almeida. Mas, na literatura, o Sobrenatural de Almeida também está presente. Uns chamam-lhe inspiração, outros criatividade. Outros, simplesmente arte.














