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Rodrigo Leão: “A minha forma de trabalhar é muito intuitiva”

Imagem15Rodrigo Leão subiu este sábado ao palco do TMG. Uns dizem que a sua música é melancólica, mas para outros ela é solar. Composto, sobretudo, para vozes masculinas, este álbum conta com a participação de nomes como Stuart Staples, Neil Hannon e Daniel Melingo.  Mãe mostra como a música é partilhada pela poesia e pelo cinema, numa linguagem universal que se espalha pelo mundo. Texto de Alcides Parreira

A23: A sua carreira musical, de uma forma mais activa, começou no início da década de 80 com os Sétima Legião. Como era o panorama musical português nessa época?

Rodrigo Leão – Era muito diferente do que é actualmente. Mas o início dos anos 80 continua a ser uma data muito importante para mim, que guardo com muito carinho. O início da Sétima Legião em 1982… Já passaram muitos anos, mas quando penso nisso, fica tudo mais perto da memória, há influências que continuam a estar muito presentes. Quase as mesmas que existiam há 30 anos, quando éramos um grupo de amigos

que queriam fazer música, sem terem uma escola ou uma técnica definida, mas com uma vontade enorme de fazer algo, por muito simples que fosse. E foi aí que tudo começou… É evidente que na altura existiam menos grupos, menos locais para as bandas poderem tocar, por isso, de alguma forma, era talvez tudo um pouco mais fácil. Hoje em dia há muito a acontecer em várias vertentes, é muito diferente…

Em relação ao acesso a outros músicos, a outros projectos, actualmente com a internet é algo muito fácil. Como músico e pessoa interessada em música, como selecciona aquilo que ouve?

Ouço muito pouca música. Até uma certa altura ouvi, mas nos últimos 20 anos estou mais preocupado com o quero fazer, com as melodias, ando à procura das minhas músicas. Claro, tenho alguns amigos que me mostram coisas que se vão fazendo actualmente e sabe-me bem ouvi-las, mas não tenho a curiosidade que muita gente tem, para ouvir a maioria do que se faz hoje em dia. Por um lado, há um excesso de oferta, mas também uma comunicação inacreditável através da internet entre os músicos. No meu último disco, tive a oportunidade de trabalhar com três músicos de sítios muito diferentes. Envio-lhes uma maquete, e no dia seguinte eles enviam-ma de volta, já com algumas letras e vozes em cima daquilo que fiz. Há 20 anos era

impossível isso acontecer. É muito estimulante, termos um contacto tão próximo entre diferentes culturas, apesar da distância. Temos todos a ganhar com essa situação.

No início da sua carreira, alguma vez pensou chegar ao reconhecimento crítico de que goza actualmente?

Não… Mas falta-me ainda fazer muito, tanto em termos de colaborações como de discos. Quando deixei os Madredeus há mais de 10 anos, nunca pensei que pudesse lançar tantos álbuns, como fiz até hoje. Claro que o meu objectivo era fazer música, como sempre foi. Acho que, provavelmente, tive alguma “sorte”…Rodrigo Leão

Os projectos em que esteve envolvido, como os Sétima Legião, os Madredeus, e agora a solo, fogem ao chamado “mainstream”, ao tipo de música considerada mais comercial. Porquê esta opção?

Tivemos sempre a sorte de fazer exactamente aquilo que queríamos, e nunca nos passou pela cabeça fazer algo de diferente. Isto, independentemente de querermos vender. Mas o resultado poderia ter sido diferente…

Com os Madredeus deu-se a internacionalização comercial, a entrada em mercados estrangeiros. Na sua opinião, o que permitiu esse salto?

Essa época continua a ser uma das alturas mais importantes da minha vida. O contacto

com pessoas diferentes, músicos diferentes, a descoberta de países onde nunca tínhamos estado, foi importantíssimo para nós enquanto músicos e enquanto pessoas. Foi muito gratificante para todos nós, penso eu.

Após a sua saída dos Madredeus, tanto o EP como os dois álbuns que lançou posteriormente, têm títulos em latim. Qual foi o motivo dessa escolha?

Na altura, a maior parte da música que estava a criar era instrumental. Não quis fazer

o mesmo que nos Sétima Legião ou nos Madredeus, em que a utilização da língua

portuguesa era muito importante. Para mim, o latim tinha a ver com alguns dos instrumentos que utilizava na altura, era uma língua que as pessoas não iriam necessariamente perceber, concentrando-se por isso completamente na parte musical.

A maioria das vozes que marcam presença nos seus trabalhos a solo é feminina. É algo propositado?

Penso que isso aconteceu por acaso. A minha forma de trabalhar é muito intuitiva.

Tento construir as músicas e não sei no início, se irão ser cantadas, se vão ser instrumentais ou se serão cantadas por vozes femininas ou masculinas. Acabam, até hoje e na maior parte das músicas, por serem cantadas por vozes femininas, mas não é algo pensado. No próximo disco há três vozes masculinas, portanto…

Parece ter uma forte ligação a Espanha. De onde vem essa ligação?

Tenho família espanhola da parte do meu pai, mas penso que não será isso. Não sei…

Acho que tenho muitas influências, principalmente na minha adolescência, em casa

dos meus pais, através das músicas que eles ouviam, música francesa, italiana, música clássica… Acho que acabei por ter, inconscientemente, essas influências como base para fazer aquilo que quero.

Outro aspecto importante na sua música é a presença da poesia e do cinema, não só no nome de alguns dos seus álbuns, mas também pelo peso que parecem ter nas suas composições…
A poesia pode ser algo bastante subjectivo, podemos encontrá-la em pequenas coisas do dia-a-dia. Lembro-me de ouvir em criança, na casa dos meus pais, a “Toada de Portalegre”, de José Régio, dita pelo João Villaret. Apesar de sermos miúdos, aquilo entrava… A poesia esteve sempre presente em minha casa e a música também. Já em relação ao cinema, para mim sempre foi uma paixão muito grande e acaba por ser uma inspiração enorme para fazer música, como qualquer arte.

Quando não está a trabalhar na sua música, dedica muito tempo ao cinema?

Hoje em dia isso é mais complicado. Acabo por ver mais filmes em casa e ir cada vez

menos ao cinema, mas ainda lhe dedico algum do meu tempo.

Sabemos que tem uma casa em Avis. Como é essa vivência no interior alentejano?

Aconteceu por acaso. Nos últimos anos, muitas das minhas músicas foram compostas

ali. Aquele sossego, no meio de todas aquelas oliveiras, é uma inspiração muito grande…

Lida bem com o facto de ser uma figura pública? É geralmente abordado na rua ou sofre com este tipo de exposição?

Não sou muito abordado. Não sou propriamente um músico conhecido. Algumas

pessoas conhecem-me, porque faço música há muitos anos, mas não me sinto incomodado. De vez em quando há pessoas que vêm ter comigo, mas lido bastante bem com isso.

Rodrigo Leão

Natural de Lisboa, nascido no ano de 1964, Rodrigo Leão rapidamente ascendeu ao mais alto patamar da cena musical portuguesa. Em 1982, foi um dos fundadores dos Sétima Legião, banda mítica da década de 80, que rompeu com os moldes musicais de então, abraçando sonoridades que iam do pop à música tradicional e que foi considerada por muitos “o grupo da década”. Três álbuns depois, formou os Madredeus, juntamente com Pedro Ayres de Magalhães, banda portuguesa com uma projecção internacional invejável, tornando-se num dos nomes incontornáveis da música contemporânea europeia. O ano de 1992 serviu de ponto de partida para uma carreira a solo, mantendo-se a eterna busca da música perfeita. A poesia e o cinema são presença assídua no percurso deste músico, deixando aqui e ali a sua marca indelével. Assumindo-se desde o início como compositor por excelência, Leão tem colaborado com nomes importantes a nível internacional, como por exemplo Beth Gibbons (Portishead), Adriana Calcanhoto ou Ryuichi Sakamoto. O seu último álbum, recém-lançado, é “A Mãe”.

*parceria A23 revista Pormenores

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