
Eunice Muñoz em "Mãe Coragem" de 1986, enc. de João Lourenço
Eunice Muñoz é homenageada no Teatro Nacional. Filha e neta de actores, o destino de Eunice Muñoz estava traçado desde o nascimento. Com apenas cinco anos já pisava os palcos e merecia os mais entusiásticos aplausos por parte do público. De talento precoce, mesmo antes de concluir o curso do Conservatório (com 18 valores), já trabalhava com Amélia Rey Colaço no Teatro Nacional, onde teve oportunidade de contracenar com actores como Maria Lalande, João Villaret ou Maria Matos, entre outros. Ao longo da sua carreira, fez drama, comédia e farsa, fez cinema e televisão e conquistou várias distinções, entre as quais a Medalha de Mérito Cultural da República Portuguesa. Nos palcos, distinguiu-se em papéis como “Zerlina”, de Herman Broch, ou o inesquecível “Mãe Coragem e os seus Filhos”, de Bertolt Brecht, ambos no palco do Teatro Nacional. Modesta, diz que, mesmo depois de uma carreira que já leva 70 anos, está sempre a aprender com as gerações mais novas e que, longe de sentir que fez tudo, continua a procurar o essencial. Uma salva de palmas para a grande senhora do Teatro português. Texto de Ricardo Paulouro
Em 1941, estreava-se no palco do Teatro Nacional, ao lado de nomes consagrados como Amélia Rey Colaço, uma miúda de cabelos negros e olhos imensos. Pouca gente se recordará de peça “Vendaval”, mas impossível é esquecer a actriz Eunice Muñoz. Já ultrapassou em muito o meio século de carreira, mas o público terá o prazer de a ver mais uma vez no palco da Sala Garrett a partir de dia 12 deste mês em “O Ano do Pensamento Mágico”.
Eunice do Carmo Muñoz nasceu a 30 de Julho na Amareleja, em pleno coração alentejano. O teatro entrou cedo na sua vida, até porque cresceu a trabalhar e a aprender com os pais, de terra em terra, na companhia itinerante da família “Troupe Carmo”. A mãe, Mimi Muñoz, de origem espanhola, tinha um teatro desmontável com o seu nome. O pai, da família Cardinalli, era artista de circo. Junte-se tudo e imagine-se agora, aos cinco anos, Eunice Muñoz a cantar e aos sete a representar já pequenos papéis.
Estamos agora no início da década de 40, altura em que a família Muñoz já vivia em Lisboa e actuava na periferia em espectáculos de variedades. Amélia Rey Colaço prepara-se para levar a cena a pela “Vendaval”, de Virgínia Vitorino. Recomendada pelo actor Sales Ribeiro, Eunice Muñoz, com apenas 13 anos, aceitou o primeiro grande desafio da sua carreira. O papel era pequeno, mas foi o bastante para chamar a atenção da crítica. Um ano depois, entra no Conservatório e aparece no Teatro Avenida ao lado de nomes como Estêvão Amarante, Irene Isidro e Maria Lalande. Sucedem-se as peças no Teatro Nacional, onde contracena com grande actores como a mestra Amélia Rey Colaço, João Villaret ou Raul de Carvalho. Não terá sido fácil conciliar a carreira de actriz com o curso no Conservatório, mas Eunice não se ficou pelo teatro. Aos 15 anos iniciou as filmagens de “Camões”, dirigida por Leitão de Barros, obtendo o prémio para a melhor interpretação feminina. E aos 17 anos, termina o Conservatório com a excelente classificação de 18 valores. Mais tarde, Eunice dirá à imprensa: “Não sei como conseguia tempo para tanta coisa!”.

Eunice Muñoz regressa ao TNDM II pela mão de Diogo Infante. Foto de Margarida Dias
Uma das suas características enquanto actriz é a versatilidade de géneros que interpreta. Note-se que, em 1944, Eunice iniciou o seu percurso em teatros comerciais, ao lado de Vasco Santana ou Mirita Casimiro. A um ritmo alucinante, em 1951, forma a sua própria companhia com Alves da Cunha e Lucília Simões. Se em 1944 já havia feito a sua primeira paragem no teatro, altura em que se casa e tem a primeira filha, aos 23 anos, no auge da carreira, Eunice afasta-se, desta vez por quatro anos. A necessidade de viver novas experiências leva-a a trabalhar numa loja de cortiças e numa empresa de cabos eléctricos. Mais tarde, explicaria: “Durante esses quatro anos nem teatro ia ver. “. Nesta altura conhece o seu segundo marido, pai de quatro dos seus filhos. Ele terá sido uma das principais influências que a fizeram regressar ao teatro em 1955, com o êxito “Joana D’Arc”. Um regresso triunfante a que se seguiram dezenas de peças, uma passagem pela Companhia Portuguesa de Comediantes, um terceiro casamento com o nascimento de mais uma filha. Na década de 70, Eunice passa a fazer trabalhos pontuais para a televisão. Já disse que, pela arte de representar, tem uma relação “amor-ódio”, mas a década de 80 volta a trazê-la para as luzes da ribalta, de onde nunca havia saído. “Anúncio a Maria”, “A Casa de Bernarda Alba”, “As Memórias de Sarah Bernhardt”, “Mãe Coragem e os seus Filhos”, “Zerlina” são apenas alguns espectáculos memoráveis na história do Teatro em Portugal. Na década de 90, subiu ao palco em “Passa por mim no Rossio” vestida de Estêvão Amarante e o delírio é geral. Percorrer a sua carreira é tarefa difícil, de tão extensa que é. Recentemente, no Teatro Maria Matos, pudémos vê-la na peça “Dúvida” e foi-lhe atribuído, pela Universidade de Évora, o grau de Doutor Honoris Causa. Os seus olhos, a sua voz e o seu talento são inúmeras vezes referidos pela crítica e Eunice é uma referência para gerações e gerações. Uma vida, tão intensa como a sua carreira, que se confunde com o teatro.














[...] Dossier Eunice Muñoz [...]
Exmºs. Senhores
Pedindo desculpa por esta forma de chegar até vós, venho por este meio manifestar o meu absoluto repúdio e nojo pelo conteúdo da primeira parte do programa da RTP2 – “5 para a meia noite” emitido a 23/12 no qual se faz entre outras, uma referência absolutamente repugnante à Exmª. Srª. D. Eunice Muñoz. Já enviei o meu sentimento de repúdio para o Provedor do Telespectador bem como para a RTP.
Melhores cumprimentos
Fernando Ventura