
Foto de Christian Cravo
Gilberto Gil apresenta a 08 de Novembro, na Casa da Música, no Porto, o seu “Concerto de Cordas”, que repete, dois dias depois, no Centro Cultural de Belém. Gilberto Gil (voz e guitarra) será acompanhado pelo filho Bem Gil, na guitarra, e por Jaques Morelenbaum, no violoncelo. Natural de Salvador, na Bahia, os ritmos e os sons desta terra marcaram a infância do cantor e compositor baiano que, desde a infância, descobriu a sua vocação para a música. A carreira com cerca de 50 anos, repleta de sucessos, mostra-nos como vai longe o tempo em que definir Gilberto Gil como tropicalista bastava para o caracterizar. O distanciamento crítico e a capacidade de melhor se auto-avaliar permitem-lhe hoje reconhecer as marcas de um modo de ser brasileiro, uma harmonia de contrastes que tão bem caracteriza o Brasil. Entrevista de Margarida Gil dos Reis
A23 – Passados mais de 50 anos de carreira, quais são as diferenças entre o Gilberto Gil que, em 1965, compôs as suas primeiras bossas e jingles e o Gilberto Gil hoje, um dos músicos de referência brasileiros?
Estou mais velho e o envelhecimento é um elemento modificador das disposições, das ambições, das capacidades. São capacidades que se desvanecem, outras, pelo contrário, ganham cores mais fortes. Com as ambições passa-se exactamente a mesma coisa. Desaparecem muitos dos aspectos de configuração das ambições de juventude, e aparecem outras novas. No meu caso, há uma avaliação psicossomática de que há vantagens no envelhecimento [risos].
A23 – Com esse distanciamento crítico que o tempo lhe deu, é-lhe mais fácil reconhecer as várias influências ao longo da sua carreira musical.
Consigo, de facto, identificar várias influências ao longo da minha carreira. Acho que as que mais se mantiveram foram as primeiras, as que estão ligadas à formação, não só de carácter musical, mas também da minha pessoa. As influências ligadas aos aspectos estruturais da vida brasileira, do modo de ser brasileiro, do samba e também a música afro, a música do mundo, americana, do Caribe… Eu diria que estas foram as influências que prevaleceram como anima musical. Existem, claro, outras influências que são mais do campo da mentalidade, tais como a influência europeia e ibérica, a influência clássica. Em ambos os casos, os aspectos mais presentes até hoje são os primeiros, os modos musicais com que convivi na infância e na adolescência.
A23 – A palavra é um instrumento importante na sua música?
Sim, a palavra acabou por ser importante. Eu tinha um interesse puramente musical quando comecei a interessar-me por música, na infância. Mas, já nesta altura, existia a palavra das canções populares, quase todas muito marcadas pelo binómio música-palavra cantada. No entanto, o meu interesse recaía sobretudo na sonoridade daquilo que convencionalmente chamamos de música, ritmos ou harmonias. Quando eu me interessei pela criação musical na adolescência e início da idade adulta, a poesia e a palavra vieram como um elemento complementar, até hoje. Eu nunca mais me dediquei apenas à música.
A23 – “A refavela / revela a escola / de samba paradoxal / brasileirinho / pelo sotaque / mas de língua internacional”. Esta letra de uma música composta em 1977 revela já a consciência da pluralidade e da interculturalidade que existe num país como o Brasil?
Ainda que essa pluralidade exista em qualquer cultura, especialmente nas fases moderna e pós-moderna da história humana, alguns países são mais plurais do que outros, até mesmo pela condição geográfica. O caso das Américas é exactamente esse: as Américas são mais plurais pela sua geografia, a sua sociologia e a sua antropologia. Um pouco mais até do que a Ásia e a África. Talvez até mais do que a Europa, embora a Europa na fase da modernidade tenha ultrapassado o domínio do que é estritamente europeu e tenha começado a ganhar contactos com o mundo e a absorver essas influências. Eu diria mesmo que, depois das Américas, a Europa é o continente mais pluralizado. O Brasil é, de facto, um dos países mais marcados por essa multiculturalidade e interculturalidade. Isso está sem dúvida em mim e na minha música.
A23 – Para além da necessidade de “escutar um samba-canção”, o futebol também o atrai?
Eu sou de, pelo menos, três clubes de futebol! Sou do Bahia, do Fluminense, do Santos Futebol Clube. Nunca joguei muito futebol mas quando jogava era arqueiro (guarda-redes).
A23 – Qual foi a importância de Chico Buarque na sua carreira musical?
Nós fomos muito estimulantes nas nossas carreiras, um para o outro. Essa é a marca principal da nossa relação. Nós tivemos uma instigação mútua. Acompanhámo-nos desde o início da carreira e já nessa ocasião os trabalhos de um impressionavam muito o outro. Estabeleceu-se entre nós uma espécie de competição olímpica silenciosa, velada. Eu sempre acompanhei com interesse profundo tudo o que ele fez. Desde o primeiro instante, a sua forma de criar causou-me muita satisfação. Tenho a impressão de que até hoje nos relacionamos a partir dessa capacidade de atenção e observação mútuas. Uma atenção para com os novos discos de cada um, espectáculos, interesses… Quando, por exemplo, ele enveredou pelo caminho da literatura, eu segui a política.
A23 – Como definiria a música de Buarque, relativamente à sua?
A música do Chico é neo-clássica. Ele tem muito respeito e reverência pelas formas clássicas da música popular e um cuidado muito especial com a inserção de elementos inovadores. De um certo modo, eu também sou assim, só que, no caso dele, a dosagem de reverência e respeito ao arcádio é maior do que em mim. Eu sou menos cuidadoso, ainda que seja um cultor, um músico cuja base de interesse é o aspecto clássico. Acho que eu me dei com mais despudor à aventura e às operações de ruptura e desconstrução. Ele é um construtivista fiel.














