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Graça Morais: nos braços do tempo

A23 / Graça Morais
Graça Morais fala-nos de memórias, desejos e inquietações. Enraizada à terra, ao quotidiano movido por hábitos e regras, com marcas de um tempo que pode ser calmo mas que também sabe ser agreste, Graça Morais estende o seu olhar desde a aldeia até ao mundo. Porque pintar é, no fundo, como escrever: é saber ver para, em seguida, criar, metamorfosear, recriar. E, sobretudo, é existir no tempo que é próprio da Pintura. Um tempo que desafia o tempo do Mundo porque lhe permite voltar atrás, perder-se nas memórias, refugiar-se, como Torga, no ‘reino maravilhoso’ que é a sua aldeia ou simplesmente em cada tela em branco que pinta como se fosse a primeira vez. Entrevista de Ricardo Paulouro

A23 – A componente afectiva é importante ao longo do processo criativo?

Graça Morais – A minha pintura está de facto muito ligada a memórias de infância, a todo um período de descoberta de um mundo rural. A relação que eu tenho com os objectos, com as paisagens e, sobretudo, com as pessoas, faz-me encarar qualquer um destes factores como se de um ‘paraíso’ se tratassem, como qualquer coisa a que eu me agarro para me entender e me aproximar mais do que eu considero ser a própria vida.

A23 – Nessa revisitação tenta captar não só o que prevalece mas também aquilo que muda…

GM – Sem qualquer tipo de nostalgia. Parece-me que a mudança é algo natural. Muitas vezes o meu trabalho pode ter um carácter mais documental. Recordo-me, por exemplo, de uma série que fiz só com cabeças de mulheres, onde eu tentava captar o seu cabelo, sendo que o que me importava reter eram o desenho dos penteados e o brinco. Actualmente, ao olhar para esses desenhos, reconheço-lhes um carácter documental que me passou despercebido na época em que os fiz. Hoje esses penteados desapareceram e os brincos de ouro são substituídos por brincos de fantasia. Talvez possa mesmo dizer que a minha obra está muito enraizada numa recolha antropológica.

A23 – É importante para si cristalizar tradições, evitando que elas caiam no silêncio?

GM – Eu tenho consciência que não consigo alterar esse tipo de situações. O ritmo das coisas, desencadeado pelas grandes transformações económico-sociais, é imparável. Posso talvez sim mexer com a consciência das pessoas e fazê-las valorizar, por exemplo, determinadas tradições. Retratar estas mulheres de identidade quase anónima, no fundo rostos sem nome, e trazê-las para as paredes dos museus ou das galerias é oferecer-lhes um lugar que, antigamente, estava exclusivamente destinado aos reis ou aos burgueses.

A23 – Quando é que sentiu esse fascínio antropológico pela região de Trás-os-Montes?

GM – Penso que desde criança. Eu tinha uma tia que incutiu em mim o gosto pelas coisas antigas, pelas pedras… A minha família tinha uma propriedade em Freixiel onde existiam várias inscrições rupestres. Um dos meus maiores prazeres era o de desenhar ao pé dessas inscrições, outras vezes de as copiar. Sempre achei fascinante aquela dimensão antiga das coisas, que no fundo não desaparecem, que se vão mantendo vivas. Posteriormente, comecei também a olhar para as pessoas dessa forma. Hoje, passados trinta anos, observo os rostos das pessoas, a própria indumentária e noto a mudança. É muitíssimo interessante ver como a Humanidade se vai alterando a si própria.

A23 – O silêncio é importante no acto de criação plástica?

GM – Eu antes pintava muito ao som de música mas actualmente não consigo suportar o som. Parece-me que estamos tão sobrecarregados de barulho, a começar pela alta tecnologia moderna, que somos permanentemente inquietados e incomodados. Assim, quando tenho oportunidade de chegar ao meu atelier, fechar as portas de madeira, como se a cidade quase desaparecesse, dispenso qualquer tipo de som.

A23 – Pinta todos os dias?

GM – Gostaria muito mas infelizmente não consigo. Por vezes começo a pintar debaixo de um grande entusiasmo, outras vezes é muito penoso e obriga-me a fazer quase um esforço. A pintura nem sempre é fácil… Uma coisa é pintar por distracção, outra coisa é pintar com uma grande entrega, como se fosse a coisa mais importante que se faz na vida. Nesse caso, é necessário investigar, sentir, saber aplicar toda a nossa sabedoria. Nos momentos em que por vezes me sinto mais bloqueada, resolvo fazer uma pausa, desde ir ao cinema ou fazer uma viagem. Eu sei que se for a Londres ou a Paris, que são cidades que me oferecem exposições de grande qualidade, virei com um novo entusiasmo.

A23 – Quando pinta, procura (-se) ou encontra (-se)?

GM – A única certeza que eu tenho é que pintar é o acto que me dá mais prazer de fazer na vida. Sei também que é quando pinto que faço o diálogo mais sincero comigo própria, pois é nesse momento que eu procuro sempre a grande verdade, uma verdade algo abstracta, mas que acaba por ser a verdade da minha própria existência. No momento em que pinto sei que não vale a pena fingir ou enganar-me a mim própria. É esse o momento em que me vou encontrando e em que vou também encontrando coisas.

A23 – Graça Morais escreveu um dia: ‘Falo apenas do que os outros não podem falar. Falo apenas de mim’. Existe a procura de uma linguagem do eu na sua obra?

GM – Existe, sem dúvida. Primeiro, talvez de uma forma inconsciente. Hoje, após quase trinta anos de ter começado a pintar, já tenho um vocabulário muito meu. Acho que esta situação é comum a quase todos os artistas, aquilo que podemos chamar de um estilo próprio. No entanto, eu não procuro, acho que é algo que acontece naturalmente. Muitas vezes sou influenciada por outros artistas, por coisas que vejo. É através da observação e de uma quase aprendizagem também a partir do trabalho dos outros que encontramos soluções para questões do nosso próprio trabalho.

A23 – A pintura exprime o indizível, aquilo que muitas vezes não somos capazes de nomear?

GM – A pintura tem de facto essa capacidade e talvez por isso seja tão surpreendente e tão misteriosa. É como se tocássemos, através da pintura, qualquer coisa de espiritual que existe na vida, que não se consegue explicar mas que nos acontece. Aquilo que se chama de inspiração, para mim, são momentos de uma energia muito especial em que as coisas vêm ter connosco e simplesmente acontecem.

A23 – É difícil dar títulos aos seus quadros ou o próprio acto de não lhes dar título pode dizer tanto ou mais do que a situação inversa?

GM – Para mim é muito difícil dar títulos aos quadros. Talvez seja mais fácil nomeá-los por séries. Como trabalho muito por séries, é quase como se escrevesse um pequeno livro com vários capítulos. Ao mesmo tempo, o ‘sem título’ obriga a pessoa que vê a imaginar e, simultaneamente, a criar o quadro na sua cabeça.

A23 – Já afirmou várias vezes que utiliza muito uma base fotográfica nos seus trabalhos. Nunca se sentiu seduzida por esta arte?

GM – Em breve espero fazer algo com o material fotográfico que vou arquivando e que poderia ser exposto como arte, na medida em que reúne grande parte das ideias que quero passar às pessoas. Até aqui tenho utilizado todo esse material como uma base de trabalho e não como uma obra em si.

A23 – Qual é a sua reacção face a uma obra que é vendida ou exposta?

GM – Muitas vezes tenho dificuldade em separar-me dos quadros porque alguns significam grandes conquistas, outros têm uma carga emocional significativa. Geralmente retiro sempre um ou dois trabalhos de uma série, de modo a que um dia mais tarde possa fazer o meu próprio itinerário, dentro do meu atelier.

A23 – Nos seus quadros o rosto é sempre privilegiado relativamente à paisagem, que surge de forma quase palimpsestica…

GM – A paisagem na minha obra surge sempre ou como um fundo ou como um pormenor que explica melhor certa personagem. São sempre as pessoas que me interessam. Esse lado humanista, de quase solidariedade com as pessoas é uma constante. Tenho feito exposições face às quais vêm ter comigo mulheres com os olhos cheios de lágrimas. E pergunto-me, porque é que elas choram. Talvez porque encontram nesses desenhos algo que está no inconsciente delas. E falamos de pessoas, idênticas às mulheres que eu pinto, actualmente com mais de cinquenta anos, que viveram vidas terríveis.

A23 – Ao privilegiar o retrato, ao longo da sua obra, existe também uma tentativa de fixação no tempo?

GM – Não me parece que haja uma fixação temporal. As mulheres que eu pintei há vinte anos actualmente estão sobrecarregadas com essa carga de tempo. O que me parece interessante é aquelas cabeças e aqueles rostos se terem transformado tanto. Muitas delas eram bonitas e hoje são uma mistura de panos, pele e lenços… O tempo nem sempre as deixa belas. E o meu trabalho não é de todo uma apologia do belo ou da velhice.

A23 – Sente que houve uma depuração ao longo da sua obra e no modo de olhar para as coisas?

GM – Neste momento estou a fazer apenas pequenos desenhos a sépia, a partir de elementos da natureza, de coisas muito simples. Acho que é sobretudo uma forma de meditação. Esses desenhos são feitos no silêncio, quase com movimentos zen… Quando estive no Japão tive oportunidade de observar de perto a técnica. Todo o gesto é pensado e é feito de uma vez só. Esta série, constituída por pequenos trabalhos, dá-me, neste momento, uma harmonia que me permite reflectir e até mesmo distanciar-me para me ver melhor. Para mim o mais importante é concluir um trabalho sempre com a mesma sensação de novidade, como se cada trabalho fosse feito como se fosse o primeiro.

A23 – A Pintura está no limiar da voz ou do silêncio?

GM – Talvez não possamos dissociar a Pintura quer da voz, quer do silêncio. Mais ainda, há pinturas que nem são vozes, são gritos. Outras observam-se com todo o nosso mundo interior, com o nosso lado mais secreto e silencioso. Conforme as circunstâncias podemos ver o mesmo quadro de formas diferentes. É como um livro, que nos permite várias leituras. Talvez porque somos seres em mutação. É deste olhar sempre novo que a obra de arte se mantém viva.

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