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O Túlio: uma descoberta a duas dentadas do Tejo

restaurante

Texto de Jacinto Galeão Tormes

De longe, ficámos logo impressionados com a aldeia do Arneiro. Tínhamos matado saudades subindo a estrada caracoleante que sobe do Tejo para Nisa e de repente uma placa anuncia-nos que estamos no Alentejo.

É tão imprevisto que esfregamos os olhos. Campos de sobreiros a perder de vista, uma pequena aldeia branca, os dois magníficos mamelões das Portas de Ródão ao longe. É uma paisagem estranha. E quando chegamos à aldeia ficamos surpreendidos : um barco está plantado numa rotunda. É surrealista na paisagem que acabámos de atravessar.

Durante muito tempo hesitei se devia ou não desbocar-me, isto é, falar do restaurante “ O Túlio “ no Arneiro. Fui lá comer e fiquei impressionado com o que lá vi e comi. Dar a conhecer uma maravilha gastronómica é sempre delicado pois arriscamo-nos a ver hordas e hordas de turistas famintos inundarem  um sítio virgem e pachorrento ou desnaturarem um lugar ideal que estava condenado a passar de orelha em orelha. Desvendo pois este oásis da cozinha alentejana, que parece pertencer à nossa Beira de tal maneira é vizinho, por duas razões  muito simples: a primeira é que este restaurante só funciona por encomendas e segundo é que vivemos em Portugal num intempestivo momento controlador e de grandes fundamentalismos técnico-gastronómicos que estão a arruinar a nossa cozinha tradicional.

Resolvi pois testemunhar a minha admiração por um povo engenhoso que sabe procurar produtos na natureza e cozinhá-los maravilhosamente.

Toda a gente conhece “ O Túlio “. Paramos o carro diante de um toldo humilde que anuncia o restaurante onde vamos comer. Em 1948 era uma taberna e pertencia ao Zé Sapateiro. Em 1997 é um café. Alguns anos depois será também casa de pasto e em 1990 é o restaurante do senhor Túlio da Graça Pinto. E quem está nos fornos é a Ti Graça, uma mulher espantosa que tem umas mãos de fada essencial. Iremos comer logo ex abrupto uma fritada sublime de peixe : há anos que não comíamos um peixe do rio assim. Isto só demonstra que só em Portugal se come desta maneira. Eu posso afirmar isso pois vivi em muitos países poluídos do mundo. É barbo, meus amigos, é barbo e pescado entre a barragem do Fratel e a de Cedilhe em pleno Tejo, com redes próprias, malhas apropriadas. No Arneiro, terra de pescadores, no antigamente toda a gente sabia nadar pois a água é a menos de dois quilómetros. Magnificamente estaladiços e apetitosos, os bocados de barbo comidos à mão rapidamente desaparecem. Volatilizam-se.

Passamos a uma sopa de peixe, migas com carpa e barbo, trazida pela mão célere do senhor Inácio. E deslumbramo-nos. Com o paladar soberbo e a preparação : as mil esferazinhas  de ovas por cima do pão são outras tantas estrelas diurnas. E será a seguir uma outra de enguias e deslumbramo-nos mais uma vez. Meu Deus, onde estava eu, em que mundo, enquanto o senhor Inácio servia estas delícias a gente espantada ? No tempo certo, diz-me ainda ele, serve-se a lampreia que vamos buscar a jusante da Barragem de Belver e embora raro, o sável também aparece por cá. Fotografias nas paredes do restaurante anunciam troféus monstruosos e estes saborosos pratos de resistência.

Terminámos a custo o provado, regado com um delicioso vinho da casa, Vidigueira tinto. Mas também há bons tintos conhecidos : o Conventual, o Borba, Monsaraz, o Porto da Bouga ( reserva ). Quanto às sobremesas, elas são divinas : a tigelada e o arroz doce. E finalizámos com um naco de magnífico queijo de ovelha , para acabarmos em beleza com o tinto.

A poucos quilómetros das Portas de Ródão, “ O Túlio “ abre-nos a porta do paraíso e a mágica Ti Graça o céu. O nosso corpo parece voar agora por cima dos sobreiros em direcção ao céu.

Meu Portugal profundo, conserva-te assim pois enquanto há sabores destes há esperança. E nós temos a sensação de sermos eternos. Palavra de honra.

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