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Batad: um paraíso perdido a norte das Filipinas

Texto e fotografia de Paulo Nunes dos Santos

Um dos prazeres de viajar é o sentido de descoberta de novos lugares, pessoas e paisagens. Ao longo destes últimos anos, por questões profissionais, tenho tido a oportunidade de visitar inúmeros locais nos quatro cantos do Mundo. De todas as cidades, vilas e aldeias por onde passei, houve uma que, pela sua simplicidade, serenidade e beleza natural, me ficou gravada na memória para a eternidade.

LEGENDA: Vista geral da vila de Batad

LEGENDA: Vista geral da vila de Batad

Batad é uma pequena aldeia encaixada na encosta de uma montanha no norte de Luzón, uma das principais ilhas do arquipélago das Filipinas. Para chegar a Batad tenho primeiro de fazer uma paragem em Banaue – a principal localidade da região. Aqui é necessário encontrar um condutor de jeepney (autocarro de lata fabricado à mão, típico das Filipinas) que aceite, após árdua negociação, levar-me ao topo de uma montanha, durante uma viagem de mais de 1 hora por trilhos maltratados pelas chuvas torrenciais.

LEGENDA: Uma criança a caminho da escola pelos trilhos marcados nos terraços de arroz.

LEGENDA: Uma criança a caminho da escola pelos trilhos marcados nos terraços de arroz.

Chegado ao destino o condutor para o carro, diz-me para sair e aponta para o meio da floresta montanhosa que se perde no horizonte. “Estás a ver o topo daquela montanha? Por detrás está Batad”, explica com uma ar descontraído. “Tens de caminhar cerca de duas horas por um carreiro que sobe e desce e curva e contracurva vezes sem conta. Daqui a três dias estarei aqui neste mesmo local para te levar de volta para Banaue”, conclui. Despeço-me, na esperança que dentro de três dias o volte a ver, e começo a andar. É que a única forma de chegar a Batad é mesmo a caminhar.

LEGENDA: Casas rodeadas por terraços de arroz.

LEGENDA: Casas rodeadas por terraços de arroz.


Aparentemente Batad está isolada na sua inacessibilidade secular, mas na realidade faz parte de uma rede de meia dúzia de aldeias ligadas por trilhos que partilham todas do mesmo estatuto – são Património da Humanidade. O isolamento é quebrado por turistas que ocasionalmente visitam esta região para desfrutar da possibilidade de caminhar, fazer trekking, numa das paisagens mais bonitas do mundo.

Basta olhar para compreender. A toda a volta, milhares de socalcos pacientemente esculpidos na cordilheira ao longo de dois mil anos. Arrozais em vertical. Um trabalho imenso, uma escultura única. É simples planear uma visita a esta maravilha da Humanidade, mas a maioria dos turistas contenta-se com as paisagens a partir de Banaue. Mas vale a pena ir mais além, colocar a mochila às costas e caminhar.

LEGENDA: Uma habitante de Batad descança durante a hora de maior calor.

LEGENDA: Uma habitante de Batad descança durante a hora de maior calor.

De tantas em tantas horas chega-se a uma destas aldeias como Batad, todas com pequenas pensões, que na realidade são quartos de bambu, humildes mas asseados, construídos nos últimos anos pelos camponeses da região para hospedar os turistas. O turismo em pequena escala, sustentável, pois é disto que se trata, tornou-se uma das actividades económicas mais importantes de aldeias isoladas como Batad. Hoje em dia, cultivar arroz nestes socalcos inacessíveis não é um modo de vida que atraia as novas gerações, mas se esta cultura for abandonada, a região perderá o estatuto informal de “oitava maravilha do mundo”, e os turistas deixarão de a visitar.

LEGENDA: Um grupo de homens a trabalhar os campos de arroz.

LEGENDA: Um grupo de homens a trabalhar os campos de arroz.

O dia-a-dia dos que aqui vivem (cerca de 100 pessoas) é de uma simplicidade memorável. Batad não tem electricidade, internet, correio, telefone nem sequer rede de telemóvel. Os adultos dedicam-se unicamente ao cultivo do arroz, café e vários tipos de vegetais. As crianças vão à escola durante a manhã onde, para além das disciplinas habituais de qualquer outra escola das Filipinas, aprendem também a preservar este Património da Humanidade onde o destino lhes deu o privilégio de nascer. Ao final do dia as famílias juntam-se nos terraços de suas casas, para desfrutar o pôr-do-sol, mascar as narcóticas folhas de betel e por a conversa em dia. É nesta altura que os mais velhos falam do passado, explicam as origens do seu povo, contam historias sobre criaturas lendárias que protegem as plantações de arroz, e explicam o receio pelo que o futuro lhes trará.


LEGENDA: Queda de água junto a Batad.

LEGENDA: Queda de água junto a Batad.

Batad desfruta de uma beleza incomparável. São os terraços de arroz, as idílicas quedas de água e os seus habitantes seculares, que fazem desta pequena aldeia uma das paisagens mais bonitas do mundo. Um paraíso perdido nas montanhas a norte das Filipinas!

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