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“Poesia”, de Eugénio de Andrade

18-01-2009 | Cultura: Livros

Texto de Margarida Gil dos Reis

Entre os melhores da poesia portuguesa contemporânea, Eugénio de Andrade tem um lugar enraizado em seis décadas de obra. Prestes a sair uma nova edição do livro “À Sombra da Memória”, com um texto inédito de Gonçalo M. Tavares, assim como outros textos de Eugénio de Andrade, relembramos aqui uma das últimas edições da Fundação Eugénio de Andrade. Poesia, revista e acrescentada por Arnaldo Saraiva e editada pela Fundação, comprova, por um lado, a grandeza do poeta e, por outro, o rigor e a lapidação da palavra de que Eugénio de Andrade era mestre.
Com o mesmo aspecto gráfico, o mesmo título, em tudo idêntica à edição de 2000, a segunda edição de Poesia mostra-nos o trabalho e rigor que sustentam a simplicidade do dizer que tem caracterizado a obra de Eugénio de Andrade. Os 41 poemas de Os Sulcos da Sede (2001) foram acrescentados a esta segunda edição, bem como pequenas correcções gramaticais, grafias e substituições pontuais feitas pelo poeta. Na «Nota Final», Arnaldo Saraiva legitima a opção de não incluir outros poemas posteriores a Os Sulcos da Sede, uma vontade expressa pelo próprio Eugénio. A esta reedição soma-se ainda a rigorosa bibliografia actualizada, para além da fixação do texto que, no espaço de cinco anos, foi reescrito, ou não fosse esse o ‘ofício’ do poeta. Arnaldo Saraiva chega mesmo a referir uma das alterações mais importantes: a “reposição da segunda estrofe do poema “Rente ao Chão”, de Rente ao Dizer, que o Poeta não incluíra em Poesia por sugestão de um amigo mas que disso se arrependera, como confessou a Dario Gonçalves”. Na saída da primeira edição de Poesia, Eugénio dedica-a a Arnaldo Saraiva da seguinte forma: “Você tem nas suas mãos quase a minha vida toda”. Talvez para a Eugénio de Andrade, a poesia fosse isso mesmo, um instrumento vivificador, tão simples como um “prato de figos”: “Também a poesia é filha/da necessidade – /fora do tempo / deixou de ser a sumarenta alegria / do sol sobre a boca; / esta, perdida a fresa / e nacarada pelo adolescente, / mais parece um desses figos / secos ao sol de muitos dias / que no Inverno sempre se encontram / postos num prato / para comeres junto ao fogo”.

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