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Eugénio de Andrade, o lapidar das palavras

18-01-2009 | Cultura

“No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida”

Texto de Ricardo Paulouro

Eugénio de Andrade nasceu no dia 19 de Janeiro de 1923, na Póvoa da Atalaia, no concelho do Fundão. Tendo passado por cidades como Castelo Branco, Lisboa ou Coimbra, acabou por fixar a sua residência no Porto, onde, por iniciativa de um grupo de amigos, nasceu uma Fundação que lhe foi dedicada.
Considerado um poeta maior da actualidade, apesar do prestígio nacional e internacional da sua obra, as poucas aparições públicas de Eugénio foram justificadas pelo poeta com “essa debilidade do coração que é a amizade”.
Em 1941 teve lugar a primeira referência pública à sua poesia na conferência que Joel Serrão, seu amigo, pronunciou na Faculdade de Letras de Lisboa, sobre “A Nova Humanidade da Poesia Nova”. Um ano depois, em Novembro, Eugénio lança o seu primeiro livro de poesia: “Adolescente”. Seguiram-se, até hoje, dezenas de obras que marcaram uma carreira especialmente rica em poesia, mas também com produções nos domínios da prosa, da tradução e da antologia. 1948, com “As Mãos e os Frutos” foi o ano que marcou o sucesso e reconhecimento de uma figura que se ergue no primeiro plano da poesia portuguesa.
Durante os anos que se seguem até hoje, o poeta fez diversas viagens, foi convidado para participar em vários eventos e travou amizades com muitas personalidades da cultura portuguesa e estrangeira, como Joel Serrão, Miguel Torga, Afonso Duarte, Carlos Oliveira, Eduardo Lourenço, Joaquim Namorado, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Mário Cesariny de Vasconcelos, José Luís Cano, Ángel Crespo, Luís Cernuda, Marguerite Yourcenar, Herberto Helder, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Óscar Lopes, entre muitos outros.
A personalidade marcante é talvez uma das características que muitos dos que com ele privaram lhe apontam. Mário Soares descreveu-o mesmo como “um poeta com uma certa inclinação grega, uma grande influência mediterrânica e uma grande sensibilidade na sua poesia”.
Homenageado em vida com inúmeros prémios e distinções, Eugénio de Andrade recebeu em 2001 o Prémio Camões. O lapidar das palavras, perseguindo o poema de edição para edição, depurando-o, é talvez a marca do seu processo criativo. Hoje os seus versos pertencem a todos nós, ecoando nas gerações de poetas que são posteriores, nos seus poemas musicados, nas várias traduções da sua obra, nas antologias ou até mesmo nos manuais escolares. A riqueza e a complexidade da sua obra fez com que muitos falassem sobre ela. Para Eduardo Prado Coelho “Em Eugénio de Andrade, o poema é, na sua admirável transparência, de uma opacidade total: ele não permite que se veja através dele, porque continuamente nos reafirma que tudo está nele”. A fidelidade ao sentido ético da vida e a uma visão solar mas, nem por isso desatenta aos silêncios ou angústias do quotidiano, permite-nos recordar palavras de Eugénio quando diz: “Num tempo degradado como o nosso, todas as fontes estão ocultas. A tarefa do poeta é desocultá-las. Tudo o que nos saia das mãos sem este sabor original são só palavras a mascarar a palavra, miséria que nos impede até de ouvir a magnífica e alta música do silêncio” (Afluentes do Silêncio)
A exaltação da vida que nos toca através das palavras de Eugénio, palavras exactas que nos dão a impressão de não poderem ser outras que não aquelas, fazem-nos crer, como o poeta, que nós somos o que resta dos deuses.

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