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“Dicionário Imperfeito”: Agustina na primeira pessoa

1-12-2008 | Cultura: Livros

Texto de Margarida Gil dos Reis

Publicado pela Guimarães Editores, com quem Agustina sempre manteve uma relação editorial aos longo dos últimos 60 anos de vida literária, “Dicionário Imperfeito” é uma antologia de pensamentos repleta de surpresas para o leitor. Mais do que a reunião de excertos de textos de Agustina, publicados na imprensa, em conferências, ensaios vários ou até mesmo em alguns dos seus romances, esta é uma iniciação na obra da autora portuense.
Organizado por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira, este dicionário revela-nos alguns dos temas e autores que influenciaram a escrita de Agustina. De facto, aqui pode-se ler de tudo um pouco, estando os verbetes organizados por ordem alfabética. O casamento, a fé, o amor, que é “o invisível no habitual”, a infância, o autor, a vida – “O Homem não se cansa de viver. E nós vemos que é mais fácil morrer em jovem, que morrer em velho” ou a relação escorregadia com o tempo: “Não sei se alguma vez escrevi para me opor ao tempo. Não sei se o tenho como adversário e o que ele significa.” Fragmentado,este livro conduz-nos por um caminho de certezas, angústias, dúvidas, admirações e convicções. São, aliás, muitos os que têm aqui inscrito o seu nome: Manoel de Oliveira, Salazar, Francisco Sá-Carneiro, Dostoievski, José Rodrigues Miguéis, Camões ou Jean-Paul Richter, Tristão e Isolda ou Zé do Telhado. Talvez, por isso, ao longo de trezentas páginas, este livro possa ser estimulante: ele próprio tenta motivar a discussão com o leitor. Veja-se, por exemplo, as seguintes passagens: “custa tanto escrever um bom livro como um mau livro” ou “o escritor moderno é um estado civil, uma soma de papéis de identidade”. Agustina, sem receios da uso da palavra, dá aqui um toque do seu humor e ironia, evidenciando um pensamento por vezes amargo, outras provocador. Nada escapa ao seu olhar astuto, desde a política, à literatura e ao seu ensino, passando pela sexualidade e pelos direitos do homem. E mesmo quando se pensa que o literário é o campo privilegiado da ecscritora, Agustina não deixa de nos surpreender com entradas como esta: Nudismo. “O nudismo foi declarado mais afoitamente do que a Revolução dos cravos. Não porque seja confortável, já Mendes Pinto achava que não era; nem elegante, nem natural. É uma espécie de fanatismo, como quando a humanidade é sacudida por qualquer coisa de irracional e insensato, estranho ao mundo familiar, e tenta produzir o exorcismo da degenerescência.” Muitas vezes, o uso da palavra é sábio, pela forma acutilante e actual como se dizem as coisas e o estado de um país: “Portugal é um dos países com mais poder de adaptação. Resulta isso da influência que tem na sociedade o factor feminino, para quem o homem se destinava a obter uma boa situação. Noventa por cento das viúvas de tipo latino, ao exprimirem a dor da perda do seu companheiro, modelo de pai e de marido, não se esquecem de referir que a sua perda é tanto mais triste quanto ele acabava de obter uma boa situação.” Invocando a primeira pessoa, sem ficções, Agustina revela-se aqui naquele que parece ser um exercício diário de pensar o mundo em que se vive. Curiosamente, se a primeira entrada do dicionário é Adaptação, a última é a de quem reconhece o seu próprio ofício de escrita – Vocação: “Eu tenho só uma, que é escrever. Usar a palavra, dar-lhe vida, confiar nela para que nela vejam verdades poderosas, como a de sermos destinados a coisas maravilhosas”.

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