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Crónica do triste humor

Bruno Nogueira e os Contemporâneos fizeram um sketch com uma velhota que disse que aos 72 anos nunca tinha visto um homem nu. Como nunca tinha visto, eles mostraram-lhe o garboso portador de pendiricalho. A mim mostraram-me que também no humor se pode ganhar a vidinha com crueldades de putos. Pode até ser humor, mas cá para mim, é triste humor …
Como diria a Agustina Bessa Luís – quem não troça, ou é beato ou eunuco. Em Portugal a troça é um desporto nacional. Troçamos de tudo, inclusive das nossas próprias misérias.
É expiador e faz bem ao fígado. Ora, sendo eu adepto da troça amadora, tenho também um carinho especial por humoristas profissionais – mesmo os maus, farsolas e tontos.
Do Juca Chaves brega, ao refinado humor britânico – Churchill é o meu preferido, gosto um pouco deles todos.
Sempre simpatizei com humoristas e pianistas de hotel que tocam sinatras forçados para turistas saloios, homens de negócio de laptops, e garotas de programa sem programa e olhar ausente.
Uma das minhas mais profundas convicções é que o humor deve ser inteiramente livre, iconoclasta, desbragado e sobretudo inconveniente. Já vi muito mau humor, de mau gosto, mas sempre achei que havia direito a fazê-lo, e eu podia sempre mudar de canal, de página ou de bar. É uma questão de escolha. Como já tenho poucas convicções esta fazia-me falta e perdi-a desde sexta-feira.
Vi na RTP qualquer coisa, um sketch dos Contemporâneos, que se imortalizará como “Nunca vi um Homem Nu”. Basicamente era um Vox Populi em que Bruno Nogueira entrevistava pessoas sobre o novo canal de pornografia. Em televisão o vox populi é uma bengalinha dos tolos.
Quando não há ideias, toca de ir para a rua perguntar ao “homem da rua” o que é que ele pensa sobre a crise política do Uzbequistão ou da vaga de crimes na Amadora. Pior mesmo só quando se vai para a rua para provar que o povo é ignorante, burro e desinteressado.
– O senhor sabe quem era o D. Fernando José? – era aquele dos meus olhos castanhos… – arrisca o velhote desdentado. E lá vai todo ufano o repórter-quiz, batoteiro porque já sabia a resposta previamente.
Bem, voltando à vaca fria, nesse sketch do Bruno Nogueira, a determinada altura ele pergunta a uma velhota roliça como uma avó de Rubens o que é que ela achava de pornografia?
A velhota, agarrada a um cãozinho, um pouco embasbacada e meio na galhofa, responde – Eu não sei nada disso, olhe tenho 72 anos e nunca vi um homem nu. Já viu na minha idade, nunca vi um homem nu.
A coisa podia ter ficado por aqui, mas na cena seguinte vê-se a velhota a afastar-se pelo jardim com o cãozito pela trela, e a câmara num movimento longo foca o Bruno Nogueira a correr nu na direcção da velhota todo descascadinho, num nudismo de sprint.
O humorista toca no ombro da velhota e oferenda-lhe a visão única e inédita de um homem nu. Vê-se apenas a velha a afastá-lo com condescendência e tristeza.
Ora, usarei de toda a minha condescendência para apreciar este “gague” de humoristas profissionais, porque eles me merecem infinito maior respeito do que políticos, generais, banqueiros, padres, juízes e afins.
Além de mim próprio, já vi alguns homens nus sobretudo em balneários pós-futebolisticos e devo dizer-lhe minha senhora, que não perde nada, apenas pêlos e pendiricalhos.
Depois lamento que o primeiro homem que viu na vida fosse um lingrinhas desengoçado. Há para aí melhor.
Sabe, que as feministas francesas costumavam dizer que uma mulher precisa tanto de um homem como um peixe de uma bicicleta.
Quanto ao trocista-nudista, direi apenas o seguinte, se não há poderosos, intrujas, vaidosos com fartura para ir gozar?
Se é preciso ser menino de escola reguila, cruel e ir brincar com histórias de vida provavelmente com mágoas. Sei que não fizeram por mal, e os códigos do humor são para rasgar.
Talvez o Bruno, os contemporâneos e muitos portugueses se tenham rido a bandeiras despegadas com esta cena de humor de provocação.
Eu, pela minha parte, fiquei apenas triste

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