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O país da ASAE visto do balcão da taberna

Texto de Rui Pelejão Marques / Fotografia de Margarida Dias e António Supico

Escrita de taberna com mão trémula de vinho. Viagem ao interior de um país de duques e cenas tristes. O tinto que se extingue no copo. As tabernas que fecham os olhos, tolhidas pela modernidade plastificada.

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É aqui. Cheguei. Cheira a vinho. Um bafo antigo, intemporal, ressequido, incrustado neste chão, nestas paredes, no mármore do balcão. Não há pipas de 50 litros a ornamentar a parede, nem serradura para aparar as bátegas de vinho transbordante em mãos de tremedeira delirus tremens. Não há sequer um papagaio a debitar vernáculo amestrado como havia nas velhas tabernas de Lisboa.

Mas não há que enganar. Cheguei finalmente a uma genuína taberna.

O balcão de mármore é altar que dá guarida à balança de ranger reumático e à telefonia Grundig, agora calada dos relatos longínquos do hóquei em patins, dos golos do Eusébio, do “E depois do adeus”…

Não é um tasco abastardado de casa de pasto, nem sequer uma tasquinha típica com acepipes e orelheira em salsa, ou o café central do emigrante com zumbido Sport TV, balcão-enlatado de alumínio com pelotões de fuziladores de minis. Não. É mesmo uma taberna à antiga portuguesa. Um retrato amarelecido do tempo em que os homens se acamaradavam ao balcão para beber vinho do pipo e petiscar pataniscas mata-borrão, fintando a solidão dos dias e vingando as filhas da putices com que a vida nos encorna. “Como é refrescante o relincho de um burro quando o aliviam de toda a carga.” Isso, e o estardalhaço folgazão dos homens na taberna.

Numa cadeira de praia listada de cores garridas, a velha vestida de preto apara umas vagens no avental e levanta os olhos de um azul límpido e desconfiado. Deixo a luz cálida de Maio pelas costas, com o aroma de giestas que perfumam as ruas graníticas de Alpedrinha e vestem as encostas da Serra da Gardunha de um manto amarelo bravio, a desafiar fogaréu de Verão.

Entro na penumbra fresca, no remanso da “Tasca da Ti Maria”. Mas não é uma tasca, não senhora, é uma taberna.

– Uma ginga, se fizer favor!

A velha levanta-se a custo com a curvatura da bengala a imitar a das costas cansadas, e passa para o seu púlpito de balcão.

- Com ou sem elas?

- Com.

- E a caneca de alumínio interrompe a sesta de lavatório, esvoaçando por cima do monte de latas de atum Tenório, das salsichas Nobre e das caixas de fósforos, para, num ritual basculante, mergulhar no boião baço do licor com a mão de camaroeiro experiente da Ti Maria a extrair a ginga com ela. Um gesto tão antigo como a própria taberna.

- Vai para 60 anos que tenho a taberna aberta. – E adoça-se-lhe o azul dos seus olhos onde a desconfiança se dilui.

Molho o bico na ginga. Docinha, boa para destemperar deste país amargoso.

Sento-me no mocho, apoiando o cotovelo firme na mesa trôpega de caruncho. Tiro o Moleskine e o lápis. É aqui sentado que vou fazer a reportagem de taberna, enviado-especial da A23 à “Tasca da Ti Maria” de Alpedrinha, a Sintra da Beira, onde se vende um litro de vinho a um euro. Reportagem sentado num mocho, em busca do povo das tabernas, enquanto vinhos finórios que ganham óscares-a-dias escorropicham no decantador de cristal conspurcado dos deputados da Nação que assinaram de cruz a “importação” do regulamento 852/2004 do Parlamento Europeu, que regula a higiene dos produtos alimentares. Os mesmos pintalegretes que do alto da sua indolente estupidez deram bacamarte e braço longo à ASAE, essa bófia sanitária que persegue o chouriço de sangue e a marmelada oferecida aos lares da terceira idade.

Um país que não cuida dos seus velhos e lhes confisca a marmelada preparada com amor filial, não é um país, é um sanatório.

Consulto o Moleskine, última nota, extracto de Albert Cossery, o mandrião de vale fértil: “Uma vizinhança tão próxima com a estupidez enriquece prodigiosamente o espírito.”

- Passo para o tinto carrasco de fígado Ti Maria, e vamos a isso.

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A Europa de Copenhaga a Alpedrinha

Moleskine, idos de Março – reunião com os editores da A23 para discutir ideias. Copenhaga, bar de má catadura no Cais do Sodré, três da manhã bem regadas pelo whisky de origem duvidosa. Ana, empregada do bar, baixinha e despachada, 40 e picos, senta-se à nossa para tabaquear o assunto: “Sou de Lamego, éramos sete irmãs, mas as gémeas morreram num acidente de automóvel. Tenho uma irmã que é camionista em França. Vivi em Londres, casei com um tropa inglês que foi com o caralho numa explosão na Guerra Irão-Iraque. Depois fui para as Filipinas, conheci lá um jornalista japonês e tive um filho dele. Aquilo deu para o torto e voltei para cá. Tive a exploração do bar Europa aqui ao lado. Fui eu que inventei os after-hours. Fechava às quatro da matina e depois pedi uma licença à Câmara para abrir às seis. A partir das quartas-feiras tinha sempre a casa à pinha até ao meio-dia. Pessoal da pastilha, mas também muita gente da alta. Um juiz costumava alugar-me aquilo para umas festas sado-masoquistas, tudo no máximo sigilo e discrição. Os gajos combinavam tudo pela internet e entravam de máscaras e fatos de cabedal. Depois era um ver se te avias, um bacanal que só visto. Gajas atadas aos varões a levar chicotadas; uma médica do Santa Maria, uma gaja boa e com pinta, a levar no cú e na pachacha em cima do balcão. E coca com fartura. Conheço as putas todas do Cais do Sodré, são umas pobres coitadas, velhas já para avós, abandonadas na sarjeta pela família. Todos os natais organizava uma festa para elas no Europa, com bolo-rei e espumante. Agora estou aqui a dar uma mão no Copenhaga, os donos têm casas destas espalhadas pela França e pela Dinamarca. Larguei o Europa porque foram lá os cabrões da ASAE e disseram que se não fizesse obras no valor de 30 mil euros fechavam aquilo. Mandei-os pró caralho e trespassei aquela merda.”

Ora ai está, a ASAE no país de putas desdentadas e abandonadas na sarjeta, no país de juízes-desbraguilhadores, no país das tascas de refeições económicas para operários do salário mínimo, a 6 euros com direito a azeitonas, sopa, prato, vinho e bagaço. É para aí que vamos? É que cá estamos, agrilhoados nas galés do absurdo.

Editores adjudicam, subornados a três pedras de gelo.

Deixa cá ver onde é que tenho gatafunhado O´Neill. Lá estou eu e a minha mania das citações, mas para mim são diamantes extraídos da mina das palavras, por isso lá vai: “Pais engravatado todo o ano, a assoar-se à gravata por engano.”

Interrompo o aparar das palavras e a Ti Maria o aparar de vagens decepadas para a sopa de feijão verde. A solidão silenciosa da taberna é quebrada pelas passadas dos dois trolhas que entram mudos e quedos como na Igreja. Rostos de cansaço esculpidos e olhar mortiço de estátuas. Pousam os sacos de plástico com a muda de roupa ao pé do balcão. As botas e as mãos encardidas de cimento.

– Duas minis, Ti Maria.

A velha arrasta-se vagarosamente para a sua sacristia.

- Então, ainda falta muito? – cavaqueia.

- Agora é acabar o telhado e vamos à vida. – responde o operário franzino de bigode triste.

Bebem depressa e em silêncio, como se comungassem na missa. Um rafeiro espreita pela porta de língua à banda e vira as costas escanzeladas, pelos vistos prefere animação mais ossuda.

- Os novos querem o moderno, agora o que mais cá vem são excursões e assim. Acham graça a isto, veja lá que já estou na Internet – informa-me a taberneira com irreprimível orgulho.

- Antigamente havia muitas tabernas em Alpedrinha, mas agora só cá estou eu. Antes isto era uma loja para guardar burros, eu e o meu homem comprámos isto e fizemos aqui a taberna e o talho ao lado, mas quando ele morreu fiquei só com a taberna.

- Sempre se vai entretendo…

- É… mas havia de cá vir na festa dos chocalhos, são dois dias que ninguém prega olho, e a taberna enche-se outra vez de gente como antigamente. Era aqui que se juntavam quando vinham da lavoura e do trabalho. Agora só querem é parar nos cafés…

- Alpedrinha é pacata vila beirã que em Setembro se transforma em vila-tasquinha durante a Festa dos Chocalhos, o culminar do Festival da Transumância. Os caminhos de pedra por onde passavam os pastores com os seus rebanhos engalanam-se num arraial de tasquinhas com comes e bebes. São as casas e as lojas das pessoas da terra que vendem petisquinho caseiro, morcela assada, chouriço, doces da avó, jeropiga e vinho sem aditivos.

Centenas de “foliões” afluem às ruas estreitas e íngremes onde as portas das casas se franqueiam para uma celebração popular dos paladares tradicionais, os tais a que a Europa iofilizada e maníaca da normalização decidiu decretar guerra com a aquiescência caprina de governos, como o português. Um fenómeno de transumância política. Méé, mée, mée! “Não podemos querer da Europa só os subsídios”, soletra o ex-ministro Correia de Campos, “temos de acatar as suas leis”, a propósito da lei do tabaco.

Mas, além dos subsídios, seria muito pedir os salários da Europa, a igualdade, o desenvolvimento, a civilidade, a ética na política? Ou será que só nos tocam os subsídios para engordar a corrupção e o fanatismo higieno-fascista?

Dá muito jeito estar na Europa para o que convém e imitar o que é fácil. E ao povo das tabernas, de que lhe serviu a Europa, os fundos de coesão e a miríade de leis “modernizadoras” e fabricadoras de um homem novo?

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Pobreza proibida

Meto-me à estrada de braço dado com o Tejo à procura de tabernas antigas, a farejar as redondezas de estações de comboios e as terras ribeirinhas. Paragem em todas as estações e apeadeiros. Senhores passageiros, estamos a chegar à estação de Santarém, a gótica. É aqui que se realiza todos os anos o festival da gastronomia. Tal como em Alpedrinha, mas a uma escala pantagruélica, aqui se celebram os paladares na sua “biodiversidade”, na sua afirmação identitária. Aqui se produz cultura popular para a barriguinha, insalubre aos olhos da ASAE, que há dois anos decidiu aqui fazer uma rusga aos maus costumes alimentares com aparato de “Miami Vice”.

Depois refreou-se, alguém lhe terá segredado, cuidadinho. E a ASAE amochou. Agora que o contador eleitoral acelera, os deputados andam numa azáfama com projectos de resolução para emendarem a sua própria mão conivente com o malfadado regulamento 852/2004.

Dezembro passado na audição parlamentar ao xerife da ASAE, António Nunes, o deputado do PS eleito pelo distrito de Castelo Branco, Jorge Seguro Sanches defendeu que “temos de dar garantias aos nossos cidadãos de que a pequena economia continue a subsistir. Temos de preservar produtos e práticas tradicionais.” Estão pois na forja derrogações ao regulamento, depois de aquilatado o ultrajante impacto da aplicação da lei.

Na “Taberna do Quinzena”, a mais típica tasquinha de Santarém, os forcados amadores de patilha de banda larga brindam ao “vinho de boa cepa e filha de boa mãe”. Come-se bem por aqui: “Ocupemo-nos da Santa Trincadeira, que o meu estômago está a gritar contra a cabeça que o Governa.” O poema na ementa podia ser metáfora para uma país de barriga vazia, onde são poucos os que se governam bem, à custa dos muitos que mal se governam.

Tristezas não pagam dívidas e marcham umas febras de pica-pau, uma azeitonas que fazem Capela Sistina no céu da boca, e um naco de toiro bravo, lidado a jarrinho de tinto, num ambiente onde a tauromaquia e a cultura do campino ribatejano são lei da grei. O som festivo da taberna, com as mesas apinhadas de boa disposição “numa casa com 137 anos, que já vai na sua quarta geração e que se esforça por manter viva a tradição”, explica Fernando Baptista, o quarto de uma dinastia de monarcas-taberneiros.

Vai uma trouxa de ovos e um faduncho para a digestão? “Para manter a tradição e alma não ser pequena/bebia-se o carrascão na taberna do Quinzena”. Os jarrinhos e os petiscos aquecem o mármore das mesas e o coração dos convivas. Paredes forradas a cartazes tauromáquicos recordando “toiradas” em Portugal, e venha de lá mais um fadinho: “Na noitinha havia fado/o Zé Pirrote ia tocado/o Jacinto Ferro Velho muito mouco acompanhado/o Tónio Gago bem avinhado/ o Rui Pedro já pingado/ e o Galinhas arreliado/acabava já com o fado” – Ah, fadista!

Fumar é que não, avisa o autocolante-semáforo dependurado ao lado do cartaz do Joaquim Bastinhas.

“E a ASAE, não vem cá” pergunto eu de malícia. “Vêm cá muitas vezes … almoçar”, sorri com malícia marialva do rei-taberneiro.

- E a ASAE, Ti Maria, nunca cá veio?

- Graças a Deus não. Sei que é de muitas exigências. Já não estou em idade para fazer obras na taberna, se cá vierem fecho! – Desabafa a octogenária.

Em todo o comércio de Alpedrinha já foi metido bedelho perdigueiro, e se deixaram a Ti Maria na sua paz de taberna é porque algum inspector de bom senso decidiu fazer vista grossa e passar na rua ao lado.

Mas esse inspector não faria decerto parte das brigadas que encetaram um impiedoso cerco ao Centro de Dia da Atalaia do Campo, a poucos quilómetros daqui; confiscando e proibindo as ofertas de alimentos que as pessoas da terra fazem aos seus pais e avós – as galinhas do campo, as batatas, as compotas e a maldita marmelada.

Num mundo à beira de um choque alimentar por causa dos carrinhos ecologistas movidos a biodiesel e da hipocrisia dos EUA e da Europa, uns obscuros burocratas obrigam um lar de velhos a deitar comida para o lixo, e proíbem a oferta de alimentos, “a partir de agora todos os alimentos têm de ser comprados”. O pároco Paulo Figueiró insurge-se contra a prepotência da ASAE: “O Centro de Dia é uma instituição sem fins lucrativos e não um estabelecimento comercial. Vivemos com algumas dificuldades económicas que não são compatíveis com as exigências da ASAE. É um absurdo”. Outro tipo de batina, com púlpito nos jornais, merece por rara ocasião a minha concordância. João César das Neves, a propósito da rusga ao lar da Atalaia do Campo escrevia no “DN”: “O jejum a que a autoridade condenou aqueles pobres velhos foi feito em defesa da sua higiene alimentar. Parece que ter fome não é contra os regulamentos do consumidor. (…) O nosso tempo acaba de conseguir uma grande vitória na vida dos pobres. Não acabou com a miséria. Limitou-se a proibi-la.”

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Finlândia do Sul

Portugal passa o tempo dividido. É um país rico em opinião. É esse o nosso petróleo. A ASAE, por exemplo divide o país entre os que são a favor e os que são contra.

Margarida Afonso é técnica de controlo de qualidade no refeitório de uma fábrica e admite que gostaria de trabalhar na ASAE: “A higiene alimentar é uma questão de saúde pública. Finalmente há uma entidade em Portugal que faz cumprir a lei e que tenta modernizar o país e eliminar a concorrência desleal que os estabelecimentos não cumpridores fazem aos cumpridores. Independentemente das excepções culturais que se possam abrir, a ASAE limita-se a fazer cumprir uma lei que foi aprovada na Assembleia da República, portanto se há dúvidas e contestação, ela deve ser feita em relação ao Governo e aos deputados. Agora uma coisa é certa, quando apreende toneladas de carne estragada, a ASAE está a prestar um bom serviço ao país.”

A questão é precisamente essa. Não é pela eficácia estrondosa com que apreende carne putrefacta ou fecha padarias com ratazanas enfarinhadas que se pode obliterar a sanha persecutória que STASI dos costumes move aos pequenos e aos pobres, como o Centro de Dia da Atalaia do Campo. Isso seria o mesmo que desvalorizar as baixas civis causadas em bairros xiitas pelos bombardeamentos americanos, porque afinal, o que eles pretendem é combater o terrorismo e implantar a democracia no Iraque. Nem sempre os fins justificam os meios. Aceitar os danos colaterais provocados pelo escrúpulo policial da ASAE é aceitar o bombardeamento da nossa liberdade em prol da segurança alimentar.

Não é uma boa troca, independentemente do que possa pensar um primeiro-ministro obcecado com a ideia de transformar Portugal numa Finlândia do Sul, à força de computadores portáteis e da abolição dos galheteiros.

Não é uma boa troca, independentemente do que possa pensar das bolas de Berlim com creme o Sr. Serrasqueiro, um secretário de estado da defesa do consumidor, que foi deputado pelo distrito, e que é uma espécie de “mulah” ideológico da “jihad” ASAE.

Não é uma boa troca, independentemente do que possa tentar fazer crer o Sr. António Nunes, notável por ter sido o coveiro que extinguiu a Direcção-Geral de Viação da mesma forma liquidatária com que pretende fechar metade dos tascos deste país (à excepção dos casinos, onde se sente mais confortável).

Não é uma boa troca, independentemente do que possa pensar o jovem tenente Márcio Lourenço, que levou para a chefia da delegação da ASAE do distrito de Castelo Branco todo o entusiasmo e mentalidade de polícia de giro que o distinguiu no comando do Posto da GNR do Fundão; um legado de inutilidade pública, a não ser para passar multas de estacionamento, chatear feirantes e fechar bares à hora certinha. “O que temos aqui é um conjunto de fanáticos com meios para impor às gentes ignaras o que julga ser o seu verdadeiro bem”, rematava César das Neves.

No distrito onde a marmelada passou à clandestinidade e a farinheira de fabrico caseira é proscrita, a ASAE realiza 15 fiscalizações semanais levadas a cabo por 16 inspectores oriundos da IGAE ou da Direcção Regional da Beira Interior (DRABI). Num distrito onde os campos agrícolas estão votados ao abandono e as enchadas morrem nas mãos dos velhos, foi preciso dar uma “nova oportunidade” aos técnicos agrícolas. Ou seja, fiscalizar a qualidade dos alimentos, que aquelas terras já não produzem, por não terem quem as fecunde. “Todas as denúncias são investigadas”, explica orgulhoso o tenente Márcio ao jornal “Diário XXI”.

- Um tinto Ti Maria, que tenho a boca seca de tanto perorar sobre a choça. E a liberdade, Ti Maria, e a liberdade?

- Tenho uns selos da campanha do Humberto Delgado que o meu marido guardou quando o General Sem Medo veio a Alpedrinha. Andava tudo com medo e calado por causa dos bufos e da PIDE. Mas o meu marido não. Era um homem de coragem – comove-se com brilho azul-diamante de lágrima.

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Dominó e vinho

Desço à Lezíria. Na “Tasca do Geraldo”, junto à estação de caminho de ferro de Santarém, três velhos jogam dominó, um quarto de óculos de aro grosso folheia o “Correio da Manhã” e como jogral vai narrando as letras gordas aos outros, mais preocupados com as pintas do carrão: “O arroz vai aumentar 15 por cento”, informa. “Lá se vai o arroz doce”, resmunga um da jogatana. “O Santana Lopes diz que já fez o luto” – soletra – “Só se esqueceram do enterrar, ainda nos vem é enterrar a todos”, bate a peça o mesmo Pacheco Pereira do dominó.

E assim se passam as tardes numa tasquinha pouca-terra, pouca-terra com velhos ferroviários e lavradores a baterem peças de dominó no mármore. “A tasca era do meu pai, fizemos obras de restauro, como pode ver”, explica o proprietário. E basta olhar, o bom gosto e o respeito pela iconografia da tasca. A madeira bem trabalhada, os balcões e os bancos de correr restaurados, os produtos regionais devidamente embalados na estante. Um brinquinho que respeita a traça antiga das tabernas com sala de comes e balcão de bebes. O povo de taberna também gosta “Já cá vimos desde o tempo do pai dele. Ainda bem que não deram cabo disto, foi tudo arranjado como deve ser, e até dá gosto um gajo aqui estar”, explica Américo, reformado da Companhia das Lezírias e jogral do “Correio da Manhã”.

Mas a “Tasca do Geraldo” é caso raro. Basta calcorrear as terras que se espreguiçam à beira do Tejo para perceber que as velhas tabernas estão mais extintas do que o tinto no fundo do meu copo. “Vai-se tornando habitual assistir-se à reestruturação dos espaços de taberna, multiplicando-se as suas lógicas de vivência subjacentes, não raro, à concorrência comercial. Muitas das antigas tabernas viram os seus espaços reaproveitados em snack-bars, cafés ou casas de pasto. Muitas outras fecham portas à medida que os velhos taberneiros vão desaparecendo”, explica Dulce Magalhães, socióloga da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e autora do estudo “Consumos e sociabilidades de taberna”.

Almourol, Tancos, Mouriscas, Belver, Fratel, e tabernas nem vê-las. E é assim pela Beira Baixa adentro: “Já cá não há nenhuma taberna”, lamenta-se o velhote sentado à sombra no Carvalhal apontando salvação para o bar do “Espanhol”, onde a malta nova do TT do Pinhal mata as horas com zapping entre o canal “Fashion” e os desportos radicais do “Extreme”.

Pela estrada, apoiadas às bengalas, vêm as velhotas de Valverde, aviar-se de pão e leite ao Carvalhal, já que a ASAE fechou as mercearias de Valverde.

- O pequeno comércio já não vale nada. Mesmo aqui em Alpedrinha que tem um colégio com trezentos alunos e muita gente a viver, vão todos fazer compras ao Jumbo de Castelo Branco. – Conta a Ti Maria

Todas as semanas, os hipermercados da região organizam carreiras especiais que vão recolher os clientes às terras, dão-lhes cartões desconto, fazem-lhes promoções e, como numa transumância consumista, pastoreiam o rebanho até às prateleiras de verdejante pasto.

O Ti Pereira vem de lá. Barrigudo e boina basca como já não se fazem. Foi na camioneta da manhã com a sua mulher, e agora veio com ela aviar uma receita de “comprimidos para a atenção” na farmácia de Alpedrinha. Mas para ele a receita é outra.

- Um tintinho! – E a Ti Maria lá bota no copo fusco.

Olho para a mão enrugada e trémula apoiada no balcão e a outra que se estende para o copo. Estica as bochechas e os lábios em varas verdes, semicerra os olhos, abre a goela e lá vai disto! Ora zumba na caneca! Exala um suspiro satisfeito e limpa as beiças ao casaco já coçado.

- Se o vinho é sangue de Cristo, bem haja quem o matou!

- Ti Maria abana a cabeça em reprovação meio cúmplice da blasfémia.

- Era o que costumávamos dizer para arreliar o Padre na taberna lá na Orca. Agora já não há padres de taberna. – Tremelicando, lá pede o segundo mandamento:

- Antes que venha aí a patroa atazanar-me o juízo. O médico proibiu, mas se não beber a minha pinguinha, fino-me mais depressa que um pardal. Veja lá que para beber em casa tenho de esconder uma garrafinha no galinheiro e ir fechar as galinhas todas as noites. A patroa já desconfia, e diz, “Ó Manel, nunca quiseste ir fechar as galinhas, o que é que te deu agora”.- Lança uma gargalhada e toca de embutir mais um em ritmo de pilha-galinhas.

Sigo pela estrada que vai de Valverde ao Fundão, a sede do Concelho. A Tasca da Estação é um ícone da terra, imortalizada pela música de Jerónimo e os Cro Magnon.

Apeadeiro obrigatório para o viajante, gare central para o povo das tabernas, a mudar agulhas para traçadinhos com mata-bicho de estalo: sopa de feijão e a sandes de bacalhau. A tasca foi restaurada, mas mantém vivo o espírito fundador. Hoje está fechada, tal como o vizinho Centro Cultural da Moagem, mas este não admira, está sempre fechado. Dinheiro para o betão, mão estendida para a programação.

O povo das tabernas do Fundão também se “modernizou”. Porque a taberna é antes de tudo um território. Agora aterram na tasca “groumet” em frente às Finanças. Um espaço bem decorado com cadeirinhas de verga que mais parece um “bar lounge” e que foi adoptado pelos sem-abrigo do tinto e da Sagres. A clientela ruidosa e bebedora sente-se em casa. Basta olhar para o quadro de honra do torneio da sueca, para perceber que este é o novo território da borracheira. O povo da taberna tem nova habitação social no Fundão. “A gente agora junta-se aqui ao fim da tarde para beber uns copos valentes antes de ir para casa. E pode-se fumar e tudo!”, balbucia Venâncio, feirante de trinta e tal anos já com dois grãos em cada asa.

Conversas na catedral

Deixo a A23 e sigo pelas antigas rotas do contrabando do Sabugal, entrando no país de Torga. A desolação é completa. Quilómetros de pedregulhos e urze, que camuflam aldeias como a Bismula em que o contrabando era ganha-pão e onde agora não se vê nem uma alminha.

O contrabando é outro. Dá-se o salto para Espanha onde “o pessoal vai abastecer o depósito; a gasolina é 28 cêntimos mais barata, ou vai às compras, já que o IVA é a 16 %. Isto deu cabo de tudo o que é comércio aqui na raia”, lamenta-se o puto com ar sonolento do quiosque da estação de Vilar Formoso, antigo posto fronteiriço em decrepitude Pós-Schengen.

Ponho-me a salvo das ASAE`s e da ganância fiscal do Governo socialista. Sigo pelas planícies áridas da Castela pobre, mas rica e orgulhosa quando comparada com a Beira moribunda. La Alberca é por exemplo uma Meca das “tapas” e do bem comer, local de peregrinação domingueira de portugueses apreciadores das iguarias tradicionais da região. Segue-se Ciudad Rodrigo que se ergue pitoresca e monumental. Dentro do seu impressionante perímetro de muralhas estamos a salvo. Abanco no “El Sanatório”, bem situado no largo principal. Tal como a “Taberna do Quinzena”, a cultura dos touros é o prato forte. As paredes desta velha taberna estão revestidas com fotografias antigas das largadas de touros nas festas de “El Carnaval”, ponto alto do calendário tauromáquico da região. Um longo balcão aloja um punhado de clientes que atacam alegremente as benditas “tapas”. Junto-me a eles.

Uma “caña” acompanhada com “huevos fritos com farinato” e umas deliciosas iscas rançosas expostos numa montra que mereceria esquartejamento público do seu dono, caso a ASAE aqui tivesse jurisdição.

Mas alto lá, as leis europeias não valem aqui? Não há fiscalizações sanitárias? “Aqui no pása nada”, informa-me Jaime, o príncipe-herdeiro de uma dinastia de taberneiros espanhóis que fizeram do “El Sanatório” um ex-libris popular daquela cidade. Em Espanha a aplicação de algumas directivas comunitárias fica a cargo e critério das Comunidades Autónomas, que delegam nos Ayuntamentos, que ignoram as leis dementes da Comunidade Europeia em matéria de higiene alimentar, e as subordinam à sua orgulhosa gastronomia, estaca funda da sua identidade cultural.

O chão imundo de beatas e lixo dos “pásantes” do balcão, o ar carregado com o cheiro dos ducados e das cigarrilhas, que se mistura com o aroma do vermute e dos fritos. Um perigo para a saúde pública dos maníacos do jogging que pretendem morrer cheios de saúde.

“Me voy, no te aguento más gitano” diz o gordo esbaforido, engolindo o bourbon com três pedras de gelo a um euro e meio, visivelmente farto da mosca de bar de ar altivo, rabo de cavalo, e unhaca proeminente no mindinho. O “gitano” vira-se para a ala Leste do balcão olímpico, e em vagarosa braçadas nada até mim desfiando as suas glórias de velho toureiro. Quando subiu à arena da grande catedral da tourada, a “Maestranza” em Sevilha, com o seu radiante fato de lantejoulas, “Gastón, El Gitano”, um herói de outros tempos, afogado no esquecimento de balcão no “El Sanatório”, cravando vermutes a náufragos de bar.

“Quando é que o Peru se fodeu”, perguntava Santiago a Ambrósio na “Catedral”, a tasca por onde passa a história recente do Perú de Mário Vargas Llosa. Olho para Gastón, e pergunto-lhe quando é que Portugal se fodeu,? Ele sorri, encolhe os ombros e empina mais um vermute.

Olho ao longe para o país onde ainda se passa fomeca e onde a única segurança alimentar digna desse nome é a do Banco Alimentar Contra a Fome que assiste quase meio milhão de pessoas, que no desespero, perdem a vergonha da esmola, fora as outras …

- Está na hora! – diz a Ti Maria levantado o alguidar com as vagens. Fecho o bloco com um estalido seco.

- E agora Ti Maria… vai fechar a taberna?

- A taberna fecha quando eu fechar os olhos.

2 Respostas a “O país da ASAE visto do balcão da taberna”

  1. Julio COrreia says:

    E a ti maria ja fechou os olhos infelizmente

  2. Joaquim Costa says:

    Desde já lamento saber que a ti maria já fechou os olhos. Mais uma taberna que se foi. Mais um pedaço da nossa história que foi com ela. Tenho ideias para reavivar este tema. Não me perguntem porquê mas estou de momento a recolher informações sobre as antigas tabernas. Estou farto de tecnologia e de “plásticos” e gostava de ter um espaço “à antiga”. A ASAE vai ser um problema, tal como a crise e a sorte. É uma ideia… Termino dando os meus parabéns ao texto, ao relato, opiniões e experiência.

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