Texto de Rui Pelejão Marques / Fotografia de Adriano Baptista
Reportagem libertina, entre bordéis à beira da estrada, estudos sobre sexualidade na adolescência e segredinhos sexuais, escondidos nas alcovas do puritanismo beirão. Com Ovídio como companheiro e os ensinamentos da “Arte de Amar” no bolso, partimos à procura de sexo sem vista para o mar.
“Portugal é um país de moralistas que até chateia. Precisava era de ser pasteurizado em merda de uma ponta à outra”. José Cardoso Pires, em “A balada da praia dos cães”
Um jardim Zoológico em Amesterdão guindou-se às páginas dos “fait-divers” da imprensa internacional quando promoveu o primeiro encontro “online” entre orangotangos, instalando “webcams” para os primatas holandeses poderem conhecer potenciais parceiros sexuais na Indonésia. Está-se mesmo a ver – orangotango respeitável, com boa posição social, procura orangotanga jovem, para relacionamento honesto. Esta alcovitice da macacada é apenas um dos milhares de artigos sobre sexualidade animal que é possível bisbilhotar na internet. Mas afinal, qual é o maior predador sexual a caminhar sobre a Terra?
Pois é, o tal que inventou a roda, foi à lua, criou a pílula e o viagra, o vibrador, as algemas e a pornografia “pay-per-view”? Sobre os seus hábitos e comportamentos sexuais multiplicam-se estudos credíveis e de ciência certa, misturados com balelas humoradas, que nos garantem, por exemplo, que os filipinos são quem mais se masturba (6 vezes por semana); que as italianas são as europeias que se destacam na prática da ginasticazinha sexual, com uma média de quatro sessões por semana; ou até que o futuro da humanidade é o bissexualismo, como defende um antigo Ministro da Saúde italiano. Mas, se como escreve Manuel da Silva Ramos no seu último livro – a internet é uma foda mal dada – não há nada sobre sexo que o Google nos possa desvendar que Freud não tenha coscuvilhado já.
Especialmente se o que nos interessar for o sexo sem vista para o mar, no interior de Portugal. Por isso, toca de embalar a trouxa e zarpar para esta reportagem libertina com um companheiro de odisseia muito especial…

A ronda da noite
A lua cheia de Agosto inunda com o seu candeeiro de luz branca a Cova da Beira. Noite de lua cheia como um queijo da Soalheira, de lobisomens e de apetites sexuais. Sento-me num bar do Fundão com o meu companheiro de viagem. Pedimos dois tintos da adega cooperativa para soltar a língua. Passo às apresentações – Públio Ovídio Nasão, poeta romano que viveu no dealbar da nossa era, cronometrada pelo nascimento de Cristo. Grande lírico do amor, era o preferido da mundana sociedade do seu tempo e conquistou a imortalidade com a sua obra “A Arte de Amar”- virtuoso guia para a perda da virtude. Um livro onde enaltece e glorifica as paixões libertinas, o amor ligeiro, o desejo carnal sem culpa nem angústia, e em que descreve com precisão intemporal as artimanhas para saquear os Templos de Vénus; os locais onde encontrar mulheres e como conquistá-las; dando-lhes a elas conselhos de igual índole.
No Fundão, até Ovídio teria dificuldade em planificar a sua guerra dos sexos, que como alguém dizia, é a única que o homem não pode vencer. A julgar pelos bares locais num sábado à noite, até o Quartel de Abrantes tem mais mulheres disponíveis. O grupo de rapazes motociclistas que se agremia ao balcão a contar proezas de Valentão Rossi na estrada para o Souto da Casa, está disponível para dois dedos de conversa sobre sexo: “Não há gajas no Fundão e as que há, ou são muito novinhas ou já estão ocupadas, e por isso são muito caseirinhas. Em Agosto isto anima com as franciús, por isso costumamos andar aí a bater todas as festas”, informa o notório líder deste grémio motorizado, um calmeirão de vinte e tal anos e pinta de futebolista da Atalaia do Campo.
Ovídio pigarreia, e educa a jovem plateia: “O caçador sabe muito bem onde há-de armar as suas redes para caçar; conhece perfeitamente os vales nos quais grunhe o javali; o pescador com o seu anzol sabe perfeitamente em que águas nadam os peixes, por isso tu também deves ser o primeiro a saber onde encontrar grande quantidade de donzelas. Para achares este lugar não é mister que te faças ao mar, ou percorras um longo caminho. Se te agradam os encantos juvenis e o seu desabrochar, oferecer-se-á aos teus olhos, intacta, uma virgem. Preferes uma beleza feita? Agradar-te-ão milhares delas, na plenitude da sua beleza, de modo que, com mágoa tua, não saberás qual escolher. E se porventura te inclinas para uma idade madura e experimentada, o ramalhete será ainda mais completo.”
Já se viu que Ovídio tem um fraquinho pelas balzaquianas, mas aqui no Fundão parece de difícil aplicação prática a sua dardejante teoria
Levamos o poeta numa ronda pelos bares da cidade da cereja. Tudo às moscas e com um ar fúnebre. Poucos clientes e na maioria homens, que abatem imperiais ou Red Bull com whisky, enquanto olham com ar sonolento o resumo do dia na Sport TV.
Se o pulsar de uma cidade média se pode medir pela animação nocturna e pela sexualidade potencial que dela emerge, então somos levados a pensar que o Fundão mais parece um mosteiro beneditino ou um velório sexual.
Que cidade macambúzia esta, que apenas se excita nas segundas-feiras de mercado com o corrupio de gente das aldeias, os emigrantes e o colorido próprio de uma cidade-feira; do queijo ao regador, das sementes de abóbora ao CD pirata da Romana.
Recorremos à filosofia de balcão e ao barman para a epistemologia deste Agosto beirão: “Está muita gente de férias, e há muitas festas por aí nas terreolas, mas é verdade que o Fundão está uma cidade cada vez mais morta. Só aos sábados à noite é que anima e os bares se enchem.”
Longe vão os tempos áureos do English Bar, que em Agosto parecia uma discoteca de Ibiza à pinha de gente em noites quentes que se prolongavam até ao madrugar na Santa, o miradouro sobre a cidade onde tantos amores passageiros e duradouros despertaram com o sol fresco da manhã.
Agora, o velho e carismático English Bar mudou de nome e deu lugar a uma discoteca moderninha, ascética e igual a tantas outras. Há mais garrafas na montra que clientes na pista e nem o esforço do DJ a “puxar” com um “hip-hop” viril consegue arrancar os cotovelos do balcão aos clientes; essencialmente malta do “tuning”, de brinco gingão e boné à banda.
De copo na mão, Ovídio defende os encantos que territórios povoados oferecem para a caça do belo sexo. No seu tempo eram as corridas e o circo, agora o sucedâneo mais provável são as discotecas: “O circo fornece múltiplas oportunidades, por ser frequentado por um público numeroso. Não terás necessidade de usar a linguagem das mãos nem de fazer sinais com a cabeça para que te dêem consentimento. Nada te impede de te sentares ao lado da bela que te agrada; aproxima o mais possível o teu corpo ao dela; felizmente que o tamanho dos assentos força as pessoas, quer gostem ou não, a chegarem-se e a bela não tem outro remédio senão deixar-se tocar. Procura então entabular conversa e que sejam banais as tuas primeiras palavras.” A estratégia de engate de Ovídio soa familiar.
Uma discoteca à cunha mais parece um palco de rituais de insinuação sexual, onde a música a bombar convida à libertação dos corpos, e esse grande desinibidor sexual que é o álcool predispõe os espíritos para o amor: “O vinho prepara os corações e torna-os propícios aos ardores amorosos; as preocupações desaparecem e afogam-se. Nasce então o riso, o tímido torna-se afoito. A franqueza tão rara no nosso tempo, abre as nossas almas; depois do vinho, Vénus é fogo sobre fogo. Mas deves saber que a luz das lâmpadas causa muitas vezes equívocos: não deves confiar muito nela. A noite e o vinho são maus elementos para julgar a beleza.” Como muito bem sabe Jorge, recém-licenciado em Engenharia, que bebe um copo sozinho ao balcão: “Não há mulheres feias, só há falta de whisky. Já me aconteceu engatar uma miúda que à noite parecia a Cameron Diaz, e no outro dia encontrar-lhe semelhanças com a minha porteira”, confessa entre uma risada galhofeira “não tenho lá muito jeito para meter conversa em discotecas. Além disso, as miúdas daqui não dão grande bola e por isso acabo por beber demais para ganhar coragem, e a única coisa que acabo por levar para casa é uma grande bebedeira.”
Mas será que as miúdas daqui são assim tão inacessíveis? Para defesa da honra e para que não digam que esta é uma reportagem totalmente machista e misógina (só é um bocadinho), vamos visitar as depauperadas fileiras do inimigo mais querido.
É verdade que não ligam nenhuma aos rapazes cá da terra? Fala a defesa, a cargo de Joana, Luísa e Alice, três universitárias de férias no Fundão, que aterram no English Bar, conquistando de imediato a atenção carnívora das aves de rapina que afiam os bicos nos copos de Red Bull: “Isso não é verdade. Só não ligamos a quem não nos interessa. É essa a diferença. Para os rapazes tudo o que mexe, marcha. Nós somos mais selectivas.” Explica Joana, a mais desinibida do triunvirato.
Como dizia com graça, o actor americano Billy Cristal – “As mulheres precisam de uma razão para fazer amor, os homens só precisam de um sítio”. O aforismo merece a concordância da Alice, a intelectual do grupo: “Acho que nós mulheres precisamos de um mínimo de ligação afectiva, os homens são mais dados à contabilidade, só lhes apetece é somar. É óbvio que isto é uma generalização. Também há mulheres que gostam do sexo pelo sexo e homens que são mais sentimentais. O problema do Fundão é que é uma cidade pequena, onde toda a gente se conhece. Isso acaba por ser um inibidor sexual, já que se vamos para a cama com alguém, no outro dia toda a gente sabe, e isso pode ser muito desagradável numa terra pequena. Quando vamos estudar para fora acabamos por viver a nossa sexualidade de uma forma mais descomprometida, isso é bom.”
A invulgar franqueza de Alice destapa um pouco do véu sobre a sexualidade oculta no interior, a tal que se esconde sob uma capa de puritanismo assexuado numa região onde é raro ver um casal de mão dada ou trocando beijos em público.
O sexo é aqui assunto privado e até tabu, conforme descobriu Patrícia Alçada Rosa, investigadora da Universidade da Beira Interior que realizou um estudo sobre as vivências sexuais dos jovens da Beira Interior, abarcando um universo de 200 adolescentes entre os 16 e os 20 anos, distribuídos por Castelo Branco, Covilhã e Guarda.

Para confirmar o amor
Apesar do sexo nos entrar todos os dias pela janelinha indiscreta da televisão, com imagens publicitárias e ficções que exploram o fruto proibido até à última dentada, a vivência sexual continua a ser objecto de cochicho e vergonha. Os assuntos de cama são para morrer nela. E quando se tenta espreitar a bem do conhecimento e da ciência, o mais provável é taparem a fechadura. “Foi muito difícil fazer este estudo por causa das barreiras que se ergueram, sobretudo barreiras institucionais nas escolas, porque o objecto deste estudo foi a população escolar. Ao contrário disto, a adesão dos miúdos foi extraordinária, fizemos os inquéritos por SMS que trocavam entre eles”.
Apesar das cintas de castidade da burocracia puritana vigente, Patrícia Alçada chegou a conclusões interessantes. Assim, 72 por cento dos inquiridos já iniciou a sua vida sexual. Sendo que a idade média com que trincaram a mação do pecado pela primeira vez foi aos 15 anos. De acordo com o estudo, as raparigas começam a sua vida sexual mais tarde do que os rapazes. Para a noite de estreia, a esmagadora maioria dos inquiridos (64 %) preferiu o namorado/a, o que segundo Patrícia Alçada induz “uma tendência para um parceiro com quem se está emocionalmente ligado”, o que se confirma também pelo facto de 74 % dos inquiridos indicar o namorado/a como parceiro mais frequente, e apenas 2 %, um desconhecido. Aliás, existe uma forte componente romântica e emocional associada a algumas respostas. Assim a razão principal para ter sexo evocada pelos inquiridos foi “para confirmar o amor” (53%), enquanto apenas 14 % admitiram que queriam apenas obter “satisfação física” e 5% “divertimento”.
A propensão para a monogamia acentua-se quando 59 % dos adolescentes afirma ter até agora tido apenas um parceiro e 73 % dos inquiridos esperam só vir a ter um parceiro sexual no futuro. Ovídio até se arrepia com a ideia. Curiosamente, os padrões de comportamento sexual revelados por este estudo são compatíveis com os de um inquérito informal e sem objectivos científicos, realizado no Fundão a uma faixa etária superior (entre os 18 e os 30 anos), em que a sexualidade aparece também associada a ligações afectivas e a hábitos monogâmicos. Neste caso, 68 por cento dos inquiridos tem uma relação estável e pratica sexo com o namorado/a, enquanto 28 % já teve relações de uma noite só (sobretudo os homens).
Tranquilizem-se os ciumentos, porque apenas 18 % das mulheres confessou ter sido infiel ao seu namorado. Menos tranquilas devem ficar as mulheres, já que no caso dos homens a infidelidade admitida sobe até aos 39 %.
Para fechar este departamento estatístico, é curioso referir que 96 por cento dos inquiridos no estudo de Patrícia Alçada afirmaram nunca ter tido contacto sexual com o mesmo sexo, o que remete a homossexualidade para um fenómeno relativamente marginal (mas não inexistente) nos jovens da Beira Interior. Outro assunto tabu, o da masturbação, merece análise no estudo conduzido pela investigadora social, onde apenas 42 % dos inquiridos admitem fazê-lo habitualmente, sendo que apenas 7 % deles são mulheres.
Outra diferença de género é o facto da masturbação ser essencialmente induzida pela pornografia para 53 % das respostas positivas, com larga maioria desse método a ser reconhecido pelos homens.
Então a pornografia é coisa de homens? Para Rita Barata Silvério, dona e senhora do blogue www.rititi.com, voz descomplexada e cintilante da sexualidade feminina na blogosfera portuguesa: “A pornografia é coisa machista, existe apenas para excitar os homens. Não sou contra a pornografia, sou contra a pornografia machista, que é quase toda. Já repararam que não há filmes sexuais orientados para as fantasias e desejos das mulheres. O homenzarrão peludo entesoado aparece sempre em plano de domínio e os ângulos de câmara e a realização é toda feita sob o ponto de vista do macho.”
Procuro revistas pornográficas para ver como anda a indústria da pornochachada e nos quiosques da avenida do Fundão não consegui nem uma para mostrar a Ovídio. Então que é feito das velhas “Ginas” da nossa adolescência, das mais refinadas “Penthouse” ou até dos relatos escabrosos do “Jornal da Sexologia”. Nem sinal delas, esfumaram-se misteriosamente das bancas. No clube de vídeo, apenas alguns filmes mais hard-core, mas com pouca saída, explica o empregado: “Há poucos clientes para a pornografia, ou é por vergonha ou então hoje em dia com a TV por cabo, e o canal Playboy, as coelhinhas chegam lá a casa directamente.”
Então onde se esconde a pornografia caseira? No telecomando da TV ou na internet, essa mega-montra para o voyeurismo libidinoso.
A internet é definitivamente um grande bordel de fodas mal dadas. Será? D. Quixote e Dulcineia (nicknames) conheceram-se num chat da internet, ele é do Porto e ela da Covilhã, ambos andam perto dos trinta anos e vivem com os respectivos namorados relações estáveis. Encontraram-se pela primeira vez no festival Imago há dois anos, e a partir daí começaram a ter encontros sexuais furtivos, alimentando essa relação proibida num blogue secreto: “É lá que escrevemos as nossas fantasias, os nossos desejos mais íntimos, e vamos aumentando a tensão para estar juntos. Mais do que sexo puro e duro, trata-se de fugir à rotina das nossas relações e poder ter uma sexualidade proibida, que é muito excitante. Encontrámo-nos poucas vezes durante o ano, mas criamos sempre uma história fétiche. Uma vez combinámos encontrarmo-nos no comboio, como se fossemos desconhecidos e fomos comer-nos para a casa de banho. Foi espectacular”, explica quixotescamente, o galã cibernético.
Afinal o luar de Agosto da Beira também esconde paixões devassas e proibidas, tão do agrado de Ovídio: “Não penseis que, armado em censor severo, vos condeno a ter só uma amiga. Tal coisa não agrada aos deuses. É difícil, mesmo a uma mulher casada, manter esta conduta. Diverti-vos, mas sede prudentes; que o vosso erro se mantenha escondido e clandestino. O amor proibido agrada igualmente ao homem e à mulher. Apenas acontece que o homem não sabe dissimular e a mulher esconde muito melhor os seus desejos.”

Retratos do país-bordel
A luz vermelha na longa recta de uma estrada próxima do Fundão, chama imediatamente à atenção. Não são os foguetes proibidos da festa do Anjo da Guarda, mas apenas um velho bordel de estrada. Outrora uma churrasqueira que se passou a dedicar a outro tipo de comércio de carne. À porta, uma motocultivadora, duas carrinhas agrícolas a cair da tripeça e uma motorizada, deixam adivinhar o tipo de clientela. Avançamos decididos para o balcão-altar com um poster do Sporting campeão (uma raridade), uma imagem da Nossa Senhora e as garrafas em parada militar à espera de ser dissipadas. Como é época alta, este bordel tem agora seis meninas: três brasileiras, duas romenas e uma ucraniana. “Normalmente só cá temos três ou quatro. Chega e sobra”, resmunga-nos o barman com fronha de poucos amigos, enquanto nos serve um Licor Beirão.
As prostitutas estão sentadas nas mesas com três ou quatro clientes. Os restantes ganham coragem e embalo no balcão. Mesmo a pagantes é preciso coragem. Todos parecem sonâmbulos de olhar perdido. As putas de serviço são entradotas, gorduchas e ficam a dever uns centavos a uma beleza, que porventura se dissipou com o uso. Percebe-se que é um bordel pobre, à medida da carteira de clientes pobres.
Uma das prostitutas, a mais nova, levanta-se com dificuldade sobre os saltos e aborda-nos com um português tão desengonçado como o andar: “Olá, chamo-me Alessandra e tu?” Convida-nos para nos sentarmos. Aceitamos pagar-lhe um flute xaroposo de whisky cola a vinte euros, porque sabemos que “amor de mulher da vida e convite de taberneiro, só por dinheiro.”
A história é um disco tantas vezes riscado neste país-bordel, onde o amor se encontra exposto para consumo na casa. Um país de públicas virtudes e vícios privados, varrido a campos de golfe, casas de passe e bares de alterne: “Sou da Roménia, tenho vinte e seis anos. Trabalhava numa fábrica de cablagens”, lá vai ela apalpando o português fanhoso e a perna de Ovídio, “vim para Portugal há três meses com uma amiga. Comecei a trabalhar numa casa em Vila Velha de Ródão, depois estive em Castelo Branco e agora o patrão mandou-me para aqui.” Faz uma careta de repúdio. Não gosta deste fim do mundo: “Vim de Bucareste para fugir à miséria, e aqui há uma miséria ainda maior. Não me importo com o que faço, mas os clientes daqui são muito miseráveis, não cheiram bem como tu!” e aponta para Ovídio “queres vir?”. São 60 euros por uma hora e tal. Declinamos o convite que se estendia para o corredor dos fundos, onde recebem os clientes em quartinhos abafados, com uma cama, uma pechiché e uma mesinha de cabeceira. Alessandra mostra um sorriso desdentado, mas franco: “Tá bem. Olha, há uma coisa que gosto em Portugal. Sabes o que é? A comida”. E deixa-nos, para dar atenção ao cliente da mesa ao lado, que cambaleia a cabeça sobre a enésima garrafa de Super Bock. Reconheço-o. É M., meu amigo de infância. Costumávamos brincar juntos no campo a guardar as cabras e as ovelhas do rebanho do pai dele. Agora está gasto pelo álcool e pelo azedo da vida. Os olhos varejados de sangue já não têm o lampejo do rapaz irrequieto que eu conheci. Só saiu daqui para cumprir o serviço militar, onde agarrou o vício do Ventil e das Minis. De regresso à terra, trabalhou no campo, guardou rebanhos e deu ao litro nas obras. Todo o tusto que amealhou foi estoirado nos copos. Por aqui, mulheres em idade casadoira é mentira e a caminho dos 40, M. perdeu a esperança no amor. Agora afoga-se nos whiskys caros e no amor pago a 50 euros à beira da estrada.
Trágico foi também o destino de um velhote da aldeia, que animado pelo vigor inesperado do Viagra e pela miragem da luz vermelha, uma noite, já bêbado que nem um cacho depois de uma sessão com uma brasileira, tomou a pé o caminho errado e entrou pela A23, onde morreu atropelado à entrada do túnel da Gardunha. É M. quem me conta esta história, sentenciando: “Um dia sou eu.”
Homem pobre, homem rico. Bordel pobre, bordel rico.
Prosseguimos para um bar de alterne, a caminho da Covilhã. Uma vivenda vistosa e recatada, com Mercedes e outras bólides de matrícula francesa estacionadas à porta. Dez euros de consumo mínimo. Entramos e na pista, dança-se ao som de “As meninas da Ribeira do Sado é que é/ lavram a terra com as unhas dos pés”. Não me parece a mais adequada canção para a sensualidade do roça-roça, mas os clientes parecem gostar. São também poucos, mais novos e mais bem vestidos do que no bordel de estrada. As meninas também têm um ar mais cuidado e insinuante.
Num bar de alterne o negócio é pagar copos em troca de atenção e alguns apalpões. Lu, uma mineirinha rechonchuda e bonita, senta-se à nossa mesa e pede o inevitável xarope de whisky com água suja do capitalismo, agora a 25 euros. Percebe-se que tem outro traquejo. Veio do Brasil há já um ano e define-se como “garota de programa” e não como “quenga”: “Vivo com uma amiga na Covilhã, e recebemos senhores em casa, mas apenas clientela seleccionada. A maior parte deles são de outras cidades, ou empresários em viagem, já que é raro alguém da Covilhã bancar um programa. Sabe como é, para mijar fora do penico, convém ser longe de casa.” Lu explica que “nesta discoteca não se pode subir com o cliente, estamos aqui apenas para conversar, dar algum carinho e recebemos percentagem nas bebidas. Se a menina quiser, pode encontrar com o cliente, mas lá fora.” Uma noite com Lu pode custar até 200 euros, “tudo depende, do que o cliente quer. Tenho um um senhor de posição da Guarda que me visita apenas para me ver tocar e dar palmadinha na minha bundinha. Não pede mais nada.”
Nos sofás repolhudos na zona mais escura do bar um cliente ressona copiosamente, estendido com as peúgas brancas a assomarem no escuro: Ovídio boceja. A noite já vai longa e o licor beirão pesa-lhe na pestana. Desanimado, encolho os ombros. Fiquei a saber tanto sobre sexo no interior como sobre a vida sexual das tartarugas do Índico. Sei apenas que cada um deve descobrir o seu caminho para a felicidade sexual, iluminado pela lunar luz de Agosto, porque vida só há uma e tem essa estranha mania de se gastar depressa. Ovídio anima-me: “Mas eis que o leito cúmplice recebeu dois amantes. Detém-te, Musa, à porta fechada deste quarto. Sem a tua ajuda, completamente sós, as palavras, acorrerão em tropel, e na cama, a mão esquerda não ficará inactiva. Os dedos acharão com que ocupar-se nas partes onde, misteriosamente o Amor deixa cair os seus dardos.” Este Ovídio é que a sabe toda.














